Capítulo 2 – Análise de Desempenho de Processos
2.2 Fundamentação Teórica
2.2.1 Subprocessos críticos
Para que a ADP seja possível, é necessário que a organização possua uma definição adequada das medidas que caracterizam o desempenho de seus processos e que estas sejam coletadas de forma consistente (KITCHENHAM et al., 2006; BARCELLOS, 2009). Um dos fatores importantes para a definição de medidas que auxiliem no entendimento quantitativo do processo é o nível de granularidade da entidade mensurável. Uma entidade mensurável é um objeto ou evento do mundo real que se deseja conhecer por meio da medição de seus atributos (características ou propriedades) (FENTON e PFLEEGER, 1997). Neste sentido, são exemplos de entidades: um processo, uma atividade, uma tarefa, um produto, um artefato etc.
No contexto da ADP, é desejável que as medidas possuam baixa granularidade, ou seja, estejam relacionadas a entidades pequenas e que possuam uma grande frequência de coleta (BARCELLOS, 2009). Desta forma, é possível entender o desempenho da entidade e gerenciar sua evolução, além de permitir um volume adequado de valores coletados (necessário para aplicação de certas ferramentas estatísticas). Por exemplo, uma medida referente à execução de um projeto que é coletada somente no final do projeto possui uma alta granularidade e, portanto, não seria uma boa candidata (de forma isolada) para a ADP.
No entanto, apesar de a baixa granularidade da medida ser recomendável, é necessário que tal granularidade seja adequada para que a medida seja significativa,
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auxiliando na análise do processo. Para medidas que caracterizam a execução de processo, uma das formas de identificar entidades que sejam pequenas, mas significativas para a organização, é decompor o processo em partes menores, denominadas “subprocessos”.
Um subprocesso é uma unidade menor de um processo, ou seja, é uma parte constituinte de um processo maior (CMMI Product Team, 2010). É a unidade fundamental (atômica) de definição de processos e descreve as atividades e tarefas necessárias para realizar uma parte do trabalho de forma consistente. O subprocesso também é denominado elemento de processo ou componente de processo (BARRETO, 2011a).
O nível de granularidade de um subprocesso pode variar conforme o contexto organizacional. Para identificar o nível adequado de granularidade, as seguintes características que definem um subprocesso devem ser consideradas (BARRETO, 2011a): (i) é um conjunto de atividades/tarefas que entrega um resultado bem definido, e que pode se repetir ao longo do processo; (ii) representa um conjunto de atividades/tarefas relevantes de um processo de mais alto nível, que pode ser realizado de uma ou várias maneiras; e (iii) é relevante para ser medido. No contexto da ADP, os subprocessos possuem o nível de granularidade do que normalmente equivale a uma atividade (FERREIRA, 2009; BARRETO, 2011a).
Visto que a ADP é uma atividade que demanda tempo e custos razoáveis e as organizações possuem limitações quanto aos recursos disponíveis, é necessário selecionar quais subprocessos serão objetos desta análise. Para que a organização obtenha resultados relevantes, os subprocessos críticos – ou seja, aqueles que possuem um maior impacto nos objetivos estratégicos da organização – devem ser identificados.
Para auxiliar a identificação dos subprocessos críticos, recomenda-se o uso de critérios a fim de que a seleção não seja subjetiva e que esteja relacionada aos objetivos estratégicos da organização (CMMI Product Team, 2010; SOFTEX, 2016c). Alguns exemplos de critérios que podem ser utilizados para identificar os subprocessos críticos são (GOH et al., 1998; TARHAN e DEMIRORS, 2006; FERREIRA, 2009; CMMI Product Team, 2010): (i) Grau de relacionamento dos subprocessos com os objetivos estratégicos da organização; (ii) Grau de importância dos subprocessos para o cliente; (iii) Grau de importância dos subprocessos para a qualidade final do produto (importância funcional); (iv) Quantidade e nível de problemas identificados a partir da execução dos subprocessos; (v) Grau em que o subprocesso auxilia na predição da
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qualidade e do desempenho do processo; e (vi) Estabilidade e/ou a capacidade dos subprocessos (quando a organização já executou ADP anteriormente).
Algumas abordagens foram propostas para auxiliar na identificação dos subprocessos críticos para a ADP, destacando-se as propostas por GOH et al. (1998), TARHAN e DEMIRORS (2006) e FERREIRA (2009).
GOH et al. (1998) apresentam uma forma de priorização de processos para implementar o CEP na área de manufatura. Esta seleção dos subprocessos críticos leva em consideração a situação atual do processo em termos da sua estabilidade e capacidade (compondo o critério de criticidade estatística) e a importância do processo para a qualidade final do produto (compondo o critério de criticidade técnica). A partir destes dois critérios, os processos críticos são aqueles que possuem alta criticidade estatística (i.e., nos quais há indícios de instabilidade no processo ou o processo não é considerado capaz) e a alta criticidade técnica. Assim, esta abordagem exige que a ADP seja executada, pelo menos inicialmente, em todos os processos da organização, a fim de se poder avaliar sua criticidade estatística.
Na área de processos de software, TARHAN e DEMIRORS (2006) sugerem uma abordagem para a seleção de medidas (e, consequentemente, dos processos) para o CEP. Esta seleção é realizada a partir do cálculo do índice de usabilidade de cada medida existente na organização, por meio da aplicação de questionários que avaliam a existência de alguns atributos nas medidas, tais como definição operacional completa, existência de valores coletados (pelo menos, 20), coleta consistente e cobertura.
Também na área de software, a abordagem de FERREIRA (2009) abrange a seleção dos processos críticos, bem como sua adequação para o CEP. A abordagem é composta pelas seguintes atividades:
i. Identificação dos processos críticos: leva em consideração a opinião de especialistas da organização sobre as necessidades que auxiliam a alcançar os objetivos de software e sobre os problemas que podem prejudicar o alcance destes objetivos. ii. Adequação ao CEP: os processos considerados críticos pelos especialistas da
organização e as medidas destes processos são avaliados a partir de dois checklists sobre a adequação ao CEP.
iii. Seleção e priorização dos processos adequados para o CEP: a partir das avaliações realizadas na etapa anterior, é calculado um índice de importância para cada processo e, a partir deste índice, são selecionados os processos para o CEP.
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Estas abordagens apresentam algumas limitações. Tanto GOH et al. (1998) como TARHAN e DEMIRORS (2006) não levam em consideração o relacionamento dos processos com os objetivos estratégicos da organização, o que pode levar à seleção de processos em detrimento de outros processos essenciais e que poderiam trazer mais benefícios para organização. Além disto, estas abordagens não definem claramente o nível de granularidade dos processos considerados críticos, o que é importante na área de software, devido à sua natureza.
Nenhum dos trabalhos identificados trata a seleção dos processos críticos tendo em vista a construção do modelo de desempenho. Como a construção de um modelo de desempenho confiável depende da estabilidade das medidas envolvidas, é necessário identificar de antemão quais são os processos relacionados e tratá-los como processos críticos. A identificação das variáveis envolvidas na construção do modelo de desempenho será detalhada na Seção 2.2.3.