3 ANÁLISE DO DISCURSO: CONCEITOS E FERRAMENTAS
3.2 Subjetividade e heterogeneidade discursivas
O conceito de subjetividade é de grande relevância para os estudos do discurso. Para explicá-lo, Brandão (1998) retoma alguns pensamentos de Michel Foucault (2008). Tal conceito teria surgido, nessa acepção, a partir do momento em que o homem reconheceu que
possui características que o diferem dos outros seres da natureza, em particular, a sua capacidade de transformar a natureza pelo trabalho e a capacidade de se comunicar simbolicamente, a partir do uso da linguagem.
Logo, Brandão (1998) explica que a subjetividade se constitui na linguagem, contudo, manifesta-se de formas diferentes conforme as diversas práticas discursivas possíveis. Não se entende, nessa perspectiva, um sujeito monológico, mas dividido, clivado, heterogêneo ou, segundo o próprio Foucault (2008), disperso, em virtude dessa diversidade de papéis e estatutos que pode assumir nas instâncias discursivas.
Outro autor que se dedicou ao tema foi Benveniste (1989), a partir de seus estudos sobre o aparelho formal da enunciação. Segundo essa abordagem, a enunciação é uma forma de apropriação da língua e, especialmente, é dessa maneira que a língua adquire uma feição concreta. É através da manifestação do ―eu‖ que o sujeito incorpora-se no discurso e se relaciona com o mundo.
Para Benveniste (1989), a instituição do sujeito (eu) implica a existência do outro (tu), pois, ao apropriar-se da língua, o sujeito posiciona-se em relação a um outro. O eu e o tu não somente protagonizam a enunciação, mas apresentam marcas de pessoalidade, ou melhor, de
subjetividade. Além das pessoas (eu/subjetiva; tu/não subjetiva), há também a figura do ele,
tratado como uma não-pessoa, por não se referir a um elemento específico e encontrar-se fora dessa relação de subjetividade entre os elementos pessoais.
Brandão (1993) discorda da posição de Benveniste em tratar o ego como o centro da enunciação – a manifestação do eu é condição essencial para a subjetividade. Para a autora, o sujeito é histórico, pois se manifesta em um espaço e tempo determinados, mas também ideológico, pois suas manifestações são recortes temporais de um determinado espaço social.
O sujeito, nessa acepção, situa seu discurso em relação ao outro – não apenas um interlocutor, mas também a outros discursos já constituídos e impregnados em sua fala. Logo, está pressuposta a ideia de que, no discurso do sujeito, outras vozes se manifestam (polifonia). Conclui-se, então, que a noção de subjetividade, diferentemente do que cogitou Benveniste (um sujeito único, homogêneo e onipontente), inclui a partilha do espaço discursivo com outros ―eus‖ (outras vozes).
Brandão (1993), em consonância com o pensamento de Bakhtin, entende que a língua se desenvolve por meio da interação verbal, ou seja, de enunciações e enunciados – em contraste com a concepção saussureana de língua como sistema abstrato e descolado do contexto sociocultural. Com base nisso, também diz que o homem é inconcebível fora do
meio social, sem o contato com o outro, pois é por meio deste que ele forma sua primeira imagem, constitui uma referência, situa-se perante o mundo e a si próprio.
Segundo a visão bakhtiniana, a língua se articula com a história e com as práticas sociais de quem a fala, mesmo contraditórias ou diversas. Por isso, segundo essa orientação, todo discurso tem dupla orientação: os outros discursos, a partir dos quais se constitui e com os quais se relaciona (fios dialógicos); o interlocutor – que irá não apenas recebê-lo, mas transformá-lo, a partir do diálogo entre os discursos de locutor e alocutário (contradiscurso).
Esse seria, então, um dos princípios basilares da teoria de Bakhtin, para a qual os fenômenos da linguagem se constituem em uma relação dialógica entre seus elementos. Dessa maneira, nenhum discurso é totalmente original, mas traz consigo elementos, ainda que não perceptíveis, de outros discursos já existentes, com os quais dialoga e os modifica, gerando novos discursos.
Como bem diz Authier-Revuz (1990, p. 27),
O que Bakhtin designa como saturação da linguagem constitui uma teoria da produção de sentidos do discurso: coloca os outros discursos não como ambiente que permite extrair halos conotativos a partir de um nó de sentido, mas como um 'centro' exterior constitutivo, aquele do já dito, com o que se tece, inevitavelmente, a mesma trama do discurso‖ (grifos do autor).
Com base nas teorias de Bakhtin, Authier-Revuz (1990) define a subjetividade. O sujeito, nessa acepção, faz parte de um todo social no qual se interage com outros discursos e, a partir deles, constitui sua própria fala. Entretanto, esse sujeito encontra-se dividido entre o consciente e o inconsciente. Logo, não se trata de uma instância centralizada, mas
heterogênea. Os indícios dessa heterogeneidade evidenciam-se como ―formas de ruptura, de fraturas que intervém no fio do discurso, colocando em confronto a identidade/alteridade do sujeito‖ (BRANDÃO, 1998, p. 43).
Sempre sob as palavras, outras palavras são ditas: é a estrutura material da língua que permite que, na linearidade de uma cadeia, se faça escutar a polifonia não intencional de todo discurso, através da qual a análise pode tentar recuperar os indícios da 'pontuação do consciente' (AUTHIER- REVUZ, 1990, p. 28).
Além disso,
Em ruptura com o EU, fundamento da subjetividade clássica concebida como o interior diante da exterioridade do mundo, o fundamento do sujeito é aqui deslocado, desalojado 'em um lugar múltiplo, fundamentalmente heterônimo, em que a exterioridade está no interior do sujeito'. Nesta
afirmação de que, constitutivamente, no sujeito e no seu discurso está o Outro, reencontram-se as concepções do discurso, da Ideologia, e do inconsciente, que as teorias da enunciação não podem, sem riscos para a linguística, esquecer (AUTHIER-REVUZ, 1990, p. 28-29, grifos do autor).
Diante dessas balizas, remeteremos nossas discussões para como essa heterogeneidade se manifesta nos discursos. Em consonância a elas, Maingueneau (1997) define esse conceito como sendo a relação das formações discursivas com os elementos que lhe são, a princípio, exteriores. Segundo o autor francês, a heterogeneidade discursiva pode ocorrer de duas maneiras: uma delas, a heterogeneidade mostrada, é recuperável, sensível, identificável de alguma forma dentro da instância discursiva. A outra, denominada heterogeneidade
constitutiva, não se nota na superfície, mas guarda relação com um interdiscurso (ou ordem do discurso, na abordagem de Fairclough – termo que usaremos daqui por diante para tratar desse fenômeno), com o qual se constitui e se integra a uma cadeia discursiva.
Sobre interdiscurso, Maingueneau (1997, p. 113) define-o da seguinte forma:
O interdiscurso consiste em um processo de reconfiguração incessante no qual uma formação discursiva é levada (…) a incorporar elementos pré- construídos, produzidos fora dela, com eles provocando sua redefinição e posicionamento, suscitando, igualmente, o chamamento de seus próprios elementos para organizar sua repetição, mas também provocando, eventualmente, o apagamento, o esquecimento ou mesmo a denegação de determinados elementos.
Ao revisitar a abordagem foucaultiana e os postulados da análise discursiva francesa, de Michel Pêcheux, Maingueneau cunha uma definição própria das relações interdiscursivas, a qual coaduna com a visão dialógica da linguagem proposta por Bakhtin. Maingueneau considera fundamental que o analista não se limite a estudar os discursos isoladamente, mas suas relações, as tessituras construídas por estes e pelas quais se formam também as identidades desses discursos. Isso porque todo ato discursivo pressupõe a existência do outro. É a partir dessa relação dialógica que novos discursos são gerados, carregando sempre reminiscências daqueles que lhes deram origem.
Mesmo na ausência de qualquer marca de heterogeneidade mostrada, toda unidade de sentido, qualquer que seja seu tipo, pode estar inscrita em uma relação essencial com uma outra, aquela do ou dos discursos em relação aos quais o discurso de que ela deriva define sua identidade. Efetivamente, a partir do momento em que as articulações fundamentais são instituídas nesta relação interdiscursiva, toda unidade que se desenvolverá de acordo com elas se encontrará ipso facto na mesma situação. Um enunciado de formação discursiva pode, pois, ser lido em seu ―direito‖ e em seu ―avesso‖: em uma
face, significa que pertence a seu próprio discurso, na outra, marca a distância constitutiva que o separa de um ou vários discursos (MAINGUENEAU, 1997, p. 120).
Para nossos estudos, os quais envolverão as marcas de subjetividade e as vozes presentes nos discursos estudados, julgamos necessário o aporte dos conceitos bakhtinianos de dialogismo e polifonia. Percebe-se, comumente, uma confusão entre ambos os termos, advinda principalmente por entendimentos equivocados do complexo pensamento de Bakhtin. Logo, convém esclarecer essa confusão.
O princípio dialógico da linguagem, como já vimos, considera que os atos de linguagem são elementos sócio-históricos únicos, decorrentes da interação entre os indivíduos, levando-se em conta suas peculiaridades individuais e os elementos contextuais em que se dão esses fenômenos linguísticos. As construções discursivas decorrentes desses processos de interação, em vez de entes isolados, se entremeiam, de modo que atuem como elementos constituidores e constitutivos entre si. Assim, todo discurso pressupõe a existência de outro discurso, no qual se apoia e serve de base para a constituição de outros (BARROS, 1999; RECHDAN, 2003).
Já a noção de polifonia segue os mesmos rumos, mas com algumas distinções. Como já dissemos, todo discurso carrega marcas, sensíveis ou não, de outros existentes. Tais discursos são representados por várias vozes, encarregadas por enunciá-los e, a partir dessa relação, tecer a estrutura discursiva, produzindo sentidos. A relação entre essas vozes pode ser harmonizada a partir de uma voz principal, dominante, a qual conduz a formação discursiva (texto monofônico) ou tais vozes dialogam entre si, ainda que sejam dissonantes, ou mesmo opostas. Na visão de Bakhtin, a polifonia de fato somente se manifesta nessa condição de polêmica entre as várias vozes de um discurso (BARROS, 1999; RECHDAN, 2003).
Maingueneau (2004) apresenta posicionamento semelhante ao descrever esse fenômeno. Nessa acepção, a polifonia ocorre quando diversas ―vozes‖ podem ser percebidas simultaneamente e identificadas em um enunciado. O autor trabalha esse conceito ao notar uma ambivalência do fenômeno enunciativo, na qual o ―eu‖ enunciador, em um discurso relatado, pode atuar ou não como o responsável pelo ato da fala ou servir como ponto de referência nessa situação enunciativa, assim como não assumir a responsabilidade por nenhuma dessas funções – apesar de enunciá-la.
Esse é um aspecto importante (e bastante complexo) na teoria bakhtiniana, que repercute fundamentalmente na abordagem discursiva tratada aqui. Essa relação entre as diversas vozes presentes na tessitura discursiva remete à abordagem de Foucault (2008) da
linguagem como o cenário de uma luta hegemônica, em que tais vozes se interagem e se articulam de modo que algumas delas se destaquem em relação às demais, ―subjugando-as‖, de acordo com os propósitos dos interlocutores (RAMALHO; RESENDE, 2006).
Maingueneau (1997) também designa esse relacionamento entre formações discursivas como um processo de intercompreensão ou, como o faz mais constantemente, de tradução delas. Isso ocorre porque, diante desse movimento dialógico entre discursos, um procura interpretar e reconstruir o outro mediante suas próprias regras, suas lógicas particulares.
Por isso, essa relação discursiva não deixa de ser, sobretudo, polêmica, já que esse processo envolve a transformação e, inclusive, a negação de determinadas estruturas, pois cada formação discursiva procura se colocar em evidência perante a outra, como forma de definir sua identidade. É desse diálogo polêmico e nesse espaço em que tal ―embate‖ ocorre que as formações discursivas se transformam e geram outros discursos, já que ―não existe relação com o Outro que seja independente de sua própria organização semântica‖ (MAINGUENEAU, 1997, p. 122).