4.1. Construindo identidades profissionais diferenciadas e diferenciadoras
4.1.2 Subjetividade no processo: uma escolha interessada?
Em entrevista cedida a nós pela Profª Alva Neves Pessi, aluna da primeira turma de formandos da Escola, encontramos elementos que podem ter representado, no seio do processo, traços de familiaridade com tal subjetividade. Importa, nesse sentido, considerarmos o alerta que Thompson (1992) faz em “A Voz do Passado”, a respeito da relação existente entre a capacidade de lembrar e o interesse despertado pelo algo a ser lembrado, no próprio indivíduo. Segundo o autor,
Quanto mais significativo um nome ou um rosto, maior a probabilidade que seja lembrado; os outros é que são gradualmente descartados da memória por um processo muito lento de esquecimento. O processo da memória depende, pois, não só da capacidade de compreensão do indivíduo, mas também de seu interesse (THOMPSON, 1992, p.152-153).
E ao ser indagada acerca dos professores responsáveis pela aplicação dos testes que compunham o exame vestibular, eis os nomes que surgiram em meio às suas lembranças:
Professores que participaram dos testes práticos: Mafalda Marselha Sprigmann, Érico Stratz Junior, Marina Haidrich, Neusa Búrigo, Hercides José da Silva, José Carlos Becker ,Dênia Brandeburgo Zanatta, Clarisse Tomazzi. Os testes teóricos foram organizados por equipe de prof.: Agostinho Sielski, Alvaro Araújo, Airton Ramalho, Alvaro José,Humberto Pederneiras, todos da área médica, outros da física, química, português não lembro os nomes. Se tiveram outros, não lembro.
Por meio de suas palavras, entendemos que a lembrança dos nomes acima citados veio à memória da Profª. Alva não de forma desinteressada e aleatória, mas, imersa em significados e representações. Assim como grande parte do primeiro grupo de alunos que ingressaram na Escola, a Profª. Alva era formada pelo antigo Curso Normal de Educação Física, a partir do qual ingressou na área em carreira profissional. Desse modo, a formação de normalista os possibilitava, além da habilitação legal ao magistério primário, a aproximação com os professores do curso que, reunindo os nomes mais consagrados no cenário da Educação Física catarinense naquele momento, viria a constituir o corpo docente da ESEF, quando de sua fundação. A análise de fontes documentais do Curso Normal permite-nos apontar que dos doze nomes de professores evidenciados pela memória da Profª Alva, que se fizeram presentes no vestibular da ESEF, pelo menos sete deles integralizavam o quadro de professores do antigo Curso Normal. Na esteira dessas possíveis aproximações vale ainda considerar que quatro alunos selecionados no exame da ESEF, já atuavam há pelo menos dois anos como monitores de ensino, auxiliando os professores do referido curso.
No entanto, não queremos dizer, com isso, que os alunos formados pelo Curso Normal de Educação Física, por sua prévia aproximação e estreitamento de laços com aqueles professores, os quais foram posteriormente seus avaliadores no processo de seleção à Escola Superior, não sofreram, a exemplo dos outros, as altas exigências impostas pelo exame. O que nos move aqui a “evidenciar as evidências” que parecem ter feito parte do processo, é o esforço de entender o grupo de alunos eleitos pelo exame de 1973 como a “vitrine” 59 de todos os ideais minimamente gestados e pretendidos para o impacto que deveria causar, no campo da formação de professores da capital catarinense, o ineditismo do curso em nível superior.
É possível ainda nos lançarmos a uma segunda análise, que conservao mesmo sentido, com Bourdieu (1992) a nos instigar a ver nesse processo de escolha, ou seja, “nessa exigência de seleção social”, aquilo a que ele classificou como uma tendência propriamente professoral de autoperpetuação60 do corpo docente que, incorporada na lógica dos sistemas de exame, tende a “maximizar o valor das qualidades humanas e das qualificações profissionais que eles produzem, controlam e consagram” (BOURDIEU, 1992, p.157). Reunindo características particulares e interessantes e, ao mesmo tempo, incumbidos da mensagem da distinção profissional, o grupo de alunos eleitos era também, nessa óptica, a projeção das
59 Termo inspirado no estudo “Vitrines da República: Os Grupos Escolares em Santa Catarina (1889-1930)”, da Profª Vera Lúcia Gaspar.
potencialidades, dos valores e das certezas de seus avaliadores. Contemplado em seus julgamentos, provendo em alguma medida, ele mesmo a sua própria conservação, o corpo docente responsabilizado pela seleção61 produzia tanto quanto reproduzia identidades profissionais que se mostrassem capazes e à altura de ‘mantê-lo vivo’ em sua raridade, incorporado na lógica do processo de formação. Sob a égide da glória irradiada pela aura da instituição universitária, o exame que selecionara cuidadosa e interessadamente o corpo discente escolhido para integralizar o primeiro grupo de alunos da ESEF de Florianópolis, concorria, desta forma, de acordo com os estudos de Weber (1991, p.114), para um duplo movimento de restringir a oferta para tais posições e, ao mesmo tempo, garantir seu monopólio por parte dos possuidores de seus diplomas por ela expedidos.
Guardadas as reivindicações particulares aos sexos e protegida, em certa medida, de qualquer traço de subjetividade, algo, portanto, atravessava de maneira linear as exigências impostas aos dois grupos de candidatos: a necessidade de corpos saudáveis. Ocorrendo simultaneamente às provas práticas, o Exame Médico definia o “veredicto” da seleção servindo-se, para tanto, da unanimidade de seu caráter eliminatório.
Tal poder de definição fora questionado desde o início do exame pelos candidatos, no sentido de criticar o modo de organização como as etapas do processo foram distribuídas, uma vez que a hierarquia de seus valores agregava o maior peso ao último momento. A espera e a esperança de muitos, invalidadas pela arbitrariedade imposta pela avaliação do médico responsável, faziam recair sobre o próprio indivíduo a responsabilidade pelo seu sucesso ou fracasso. A análise da presença ou ausência da saúde nos corpos, entendida naquela ocasião como o não acometimento de “doenças transmissíveis, evitáveis e psíquicas”, ao mesmo tempo em que não possuir “defeitos físicos” 62, fazia com que a “hierarquia dos méritos escolares”63, legitimada pelos resultados das provas ocorridas até então, fosse submetida ao governo dos “méritos biológicos”, espaço onde, por sua vez, não era admitidas hierarquias mas sim, sanções. Nesse sentido, a posição ocupada pelo indivíduo saudável estava em oposição àquela ocupada pelo indivíduo não saudável. Os corpos que se localizassem entre
61 Num mesmo movimento de autoperpetuação, os avaliadores do exame de 1973 compunham, por sua vez, parte do corpo docente da ESEF.
62 Dados retirados do Atestado de Sanidade Física e Mental, documento exigido quando do ato da matrícula dos alunos já selecionados. A análise desse documento nos possibilita levantar indícios das qualidades físicas e mentais exigidas pelo Exame Médico, parte do processo de seleção de entrada à ESEF.
63 A expressão “hierarquias dos méritos escolares” foi inspirada na utilizada por Bourdieu (1995, p. 158),
“hierarquia dos valores escolares”.
elas não correspondiam aos padrões do processo de seleção e, portanto, ficavam para aquém da linha divisória. Tal elemento de “eugenia”, que aparece norteando a escolha que originária do grupo instituído foi responsável pela eliminação de aproximadamente 10% do total de 161 candidatos que estiveram presentes em todas as etapas do vestibular de 1973. Desse percentual, 6,42% correspondeu aos candidatos do sexo masculino e 3,58% aos do sexo feminino (O ESTADO, 22/03/1973).