4 A CONCRETIZAÇÃO DA PERSPECTIVA HORIZONTAL DO PRINCÍPIO DA
4.4 A subsidiariedade horizontal no contexto do programa habitacional Residencial
Dando segmento às construções teóricas, o tópico que se apresenta irá trabalhar o contexto socioeconômico santa-cruzense e seus resultados na formação da perspectiva urbana do município. A partir daí, será possível vislumbrar a realidade social na qual o mesmo está inserido e as suas demandas em relação às políticas urbanísticas, das quais tiveram como resultado o programa habitacional ora objeto deste estudo.
Mais adiante, serão trazidos os dados em torno do Residencial Viver Bem, desde as políticas que deram ensejo à sua criação, até os resultados que este empreendimento gerou para a comunidade local e para o município. Ainda, nesse diapasão, será abordado o Trabalho Técnico Social realizado durante o empreendimento para que se possa destacar os resultados obtidos com especial enfoque naqueles ligados aos preceitos de gestão subsidiária.
O Município de Santa Cruz do Sul é uma cidade polo da microrregião Centro Oriental Rio-Grandense, cercado por morros e cortado por diversos córregos e
arroios. A partir do início do século XX, o processo de urbanização de Santa Cruz do Sul recebeu um forte estímulo incentivado por uma progressiva industrialização centrada principalmente na agroindústria fumageira. Nas décadas seguintes, muitas mudanças econômicas se processaram entre fases de crescimento e recessão. O início da internacionalização do setor agroindustrial fumageiro, em meados da década de 1960, promoveu transformações significativas quanto às relações de produção, bem como sobre a própria estruturação física da cidade. Isto é, além de facilidades geradas pela implantação de uma moderna infraestrutura, também estimulou a migração rural-urbana e a consequente expansão de bairros operários da periferia. (WINK, 2002).
O terceiro período (1882-1917) foi fortemente marcado pela produção e exportação de tabaco, mecanização do processo produtivo, ainda que de forma incipiente e início da industrialização. No quarto período (1918-1965) o município apresentava uma produção agrícola e industrial em expansão e um incremento nos serviços e equipamentos urbanos, mas ainda com o predomínio de unidades de produção artesanal organizadas a partir de relações coloniais dominada pelas poucas unidades de produção capitalista. Um quinto período (a partir de 1966), que em linhas gerais estende-se até os dias atuais, traz junto com o processo de desnacionalização da indústria do tabaco a consolidação de Santa Cruz do Sul enquanto polo regional, reconhecido internacionalmente pela especialização no processamento do tabaco em folha (SILVEIRA, 2003; WINK, 2002).
Cabe salientar que a posição central de Santa Cruz do Sul foi estrategicamente importante para o desenvolvimento do município desde as primeiras atividades até o final dos anos sessenta, período que marca a instalação, o funcionamento e a consolidação das principais corporações internacionais de tabaco em Santa Cruz do Sul. No período atual, o espaço urbano local configura um dos mais importantes centros de processamento industrial do tabaco em escala mundial (SILVEIRA, 2003; WINK, 2002).
A constante migração em busca de oportunidades de trabalho traz consigo problemas de ordem urbanística e ocupação de solo, uma vez que acaba absorvendo um grande número de famílias que se alojam, em muitos casos, em áreas de risco, sem as mínimas condições de higiene e saneamento básico. O caráter sazonal da atividade fumageira, que oferece trabalho apenas em alguns meses do ano, força os trabalhadores safristas a buscar outras atividades para
suprir as necessidades do seu grupo familiar. Ocorre que a escassez na oferta de trabalho, associada com a desqualificação profissional para o exercício de outras atividades laborais, retiram destas famílias as oportunidades de auferir renda e garantir a sua subsistência. Esta situação faz com que essas mesmas famílias sobrevivam, em sua grande maioria, somente por meio de programas de distribuição de renda – sendo este o benefício do Bolsa Família.
Em certos casos é possível observar que a situação de pobreza em que se encontram não se restringe a dimensão material, ou seja, não estão excluídos apenas do consumo de mercadorias e da riqueza social, mas também do conhecimento necessário para compreender a sociedade da qual fazem parte e como nela estão inseridas.
Ao longo dos anos, o município vem buscando reduzir o seu déficit habitacional realizando investimentos em moradias populares, como foram os casos dos residenciais Santa Maria I e II do PAC, o residencial Santo Antônio, entre outros.
Nesta esteira, o empreendimento habitacional denominado Residencial Viver Bem, localizado a Rua Victor Frederico Baumhardt, Bairro Dona Carlota, Zona Sul de Santa Cruz do Sul, visa atender uma demanda por moradia popular ainda existente, além das situações de famílias residentes em ocupações irregulares como áreas de alagamento, áreas verdes, entre outros.
Inserido neste contexto social, marcado pela ocupação desordenada e irregular do espaço urbano - similar àquele abordado no capítulo anterior – o programa habitacional Residencial Viver Bem foi planejado para a edificação de casas populares a fim de oferecer condições de habitação regular, além de oportunizar o acesso aos demais serviços públicos necessários para garantir uma vida digna aos seus moradores.
O empreendimento habitacional Viver Bem foi financiado através do Programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, por meio de recursos do Fundo de Arrendamento Nacional. O referido fundo recebeu recursos transferidos do Orçamento Geral da União para viabilizar a construção de unidades habitacionais. A medida foi tomada para atender ao déficit habitacional urbano para famílias com renda até 1.600,00 reais, considerando a estimativa da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2008 (www.caixa.gov.br, 2017).
A respeito do programa Minha Casa Minha Vida, é importante destacar que se trata da política nacional de maior iniciativa de acesso à casa própria já criada no
Brasil. O programa, responsável por uma relevante mudança na história da habitação do país, prevê diversas formas de atendimento às famílias que necessitam de moradia, considerando a localização do imóvel – na cidade e no campo – renda familiar e valor da unidade habitacional. Além disso, o programa também contribui para a geração de emprego e renda para os trabalhadores da construção civil, que realizam as obras (www.minhacasaminhavida.gov.br, 2017).
O residencial Viver Bem é hoje o maior empreendimento habitacional do município de Santa Cruz do Sul, onde, nele, foram construídas 922 casas, sendo destas 146 unidades individuais e 776 unidades geminadas. Ademais, do total de residências, 28 unidades foram adaptadas para atender aos moradores portadores de deficiências. As casas populares estão em uma área de 403.104,62 metros quadrados, sendo que, deste total, 37.624,44 metros quadrados são de área construída.
Para os sorteios do Minha Casa, Minha Vida, são estabelecidos até seis critérios. Três são definidos pelo Governo Federal – válidos para todo o Brasil - e os outros, até o limite de três, serão estabelecidos pelos Estados ou Municípios, conforme rol pré-estabelecido na Portaria do Ministério das Cidades nº 595 de 18 de dezembro de 2013 (www.cidades.gov.br, 2016). Desse modo, para que pudessem ser contempladas pelo programa habitacional, as famílias santa-cruzenses passaram por um processo de seleção, onde deveriam atender aos critérios determinados.
Os critérios estabelecidos pelo Governo Federal são pensados para atender às famílias: a) residentes em áreas de risco ou insalubres ou que tenham sido desabrigadas; b) com mulheres responsáveis pela unidade familiar, e c) de que façam parte pessoa(s) com deficiência (www.cidades.gov.br, 2016). Já aqueles determinados pelo município foram: a) residir a mais de dois anos no município de Santa Cruz do Sul; b) não ter sido contemplado em programas habitacionais do município; e c) estar em situação de emergência com laudo de avaliação formalizado pela equipe técnica social da Secretaria Municipal de Inclusão e Desenvolvimento Social e Habitação.
As famílias contempladas provêm de diversos bairros do município, inclusive da zona rural. Através do empreendimento do Viver Bem, estas tiveram a oportunidade de adquirir uma moradia regularizada e adaptada, quando necessário, nos casos de pessoas com deficiência e/ou idosos.
A seleção das famílias foi realizada através de um sorteio organizado pelo município, no dia 22 de maio de 2015. Em conformidade com a Portaria 595/2013, o resultado da seleção deu-se da seguinte forma:
Grupo 1 (famílias que atendem 6, 5 ou 4 critérios) - dos 650 selecionados 05 são homens e 645 são mulheres chefes de família.
Grupo 2 (famílias que atendem 4,3 ou 2 critérios) - dos 216 selecionados 52 são homens e 164 são mulheres chefes de família.
Grupo dos idosos, seguindo a normativa observa-se que são 3 homens e 25 mulheres chefes de família.
Grupo dos portadores de necessidades especiais, seguindo a normativa observa-se que são 04 homens e 24 mulheres chefes de família. (Grifo original)
No que tange os aspectos de infraestrutura, o Residencial Viver Bem é atendido pelos serviços públicos urbanos. Por se tratar de um loteamento novo, houve uma especial preocupação acerca do planejamento para oferecer todos equipamentos públicos necessários, diga-se rede pública de abastecimento de água, rede de esgoto com estação de bombeamento com escoo para estação de tratamento, energia elétrica, coleta de lixo e transporte coletivo. Em seu entorno, não existem fatores de risco ou insalubridade. Cabe destacar que o Plano Diretor do município fomenta o crescimento da cidade para esta região, tendo em vista os aspectos geográficos e o fácil acesso.
Coube ao município realizar as obras de abertura de acesso ao residencial Viver Bem, ligando sua rua projetada com a Avenida David Severo Mânica. Com essa intervenção, foi facilitado o acesso para utilização dos equipamentos públicos, reduzindo significativamente a distância dos bairros Santa Vitória, Faxinal Menino Deus e o loteamento Beckemkamp, como também desenvolver uma nova rota de transporte coletivo.
A atenção dada à ocupação das residências é um ponto a ser destacado neste empreendimento. Durante o processo de implantação, foi previsto a reserva de local adequado conforme as necessidades das famílias que trabalham com material reciclado. Trata-se de um espaço para acondicionar tanto os carrinhos utilizados para o transporte de papelão e seus derivados, como as baias para o descanso dos animais utilizados no transporte de tração animal, no caso, os cavalos.
4.5 Os resultados do trabalho técnico social e a concretização da perspectiva