5 CONSTRUINDO A TEORIA DO SUBIMPERIALISMO
5.1.8 Subimperialismo e semiperiferia
Um dos mais destacados representantes da economia política do sistema-mundo, Giovanni Arrighi, em uma revisão da literatura sobre o grupo intermediário de Estados na hierarquia
internacional do poder político e econômico, teceu comentários sobre “qualificações e elaborações da teoria da dependência, [entre] algumas delas [as que] começaram a conceituar posições intermediárias entre centro e periferia, ao definir países “subimperiais”
(Marini, 1969)175 [...]” (ARRIGHI, 1998, p.139). De acordo com Arrighi,
Essas importantes qualificações e elaborações da teoria da dependência contêm dois defeitos principais. Em primeiro lugar, estão focalizadas de modo estreito demais num caso especial, aquele do Estado "dependente" ou
"subordinado", de que alguns países latino-americanos são o exemplo perfeito.
Esse foco deixa de considerar alguns dos mais significativos exemplos de status socioeconômico intermediário - principalmente a URSS que, longe de ser dependente ou subordinada, é uma das superpotências mundiais. E, inversamente, pode levar a incluir, entre os Estados intermediários, países (como o Canadá) que atingiriam, em todos os aspectos, status de núcleo orgânico, mas apresentam características de "dependência estrutural".
(...)
Em segundo lugar, as teorias em questão, ainda que baseadas numa perspectiva de sistemas mundiais, focalizam Estados individualmente, à medida que eles passam a ocupar posições intermediárias ou a experimentar
"desenvolvimento dependente". Isso deixa a análise aberta a diversos tipos de
"falácias de composição", no sentido de que o que se julga verdadeiro, no caso de Estados individualmente, pode não ser verdadeiro para grupos de Estados (Id., ibid., loc. cit).
Que Arrighi pretendesse, através da opção pelo conceito de semiperiferia, isolar uma amostragem o mais ampla possível de países, para realizar sua macrossociologia histórica do sistema-mundo, é um dado compreensível, se pensarmos a partir da ótica metodológica do autor. O que não é aceitável é descartar o enfoque da teoria da dependência, incluindo o conceito de subimperialismo, sob a afirmação de que tem por foco limitadamente um "caso especial" dos países dependentes e subordinados da América Latina.
Ora, não pensou Arrighi que o subimperialismo, como colocou Frank, afigura-se como um fenômeno particular, integrante do estrato da semiperiferia, que pode potencialmente ocorrer para além do continente latino-americano, sendo uma possibilidade em outros países periféricos, incluindo a África, o Oriente Médio e o Sudeste Asiático?
Apesar da passagem de Arrighi, citada acima, encerrar alguma ambiguidade estaria rejeitando in totum a categoria do subimperialismo para outros contextos da semiperiferia ou apenas fazendo a defesa de sua macrossociologia histórica do "andar semiperiférico" da
175 Arrighi cita nesta passagem a primeira edição de SyR.
hierarquia do sistema mundial? , uma possibilidade é que ele tenha julgado por "falácia de composição" uma das definições para o subimperialismo encontradas em SyR, obra que ele cita no trecho de sua crítica ao enfoque da teoria da dependência.
Como vimos, em SyR, Marini define o subimperialismo como "a forma que o capitalismo dependente assume ao chegar à etapa dos monopólios e do capital financeiro". Essa mesma passagem, que mereceu a ponderação de Coles e Cohen comentada mais acima e que é coerente com as considerações feitas por Marini no Prefácio à quinta edição de SyR sobre o emprego de sua categoria a outras realidades pode ter sido interpretada por Arrighi como uma generalização prematura da experiência brasileira do subimperialismo estudada por Marini, levando a uma "falácia de composição". Esta é uma conjectura possível, mas que não temos como comprovar.
Em todo caso, o que interessa colocar sobre Arrighi é que seu programa de pesquisa sobre a semiperiferia mais que relegou a teoria da dependência e o conceito de subimperialismo a segundo plano, sugerindo serem ângulos de análise limitados, pelo fato de, segundo ele, os teóricos latino-americanos desenvolverem sua análise ao nível de abstração do Estado dependente individualmente considerado ao passo que a semiperiferia se presta a uma escala macroestrutural - aquela da macrossociologia histórica ou economia política do sistema-mundo.
Cabem dois comentários a respeito dessa avaliação. Em primeiro lugar, o ponto de vista que se aproxima do que Arrighi entende como análise de casos do Estado dependente está em Cardoso e Faletto, com sua definição da perspectiva dependentista como a "análise de situações de dependência". Entretanto, essa não é a demarche compartilhada pelos autores da TMD, que sustentam existirem peculiaridades às leis de funcionamento do sistema capitalista que são comuns a todo o conjunto dos países latino-americanos.176 Por outro lado, Arrighi tem razão em expressar que o arcabouço do enfoque da semiperiferia e o do subimperialismo apresentam métodos díspares. Um trabalha de maneira eclética o comportamento de um estrato da divisão internacional do trabalho e sua correspondente hierarquia na distribuição do poder político mundial; enquanto o outro referencia-se nas categorias marxianas para pensar a realidade do capitalismo dependente latino-americano,
176 A este respeito, Cf. Marini (1973), Santos, Bambirra, Frank (1967), para citar os trabalhos que compõem o núcleo inicial da TMD.
extraindo, contudo, conclusões teóricas que lançam importantes contribuições para o restante do conjunto dos países submetidos ao imperialismo177.
Essa distinção parece ser ignorada pelos autores que, no momento atual, vêm defendendo a equivalência entre os conceitos de semiperiferia e de subimperialismo. Em uma coletânea com ensaios dedicados a Marini, publicada recentemente, Theotonio dos Santos esceveu:
Em 1967, o conceito de sub-imperialismo, aliado à concepção da nova divisão internacional do trabalho em formação, já apontava para o surgimento dos Novos Países Industriais (os NICs), entre os quais vieram a destacar-se, posteriormente, os tigres asiáticos. Há pouco, James O'Connor me escrevia, em uma carta, com certo humor, que o conceito de semiperiferia de Wallerstein correspondia de fato àquilo "que nós chamávamos de subimperialismo". Essa é uma das marcas de Ruy Mauro Marini no pensamento social contemporâneo (SANTOS, 2009, p.22).
Conforme a citação, Theotonio sugere concordar com a observação de O'Connor. Um dado que aponta nessa direção é o exemplo utilizado dos tigres asiáticos. Não há dúvida de que eles constituem um núcleo importante dos chamados NICs. Entretanto, usá-los como ilustração quando se está enunciando a proposição do conceito de subimperialismo por Marini para quem o fenômeno em questão era, sim, oriundo do grupo dos NICs, mas suscetível de ocorrer apenas em alguns deles é no mínimo cogitar que o subimperialismo possa se manifestar hoje em algum dos tigres asiáticos.
Em seu artigo que integra a mesma coletânea de ensaios em homenagem a Marini, Francisco López Segrera afirma a mesma ideia que Thetonio sobre o subimperialismo:
"esse conceito acaba sendo equivalente ao de semiperiferia de Wallerstein, pois se refere ao papel desempenhado por países como o Brasil e os tigres asiáticos na nova divisão internacional do trabalho" (LÓPEZ SEGRERA, 2009, p.336).
Essa formulação entra em choque não somente com o que Marini escrevera acerca do tipo de economia dos tigres asiáticos, quando as diferenciou do subimperialismo no artigo La acumulación capitalista mundial y el subimperialismo, como com o que o próprio Theotonio afirmara ao debater o conceito de Marini em Imperialismo e Dependência.
177 Exemplo destas contribuições são os conceitos de superexploração do trabalho, padrão de reprodução do capital e subimperialismo.
Com efeito, a aproximação que Theotonio faz hoje entre as categorias semiperiferia e subimperialismo parece ir bem além do que Frank colocou a respeito das mesmas, na discussão que expusemos anteriormente, contida no artigo Unequal accumulation ... Esse ponto de vista deve ser compreendido no seio da proposição que ele (Theotonio) vem fazendo em trabalhos recentes sobre a fusão entre a teoria marxista da dependência e a Análise do Sistema-Mundo178.