CAPÍTULO 1 PÓS-MODERNIDADE, IDENTIDADE E SUBJETIVIDADE
1.3 Subjetividade
A imagem de subjetividade humana legada pelo cogito cartesiano, pondera Santaella (2007), dominou o pensamento ocidental por alguns séculos. De acordo com a máxima “Penso, logo existo”, a existência do sujeito é idêntica ao seu pensamento, o que garante ao “Eu” a subjetividade da consciência e, portanto, uma identidade pessoal. Seguindo essa reflexão, temos ideia de um sujeito racional, reflexivo, senhor de seu pensamento e de suas ações.
Entretanto, de algumas décadas para cá, essa “ideia do eu” legada por Descartes, entrou em crise. Para a autora, “as noções de indivíduo, sujeito e subjetividade subjacentes a essa ideia foram sendo varridas por mudanças culturais que já tiveram início na segunda metade do século XIX” (SANTAELLA, 2007, p. 85), revelando um sujeito instável, múltiplo, descentrado.
Ela considera que, no lugar dos antigos ‘sujeito’ e ‘eu’, nas visões atuais sobre a subjetividade humana dominam as “novas imagens de multiplicidade, heterogeneidade, flexibilidade e fragmentação” (SANTAELLA, 2007, p. 85).
No campo da Análise de Discurso, um dos grandes autores que contribuíram para pensarmos a subjetividade foi Michel Foucault, já que seus estudos centraram-se no objetivo de produzir uma história dos diferentes modos de objetivação/subjetivação, em nossa cultura, do ser humano.
Foucault (1995) apresenta três modos de objetivação que transformaram os seres humanos em sujeito:
- as práticas discursivas que objetivaram o homem como sujeito falante, ser produtivo e ser vivo;
- as práticas disciplinares que objetivaram o sujeito (são/louco/doente; criminoso/ordeiro);
- as práticas subjetivadoras pelas quais o ser humano se transforma em sujeito de si para si (técnicas de si) ao constituir sua sexualidade.
A fim de melhor explicitar esses modos de objetivação, Gregolin (2007) afirma:
Nesses três domínios – do saber, do poder e da ética – o sujeito estabelece relações sobre as coisas, sobre a ação dos outros e sobre si. Por isso, ele é uma noção histórica, foi sendo constituído por longos, árduos e conflituosos acontecimentos discursivos, epistêmicos e práticos.
Produto histórico de práticas discursivas, o sujeito é reportado a posições possíveis de subjetividade, não importa quem fala, mas o que ele diz, ele não o diz de um lugar qualquer. Assim, além de terem uma memória (repetibilidade) e materialidade, os enunciados estabelecem relações com quem os enuncia. [...] As modalidades de enunciação mostram a dispersão do sujeito, isto é, os diversos estatutos, lugares, posições que ele pode ocupar. (GREGOLIN, 2007, p. 10)
Foucault mostra em suas análises que a sociedade tem dispositivos e tecnologias por meio dos quais constitui os sujeitos atribuindo-lhes uma identidade. Na obra Arqueologia do Saber, Foucault apresenta o sujeito discursivo como um lugar vazio, uma posição relativa às práticas sociais; a subjetividade, portanto, não é uma essência, mas algo que se constrói a partir do exterior.
Foucault, como afirma Benveniste (1991), foi um dos primeiros teóricos a marcar a subjetividade como constitutiva dos enunciados. Para eles, a linguagem é, por si mesma, possibilidade da subjetividade. O discurso possui formas vazias das quais os locutores se apropriam, propondo-se como sujeitos, fazendo emergir a
subjetividade ao definirem a si mesmos e aos outros. Por haver um sujeito que enuncia, o sentido do texto está sempre comprometido com o ponto de vista do enunciador.
As diferentes posições que os sujeitos escritores assumem no discurso podem ser analisadas por meio de algumas marcas linguísticas. Os adjetivos e advérbios, por exemplo, podem ser tomados como “pistas linguísticas, por indicarem apreciação ou avaliação do locutor” (CAUDURO, 2008, p. 03), por apontarem à formação discursiva com a qual os sujeitos se identificaram.
Bréal (1992) compartilha da ideia de que o posicionamento do sujeito pode ser analisado linguisticamente e considera o elemento subjetivo como parte essencial e primordial da linguagem ao qual o resto foi sucessivamente ajuntado. Ele cita os adjetivos, advérbios e conjunções como elementos linguísticos que mostram as apreciações do narrador.
A possibilidade de análise linguística da subjetividade por meio do estudo dos adjetivos e advérbios também é proposta por Lima (2010, p. 127), para quem “o uso de substantivos e adjetivos axiológicos e advérbios modalizadores, tecendo as avaliações do sujeito enunciador, contribui como estratégia para persuadir o sujeito destinatário da verdade dos enunciados, a que se engaja o enunciador”. Concordando com os autores já citados, Kerbrat-Orecchioni (1997) considera os enunciados como atos, retomando os estudos de Austin, ou seja, atenta para o fato de que eles não são produzidos somente para agir sobre os outros, mas também para levá-los a reagir. A enunciação, portanto, corresponde a uma atividade linguística que um falante exerce no momento em que fala. Ela defende que a enunciação é a busca dos procedimentos linguísticos com os quais o locutor imprime sua marca ao enunciado, se inscreve na mensagem (implícita ou explicitamente) e se situa em relação a ela.
Para o estudo da enunciação, essa autora apresenta dois enfoques: um ampliado e outro restritivo. No enfoque ampliado, a finalidade é descrever as relações que
se estabelecem entre o enunciado e os diferentes elementos do quadro enunciativo, como, por exemplo, os protagonistas do discurso, a situação de comunicação, as circunstâncias espaço-temporais e as condições gerais de produção e recepção da mensagem. O enfoque restrito se interessa apenas pelo sujeito da enunciação.
Levando em consideração o enfoque restritivo, ela classifica alguns traços linguísticos que mostram a presença do enunciador em seu enunciado como a presença da subjetividade na linguagem. Em cada escolha lexical do sujeito enunciador, a subjetividade está presente, já que as palavras são símbolos substitutos e interpretativos das coisas.
Segundo Kerbrat-Orecchioni (1997), as escolhas lexicais são responsáveis por deslizamentos de sentido e os vocábulos que dão suporte a essas escolhas são os nomes – substantivos e adjetivos – em sua maioria, axiológicos (avaliativos), que constituem uma categoria lexical que está intimamente ligada às apreciações do enunciador.
Ela explora o traço de subjetividade presente em algumas unidades significativas como os substantivos, adjetivos, advérbios e verbos. Quanto aos substantivos, a autora afirma que, na medida em que alguns substantivos revelam uma avaliação do sujeito enunciador, eles podem ser considerados como portadores de subjetividade, possuem traços axiológicos.
As unidades lexicais de uma língua são carregadas de subjetividade, de acordo com uma escala significativa que transita do mais objetivo para o mais subjetivo. Sobre os adjetivos, a autora os divide em objetivos e subjetivos. Os adjetivos subjetivos se subdividem em afetivos e avaliativos.
Os adjetivos subjetivos afetivos enunciam, além de uma propriedade do objeto que eles determinam, uma reação emocional do enunciador em face desse objeto.
Os adjetivos avaliativos enunciam julgamento de valor e dizem respeito à subjetividade de quem fala. Subdividem-se em não axiológicos e axiológicos. Os adjetivos avaliativos não axiológicos são aqueles que, sem enunciar julgamento de valor, nem engajamento afetivo do enunciador, apresentam uma avaliação qualitativa ou quantitativa do objeto denotado pelo substantivo que eles determinam. Já os adjetivos avaliativos axiológicos indicam o ponto de vista do sujeito da enunciação e aplicam ao objeto denotado pelo substantivo um juízo de valor, positivo ou negativo. Os adjetivos axiológicos são mais fortemente marcados pela subjetividade, porque o sujeito enunciador está mais implicado na avaliação que faz de algo.
Quanto aos advérbios, além de serem também exemplos de unidades subjetivas, podem ser modalizadores, ou seja, reveladores de julgamentos de verdade. Os advérbios modalizadores compõem uma classe de elementos adverbiais que têm como característica básica expressar alguma intervenção do falante na definição da validade e do valor de seu enunciado. O uso dos modalizadores constitui uma das estratégias para marcar a atitude do falante em relação ao que ele próprio diz.
Em relação aos pronomes, Benveniste (1991) aponta para marcas da presença do enunciador nos enunciados por ele produzidos, conhecidas como modalizadores ou marcas linguísticas da enunciação. Afirma que os pronomes pessoais constituem um ponto de apoio para a revelação da subjetividade na linguagem, assim como os demonstrativos, os advérbios e adjetivos dêiticos, que organizam as relações espaciais e temporais em torno do sujeito.
Para compreendermos o sujeito e suas representações, na teoria enunciativa de Benveniste, é necessário partir do exame da categoria de pessoa, presente nos pronomes e nos verbos. O pronome eu é “o indivíduo que enuncia a presente instância de discurso que contém a instância linguística eu; o tu é o indivíduo alocutado na presente instância do discurso, contendo a instância linguística tu” (BENVENISTE, 1991, p. 179). No ato enunciativo, portanto, o sujeito não constitui
apenas a si, instaura também a figura de um outro, um alocutário, com o qual estabelece relações intersubjetivas.
Essas autênticas pessoas do discurso (eu/tu) estão em oposição a ele – a não pessoa: “formas como o pronome ele só servem na qualidade de substitutos abreviativos” (BENVENISTE, 1991, p. 288). Conforme a teoria da enunciação, as formas eu/tu são marcas de subjetividade, pois se apresentam como ponto de apoio do domínio subjetivo na linguagem. A função dos pronomes plurais, para esse autor, não é realizar a pluralização do discurso, mas é mostrar que, por meio deles, o falante se identifica com um grupo, instituindo seu discurso como pertencente a um conjunto.