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5.6 ESTRATÉGIAS, TÉCNICAS E INDICADORES DE RECUPERAÇÃO AMBIENTAL

5.6.1 Sucessão: consórcio e auto-sustentabilidade

Inúmeros autores têm sugerido a sucessão natural (secundária) como modelo para recuperação de áreas degradadas (KAGEYAMA; REIS; CARPANEZZI, 1992; GRIFFITH; DIAS; JUCKSCH, 1994; KAGEYAMA et al., 1994; CAMPELLO, 1998; RODRIGUES; GANDOLFI, 1998; REIS; ZAMBONI; NAKASONO, 1999; GRIFFITH; DIAS; MARCO JÚNIOR, 2000; KAGEYAMA; GANDARA, 2000). A sucessão secundária consiste no mecanismo pelo qual as florestas tropicais se auto-renovam, através da cicatrização em locais perturbados, como as clareiras (GOMES-POMPA, 1971).

Diferentemente da sucessão secundária, ocorrente em clareiras de floresta primária, em áreas antropicamente alteradas de grande extensão, a sucessão apresenta características distintas, principalmente quanto à origem das espécies vegetais no início do processo da

sucessão (KAGEYAMA et al., 1994). Para esses autores, neste contexto podem-se encontrar dois grupos de espécies vegetais: as denominadas de pioneiras antrópicas, espécies vegetais não tipicamente pioneiras na fase da floresta primária, mas que fazem o papel de pioneiras na sucessão de áreas antrópicas; as espécies vegetais secundárias, normalmente raras na floresta primária, mas que em áreas alteradas pelas ações humanas, fazem o papel de pioneiras. Como exemplo de espécie vegetal pioneira antrópica, o autor cita, entre muitas outras, a bracatinga (Mimosa scabrella).

No estabelecimento de modelos de plantios mistos de espécies arbóreas nativas para recuperação ambiental, independentemente da sua origem, as espécies poderiam ser agrupadas em dois grandes grupos: as Pioneiras (ou Sombreadoras) de crescimento mais rápido e as Não Pioneiras (Sombreadas) de crescimento mais lento na fase inicial do ciclo de vida. Segundo os autores, os modelos de plantios mistos devem basicamente compatibilizar estes dois conjuntos de fornecimento e requerimento de luz. As espécies pioneiras teriam distintas capacidades de sombreamento, assim como as não pioneiras teriam diferentes graus de exigência à luz (KAGEYAMA et al., 1994).

As diferenças de crescimento entre espécies secundárias e climácicas são pequenas em relação às pioneiras, e isto se deve ao fato de que as últimas requerem menores quantidades de nutrientes na fase inicial de crescimento. Fatores como micro e macronutrientes, microorganismos e características físicas e compactação do solo podem ser responsáveis pela diferença do crescimento das plantas. Estas variações do solo normalmente estão associadas a variações da topografia (DAVIDE, 1994).

A aplicação da sucessão ecológica na recuperação de florestas mistas segue basicamente o modelo natural da sucessão. Martins (2001) recomenda utilizar o maior número possível de espécies para gerar alta diversidade; consorciar espécies pioneiras de rápido crescimento junto com espécies secundárias tardias e climácicas; plantar espécies atrativas à fauna e respeitar a tolerância das espécies à umidade do solo.

A regeneração natural é um processo importante na recuperação de áreas degradadas e depende em primeiro lugar da disponibilidade de sementes, depois da possibilidade de dispersão e finalmente das condições do meio ambiente para seu estabelecimento. As comunidades vegetais naturais evoluíram ao longo dos séculos, culminando com uma associação ótima para o máximo de aproveitamento dos recursos ambientais e do meio, de forma sustentada (SEITZ, 1994).

Na escolha das espécies vegetais para recuperação ambiental desejam-se espécies com capacidade para crescer rapidamente, proteger e enriquecer o solo, abrigar e alimentar a

fauna, recompor a paisagem e restabelecer a água no solo, entre outras funções. Na região de Alto Rio Grande, em Lavras (MG), o sucesso da recuperação não dependeu apenas da escolha das espécies, mas também da eficiência da regeneração natural no processo de sucessão, e isto depende de estudos da composição florística e da ecologia das comunidades arbóreas remanescentes (DAVIDE, 1994).

Em Porto Trombetas (PA), a sucessão vegetal com uso de espécies leguminosas fixadoras de nitrogênio propiciou maior riqueza de espécies nativas oriundas da regeneração natural e maior biomassa vegetal. Nos estratos arbóreos superiores, a oito metros de altura, poucas espécies do plantio original ainda sobreviviam, evidenciando que elas já tinham cumprido seu papel de recuperar a resiliência, permitindo à natureza controlar o processo de sucessão ecológica No caso de solos alterados por mineração, o grau de intervenção técnica necessário para sua recuperação é maior e deve incluir escarificação mecânica do solo e o uso de espécies leguminosas arbóreas adequadas ao substrato (CAMPELLO, 1998).

Quando se fala em sucessão de espécies, na realidade se está falando em sucessão de consórcios de espécies dominantes que inclui um consórcio de seres vivos, do nível macro ao micro. Para Vivan (1998, p. 72): “O grau de inter-complementaridade e sinergismo é tão grande entre as formas de vida e o meio, que o estudo das partes só pode ser feito após o entendimento do sistema como um todo.” As interações ambientais entre nutrientes, temperatura e umidade se refletem pela forma da vegetação e dos consórcios criados para otimizarem os recursos. Assim, por exemplo, a arquitetura das espécies envolvidas num consórcio reflete sua função ecofisiológica, isto é, como elas contribuem para a sucessão vegetal.

Altas densidades de sementes e plântulas no processo de regeneração natural são estratégias dos consórcios de espécies, de modo a otimizar a ocupação do espaço e o desempenho futuro. Para Vivan (1998, p. 76):

Afinal, numa simples conta de probabilidades, é mais fácil que o lugar adequado de uma planta seja encontrado pela árvore-matriz e seus agentes dispersores, do que através da mão do diligente agricultor que a planta em covas num espaçamento definitivo e em linha.

A observação da dinâmica das comunidades confirma que as espécies se substituem ao longo do tempo obedecendo às forças da natureza de uma forma heterogênea e dinâmica (GRIFFITH; DIAS; JUCKSCH, 1994) seguindo a seqüência típica da ecologia de cada região.

A sucessão de espécies é um processo crescente e dinâmico, onde a transferência de energia se dá das formas mais simples para outras mais complexas, num mecanismo de auto- regulação, de forma a manter o ecossistema saudável. Os distúrbios nos ecossistemas provocam um retorno às formas simples e a sucessão secundária leva a uma otimização dos recursos, complexificando, conservando a vida, incorporando nutrientes aos seres vivos de fazendo aumentar a energia potencial. O crescimento dos seres vivos e a própria sucessão não estão baseados na maximização da utilização dos recursos naturais (minerais, gases, solo, água...), mas na sua otimização ao longo do processo. O sucesso desta estratégia é resultado de uma co-evolução ao longo de bilhões de anos entre os seres vivos e o meio físico, e o sucesso destas interações está refletido nas formas e arquitetura de plantas e animais e seus consórcios que compõem os vários estágios da regeneração natural de um ecossistema (VIVAN, 1998).

5.6.2 Nichos, ilhas de vegetação, nucleação e postos avançados como estratégia de