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5 LILUS KIKUS EM TRADUÇÃO: POR UMA MULTIPLICIDADE

5.2 ELEMENTOS MORFOSSINTÁTICOS

5.2.1 Formas nominais e pronominais

5.2.1.1 Sufixos flexionais: o uso dos diminutivos

No processo de formação das palavras, a derivação é caracterizada pela adição de morfemas (unidades mínimas com significado) a raízes já existentes. No que se refere ao sufixo diminutivo, percebe-se que a língua espanhola, além de usá-lo no sentido comum de diminuir, atenuar proporções, tem um frequente e abrangente uso do grau diminutivo com

conotação afetiva ou, mesmo, depreciativa, algo que também detectamos na língua portuguesa.

Ao analisarmos o contexto discursivo que possibilita o aparecimento do diminutivo de acordo com as intenções comunicativas do emissor, é possível observar um leque de ambiguidades que se relacionam diretamente às idiossincrasias presentes no referido contexto de comunicação. Para tanto, a pesquisadora Jeanett Reynoso Noverón (2005) examina um corpus de 7160 contextos de uso e classifica o diminutivo em espanhol como processos de subjetivización181 condicionados culturalmente (LANGACKER, 1985, 1987, 1990, 1991a, 1991b, 1999; TRAUGOTT, 1989, 1995, 1999; TRAUGOTT; DASHER, 2001; NOVERÓN, 2001; apud NOVERÓN, 2005). Nesse sentido a autora afirma: “O uso do diminutivo no espanhol é um importante fenômeno pragmático de comunicação, mediante o qual o falante codifica sua idiossincrasia cultural e suas intenções comunicativas.”182 (NOVERÓN, 2005, p. 79, tradução nossa). Por esse viés, o lugar que ocupa o falante em determinado contexto está expresso na relação que este estabelece com a linguagem, motivando o uso do diminutivo como recurso discursivo.

No que concerne ao frequente uso dos diminutivos, este se confunde também com a história e as línguas dos povos originários da Mesoamérica. A cultura popular acredita que o amplo uso de diminutivos no México, como é o caso do enigmático e amável “ahorita”, que posteriormente abordaremos, tem sua origem no idioma náhuatl. O pesquisador José Ignacio Dávila Garibi (1959), em um artigo especializado para a revista de Estudios de Cultura Náhuatl da UNAM compila termos amplamente usados em náhuatl para marcar o diminutivo. Para tanto, inicia sua reflexão comparando México e Espanha e destacando o notório uso do diminutivo no cotidiano em terras astecas: “O abuso do diminutivo chega até os advérbios, que por sua natureza são invariáveis, e se estende a alguns modos e locuções adverbiais, tão abundantes na linguagem popular no México. Sirvam de exemplos ‘adiosito’, ‘por favorcito’,

181 A pesquisadora define o termo como: “el acto lingüístico mediante el cual el hablante, conceptualizador de la escena discursiva, ubica el lugar que quiere ocupar dentro de dicha escena, con respecto de las otras entidades participantes (interlocutor, objeto de la enunciación y/o entidad disminuida) y, con ello, establece relaciones de tipo jerárquico al interior de cada acto comunicativo, con intenciones pragmáticas de determinado tipo que intento analizar. De la posición que el hablante/conceptualizador ocupa en la escena discursiva se desprenden valoraciones pragmáticas subjetivas que creo son la motivación básica en el uso del diminutivo en español.” (Traugott, 1995, p. 31-32* apud Noverón, 2005 , p. 31- 32).

*TRAUGOTT, Elizabeth Closs. Subjectification in grammaticalization. In: Subjectivity and subjectivisation in Language. STEIN, D.; WRIHGT, S. (Eds.), Cambridge, UK: Cambridge Univ ersity Press, 1995.

182 “El uso del diminutivo en español es un importante fenómeno pragmático de comunicación mediante el cual el hablante codifica su idiosincrasia cultural y sus intenciones comunicativas.”.

‘apenitas’, etc.”183 (GARIBI, 1959, p. 92). Um dado interessante é que muitos nomes indígenas, de diversas procedências linguísticas, quase sempre são usados no diminutivo. Inclusive vocábulos de origem estrangeira como “swetter”, em espanhol “suéter”, recebem o diminutivo “swettercito”.

No entendimento do referido estudioso, o náhuatl influenciou consideravelmente a língua espanhola de variante mexicana devido a que à época da conquista, os conquistadores espanhóis viram-se obrigados a falar tal idioma para que pudessem se comunicar com os indígenas. Ainda no que se refere a este momento histórico, a influência constante e recíproca entre o idioma do conquistador e o idioma do conquistado repercutiu diretamente nos hábitos linguísticos de astecas e criollos184 da Nova Espanha, onde pode ser observado o fenômeno do bilinguismo, aspecto que contribuiu significativamente para a conformação do espanhol do México (GARIBI, 1959, p. 94, tradução nossa). Ainda de acordo com Dávila Garibi (1959, p. 92-93), os diminutivos em náhuatl pertencem a diversas classes e com diferentes significados, de acordo com o sufixo secundário com o qual se substitui o primário; por exemplo, a partir do prefixo “tzin” é possível compor uma série de palavras que integram o léxico usual no México, como é o caso de “Nono paltzinco” para “nopalitos”, que é um tipo de cactos (nopalli em náhuatl), alimento fundamental da vasta culinária mexicana. Além disso, em algumas regiões, os habitantes que têm o náhuatl como primeira língua usam com frequência determinados vocábulos no diminutivo, como: “frijolitos” para feijão (etzintli en náhuatl), “tantito” e “poquito” para um pouquinho (tepitzin en náhuatl) (GARIBI, 1959, p. 94).

Nessa perspectiva, o náhuatl percorre todo o vocabulário mexicano, dando origem a diversas palavras e expressões que demonstram o quanto esta cultura milenar imprimiu seus sentimentos nos objetos, lugares e pessoas. É válido destacar que, mesmo que o diminutivo também carregue traços de desprestígio, o afeto que marca o léxico mexicano e que diminui distâncias, proporções, atenua situações de conflito faz com que as marcas do diminutivo apresentem um condicionamento pragmático que determina as relações que os falantes estabelecem com seus interlocutores. É importante destacar também que ainda que os filhos dos espanhóis aprendessem de seus pais e familiares a língua espanhola, era com as criadas que eles passavam mais tempo, aprendendo ao mesmo tempo o náhuatl.

183 “El abuso del diminutivo llega hasta los adverbios, que por su naturaleza son invariables y se hace extensivo a algunos giros, modos o locuciones adverbiales tan abundantes en el lenguaje popular de México. Sirvan de ejemplo ‘adiosito’, por ‘favorcito’, ‘apenitas’, etc.”.

184 De acordo com o Dicionário Señas, de Martins Fontes (2001, p. 361), criollo é aquele que é descendente de

países europeus e nasceu em um território americano que esteve sob o domínio da Espanha ou de outro país da Europa. Em tal contexto, devido a que a Nova Espanha do século XVII era uma sociedade mestiça (mesmo sem o reconhecimento por parte de seus habitantes), chamavam-se criollos os que haviam nascido nessa nova sociedade de pais espanhóis ou europeus.

Em tal contexto, no que se refere à tradução, optamos por preservar sempre que possível esse encadeamento de significantes por meio dos sufixos diminutivos. Tais palavras formam redes de acordo com sua intencionalidade, conformando o tecido do texto, pois são unidades linguísticas que podem ser alvo da “expressão de realidades pragmáticas e discursivas, além de semânticas e morfossintáticas” (ALVES, 2006, p. 694). No fragmento a seguir, temos a representação de um universo infantil permeado de ternura e imaginação:

Lilus cree en las brujas y se cose en los calzones un ramito de hierbas finas, romerito y pastitos

(I: 18-20)

Lilus acredita em bruxas e costura na calcinha um raminho de finas ervas, de alecrim e graminhas

(I: 18-20) A fim de cultivar essa dimensão intimista da obra, reproduzimos o diminutivo em “raminho” e “graminhas”. A decisão de não colocar no diminutivo todas as palavras se deve a que na referida sentença soaria um pouco repetitivo, considerando que o vocábulo “calcinha” recupera também os efeitos expressivos do diminutivo. Destacamos que em português brasileiro, de acordo com o espaço discursivo e com os interlocutores, o emprego desses sufixos no cotidiano e na fala é menos frequente que se comparado ao espanhol. Contudo, tanto em espanhol como em português brasileiro, esses recursos morfológicos revelam um alto potencial de significação que demonstra a forma como os indivíduos se relacionam com o seu entorno a partir de seus propósitos pragmáticos. No que se refere ao uso de diminutivos por brasileiros, pesquisas como a de Santero (2011, p. 77), demonstram que o uso de diminutivos sintéticos para a expressão de subjetividades é característico do gênero feminino. Paralelamente, para indicar a diminuição de tamanhos, o gênero masculino utiliza os diminutivos analíticos (como “muito pequeno”) e utiliza outros recursos linguísticos para expressar sentimentos.

No que concerne às perdas e ganhos envolvidos na tradução, há ainda a possibilidade de reproduzir sentidos em outras partes do texto, uma tentativa de compensação de jogos de sentido. Observemos:

Un pobre señor chiquito dormía en el concierto. Un pobre señor

Um pobre senhor pequenininho dormia no concerto. Um pobre senhor

chaparrito de sonora respiración. Dormía tristemente, con la cabeza de lado, inquieto por haberse dormido. Cuando el violín dejaba de tocar, el sueño se interrumpía y el señor levantaba tantito la cabeza.

(II: 29-36)

baixinho de sonora respiração. Dormia tristemente, com a cabeça de lado, inquieto por ter adormecido. Quando o violino parava de tocar, o sono era interrompido e aquele senhor levantava a cabeça um tantinho.

(II: 28-35) Neste trecho “chaparrito” é o vocábulo que provoca a impossibilidade da tradução. De acordo com o Diccionario de Mexicanismos (2010, p. 105), “chaparro/a” se refere a uma pessoa de baixa estatura ou a um arbusto ou árvore de até 6 metros de altura. Pode ser usado coloquialmente para referir-se a alguém como “gorducho”: Se puso bien chaparro; ou de forma afetuosa: ¿Cómo estás chaparrita?. Assim sendo, “chaparro” é um significativo recurso expressivo o que nos impossibilita de encontrar em português brasileiro uma palavra correspondente, fazendo com que a tradução deixe para trás parte do conteúdo, porque porta noções particulares da variante mexicana.

Eis que se instaura a dúvida: devemos escolher um destes significados ou incorporar essa palavra ao vocabulário brasileiro? Ou, talvez, inserir uma nota de rodapé dando o significado? Neste momento, escolhemos a palavra “baixinho”, pois expressa a estatura do senhor e o olhar afetuoso de Lilus. Para “tantito”, que significa “pouquinho” poderíamos pensar em algumas expressões que trariam essa afetividade e coloquialismo para o texto, como: cadinho/cadim, pouquinho/poquim, bucado/bucadinho, um tantinho/um tantinho só. Contudo, algumas poderiam restringir a leitura, pois não são expressões amplamente usadas no português brasileiro. Em tal contexto e, de forma a contribuir para a doçura que permeia a descrição feita por Lilus, traduzimos “chiquito” e “tantito” para “pequenininho” e “um tantinho”. Ainda que tenhamos perdido parte dos significados que acompanham o vocábulo “chaparrito”, ganhamos em termos de sonoridade e de expressão de sentimentos.

No próximo fragmento, a menina Lilus observa atentamente a rotina de um pássaro:

Seguía paso a paso, con gran interés todas las ocupaciones del pajarito: ‘Ahorita duerme... al rato se irá a buscar comida’.

Seguia passo a passo, com muita atenção, todos os afazeres do passarinho: ‘Já já ele dorme . . . daqui a pouquinho vai buscar comida’.

(I: 39-42) (I: 39-42) Ahora, ahorita, ahorititita: assim se mede o tempo em território mexicano. Como o vocábulo mais compartilhado, o termo “ahora”, “ahorita” é amplamente usado pelos mexicanos com distintas temporalidades e intencionalidades. No Diccionario de Mexicanismos da Academia Mexicana de la Lengua (2010, p. 15), o advérbio “ahorita” traz a seguinte acepção: “después, dentro de un momento, en seguida: ‘Espérame tantito, ahorita vengo’”. Contudo, viver o “ahorita” no cotidiano mexicano demonstrará o quão indeterminado resulta esse tempo marcado pela lexia “ahora” no diminutivo, que pode significar “agora mesmo”, “mais tarde” ou “nunca”. Dessa forma, a busca por explicar tal vocábulo aparece em distintos trabalhos. Em seu livro Lo que se siente pensar o la cultura como psicología (2007), Pablo Fernández Christlieb caracteriza o “ahorita” como representação de um poema no espanhol mexicano e discorre sobre o uso dos diminutivos na fala cotidiana: "Por alguna razón, seguramente tropical, en el castellano de América hay una vocación imperiosa por convertir todas las palabras en chiquitas". O pesquisador ainda destaca que:

Os diminutivos tiram da linguagem o tom duro de uma ordem […] e dão um caráter mais amigável de conselho [...] Alguém dizer que ‘de veritas’ vai fazer os deveres ‘al ratito’, significa que só Deus sabe se isso será feito ou não. Entre prometer cumprir algo agora e prometer cumprir algo ‘ahorita’, dá tempo até de esquecer as promessas.185 (CHRISTLIEB, 2007, p. 22, grifo do autor, tradução nossa).

Portanto, a partir dos exemplos dados, percebemos a amabilidade e simpatia de uma linguagem que, ao mesmo tempo, rompe as fronteiras da norma culta de uma língua que, recordemos, foi historicamente imposta na América Latina e, é uma herança cultural que pode ser vista de duas perspectivas distintas: 1. como forma de não enfrentamento; 2. como estratégia de desvio ao não posicionar-se. Para pesquisadores como Fernández Christlieb, essa estratégia de desvio é uma forma sutil de enfrentamento. Em perspectiva diametralmente oposta, se nos remetemos a aspectos constituintes da sociedade mexicana, o poeta e ensaísta Octavio Paz em El Laberinto de la Soledad (1950, p. 42) observa que: “En todas sus dimensiones, de frente y de perfil, en su pasado y en su presente, el mexicano resulta un ser cargado de tradición que, acaso sin darse cuenta, actúa obedeciendo a la voz de la raza”.

185 “Los diminutivos le quitan al lenguaje el tono duro de la orden [...] y le otorgan más bien el matiz amigable del consejo [...] Decir que uno de veritas va a hacer los deberes al ratito significa que ya Dios dirá si se hacen o no. Entre prometer cumplir algo ahora, y prometer cumplirlo ahorita, da tiempo de olvidar las promesas.”.

Portanto, tais aspectos constituintes da identidade mexicana percorrem a linguagem e atuam como uma herança cultural carregada de questões idiossincráticas.