A subjetividade enquanto um conceito não é tão simples de ser explicada, mas, para fins deste estudo, considerar-se-á segundo Silva (2007, p. 75) que este termo “se refere ao processo pelo qual algo se torna constitutivo e pertencente ao indivíduo; ocorrendo de tal forma que esse pertencimento se torna único, singular".
Para Lins (1997), a subjetividade representa o perfil de um modo de ser - de pensar, de agir, de sonhar, de sentir, de amar, de perceber - que delimita o interior e o exterior do ser humano. Assim, a subjetividade se constitui por meio do processo em que o sujeito internaliza, subjetiva, as relações sociais que são externas a ele, num movimento dialético entre o interno e o externo.
Os sujeitos, homens e mulheres, precisam ser vistos segundo as singularidades do seu processo de subjetivação, que se caracterizam como diferentes porque as incidências sociais sobre um e outro diferem em função do gênero.
Na literatura freudiana há referência à importância do período edípico e dos processos de identificação decorrentes dele no processo de constituição da subjetividade masculina, momento no qual o menino se vê fálico. Para Freud (1905) a masculinidade estaria atrelada ao abandono da mãe que representa o objeto incestuoso, a castração, e à identificação com modelos masculinos. Esses e outros modelos introjetados ao longo da vida serviriam como espelho para a construção do sentimento de masculinidade, que teria uma melhor organização na puberdade com o final do período de latência da sexualidade.
Num contexto mais contemporâneo, Braz (2020) concebe que estudos de gênero indicam ser “mais difícil construir um homem do que uma mulher pelas vicissitudes por que passa o gênero masculino para a construção de sua identidade e subjetividade, desde a concepção até a vida adulta viril”. Segundo a autora, vários outros estudiosos indicam que há mais abortos naturais de meninos, eles morrem mais no primeiro ano de vida e a mortalidade é sempre maior entre pessoas do sexo masculino.
A subjetividade feminina, por sua vez, tem em seu processo de construção, na percepção de Freud (1905) outro sentimento envolvido no Complexo de Édipo, pois quando esta se percebe castrada, flui a sensação de inferioridade e incompletude. No próprio espaço de convivência humana, essa construção processual da feminilidade, somada à questões da cultura, da política, da estrutura social e da economia,
promoveu uma subjetividade feminina baseada na ideologia da servidão e da submissão.
Entretanto, para Amazonas, Lima e Dias (2006), com a abertura para o mercado de trabalho e as lutas sociais em prol da emancipação da mulher houve uma ressignificação de seu papel na sociedade. De um contexto passivo, passa a outro em que atua de forma ativa em todas as áreas do mercado, mas, ao que se observa, somou essa nova função mantendo as que já detinha como suas. Carmo, Ischiara e Carneiro (2020), consideram que “a maior característica da contemporaneidade é a pluralidade. A mulher teve a necessidade de se emancipar, no entanto, trouxe no seu inconsciente o papel da mãe e da dona de casa”.
A subjetividade masculina e a subjetividade feminina apresentam, portanto, diferenças estruturais em seu processo de construção, o que deriva em necessidades, comportamentos, reações e visões diferentes sobre temas da vida, dentre eles a sexualidade e o prazer.
A vivência numa sociedade que, apesar dos avanços, ainda convive com a primazia do falo, com o patriarcado, obriga a mulher a lutar pelo seu espaço, porque nesse contexto prevalece a satisfação do prazer masculino e isso se apresenta na ideologia reproduzida pelo discurso das próprias mulheres entrevistadas. Destaca-se, sobremaneira, que no ambiente prisional a subjetividade feminina não é levada em consideração no momento de estruturação da visita íntima.
Um exemplo é quando todas as entrevistadas se referem ao tempo da visita como algo que mudariam, tendo em vista que trinta a quarenta minutos não se configuram como um tempo em que o prazer feminino seria algo possível.
Lua afirma, quando questionada sobre o que alteraria na configuração da visita íntima, que “[...] então, o tempo também, né, é eu não sei assim… se é porque é mulher, mas a questão do tempo, de ser tudo cronometrado… é… o ambiente também né, tem muita pessoa perto, é ruim...não é legal, não me sinto à vontade.” (grifo nosso)
O funcionamento psíquico e o corpo físico feminino são diferentes do masculino, incluindo-se as funções sexuais. Talvez, trinta minutos, que foi o tempo relatado por elas de duração da visita, seja suficiente para o homem, mas todas informaram ser um tempo incipiente para que elas estivessem preparadas para o ato sexual e para o prazer que poderia ser proporcionado por ele.
A subjetividade feminina também diz respeito a como este corpo, no qual a sexualidade se dá, reage diante dos diferentes tipos de situação e quais as necessidades desse corpo para que a mulher realmente sinta prazer e satisfação no ato sexual.
A mesma mulher (Lua) relata a seguir durante a conversa que “[...] o tempo podia ser um pouquinho maior pelo menos, ter mais ventilação […]” (grifo nosso). A retomada do assunto do tempo reforça um aspecto que a pessoa realmente considera negativo na visita, mas, para além disso, a única entrevistada a citar a palavra “ventilação” como uma necessidade. No sentido da palavra ventilação está implícito que algo é sufocante e precisa ser arejado/ventilado. Seria possível dizer, então, que “ter mais ventilação” é uma paráfrase para “me sinto sufocada”?
Talvez sim, porque a detenta em questão já havia expressado na fala anterior que não era prazeroso para ela a visita, afirmando que “é ruim… não é legal”. E, no momento seguinte, o inconsciente revela que é angustiante e sufocante estar naquele local. Um dado importante na entrevista com esta mulher é que quando questionada sobre qual o significado da visita íntima para ela, fez-se um silêncio de quarenta e cinco segundos e não houve resposta. Ao ser questionada sobre querer pular a questão respirou aliviada.
O silêncio, neste caso, pode significar muitas coisas. Pode representar, como afirma Orlandi (2015), a censura, tendo em vista que à mulher culturalmente não cabe falar sobre sexo ou prazer. Esse não-dito não é um vazio, é um significante importante nesse contexto.
Freud (1916) escreveu também , na Conferência de Introdução à Psicanálise, em “A vida sexual humana”, e é citado por Kehl (2016), que sexual é, antes de tudo, o indecente, é aquilo sobre o que não se deve falar, expressando o pensamento conservador presente na época e que ainda persevera nos dias atuais silenciando principalmente a voz das mulheres.
Estrela corrobora com Lua afirmando que mudaria “[...] ah… O tempo né… o tempo eu acho que o tempo é muito pouco, se nós pude... (sic) se eu pudesse eu mudaria o tempo. Aumentaria.”
Outro aspecto importante trazido pelas mulheres sobre a subjetividade feminina e masculina é a ideia de que a mulher tudo suporta (subserviência). Na questão sobre porque elas imaginam que os homens não vem, em sua maioria, visitar as mulheres e o inverso é quase incipiente. Estrela aponta que “[...] muitas cai presa com os marido
(sic), então elas vem presa aqui e os marido vai para masculina. Por isso que as menina aqui é difícil quem tem visita íntima. E as que tem marido na rua, os marido não aguenta. É difícil marido aguentá (sic), é… querendo ou não é uma humilhação, né? Vim num lugar desse, é ruim. Só mulher mesmo pra aguentá, porque homem não aguenta.” (grifo nosso)
É uma humilhação para o homem, mas a mulher pode passar por isso. A ideologia da supremacia e respeito ao que é masculino, o homem não se submete, não se dobra, pelo simples fato de ser homem, porque isso seria uma “humilhação”. E, veja que a escolha da palavra com um significado de submissão/abatimento não é aleatória, ela poderia ter dito “vergonha” que tem um sentido mais leve, mas não o fez.
Sol também destaca que “[...] então o amor ele tudo sofre, tudo suporta, né? Então eu acredito que a mulher como ela é sábia, ela vai aguentar isso, ela vai pelo amor, né?”
A visão romantizada da subjetividade feminina presente nesse discurso é aquela que reforça que a mulher é sábia e cuida dos seus, aguenta firmemente os sacrifícios necessários, nem que para isso deixe de lado seus próprios desejos.
Diante dos relatos das entrevistadas percebeu-se que no espaço prisional feminino, a visita íntima configura-se, aparentemente, pautada na subjetividade masculina, ou seja, a predisposição parece ser em atender às “necessidades” dos visitantes e não das visitadas.
A mulher não é somente um corpo biológico diferente do homem, é um ser que possui uma especificidade feminina, que precisa ser respeitada, principalmente num espaço que tem como função primeira ressocializar e constituir esse sujeito privado de liberdade de uma outra visão do mundo e de suas ações. Como aprender a respeitar regras sociais, quando nem mesmo as regras de seu corpo são respeitadas pela instituição?
8.6 SEXUALIDADE FEMININA
Muitas foram as mudanças que ocorreram no modo de ver a sexualidade feminina ao longo da história como já visto neste estudo, entretanto, apesar dos avanços estabelecidos ainda há uma série de tabus e crenças que permeiam o imaginário das pessoas e influenciam no modo como a mulher vive sua sexualidade até nos dias de hoje.
A opressão sempre foi a marca central para o exercício da sexualidade feminina, já que a mulher recebe a instrução básica, desde muito criança, que deve conter-se, reprimir seus desejos e não manifestar-se publicamente sobre seu corpo e sobre temas relacionados ao sexo.
Neste universo ideológico de repressão, o sistema penitenciário reproduz sistematicamente o cerceamento da sexualidade da mulher, exemplo disso é que somente há alguns anos foi “dado” à mulher o direito que já era garantido aos homens desde há muito tempo (de forma inquestionável, porque culturalmente é “natural” ao homem o desejo sexual).
Lima (2006, p. 79) afirma que em alguns casos na prisão o próprio desejo feminino já se apresenta como algo vergonhoso. Para a autora a mulher
[...] se sente humilhada por manifestar o desejo de ter ‘desejo’, quando vai para a visita íntima. Neste caso, o delito é o desejo. E, sendo assim, ela é julgada e condenada. Neste tribunal, as participantes são as próprias mulheres, sejam as que se encontram nas mesmas condições, isto é, presas, sejam as ‘outras’, isto é, mulheres trabalhadoras da instituição.
Veja, quando se fala sobre repressão e julgamento é importante dizer que isso se reproduz não somente entre homens, as mulheres contribuem muito nesse processo. E a ideologia se apresenta desta forma mesmo para os sujeitos, haja vista que tem como função parecer invisível, e assim a própria mulher vai perpetuando e naturalizando esses conceitos sem ao menos dar-se conta de que está ferindo a seus direitos.
No caso do discurso de Estrela, o saber popular de que o homem tem a necessidade sexual e não suporta ficar sem o sexo está explícito. Ela diz que “[...] ah... mulher é diferente de homem né… mulher se ela gosta do parceiro ela visita 5, 10 anos, 20 se precisá. O homem não, o homem pode amá (sic) a mulher, mas as necessidades dele fala mais alto. Ele vai procurá (sic) na rua, homem… tem muitos homens que não consegue ficá (sic) dois ou três dias sem... sexo. A mulher já aguenta até ficá (sic) seis, sete, oito meses sem sexo. Homem não, eu acho, no meu ponto de vista é isso de eles num aguentá, de isso sê uma coisa do sexo masculino mesmo, de num aguentá (sic). Daí ele abandona mesmo.” (grifos nossos)
Inicialmente ela diz que homem e mulher são diferentes e utiliza o elemento ‘né” (não é?), que parece ter nesta frase o efeito de buscar a concordância do outro
(interlocutor) sobre algo que se espera que este outro já saiba porque é uma “verdade”. E, sim, considera-se que são diferentes, mas não com as diferenças apontadas por ela na sequência. Estrela romantiza o papel da mulher, o que é bem comum, culturalmente dizendo, porque à mulher cabe o sofrer por amor. Depois ela aponta a necessidade sexual do homem como algo tão potente que o direciona porque ela “fala mais alto” e toma espaço diante de outras necessidades.
Essa necessidade, incontrolável segundo ela, “é coisa do sexo masculino” e serve, segundo o sentido desta sequência discursiva, como algo que justifica ou explica o fato do homem abandonar a mulher encarcerada e buscar outras parceiras. Esse discurso de que o homem não deve sofrer privação ao sexo, está vinculado ao aspecto cultural de que isso retira sua masculinidade, ou seja, o machismo é reproduzido com naturalidade por esta mulher que assume de forma implícita na fala que para o homem o sexo é ‘vital’ e para a mulher não.
Lua corrobora com esta ideia quando fala que “[...] com o tempo você acaba se acostumando a não ter relação… e pra gente com o passar do tempo vai se tornando normal, então não sinto assim tanta necessidade disso, mas afeto sim”. Isto significa que para a mulher é natural não ter relação sexual, torna-se “normal”, mas para o homem isso parece ser algo impossível. O sexo não é algo que faça falta, segundo Lua, “mas o afeto sim”. Por afeto, nesse contexto, talvez Lua esteja se referindo a atenção, o carinho ou amor, que poderia suprir o desamparo declarado anteriormente.
Mas o afeto é muito mais do que isso, segundo Spinoza (2008, p. 163) “por afeto compreendo as afecções do corpo pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções". Para este filósofo o afeto nasce no corpo, se manifesta fora do corpo e retorna modificando esse corpo, ou seja, pode algo positivo ou negativo. Assim, este afeto pode ser realmente esse carinho interpretado, ou ainda, um medo ou pânico, algo que modifica o corpo de maneira ruim.
Quando Lua fala, portanto, que não sente falta da visita íntima, da relação sexual, mas sente falta de afeto, é possível interpretar que para ela a relação sexual não resulta em prazer e, numa situação mais complexa que isso, não lhe afeta de maneira alguma. Diante disso, questiona-se: qual seria para ela então o sentido da visita íntima? Não será possível saber a resposta, porque esta foi a detenta que ficou em silêncio quando lhe foi questionado isso.
Um outro bom exemplo desse afeto relacionado ao conceito de Spinoza é o relato de Sol sobre sentir prazer sexual na visita íntima “Sim… aham… Nossa não via a hora de chegar essa hora… (risos) ficava contando os dias da semana... Nossa nem dormia, no dia quando tinha visita não conseguia nem dormir de tão ansiosa que eu ficava. Aí quando eu via ele nós chorava… eu chorava, ele chorava também, daí ele falava fica calma, fica tranquila, isso vai passar, nós tamo junto (sic). Né, a hora que você sair daqui vai ser diferente, né? Então é gostoso é bom sonhar junto compartilhar os planos, os sonhos, né? Independente do lugar né, das circunstâncias.” A ideia de visita íntima a afeta, de tal modo que modifica seu corpo manifestando o sintoma de ansiedade e tirando-lhe o sono.
Mas, para além disso, há uma resposta afirmativa rápida sobre sentir prazer, seguida da descrição de um momento de choro e uma fala de consolo do parceiro. Logo após a afirmativa, nota-se que Sol foge ao tema, cria uma fantasia romântica para a situação que representa o que, culturalmente, se espera de uma mulher.
Estrela responde a esta pergunta também de forma reservada: “Ah sim... sentir sente... mas, na rua é melhor” (risos). Ambas as mulheres ao afirmarem que sentem prazer na visita íntima encerram a resposta com riso. Uma possibilidade de análise é novamente a repressão do prazer feminino estabelecido culturalmente como sendo algo relacionado a pecado e o riso parece atenuante à vergonha de quem diz algo que deveria ser reprimido.
Sol, falando ainda sobre a visita íntima, tambem afirma que “O sexo começa na mente, né? Você tem que estar com sua mente preparada, com seu psicológico muito bom para você conseguir ter uma relação né? Vamos falar a verdade você conseguir chegar no orgasmo, né? Sabendo que você tá monitorada né outras pessoas que estão ali a sua volta, do lado de fora né. Porque a gente não é só monitorado por câmera, a gente é monitorado por guarda, né? Que tá ali do lado, a gente fica pensando se ele pode ouvir alguma coisa né, então tem tudo isso, a preocupação com o tempo né.”
A mesma mulher que afirma ficar ansiosa aguardando a visita traz no discurso informações que explicam, de certa forma, essa sensação. Segundo ela o sexo começa na mente, o que é um dos aspectos culturais da subjetivação feminina, e ela infere que no dia da visita você “tem que” estar preparada, o que traz uma carga de obrigação ou cumprimento de um dever e isso não remete a algo prazeroso. A ansiedade produzida e que afeta Sol pode ser explicada pela situação por ela mesma
descrita no texto acima: precisar estar preparada para a relação sexual naquele momento, com guardas monitorando, com a falta de privacidade, com o exíguo tempo e ainda ter que chegar ao orgasmo!
Aliás, Sol aponta nesta fala aquilo que foi tratado anteriormente neste estudo sobre a mulher moderna que mesmo num contexto no qual não há condições, mesmo não conhecendo ainda seu corpo e ainda sob uma cultura repressiva da sexualidade feminina, se vê agora na obrigação de um desempenho que lhe proporcione prazer, o que acaba por criar outro problema que é a ansiedade para se realizar isso.
Sol relata ainda a angústia vivida por algumas mulheres na visita íntima: “[...] quem não tá com o psicológico bom... em meia hora fazê (sic) a coisa correndo não consegue, não consegue. Já vi mulher sair da visita íntima e chorar falar que não conseguiu que entra no quarto e sai do mesmo jeito, que só entrou pra não fazer feio, né, tipo assim “eu fui lá, sai e não consegui fazer o que eu gostaria de fazer”. Nesse caso são cabíveis muitas questões: qual o significado de psicológico bom? fazer feio para quem? o que gostaria de ter feito?
Percebe-se a pressão construída diante de um momento que seria gerador de prazer, do gozo da sexualidade, mas a mulher em situação de privação de liberdade já se encontra menosprezada por si mesma, em alguns casos já não contentes com seu corpo, tendo em vista os estereótipos de beleza que perseguem o feminino, assombradas pelo desamparo, tendo agredida a sua subjetividade e um não respeito ao seu direito real do exercício da sexualidade, a busca pelo prazer torna-se algo secundário ou quase inalcançável.
Sol reforça isso quando afirma que “[...] muitas mulheres elas têm muita dificuldade, né? De se relacionar com parceiro nesse lugar, né? Porque ela já não está mais assim com seu psicológico, né? Bom para ter um momento ali de prazer, né? E acaba sendo um momento mais de dor que de prazer, né? De desgosto, né? de desgosto… ela já não está mais feliz com a aparência, né? Muitas pessoas que não se cuidam mais se encontram com depressão né, já não sentem mais vontade de se cuidar, né?”
Nesta sequência discursiva chama-se a atenção para as questões de saúde mental entre as mulheres, não só vinculada à questão da sexualidade, mas a um abandono de si mesma. Isso pode ser consequência do processo de inferiorização descrito anteriormente, da dor pelo desamparo, e tantas outras questões de cunho emocional que são vivenciadas no contexto prisional. O que chama a atenção nesse
discurso é o número de vezes que Sol repete a palavra “né” (são nove vezes). Ao que parece há sempre uma busca de concordância ou assentimento sobre o que está sendo dito e esta forma de enunciação é uma característica marcante em todas as falas de Sol.
No transcorrer da conversa Sol deixa de falar das outras mulheres que não conseguem, ou que choram, ou que têm dificuldades com a visita íntima e volta novamente a fala, de modo mais enfático sobre si mesma, de uma forma positiva afirmando gostar e ter prazer nesse momento. Segundo ela “[...] além de ser um prazer, né, de você estar com a pessoa que você ama, que você deseja estar todo dia do lado, e você ter aquele momento... depois é muito satisfatório, né? É uma injeção de ânimo para semana e você fala “nossa semana que vem tem de novo” (risos) aí você fica naquela esperança, né? Naquela expectativa que na próxima semana você vai ter de novo, né?”
A seguir, ao ser perguntada sobre o que significa a visita íntima, Sol responde que “é como se eu fosse é um momento único ali de muitos que eu gostaria de ter