O suicídio é um termo que deriva de dois vocábulos de origem latina: sui (de si mesmo) e caedere (matar), ou seja, matar-se a si mesmo. De acordo com a OMS115, o suicídio é uma das dez causas de morte mais frequentes em muitos países do mundo, configurando um problema de saúde pública, cuja prevenção “envolve uma variedade de atividades, incluindo a boa educação das crianças, aconselhamento familiar, tratamento das perturbações mentais, controle ambiental de fatores de risco, e educação da comunidade.” Pois como bem se refere no relatório, 116
“os suicídios resultam de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociológicos, culturais, e ambientais.”
Nessa medida, o suicídio não poderá deixar de estar ligado também à realidade laboral, determinando exigências de prevenção de exposição a riscos psicossociais.
Passando os olhos pela comunicação social, não deixamos de verificar que, sobretudo nos anos mais recentes, tem-se assistido a vários casos de suicídio que poderão estar ligados ao trabalho. Foram amplamente divulgados os designados casos
Renault e France Télécom, que fizeram despertar, a discussão em torno da matéria
respeitante a riscos psicossociais, assédio moral e consideração da ligação entre trabalho e suicídio. Entre 2006-2007, houve cinco suicídios consecutivos na Renault. Quatro dos trabalhadores suicidaram-se nas instalações da empresa, e um outro, de origem portuguesa, suicidou-se fora do local de trabalho. No período de 2007 a 2009, fase em que se assistia à privatização e restruturação da empresa, registou-se uma vaga de suicídios na France Télécom, que terá chegado a 34. Inicialmente o Presidente da empresa, Didier Lombard, falou em “moda do suicídio”, o que gerou intensa contestação. Contudo, perante cartas de despedida que denunciavam as práticas da empresa, tais suicídios não deixaram de se considerar como estando relacionados com o trabalho.
115 OMS, Prevenção do Suicídio – Um Recuso para Conselheiros, Genebra, 2006.
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Em Portugal, não deixam de ser paradigmáticos nesta matéria, os 15 suicídios ocorridos no seio das forças de segurança, PSP e GNR, no decurso do ano de 2015117, sendo que muitos deles ocorreram no local de serviço, e todos com recurso a arma de fogo. Não deixa de se assinalar um caso em especial, em que uma das agentes da PSP, que trabalhava na esquadra de Águas Santas, na Maia, deixou em carta de despedida, o pedido de que não fossem usadas fardas no seu funeral.
Em Portugal, verifica-se um despertar de consciências relativamente a esta matéria, mas é na França que se tem assistido a um maior desenvolvimento da discussão.
Atento ao fenómeno, o jornalista francês Ivan Du Roy, elaborou estudo sobre as condições de trabalho na ex- France Télécom, atualmente designada como Orange, que intitulou de “Orange Stressé”. Em entrevista, aquando do lançamento do estudo, em finais de 2009, explicava porque considerava que a privatização da empresa influenciou a onda de suicídios: “No caso da France Télécom, a privatização foi traduzida pelos empregados como uma reestruturação. Só para se ter uma ideia, em 1996 a estatal tinha 165 mil funcionários; hoje, tem 100 mil. Em dez anos, 70 mil pessoas foram forçadas a partir. A maioria dos empregados eram técnicos. Hoje todos os cargos são voltados para o setor comercial e de vendas. Milhares de empregados foram obrigados a mudar de profissão. A empresa tinha funcionários em todo o país. Várias agências fecharam e os funcionários foram obrigados a mudar de cidade. Durante anos, os trabalhadores tiveram que se adaptar a essa restruturação. Isto criou um sentimento de incerteza, de
stress. Eu encontrei pessoas que em dois anos mudaram cinco vezes de lugar de
trabalho; quer dizer, de escritório, de colega, de chefe. Pior ainda, a média de idade é de 48 anos. A grande maioria dos trabalhadores entrou na empresa quando ainda era estatal. (…) Passando de uma cultura de serviço público para uma cultura comercial, todo esse sentido que eles davam ao trabalho perdeu-se. E essa é uma das principais causas de sofrimento, de depressão que, em casos extremos, leva ao suicídio118.”
Christophe Dejours119, psiquiatra, na reflexão que fez acerca do suicídio no trabalho, considera que a mudança se verifica na emergência de suicídios e tentativas de suicídio no próprio local de trabalho, o que é uma “mensagem extremadamente brutal (…) dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à
117http://expresso.sapo.pt/sociedade/2015-11-27-Ha-morte-na-esquadra-1
118 Disponível em http://www.sjpdf.org.br/comunicacao/noticias/39-noticias-antigas/238-france-telecom-delirio-financeiro-e-
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71 empresa.” Considera que para tanto, contribuiu decisivamente a mudança na organização do trabalho, como seja através da introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total” e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário. No que concerne à matéria de assédio no trabalho, sustenta que o mesmo não é uma realidade nova, mas que em face do desaparecimento das solidariedades, do facto das vítimas se verem sós perante o assediador, este acaba por conduzir ao adoecimento dos trabalhadores. Quando questionado acerca do modo de distinção de um suicídio ligado ao trabalho ou devido a outras causas, refere que “Quando as pessoas se matam no local de trabalho, não há dúvida de que o trabalho está em causa. Quando o suicídio acontece fora do local de trabalho e a pessoa deixa cartas, um diário, onde explica porque se suicida, também não há dúvidas – são documentos aterradores. Mas quando as pessoas se suicidam fora do local de trabalho e não deixam uma nota, é muito complicado fazer a distinção. Porém, às vezes é possível.” Acrescenta que relativamente à questão do suicido se dever a razões pessoais, e não ao trabalho, se mostrar necessária uma investigação muito aprofundada, pois como indica “Toda a gente tem problemas pessoais. Portanto, quando alguém diz que uma pessoa se suicidou por razões pessoais, não está totalmente errado. Se procurarmos bem, vamos acabar por encontrar, na maioria dos casos, sinais precursores, sinais de fragilidade. Há quem já tenha estado doente, há quem tenha tido episódios depressivos no passado. (…) Mas se a empresa pretender provar que a crise depressiva de uma pessoa se deve a problemas pessoais, vai ter de explicar porque é que, durante 10, 15, 20 anos, essa pessoa, apesar das suas fragilidades, funcionou bem no trabalho e não adoeceu.”
Como se vê, o trabalho, que deve, por inerência, constituir meio de realização pessoal, pode, por vezes, assumir-se como o “gatilho”, conducente ao ato extremo de suicídio. Na sombra, encontrar-se-á um trabalhador exposto a fatores de risco psicossocial, mormente assédio moral, que o conduzem as mais das vezes à depressão, e por fim ao suicídio. Atenta tal realidade, iniciou-se discussão quanto à possibilidade de vir a considerar o suicídio ou tentativa de suicídio como acidente de trabalho ou doença de trabalho.
Ora, no suicídio, a qualificação como doença de trabalho torna-se inviável, na medida em que o trabalhador não permanece vivo, sendo que nas situações de tentativa de suicídio, poder-se-ia ainda colocar tal hipótese. Contudo, parece-nos que, tendo a
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doença de trabalho, um cariz insidioso, a tentativa de suicídio se aproxima mais da subitaneidade própria de um acidente de trabalho.
Entre nós, Rita Garcia Pereira120, advoga, a qualificação do suicídio como acidente de trabalho, na medida em que “o motivo determinante para a decisão de cometer suicídio está relacionado com o processo de assédio moral a que a pessoa foi sujeita (…).”Sustenta tal conclusão, por se verificar a subitaneidade do evento que determinou o dano, ainda que a este subjaza um processo continuado no tempo: “Na verdade, pese embora o trabalhador seja objeto de uma contínua pressão, existe um determinado evento – cuja relevância. Objetivamente considerada, pode nem ser assinalável – que o leva a desistir da vida. E (…) no caso de ter sido este evento (ou até mesmo a concorrência dele com outros, ainda que da vida pessoal da vítima) o que acarretou que o trabalhador se suicidasse, verifica-se um nexo causal entre o estado de sujeição que caracteriza o vínculo laboral e o dano, pelo que se justifica em pleno a qualificação como contingência laboral.” Por outro lado, afasta a descaracterização do acidente, em virtude do entendimento de que o suicídio constitui sempre um ato voluntário, por entender que “uma pessoa que comete um ato destes como resultado de um longo processo de verdadeiro assassinato profissional e pessoal não está na plena posse das suas faculdades mentais e não consegue formular uma vontade livre e esclarecida121.” Assim, para a autora, verificando-se o nexo causal entre a prestação de trabalho e o dano morte, ou seja provando-se que o suicídio encontra a sua motivação na prestação de trabalho, ainda que cumulativamente com outras razões, deverá qualificar- se o mesmo como acidente de trabalho. Mais, advoga que, também aqui funciona a presunção legal, devendo ser o empregador a provar que os motivos inerentes ao suicídio foram exteriores à relação laboral.
Também Ana Cristina Ribeiro Costa122 defende que quer o suicídio, quer a tentativa de suicídio, poderão ser qualificados como acidente de trabalho, “desde que preenchidos os vários requisitos desta contingência, isto é, tratando-se de evento de caráter anormal, involuntário, que produza “lesão corporal, perturbação funcional ou doença, de que resulte redução na capacidade de trabalho ou de ganho ou a morte” (art. 8º da LAT), verificando-se o referido nexo causal, ou verificando-se uma das presunções legais.” Mais, não deixa de admitir que o suicídio possa ser considerado
120 RITA GARCIA PEREIRA, pp. 212-213.
121 RITA GARCIA PEREIRA, p. 212.
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73 acidente de trabalho, ainda que esteja na sua origem outro motivo, que não o assédio moral.
Tais posições poderão contender com a definição de acidente de trabalho e bem assim colocar-se no plano da sua descaracterização.
No que concerne ao 1º problema, há a considerar que para falarmos de acidente, tal implica que estejamos na presença de um facto involuntário. Ora, em abstrato, o suicídio constitui um ato voluntário. Contudo, alguns autores defendem que neste caso não se verifica existir uma vontade livre e esclarecida, não podendo concluir-se pela voluntariedade do ato. O juiz espanhol, Lousada Arochena123, escreve que “um ato doloso é sempre voluntário – ou essencialmente voluntário, ao prevalecer a vontade sobre os determinismos. Já no suicídio a vontade, como faculdade mental ligada à vida, foi submetida – diga-se redundantemente – a determinismos determinantes de uma intenção suicida, destruidora da vida e da própria vontade.” Dá a este título, o exemplo da jurisprudência alemã que tem vindo a entender que a intenção de suicidar-se é um ato não voluntário.
Relativamente ao 2º problema, atentemos ao disposto na alínea a), do nº 1, do artigo 14º da LAT, que sob a epígrafe “descaracterização do acidente”, regula as situações em que o empregador não tem de reparar os danos decorrentes do acidente. Ou seja, como já variada doutrina se tem pronunciado, neste caso não deixa de se concluir pela existência de um acidente de trabalho, mas cuja reparação fica excluída124. Assim, determina tal preceito que “1- O empregador não tem de reparar os danos decorrentes do acidente que: a) For dolosamente provocado pelo sinistrado ou provier de seu ato ou omissão, que importe violação, sem causa justificativa, das condições de segurança estabelecidas pelo empregador ou previstas na lei.” A noção de dolo aqui utilizada é próxima do conceito de dolo utilizado em direito penal, na medida em que este tem consciência do ato determinante do evento e das suas consequências, assim como possui a vontade de o praticar. Dessa feita, segundo Avelino Braga125, “doloso é, portanto, todo o acidente intencionalmente provocado pela vítima, que previamente aceitou as suas consequências nocivas para obter a respetiva reparação, ou por simples maldade em vista a prejudicar o patrão ou o companheiro.” Sachet126, afirma que “Por
123 JOSE FERNANDO LOUSADA AROCHENA, “O Suicídio como acidente de trabalho (Comentários ao processo STSJ/Galicia
de 4 de abril de 2003)”, disponível em https://jus.com.br/artigos/5466/o-suicidio-como-acidente-de-trabalho
124 A título de exemplo MARIA DO ROSÁRIO PALMA RAMALHO, op. cit., p. 834, nota 131. e ALEGRE, op. cit. p. 59.
125 AVELINO MENDONÇA BRAGA, op. cit. p. 216
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intenção deve entender-se, não só a vontade de realizar o ato que provoca o acidente, mas ainda o facto de querer a reparação que é a sua natural consequência.”
Ora, perante tais considerações, somos a concluir que no caso do suicídio motivado pela própria prestação de trabalho, não se verifica a existência de dolo, no sentido exposto, na medida em que a vontade do trabalhador “foi submetida – diga-se redundantemente – a determinismos determinantes de uma intenção suicida, destruidora da vida e da própria vontade127.”
Para além destes problemas centrais, afigurar-se-ão existir outros, como situações de fraude, na medida em que quem já estivesse decidido a suicidar-se fá-lo-ia no local e tempo de trabalho, de molde a favorecer os beneficiários de pensões por morte. E ainda a exigência, ou não, de que o trabalho constitua causa exclusiva do suicídio.
Em Portugal, verifica-se que os Tribunais portugueses não têm sido chamados a pronunciar-se, pelo menos frequentemente, sobre a presente matéria. Neste domínio, destacam-se dois Acórdãos do TRC e STJ, de 2010, sendo o primeiro objeto de recurso no Tribunal Superior. No Acórdão do TRC, processo nº 196/06.8 TTCBR – C1, de 28/01/2010128, o Tribunal chamado a pronunciar-se sobre o suicídio de um trabalhador que ocorreu na sequência de um acidente de trabalho, concluiu que: “II - A morte por suicídio não pode ser caracterizada como acidente e muito menos de trabalho. III – Se, por um lado, não estão reunidos os pressupostos legais constantes do artº 6º da Lei nº 100/97, de 13/09, designadamente que a morte tenha ocorrido no local de trabalho, por outro, no suicídio a morte não ocorre de modo não intencional ou involuntário. VII – Haverá lugar a reparação quando seja possível estabelecer um nexo de causalidade adequada entre o acidente e a morte do sinistrado por suicídio, não colhendo, nesse caso, o argumento de que o contrato de seguro não cobre o risco de suicídio (a morte ocorrida por suicídio é reparável desde que possa ser atribuída a um acidente caracterizável como de trabalho).” Tendo sido colocada em crise, tal decisão, em 16/12/2010, o STJ129 decidiu que “I. No âmbito da LAT, a noção de acidente de trabalho reconduz-se a um acontecimento súbito de verificação inesperada e origem externa, que provoca direta ou indiretamente lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte a morte ou redução na capacidade de trabalho ou de ganho do trabalhador, encontrando-se este no local e no tempo de trabalho, ou nas situações em
127 JOSE FERNANDO LOUSADA AROCHENA, op.cit.
128 Ac. TRC 28/01/2010, (Felizardo Paiva), processo nº 196/06.8 TTCBR, disponível em www.dgsi.pt.
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75 que é consagrada a extensão do conceito de acidente de trabalho. II. O acidente de trabalho, enquanto noção ou conceito normativo, comporta outros elementos para além do evento naturalístico, ou seja, configura uma realidade complexa composta por aquele evento e pelo necessário nexo a estabelecer entre ele e as lesões quer para a vítima advenham e entre estas e a incapacidade de ganho ou a morte. III. Estando demonstrado que o evento naturalístico causador das lesões sofridas pelo sinistrado consistiu na explosão de uma lata com materiais inflamáveis que viria a, imediatamente, provocar no mesmo várias queimaduras que foram causa adequada das lesões e que determinaram lhe fosse atribuída uma incapacidade permanente parcial, o suicido do sinistrado – enquanto ato conducente à morte – não pode ser subsumível ao conceito de lesão ou seu agravamento, por consistir, ele próprio, num ato idóneo à produção da morte. IV. A descaracterização de acidente de trabalho, nos termos do disposto no art. 7.º, n.º 1, al. a) da LAT – que não prescinde da sua eclosão, no tempo e lugar de trabalho, e da produção de lesões que sejam causa adequada à perda de capacidade de ganho ou à perda da vida – determina a não reparabilidade dos danos que do mesmo provenham em razão de a conduta assumida pelo sinistrado ser a causa desse acidente, pelo que, a conduta deste tem que se situar a montante da ocorrência do acidente, o que não sucede, no caso de um suicídio. V. A obrigação de indemnizar só tem cabimento quando existir um nexo de causalidade entre o ato ilícito do agente e o dano produzido, exigindo a lei, para fundamentar a reparação, que o comportamento do agente seja abstrata e concretamente adequado a produzir o efeito lesivo. VI. A afirmação do nexo causal entre o facto e o dano comporta duas vertentes: - a vertente naturalística, do conhecimento exclusivo das instâncias, porque contido no âmbito restrito da matéria factual, que consiste em saber se o facto praticado pelo agente, em termos de fenomologia real e concreta, deu origem ao dano; - a vertente jurídica, já sindicável pelo Supremo, que consiste em apurar se esse facto concreto pode, em abstrato, ser havido como causa idónea do dano ocorrido. VII. Estando provado que a morte do sinistrado ocorreu por ato próprio do mesmo quando pôs termo à própria vida por enforcamento, é de afirmar a quebra do nexo causal entre as lesões decorrentes do acidente que o sinistrado anteriormente sofrera e o dano (a morte) que sobreveio em momento ulterior pois esse dano não surgiu como decorrência típica ou adequada daquelas lesões. VIII. Tanto mais quando não está demonstrado que o quadro depressivo de que o sinistrado padecia resultante daquele acidente tenha sido causa adequada da sua morte, posto que esta não surge como desenvolvimento causal de tal lesão, antes decorre de ato praticado
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pelo próprio lesado e, nessa medida, insuscetível de ser imputado à Ré, no quadro da sua responsabilidade infortunística.”
Nessa medida, como se vê, a jurisprudência portuguesa não tem aceitado a qualificação do suicídio como acidente de trabalho.
Feita uma análise comparatística com outros ordenamentos jurídicos, nomeadamente o espanhol e francês, verifica-se já existirem decisões judiciais considerando o suicídio como acidente de trabalho, sobretudo “tem admitido a possibilidade de caracterização do suicídio como acidente laboral desde que exista um nexo de causalidade claramente provado, como, por exemplo, quando o suicídio decorre de um estado mental patológico produzido, por sua vez, por um acidente de trabalho anterior130.”
Assim, em Espanha, a jurisprudência tem vindo a aceitar, que em termos gerais, o suicídio possa vir a ser qualificado como acidente de trabalho, conquanto, frequentemente excluindo tal qualificação, nos casos concretos submetidos a apreciação. De todo o modo, embora paulatinamente, já se conhecem sentenças que admitem tal qualificação. A título de exemplo, em 2001, 2002, 2005 e 2015, o Supremo Tribunal de Justiça da Catalunha131, decidiu pela qualificação do suicídio como acidente de trabalho, assim como o Supremo Tribunal de Justiça da Galiza132, em 2003. Nesse sentido também o Supremo Tribunal de Justiça de Castela e Leão133, em 2005. Na sentença do Supremo Tribunal de Justiça de 2015, a que acima se alude, encontrava-se em causa o suicídio de um trabalhador do setor bancário que envolvido num processo disciplinar, em risco de perder o emprego e de ser alvo de um processo-crime, decide por termo à vida lançando-se na frente de uma composição de metro em circulação. O Tribunal considerou que a instauração do procedimento disciplinar criou uma grave angústia e transtorno no trabalhador que, por causa disso, decidiu cometer aquele ato extremo. Paralelamente não se comprovou a existência de outros fatores pessoais alheios ao trabalho que pudessem ter contribuído para o suicídio.