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Se a territorialização da resolução de conflitos assume uma certa fixidez na paisagem [...] ela também é marcada por fluidez a longo prazo. À medida que a escala da acumulação econômica se expande e, com ela a necessária escala da competição e cooperação, a forma territorialmente institucionalizada de resolução torna-se cada vez mais obsoleta e desenvolvem-se novas formas espaciais alternativas.

Neil Smith, 2000, p. 143.

Curitiba, assim como outras metrópoles da semiperiferia do capitalismo, passa nos últimos anos por intensas transformações estruturais que decorrem da nova fase de modernização capitalista e seu corolário, o processo de globalização. Ao mesmo tempo em que busca se inserir na doutrina competitiva do empreendedorismo urbano aufere uma multiplicidade de processos igualmente envolvidos nas transformações do capitalismo contemporâneo que tem na reestruturação tecno-produtiva sua maior representação.

Nesta dissertação trabalhamos com empreendimentos comerciais que são produto e condição dessas transformações, tanto as que caracterizam Curitiba como metrópole competitiva, quanto as que representam mudanças gerais nas formas de comercialização e consumo. Dito de outro modo, através da análise dos processos de reestruturação urbana e varejista incididos em Curitiba reunimos meios para compreender a metrópole como processo de reprodução social em permanente transformação, que exprime simultaneamente no território a lógica do sistema produtivo e a singularidade de seu contexto histórico.

O paradigma da competitividade parece ser o principal condutor de ambas as reestruturações que se dão de modo paralelo, mas que se fundem na difusão de um modelo de desenvolvimento urbano que aliado à internacionalização crescente da produção e dos mercados elege as cidades como protagonistas desse processo, transformando-as em espaços de ganho para grandes empresas sob o pretexto da

integração aos circuitos espaciais da economia globalizada. Com efeito, tem-se o aumento de investimentos na cidade, alterando sua paisagem, organização e funcionamento.

Elementos iminentes da cidade, as lojas do comércio varejista representadas nesta pesquisa por supermercados e hipermercados de variados portes, expressam uma gama variada de mudanças da sociedade. Especialmente os grandes complexos que surgem num momento de ampliação do capital comercial varejista e de subordinação às lógicas globais expressas numa nova estrutura da sociedade, baseada no ritmo acelerado das metrópoles.

Vimos no segundo capítulo o modo como tais formatos comerciais surgiram e propagaram-se como parte da reprodução das cidades, como se transformaram em grandes corporações capazes de impor nova lógica ao sistema agroalimentar, incluindo a conexão entre produção e consumo, e sua dimensão alcançada, capaz de produzir novos conteúdos sociais. Destacamos o papel categórico das inovações técnicas nas mudanças processadas e o contexto macroeconômico da globalização dos mercados que permitiram a entrada dos grandes grupos varejistas mundiais, responsáveis diretos pela reestruturação do setor em todo o país. Num intervalo de pouco menos de vinte anos tivemos implantação, reestruturação, expansão, modernização e concentração territorial e financeira.

A análise de todo esse processo permite algumas considerações que de certo modo se fazem ambíguas. De início apontamos o favorecimento da formação de um oligopólio no setor tendo como principais beneficiadas as grandes redes mundiais que promovem de um lado incremento de produtividade e de outro a remessa de lucros produzidos no país para o exterior. A entrada dessas redes não se deu intensificada em novos investimentos, mas em significativas fusões e aquisições179 e ainda que esses grupos tenham proporcionado know-how e tecnologia ao setor – contribuições normalmente esperadas pelos países em desenvolvimento que recebem empresas estrangeiras – há diferenças entre a transferência de

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Sem dúvida a estratégia é a mais difundida pelas facilidades que dela advém. Além de eliminar a concorrência de modo direto, promove também a redução das barreiras de entrada. Com a obtenção de mercados já formados há facilidade de conhecimento e manutenção das relações de mercado com consumidores e fornecedores, da estrutura existente e dos contratos com fornecedores e agentes publicitários.

aprendizado operacional como resultado de inovação e a transferência do processo de inovação tecnológica, ou seja, de capacidade inovadora. A superioridade técnica desses agentes inovadores, elemento determinante da competitividade entre capitais segundo Singer (2004), conteve a atuação dos concorrentes nacionais representando sua perda de espaço no mercado. A fusão entre o Grupo Pão de Açúcar e a rede francesa Casino exemplifica esse processo, se restringirmos nossa análise aos movimentos desencadeados pelas maiores empresas do varejo.

As políticas de liberalização e de desregulamentação comercial promovidas nos anos 1990 influíram diretamente na constituição deste cenário, que ao contrário do desenvolvimentismo, promoveram o aumento da mobilidade do capital e a busca de rentabilidade para os países centrais. A resultante entrada de produtos estrangeiros em detrimento da proteção aos nacionais, a estabilização da moeda, e o poder de compra da expressiva população foram somados à saturação dos mercados de atuação das multinacionais varejistas transformando o mercado brasileiro atrativo para seus investimentos. Ademais, não foram estabelecidas restrições à entrada desses capitais no Brasil ao contrário das leis antimonopólicas e de regulação da construção de grandes empreendimentos estabelecidas nos países de origem dos capitais entrantes, assentando desse modo a relação desigual entre centro e periferia do capitalismo.

Ainda que o crescimento das empresas internacionais tenha se dado de modo ininterrupto e tenha sido determinante para a concentração do setor, argumenta-se que as taxas de concentração do varejo brasileiro são inexpressivas diante das apresentadas por países europeus, no que parece ser justificativa para a continuada e expressiva expansão dessas empresas180. Todavia, é preciso levar em conta as disparidades de mercado e de dimensão territorial desses países com o Brasil, cujo mercado mostra uma concentração regionalizada mesmo com a crescente expansão das grandes redes para diversas cidades de norte a sul no país, seja através de

180 Mesmo com o não cessar dos processos de fusão e aquisição, a taxa de concentração que

considera as cinco maiores empresas em atuação no país variou de 36 a 40% desde o início desse processo na segunda metade da década de 1990. Contudo, conforme salientamos no capítulo 2, deve-se levar em conta que o percentual de concentração considera as cinco maiores empresas, mas a disparidade das três primeiras – Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart – com as duas restantes nacionais – G. Barbosa e Cia. Zaffari – é enorme: respectivamente representam 57,5% e 4%, que no percentual total das cinco somam 36% do faturamento total do setor em 2006.

novas implantações como por aquisições que na dinâmica atual tem se voltado às redes médias que atuam no formato de vizinhança e de “atacarejos” 181.

A estratégia de acumulação se volta agora para a segmentação de mercado que abarca as áreas periféricas dos grandes centros urbanos e cidades do interior, onde o setor tem crescido consideravelmente e onde tem sido o principal nicho dos pequenos e médios empresários sobreviventes – a franja do oligopólio. Sendo assim, os maiores grupos do varejo mundial têm desconcentrado sua atuação ao praticar todos os formatos possíveis de comercialização para obter todos os potenciais possíveis de lucro. Com esse desígnio, o varejo nacional vem sendo suprimido de modo ininterrupto pelo imperativo crescimento da competição incessante entre concorrentes grandes que acaba por relegar e por vezes eliminar os pequenos182.

A singularidade do mercado de auto-serviço varejista em Curitiba que buscamos desenvolver neste estudo evidencia diferentes aspectos da reestruturação processada como um todo no setor. A vinda das empresas internacionais e a concentração do setor em poucas grandes empresas deu-se de modo expressivo tendo em vista a aquisição de importantes cadeias locais numa quase completa descaracterização do varejo local183. Passada a transformação, o Curitiba e o aglomerado metropolitano não constam nas perspectivas de crescimento orgânico por parte das redes Pão de Açúcar e Carrefour que se limitam apenas à manutenção de seus mercados. Isto se dá possivelmente por já terem ocupado espaço considerável na capital e pela hegemonia do Wal-Mart que domina o mercado curitibano e agora parte para cidades do interior do Paraná, possivelmente na estratégia de aumentar sua concentração na região Sul como um todo – grande parte dela advinda da atuação dos ativos adquiridos do Sonae. Para Curitiba e municípios vizinhos a rede prevê a implantação de seu formato de

181 O Wal-Mart predomina nas regiões Sul e Nordeste enquanto Carrefour e Pão de Açúcar na região

Sudeste. Nas demais regiões, assim como em alguns estados do Nordeste ainda predomina a atuação do varejo de formato pequeno, mas as grandes redes estão em expansão pelo país conforme relatado no capítulo 2.

182 Desse embate sobram algumas vantagens ao consumidor que vê a crescente profissionalização

do setor e a propagação cada vez maior de ofertas, promoções e serviços.

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Vale lembrar que as redes locais outrora negociadas investiram o montante adquirido em outras atividades. Enquanto os Demeterco, antigos proprietários do Mercadorama controlam uma empresa de logística e grande parte do capital acionário de um shopping center, os Senff, ex-proprietários do Parati, investiram em atividades de concessão de crédito e são parceiros de diversas cadeias médias e pequenas de supermercados de Curitiba além de outros tipos de comércio de varejo.

descontos, da bandeira Todo dia, numa clara estratégia de segmentação para os grupos sociais menos favorecidos e de afastamento de seus concorrentes, tendo em vista o espaço possivelmente deixado pela reformulação das suas lojas Mercadorama – agora requintadas – e também o espaço representativo ocupado pelas redes menores e lojas independentes que atuam nas áreas periféricas.

Os que “sobraram” dos processos de fusão e aquisição e sobreviveram à atuação preeminente das internacionais têm dinamizado o setor na capital e aglomerado metropolitano. Enquanto os grandes regionais, Muffato e Angeloni, assim como o local Condor continuam com suas estratégias de reformas e crescimento orgânico na capital privilegiando áreas promissoras de circulação, os médios regionais têm investido em reformas e novas implantações visando consolidar sua atuação no segmento de vizinhança que se dispersa por todo o território da capital e áreas estratégicas dos municípios arredores184.

Paralelamente seguem atuando as lojas independentes e outras redes menos expressivas que, mesmo com o avanço das grandes redes, mantiveram-se no mercado buscando adaptar-se aos novos padrões do varejo moderno através da realização de investimentos e parcerias cooperativas, fato atribuído inclusive à presença das estrangeiras como um condutor natural de informação sobre mercados e tecnologias. Todavia, conforme discutido nesta dissertação, a reação das cadeias médias e a sobrevivência dos independentes – tônica das recentes análises do setor – têm relação direta com as mudanças de comportamento do consumidor influenciadas tanto pelo ritmo acelerado de vida nas metrópoles quanto por políticas macroeconômicas como a melhoria da renda da população que estimulou fatores como a conveniência para se abastecer185.

Por isso, é preciso relativizar a idéia de domínio das grandes redes, disseminada em algumas análises sobre o setor. De fato a supremacia das grandes

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Após as aquisições para adentrar no mercado curitibano processadas pelo Grupo Beal (Festval) e Grupo Diplomata (SuperDip) as empresas têm investido cada qual a seu modo na consolidação do seu mercado. Enquanto Festval continua na atuação em bairros centrais com lojas especializadas, o SuperDip foca sua expansão para a periferia com lojas mais populares privilegiando as camadas menos abastadas da população. Nesse sentido parecem caminhar também a rede Kusma e o Jacomar. Já a Rede Master espera agregar novos associados para aperfeiçoar as atividades coletivas em prol de suas unidades.

185 O aumento do mix comercializado em farmácias, padarias e lojas de conveniência agregadas a

redes é capaz de prejudicar os menores concorrentes inclusive os levando à falência, mas o mercado ocupado pelas pequenas lojas se mostra significativo mesmo com o vigoroso processo de concentração e centralização do capital do setor. Beneficiando-se pelas razões supracitadas e investindo em adaptação aos novos padrões do varejo supermercadista, pequenas e médias redes não só mantiveram como ampliaram sua participação no mercado como exemplifica a atuação das redes Kusma e Jacomar. O supermercado Gasparin também expressa esta reação, já que mesmo com grandes concorrentes bem próximos conseguiu se ajustar aos novos padrões e manter sua clientela sem precisar associar-se a outros lojistas ou fornecedores. É nesse contexto que justificamos a investigação de médias e pequenas lojas nesta pesquisa, que podem não contribuir de modo eficaz para análise da constituição da metrópole no que se refere aos novos conteúdos, mas revela as condições de atuação dos agentes do comércio varejista curitibano noutro extremo do setor face às transformações da metropolização.

Embora acreditamos ter cumprido o objetivo de desvendar as transformações do setor e sua recente dinâmica, vela destacar algumas questões deixadas em aberto, como a que se refere aos números do setor na capital, especialmente pela ausência de informações precisas e atuais, tanto na quantidade de empreendimentos quanto na falta de apresentação dos critérios de classificação para os números disponibilizados. A pouca participação das redes também foi significativa, do médio ao grande empreendedor, evidenciando a dificuldade de se obter diretamente na fonte informações e dados para fins de pesquisa.

Retomando a análise da atuação das multinacionais e que se estendem às cadeias nacionais de atuação expressiva no varejo, destacamos ainda fatores como a representação no mercado de trabalho, a propagação da oferta de crédito ao consumidor e a diversificação de seus negócios.

A vinda das grandes redes para Curitiba significou um número muito superior de postos de trabalho por estabelecimento em relação ao gerado pelas indústrias instaladas no aglomerado metropolitano186. Em nível nacional Pão de Açúcar e Wal- Mart estão entre as empresas privadas que mais empregam e que mais ofertam

186 Firkowski estabelece tal comparação quando discorre sobre as transformações nas atividades

comerciais e de serviço em função da instalação das montadoras no aglomerado metropolitano de Curitiba e da transformação da cidade em metrópole (2001, p.244).