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3. EFEITOS DO PROGRAMA CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS PARA A UNICAMP

3.4. SUGESTÕES PARA NOVOS PROGRAMAS DE MOBILIDADE E PARA A

3.4.1. SUGESTÕES PARA NOVOS PROGRAMAS DE MOBILIDADE

mobilidade do governo federal ou de agências de fomento. Para montar esta seção, foram utilizadas as principais sugestões dos entrevistados sobre se o CsF deveria ser retomado e em qual formato. Estas sugestões tratam da estratégia, desenho e operacionalização do programa. E apesar da descontinuidade do Ciência sem Fronteiras e da mudança presidencial ocorridas durante o período de desenvolvimento desta pesquisa, que levam a acreditar que o programa não seja retomado em um futuro próximo, ainda assim as sugestões podem ser utilizadas como reflexão para a elaboração de novos programas de mobilidade.

Com relação à estratégia e desenho do programa, sete entrevistados (sendo três gestores de internacionalização e quatro coordenadores de curso) mencionaram que o Ciência sem Fronteiras pecou em não envolver mais as universidades de origem nos processos de decisão e de negociação com as universidades de destino, conforme ilustrado nos trechos a seguir.

“No geral, o programa pode ser interessante para o país, mas precisa ser mais estruturado e pensado para cada universidade, considerando as necessidades, demandas e condições de cada uma.” (Coordenador de curso)

“Ele [CsF] poderia ser retomado como um benefício de modo geral para o país, mas tem que tomar cuidado com relação a alguns aspectos, como evitar interferir nos programas bem estruturados, ter mais controle sobre para onde o aluno está indo, gerar possibilidade de controle dos coordenadores de curso sobre o que os alunos estão fazendo ou deixando de fazer.” (Coordenador de curso)

“Se o programa tivesse liberado a negociação entre universidades, o programa teria sido mais bem aproveitado.” (Gestor de internacionalização)

“Tem que repensar, focar mais que as universidades tenham mais autonomias em decisões. Deveria dar o valor para as universidades e elas cuidam do valor e escolhem para onde apontar. Dar recursos para as parcerias.” (Gestor de internacionalização)

Em sete entrevistas (sendo três com coordenadores de curso e quatro com gestores de internacionalização) foi também mencionado que um programa de mobilidade deste porte deveria ser mais bem planejado, com objetivos mais claros e permitindo maior tempo de preparação das universidades38.

Todos os seis gestores de internacionalização e quatro coordenadores de curso mencionaram também que o programa poderia ser feito com menos recursos ou em maior tempo, para que ele pudesse ser mais sustentável. Abaixo um trecho de uma entrevista com um dos gestores de internacionalização, que sintetiza esse tópico:

“Tem o problema do tamanho, do gigantismo que quiseram alcançar. Sempre faço a analogia de que parece que fomos jantar no melhor restaurante francês à noite, e no outro dia estávamos dormindo embaixo da ponte. (...) Foram muitos recursos despendidos no programa, sem planejamento, sem avaliação adequada. (...) Tinha que planejar, ouvir a comunidade. (...) Poderia ser menor, mais sustentável, acompanhando, vendo resultados. Isso mudaria muito no programa.” (Gestor de internacionalização)

Dois coordenadores de curso e dois gestores de internacionalização entrevistados sugeriam que o programa deveria ter sido mais rígido para a modalidade graduação sanduíche, tanto em termos de seleção quanto em termos de controle das atividades realizadas no exterior pelos beneficiários. Abaixo trecho de uma entrevista com um gestor de internacionalização.

“Se o programa mandasse somente os melhores, iria melhorar o rendimento de todos, porque os alunos iam perceber que o

38 Apesar disso, um gestor de internacionalização acredita que ainda que o governo federal tivesse

avisado as universidades com antecedência sobre a criação do programa, talvez isso não gerasse um planejamento adequado na universidade, dada a incerteza e desconfiança da implementação de programas federais.

coeficiente de rendimento é importante. (Gestor de internacionalização)

A ideia de que o rigor de seleção deveria ser maior, no entanto, não foi consenso entre os entrevistados, visto que dois deles argumentaram que tal rigor foi acima do necessário na universidade, conforme os trechos abaixo.

“A UNICAMP criou muitas barreiras internas, além do programa. Ela começou a querer mandar os melhores alunos para fora, como se fosse intercâmbio de pós-graduação, enquanto as outras instituições mandavam muito mais (...), o que fez com que no final se mandasse bem menos estudantes para o exterior do que poderia.” (Gestor de internacionalização)

Houve um mau entendimento na questão do rendimento do aluno. Não sou favorável a ter um coeficiente de rendimento mínimo porque não acho que o programa deveria ser meritocrático. Na minha opinião, era para enviar o quanto se pudesse de alunos. Inclusive, alunos com CR menor foram para o exterior e voltaram mais motivados. Na minha unidade não precisamos usar a meritocracia, por causa da quantidade de vagas. (Coordenador de curso)

Adicionalmente, um gestor de internacionalização sugeriu que, para que o programa tivesse um resultado mais positivo na pesquisa da universidade, uma opção seria incentivar que o estudante beneficiado realizasse pesquisa na universidade após seu retorno ao país. Um coordenador de curso também sugeriu que se exigisse uma contribuição social do estudante após seu retorno ao país, mas através da obrigatoriedade de realização de monitoria na sua universidade.

Em termos de estabelecimento de parcerias, um dos coordenadores de curso entrevistados sugeriu que um programa de mobilidade deveria estimular mais a cooperação entre as universidades, indo além da permanência do aluno no programa, para que os benefícios do programa pudessem ir além da mobilidade de alunos. Essa mesma sugestão foi mencionada em uma entrevista com um dos gestores de internacionalização, conforme trecho abaixo.

“Ele [CsF] deveria ser retomado com um processo de seleção e aproveitamento diferentes. (...) deveria exigir que tenham acordos ativos de intercâmbio entre as universidades, e fazer exigências para renovar esses acordos, porque assim só se troca com quem faz sentido para a universidade.” (Gestor de internacionalização)

Um dos coordenadores sugeriu, adicionalmente, que um programa de mobilidade deste porte deveria também exigir da universidade de destino uma contrapartida ao envio dos estudantes, que poderia ocorrer na forma de cooperação em pesquisa, por exemplo. Esta sugestão é particularmente interessante já que, conforme visto na introdução desta pesquisa, existe uma competição no mercado internacional de ensino, no qual as instituições e governo vêm buscando maior competitividade para atraírem estudantes e, assim, adquirirem novas fontes de financiamento (CHOUDAHA, 2017; ENGBERG et al., 2014; VERBIK; LASANOWSKI, 2007). Deste modo, o Ciência sem Fronteiras consistiu em uma oportunidade para as universidades estrangeiras que, conforme um gestor de internacionalização entrevistado “viam no Brasil uma oportunidade de

melhorarem suas rendas”. Conforme Chaves (2015, p.6), “os dados apontam que a

política [CsF] contribui para o fortalecimento do grande mercado mundial da educação superior”.

Uma sugestão citada em seis entrevistas, sendo duas com coordenadores de curso, duas com gestores de internacionalização e duas com coordenadores técnicos foi a de que o programa deveria ter investido mais em outras modalidades, como pós-graduação, pós- doutorado e atração de cientistas. Dois entrevistados (um gestor de internacionalização e um beneficiário de pós-doutorado) também mencionaram que seria interessante investir também em mobilidade de docentes e/ou coordenadores de curso, com o intuito de adquirir formas de melhoria dos cursos na universidade, algo que já estava sendo feito pela UNICAMP, conforme visto no Capítulo 2.

A próxima seção sintetiza as sugestões para a melhoria da internacionalização na UNICAMP, conforme as entrevistas realizadas.

3.4.2. MEDIDAS PARA A MELHORIA DA INTERNACIONALIZAÇÃO