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3.3 Questões de estética em Sempreviva

3.3.3 Subjetivismo e estranhamento: Duas caras, uma falsa

O mundo humano do romance está caracterizado pelo falso, pela farsa. Policiais e comunistas forjam ardilosamente as suas máscaras e impedem que suas identidades verdadeiras sejam descobertas pelo inimigo. O delegado Claudemiro Marques, cujo pseudônimo é Antero Varjão, e os seus subordinados, assumem atividades de fazendeiros e caçadores, o médico legista, Ari-Kunt, oculta-se por trás da máscara de Juvenal Palhano, pesquisador e admirador da natureza, enquanto os militantes de esquerda apresentam-se como contrabandistas.

Embora os grupos não se identifiquem socialmente, eles não abandonam as atividades que realizavam durante o período mais crítico da ditadura militar no Brasil. De um lado, há a continuidade do trabalho dos policiais, que, mesmo longe das delegacias, torturaram e mataram pessoas, prática que estendem, aliás, aos animais; e do outro lado, há a trama, tecida cuidadosamente, do Partido Comunista, que, em meio à dor e à indignação, abriga uma incansável resistência contra a ditadura.

A construção dos disfarces e a sua quase perfeita adaptação aos rostos dos personagens impedem a manifestação da tolerância, do ódio e dos ressentimentos que, no auge dos anos do terror, definiram a relação entre revolucionários e policiais. O uso da farsa, do falso corresponde geralmente a um proceder contrarrevolucionário. As forças conservadoras que se vem ameaçadas por alguma tendência progressista da história tendem a falsear, para interpor algum obstáculo ao andar da história (inventar crimes falsos e alegar que foram cometidos por seus inimigos), ou para negar os seus atos (como no caso dos torturadores do romance que inventam esta nova identidade para estar a salvo de qualquer julgamento). É a construção da fraude para impedir o avanço.

Um personagem interessante e que aparece muito rapidamente é Edmundo o argentino. Edmundo que é apelidado de Cheque Sem Fundo, trabalha em La Pantanera (CALLADO, A. 1981. p. 93-94). Era um ex-militante sindicalista argentino, que exilado no

Brasil tinha sido capturado, e agora como tinha uma profissão, sabia curtir peles, tinha sido colocado para trabalhar como escravo, e estava esperando a ocasião de ser trocado por um preso brasileiro, numa espécie de intercâmbio de reféns às avessas. Edmundo perdeu totalmente o controle dos fatos e aparece coo uma pessoa totalmente iludida. Ele comenta com Quinho que voltará às ruas de Buenos Aires, ao sindicato onde militava. Edmundo parece desconhecer a natureza dos regimes com os quais está lidando. Sua noção da situação é absolutamente falsa, mas sua aparição serve, junto com a dos cadáveres das militantes argentina e uruguaia, para denunciar, numa época em que ainda nem se falava no assunto, o Plano Condor, o acordo de "cooperação no terror entre as ditaduras da América do Sul.

A narrativa em Sempreviva, segundo Lígia Chiappini (1983. p. 123), compõe um jogo de espelhos. Assim como os símbolos são paradoxais (o sabiá, as plantas, a floresta, as onças), os personagens também o são, pois possuem seu duplo, dois modos de ser, suas visões de mundo conflituosas. Quinho, ao voltar para o Brasil, para o lugar que deveria representar o centro da sua vida, adivinha-se perdido e amedrontado, sabendo ser um homem dividido entre duas necessidades, vingar a companheira assassinada e soterrar seu passado. Lucinda expressa a dor e a indignação dos revolucionários, mas age tão somente segundo a sua gana de vingança. Jupira é mártir e portadora da má sorte àqueles que ama, é a heroína das causas sociais e a sua maior traidora. Os sentidos sádicos de Claudemiro são aguçados pelo amor e pela piedade que homens e animais despertam nele. O médico-legista identifica-se com a bondade e o carisma do naturalista Juvenal Palhano. E Herinha combina à inocência da infância a malícia do mundo adulto.

O que subjaz à impossibilidade de unir os duplos num todo complementar é o que, em última análise, teria motivado as práticas dos governos ditatoriais, a negação radical de comportar a diversidade, haja vista que, conviver com o diferente, implica em não dominá-lo, em tornar o poder suscetível a lógicas mais humanitárias.

Como os personagens não admitem os seus conflitos como parte daquilo que realmente são, eles não conseguem superá-los, eles estão em um estado de alheamento profundo. Não conseguem entender e aceitar nem a si mesmo, nem o outro em sua plenitude e nem a tortuosa história do Brasil. Outrossim, à exceção de Jupira, eles se deixam conduzir por propostas que não contemplam, sob nenhuma hipótese, a multiplicidade, a diversidade de vidas e maneiras de pensar e de viver, que não contemplam, mesmo com todos os embates contra o real, as máscaras multifacetadas do Brasil.

Outros elementos paradoxais na construção do romance é a coincidência de morte e vida que se encontram e complementam-se nos bichos peçonhentos, no escorpião que picou Hera e nas cobras que os Iriartes criam, assim como Bem e Mal misturam-se em Jupira. O veneno do escorpião permaneceu em seu corpo "recolhido mas atento", até que, em seu papel duplo, fez com que ela se entregasse ao Onceiro. Também Claudemiro Marques é um escorpião, pois pica o corpo e envenena a alma da comunista, mas é por causa dele que Jupira torna-se, aos olhos dos outros, mais uma vez, a mártir das causas sociais.

Por sua vez esta animalização de quase todos os personagens é a caracterização da sua perda de humanidade.

Claudemiro diz que tem uma mãe jaguatirica, e que o mundo seria melhor se fosse só de bicho (CALLADO, A. 1981. p. 106). Claudemiro encarna aqui a desumanização quase total, desejando a extinção da raça humana.

Jupira é comparada a uma aranha caranguejeira (CALLADO, A. 1981. p. 47) que sempre está tecendo teorias ao seu redor, muitas vezes especulações filosóficas sobre o Bem e o Mal, que, segundo ela tinha sido inoculado (o Mal) pela picada de um lacrau e que por isso aflorava em sua personalidade, como se fosse uma maldição. Existe um paralelismo contrário entre esta ideia do Mal, como maldição, em Jupira (a natureza ameaçadora amaldiçoa ela através da picada do lacrau e ela é uma vítima desta força superior) e a ideia do castigo exemplar que a cobra Joselina vai perpetrar contra Juvenal. Herinha usa a cobra no seu favor para consumar a vingança. Jupira acha que foi vítima de uma maldade da natureza, como o povo, quando sabe da morte de Claudemiro acha que foi uma vingança das onças. A natureza como elemento superior ao ser humano (estranhamento na relação homem natureza), ou como elemento que pode ser usado a seu favor, são as visões opostas que se apresentam na configuração destes personagens.

Outra forma do estranhamento no romance é a humanização das coisas e também um certo fetichismo.

Juvenal Palhano é uma pessoa obcecada por objetos. Possui um pincenê de Olavo Bilac (CALLADO, A. 1981. p. 77) com o qual pretende, ao mesmo tempo, fazer gala de sua erudição, como também incorporar algo da "genialidade" do poeta parnasiano. O pincenê é mais um dos artifícios que compõem sua linguagem vazia. A ideia de genialidade do artista como já vimos está relacionada à crença na existência de subjetividades destinadas a ser superiores às quais Juvenal queria pertencer, ou achava já pertencer, justificando desta forma

sua colaboração com um regime que se apresentava coo salvador da pátria diante da degradação comunista.

A humanização de coisas aparece no romance (CALLADO, A. 1981. p. 152). Também Juvenal Palhano diz conversar com uma cadeira, aliás acha que ela é uma antiga baba. Desta forma ele relaciona um objeto, a cadeira confortável na qual descansa, a um serviçal, que aliás tem duas na sua casa, com as quais tem um trato de amo/escravo amável, sendo que as relações de exploração entre eles estão naturalizadas. Assim a cadeira austríaca de Juvenal tem a mesma entidade que uma empregada ou uma escrava. Servem para o conforto do amo e por isso ele gosta delas.