A maioria dos profissionais participantes deste estudo afirmou ser a primeira experiência com a metodologia da problematização e uso da técnica de pesquisa ação em capacitação em serviço. A resposta positiva desta proposta se dá quando o participante se abre para outros horizontes de atuação sugerindo melhora no processo:
[...] Acho que seria interessante se no curso os grupos se mesclarem, colocar todos os segmentos juntos. Fizemos os trabalhos em grupos e eu fico imaginando: já pensou, eu uma psicóloga da assistência junto com uma pessoa do judiciário, acho que daria para ficar melhor, a comunicação seria melhor e ver melhor a situação com outras realidades. Acho que seria interessante várias abordagens diferentes, no primeiro
momento, acho que se criaria um conflito, mas acho que todo conflito é início de algum aprendizado (E.4).
[...] acho que a integração foi o principal ponto positivo, a troca de experiências, os palestrantes conduziam as matérias e as pessoas iam interligando, foi muito bom (E.9).
A percepção do participante sobre a necessidade de uma política de recursos humanos preparados para atuarem com a questão de crack, outras drogas e familiares é necessária, pois a rotatividade de profissionais nos serviços estrangula qualquer proposta de prevenção, assistência e reinserção social à população alvo. Além do mais, é necessário que os cursos de capacitação e atualização tenham continuidade, como pode ser observado pelo participante abaixo:
[...] Eu acho que deveria ter novamente, porque tem muitos profissionais novos que estão ingressando agora, muitos saíram levando seu conhecimento e muitos que entraram agora estão crus ainda. Então, acho que deveria sempre estar fazendo esse curso e dando oportunidade pra quem não fez ainda [...] (E.8).
Mas também houve perspectivas de que outros profissionais que atuam com usuários de crack e outras drogas fossem capacitados por ser, muitas vezes, o primeiro contato quando adentram nos serviços:
[...] eu acho assim, que deveria se possível ter todo ano, tipo aqui eu e a enfermeira e se pudesse mais pessoas para participar seria melhor. Eu digo, assim, as técnicas porque elas também precisam, a pessoa da recepção por que eu não sei se o pessoal da recepção quando chegar um usuário vão saber lidar com eles, com a situação, se eles vão entender o que eles querem, o que necessitam. Então, seria bom se tivesse todos os anos e que seria assim: foi uma enfermeira e uma agente, agora vai o pessoal da recepção e a técnica pra que eles também possam ter esse conhecimento (E.1).
[...] No meu ponto de vista, todos os funcionários têm que passar por essa capacitação pra você saber atender e acolher essas pessoas e saber olhar com uma visão diferente, porque depois do curso você vê as pessoas com outro olhar, você consegue abordar o seu paciente de uma maneira mais humana e dar uma atenção melhor, até para ouvir o que ele tem para te dizer. Muitas vezes não é o paciente que vem nos procurar, são os familiares, e cabe a nós ouvir e tentar entrar e conversar com essa família, como eu vou abordar essa família? [...] (E.7).
Os serviços de saúde mental dependem muito mais de recursos humanos do que de equipamentos tecnológicos para conduzir os tratamentos e sustentar relações terapêuticas. A habilidade dos profissionais é central e influencia os usuários na escolha, adesão e continuidade dos tratamentos, de forma que a natureza do trabalho em saúde mental implica em grande envolvimento psicoafetivo com riscos de sobrecarga que podem prejudicar o papel profissional e a qualidade da assistência. Assim, o recurso humano deve ser visto como um componente dinâmico que necessita apoio e investimento permanente (MERHY, 2005).
Outras sugestões, como a abordagem da família, foi um ponto levantado nas entrevistas, visto sua importância no contexto terapêutico aos usuários de crack e outras drogas, uma vez que é no contexto familiar que se vivencia as consequências da dependência a estas substâncias (REISe MOREIRA, 2013).
Trabalhar a formação mais do profissional com a família, a abordagem com a família. Talvez fosse feito só um com a abordagem da família para ter instrumentos para atuar com os familiares. O resultado seria melhor se nós tivéssemos a capacidade de nos envolvermos igualmente com a família. Então minha sugestão é que tenha um curso voltado para o profissional que atua com dependentes químicos com relação aos seus familiares (E.3).
A percepção do profissional E.3 é pertinente e necessária ao detectar que a carga horária dos processos formativos foi insuficiente para abordar com profundidade a família do usuário de crack, outras drogas. No entanto, dar-se como muito positiva esta fala, pelo olhar do profissional a problemas que tem em seu campo de atuação, e espera que tenha a disposição de se organizar com seus pares e reproduzir o conhecimento teórico-metodológico obtido no processo formativo.
Em suma, as sugestões giraram em torno da continuação das capacitações, visto que a educação permanente aos profissionais que atuam com usuários de crack e outras drogas é um ponto importante na assistência dos serviços e, por consequência, na consolidação da rede:
Eu acho que o curso deve continuar, porque além de que mesmo que nós fazemos o curso sempre temos coisas novas a aprender, um pouco a mais para buscar ou às vezes um fato que te passou despercebido, esse curso é importante e
também porque no nosso meio está sempre chegando alguém novo, alguém que ainda não fez [...] (E.7).
O assunto sobre saber lidar com usuários de drogas deveria ser mais abordado com um meio mais eficaz. Tem sempre que ter essas capacitações, aguçar o interesse do pessoal (E.2). [...] Esse curso foi importante, acho que deveria ter mais. No curso, essa comunicação é importante porque lá reúne todos os órgãos, então isso aí é a comunicação, já que tem essa dificuldade na rede de estar comunicando, o curso reúne todo mundo, acho que a comunicação começa por aí [...] (E.5).
Ao compreender a magnitude com que se apresentam as repercussões do uso de substâncias psicoativas na vida do usuário, é imprescindível a formação e capacitação de profissionais que atuam com usuários de crack e outras drogas. Esta necessidade também foi observada no estudo de BRANCO et al. (2013) que referencia a falta de qualificação dos profissionais na assistência a pessoas com dependência química e relativiza esta afirmativa com a inexistência nos currículos dos cursos de graduação em saúde de conteúdos sobre crack, drogas e família, argumentação esta observada entre os participantes deste estudo.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A percepção dos participantes deste estudo sobre o processo formativo realizado pelo CRR/UFMT evidenciou a falta de formação e capacitação dos profissionais em sua área de atuação sobre os novos paradigmas incluso na atual Política sobre Drogas no Brasil, pactuada entre os Ministérios da Justiça, Saúde, Educação e Assistência Social, especificamente, na Política sobre Drogas que diferencia usuário do traficante, entre outros, e da Política de Saúde Mental contida na proposta da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS-MS) que vincula a assistência a todos os níveis de saúde. Cabendo ao SUAS a reinserção social e, a Educação a prevenção junto aos seus usuários.
Este estudo também evidenciou, através dos relatos dos profissionais participantes, a elevada demanda pela assistência nos serviços, bem como a complexidade da dependência química, sendo considerado um problema multifatorial faz-se necessário consolidar atuação dos profissionais em rede intersetorial, objetivo dos processos formativos.
Não obstante, para que haja a consolidação da rede intersetorial é preciso ter por partes dos profissionais e gestores o conhecimento e a desconstrução de paradigmas sobre a dependência de drogas psicoativas consubstanciadas por estigmas ao usuário referenciados como marginais, criminosos, ignorando sua singularidade e situações de vulnerabilidade sofridas no decorrer da vida, há necessidade de preparação dos profissionais para lidarem com este sofrimento (BARD et al., 2016).
A percepção dos participantes deste estudo voltada para a necessidade de mais investimento em recursos humanos sugere-se a adoção de uma política de educação permanente em virtude da boa experiência que tiveram com os processos no serviço através da pesquisa-ação, bem como, a participação de outros profissionais da saúde, entre eles, o sanitarista que junto a gestão muito irá contribuir para a substituição do modelo biomédico pelos processos de cuidados com fundamentação na epidemiologia, planejamento em saúde, ciências sociais e humanas numa visão de totalidade que requer uma rede intersetorial de assistência ao usuário de crack, outras drogas e seus familiares na sociedade contemporânea.
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APÊNDICE I
ROTEIRO DE ENTREVISTA (1) IDENTIFICAÇÃO
IDADE: ... SEXO: ( ) Masculino ( ) Feminino Formação:
Escolaridade: ( ) Ensino Fundamental ( ) Ensino Médio ( ) Ensino Superior Detalhar: 1 completo, 2 incompleto
Citar o curso superior: ... Concluído no ano... Vínculo: ( ) Efetivo ( ) Contratado. Tempo/atuação com usuário ... anos (2) QUESTÕES
A. Como você vem desenvolvendo o aprendizado teórico obtido no processo formativo, realizado pelo CRR/UFMT em 2015, no seu campo de atuação, considerando os aspectos teóricos (conteúdos sobre drogas, política sobre drogas, etc,) e a atuação prática (problematização/pesquisa acão), ou seja, fale sobre como é sua atuação prática com usuários de drogas e familiares antes e depois do curso B. Dê exemplos de experiências de sucesso e as dificuldades encontradas na atuação profissional na proposta de rede intersetorial de assistência aos usuários de crack, outras drogas e seus familiares.
C. Na sua atuação de campo, você tem mantido relação com as instituições que também atuam com usuários de crack, outras drogas e seus familiares?
( ) Sim ( ) Não
Caso positivo, como ela tem se dado? E caso negativo, aponte os motivos.
D. Na sua opinião, quais foram os aspectos positivos e negativos do processo formativo para sua atuação profissional no serviço?
E. Dê sugestões para processos formativos voltados para a assistência intersetorial de usuários de crack, outras drogas e seus familiares.
APÊNDICE II
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
PROJETO: Percepção de profissionais sobre rede intersetorial de assistência aos usuários de crack, outras drogas e seus familiares após capacitação em Processos Formativos. PESQUISADORA: Luanny Silva Ovando do Nascimento.
INSTITUIÇÃO: Universidade Federal de Mato Grosso/Instituto de Saúde Coletiva.
OBJETIVO PRINCIPAL: Analisar a percepção de profissionais sobre atuação no serviço de assistência ao usuário de crack, outras drogas e seus familiares após conclusão de processos formativos ministrados pelo CRR/UFMT em 2015, visando à obtenção de diferentes saberes e socializá-los junto a outras iniciativas de processos formativos desta natureza.
PROCEDIMENTO: Entrevista semi-estruturada com utilização de gravador digital.
POSSÍVEIS RISCOS E DESCONFORTO: “Mínimo”. Resposta a uma entrevista sobre conhecimento adquirido em processo formativo e a viabilidade na atuação profissional. BENEFÍCIOS PREVISTOS: O uso abusivo de álcool e drogas pode trazer diversas consequências ao indivíduo e o tratamento e a reinserção social oferecidas a ele são complexos e exigem experiências e estudos que auxiliem na criação e aperfeiçoamento dos serviços oferecidos ao usuário. Neste sentido, esta pesquisa propiciará aos participantes a reflexão sobre a sua atuação junto aos usuários de crack, outras drogas e seus familiares, contribuindo para com as políticas públicas de prevenção e consolidação de uma rede de assistência, a qual muito contribuirá na troca de experiência do participante com seus pares. Eu, ... (nome do participante da pesquisa, nacionalidade, idade, estado civil, profissão, endereço, RG), estou sendo convidado a participar de um estudo “Percepção dos profissionais que atuam com usuários de crack, outras drogas e seus familiares sobre o impacto dos processos formativos ministrado pelo CRR/UFMT” cujo objetivo é analisar a percepção de profissionais sobre processo formativo que participei ministrado pelo CRR/UFMT, em 2015.
A minha participação no referido estudo será no sentido de colaborar na entrevista semiestrutura sobre a efetividade do campo teórico adquirido no processo formativo ministrado pelo CRR/UFMT na prática profissional junto aos usuários de crack, outras drogas e seus familiares.
Estou ciente de que minha privacidade será respeitada, ou seja, meu nome ou qualquer outro dado ou elemento que possa, de qualquer forma, me identificar, será mantido em sigilo.
Também fui informado de que posso me recusar a participar do estudo, ou retirar meu consentimento a qualquer momento, sem precisar justificar, e de, por desejar sair da