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4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.2 RELAÇÕES DE PODER VIVENCIADAS POR ENFERMEIRAS: O MANEJO DO CATETER PERCUTÂNEO NA UTIN

4.2.3 A PRESENÇA DE UM PODER SOBERANO

4.2.3.2 Submissão ao poder

Considerando a presença deste super poder médico e a fragilidade da resistência destas profissionais, que como detentoras de um saber não conseguem exercer poder de decisão, esta subcategoria trata das situações nas quais elas relatam essa submissão como uma realidade cotidiana e não apenas um mito socialmente instituído.

Durante a descrição das falas, houve momento em que se tem a impressão que estão sendo descritas situações vivenciadas por enfermeiras do século XIX, do início da profissionalização da enfermagem moderna. Ao falar sobre sua autonomia no manejo do PICC a enfermeira abaixo, nega a autonomia da sua profissão explicando que a decisão é da equipe médica:

Autonomia, eu acho que é o seu poder de decidir entendeu, é seu poder de tomar decisões e dizer, não eu acho que é assim, é você se sentir segura e o serviço lhe apoiar, para decidir entendeu? Porque às vezes, a enfermagem não tem autonomia, não adianta dizer que tem porque você não tem, você não tem, dentro de um serviço, você não tem, eu não vejo serviço que você tenha autonomia, porque você até pode decidir uma coisa ou outra coisa, mas a sua decisão, sempre vai envolver a decisão médica, você dá a palavra dois e o médico dá a palavra um e zero. E a decisão fica por conta da equipe médica. E9

A enfermeira depoente quis indicar na sua ordenação que a decisão da enfermeira neonatal está quase sempre em segundo plano. As profissionais se submetem também porque o médico, quando não tem conhecimento suficiente sobre o PICC para poder argumentar com as enfermeiras o motivo da retirada do cateter ―sabotam‖ a resistência destas profissionais não deixando prescrita uma solução para manter a permeabilidade do lúmen do cateter. A enfermeira se sente impotente para a manutenção de uma solução que não está prescrita, fato expresso pela profissional quando justifica a retirada de um cateter:

Aqui a gente não tem muita autonomia para estar mantendo o cateter, porque, por exemplo: o PICC precisa ter uma solução para manter, então a gente decide: a gente vai manter o cateter, „e ai vai ficar um PICC hidrolisado?‟ Não pode, o médico tem que prescrever alguma solução para colocar no PICC, então, às vezes, quando o bebê não tem mais nenhuma solução para correr, se o médico não decidir que vai manter o PICC, a gente não tem como manter porque a gente não pode deixar o PICC hidrolisado e a gente não prescreve solução nenhuma para poder manter em PICC. E2

A disciplina é um poder que cria entre os indivíduos uma relação de limitações inteiramente diferente da obrigação contratual; a aceitação de uma disciplina pode ser subscrita por meio de contrato; a maneira como ela é imposta, os mecanismos que faz funcionar, a subordinação não reversível de uns em relação aos outros, o mais poder que é sempre fixado do mesmo lado, a desigualdade de posição dos diversos parceiros em relação ao regulamento comum opõem o laço disciplinar e o laço contratual, e permitem sistematicamente falsear este último a partir do momento em que tem por conteúdo um mecanismo de disciplina (FOUCAULT, 2008).

O poder disciplinar também submete trazendo a cerca, um muro alto, intransponível que para Foucault (2008) é cuidadosamente trançado e caracterizado pela figura simbólica do poder de punir. A prescrição médica novamente é apresentada como este muro alto por uma enfermeira quando fala sobre sua autonomia na retirada do PICC:

Muitas vezes em relação à equipe medica há uma discordância muito grande, principalmente no momento de retirar o cateter, muitas vezes a gente acredita que não custa nada deixar vinte quatro horas de observação após a retirada de antibiótico, por exemplo, por que a gente ainda vai ver como é que a criança vai se manter até lá. Muitas vezes eles querem retirar de imediato e não tem, muitas vezes, o argumento necessário para convencer que essa é a melhor forma, mas a gente acaba tirando, porque, está prescrito, prescrito e acabou. E4

Para Foucault (2008, p.29), o corpo está mergulhado num campo político e as relações de poder têm alcance imediato sobre ele sujeitando-o e obrigando-o a cerimônias. Este investimento político que está ligado à sua utilização econômica e sua constituição enquanto força de trabalho, só é possível se ele está preso num sistema de sujeição. Num mecanismo onde ―o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso”. A sujeição não é obtida apenas pela violência ou pela ideologia, ela pode ser calculada, organizada, tecnicamente pensada, pode ser sutil, pode haver um ―saber‖ do corpo,

a tecnologia política do corpo, difusa sendo impossível localizá-la num tipo definido de instituição ou no aparelho do Estado (FOUCAULT, 2008).

A submissão também é consentida porque as enfermeiras atribuem aos médicos a autoridade dentro da unidade e porque eles não aceitam questionamentos só restando para elas a obediência, fatos relatados por duas enfermeiras quando falam da sua autonomia no procedimento:

Muito pouca, digamos que de 100 % de autonomia, eu tenha 10% entendeu? Assim, porque por mais que eu não queira, digamos, retirar um PICC de um menino que eu sei que foi difícil a inserção, porque „ah, retirei um PICC agora porque vai suspender antibiótico, o médico suspendeu hoje, vai retirar hoje?‟, „Vai! Vai retirar hoje!‟. Amanhã eu sei que aquele bebê vai precisar de um novo acesso, eu tenho que retirar, vou dizer o que? Eu não vou retirar? Porque eles não aceitam questionamento, eles não aceitam que eu diga: „gente! Esse PICC foi de difícil acesso, foi difícil passar esse PICC, na na na na na‟, „Ah não, tem que retirar, ele está ótimo, suspendeu antibiótico, tudo negativo‟. Eu vou fazer o que? Não vou retirar? E9

A submissão é estabelecida de uma forma que não é possível compreendê-la apenas como um ato voluntário de obediência, e tratando-a como este investimento político citado por Foucault, é que se pode defini-la como uma subsunção, onde a submissão da trabalhadora é mais do que a simples aceitação de uma imposição externa. Elas mostram também uma relação de dependência com o opressor, uma dependência velada. A enfermeira está tão acostumada à lei que muitas vezes sinaliza para o médico a necessidade da prescrição, pois para ela o procedimento deve realmente estar prescrito:

[o cateter percutâneo] é no caso, uma rotina nossa aqui já, a passagem do cateter, a gente já tem a autonomia de estar vendo se já tem seis ou sete dias de cateter umbilical, a gente já vai procura o médico, sinaliza, vê as plaquetas do paciente, vai até o prontuário, sinaliza, e assim..., espera só ele, no caso agora mesmo tem que estar colocado em prescrição médica a passagem do cateter, nós não temos autonomia ainda de assim...nós vemos, ver, visualizar e passar, a gente ainda tem que se reportar ao médico para que coloque em prescrição para poder passar o cateter percutâneo. E7

Este status de subordinação, segundo Moya et al (2010), está relacionado com o fato das enfermeiras terem a necessidade de ser reconhecidas como membro da equipe de saúde, preferindo as alianças aos conflitos com a equipe médica. A noção de subordinação deriva da crença da onipotência do opressor, elas crêem que o poder dos médicos é absoluto e têm medo da liberdade da tomada de decisão. A explicação desse fenômeno também passa pela internalização por parte das enfermeiras, dos valores do opressor durante a formação

acadêmica, onde o modelo biomédico, positivista, mecanicista da medicina está incluso e, durante a prática profissional, quando a tecnologia se transforma em símbolo de profissionalização e competência.

Com base nestas premissas, as enfermeiras separam e hierarquizam os cuidados técnicos como prioritários na sua prática em detrimento dos cuidados de ajuda e de suporte que mais caracterizam a sua profissão, tornando-se invisível, atribuindo ao opressor uma visão positiva e a si uma visão negativa (MOYA et al, 2010).

É o que Andrade (2007) traz como o ―mito da subalternidade do trabalho da enfermagem à medicina‖, este sustentado socialmente e dentro da própria categoria da enfermagem, onde a enfermeira seria - também por questões de gênero - histórica e socialmente subordinada.