CAPÍTULO 1 CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS
1.2 Análise de Discurso
1.2.1 Sujeito, Discurso (e Interdiscurso) e Formação Discursiva
Os estudos sobre discurso têm, há pelo menos três décadas, influenciado várias áreas de conhecimento, de modo especial, a área do ensino e aprendizagem de línguas. Questões ligadas ao ensino passaram a ser repensadas a partir do momento em que a noção de “sujeito” foi redefinida, sob a influência dos estudos de Authusser, Pêcheux, Foucault e Lacan (mais especificamente, da releitura que Lacan fez dos estudos sobre o inconsciente desenvolvidos por Freud), todos eles influenciados pelo estruturalismo de Saussure (PÊCHEUX, 1997).
Assim, adotar uma abordagem discursiva para lidar com as questões de ensino passou a significar que, tanto professores quanto alunos deveriam ser encarados como sujeitos e não apenas como indivíduos. Esses passaram, então, a ser vistos como seres complexos, posicionados ideologicamente e também, com base na teoria lacaniana, considerados sujeito do inconsciente. Passaram a ser vistos, também, como seres que ocupam determinados lugares discursivos, sócio-historicamente situados, e que, enunciam a partir desses lugares.
As questões sobre subjetividade, assim entendidas, passaram a fazer parte das reflexões de alguns pesquisadores ligados às áreas concernentes ao ensino (como a Lingüística Aplicada, por exemplo) porque alguns deles passaram a levar em consideração as representações que são constitutivas das práticas pedagógicas nas quais os sujeitos se engajam (tema que será discutido mais à frente), e aspectos do plano do imaginário dos sujeitos envolvidos tanto no processo do ensinar quanto no do aprender (professores e alunos).
É nesse sentido que julgamos relevante começar nossas reflexões teóricas – que darão sustentação à nossa análise – pela discussão sobre os conceitos de sujeito, discurso e formação discursiva, que, como sabemos, estão intrinsecamente ligados.
A noção de formação discursiva parece-nos central para uma reflexão sobre as concepções de sujeito e de discurso. De acordo com a perspectiva da Análise de Discurso
(doravante, AD), conforme já sinalizamos, os discursos são produzidos a partir das formações discursivas nas quais os sujeitos se inscrevem e a partir do que se convencionou chamar, na AD (com base nos estudos foulcaultianos) de “posições-sujeito”. Para definir o que chamou de “formação discursiva”, Foucault (1995, p. 43) nos apresenta a seguinte argumentação:
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva...
Assim, quando um sujeito enuncia, ele o faz sempre no interior de uma formação discursiva e posicionado sócio-historicamente.
Segundo Charaudeau e Maingueneau (2004), o conceito de formação discursiva foi desenvolvido primeiramente por Foucault (1995), mas foi depois reformulado por Pêcheux (1990 e 1997) que, segundo os autores, foi responsável por sua acolhida na AD.
Segundo Pêcheux (1990), a noção de formação discursiva refere-se ao lugar de construção dos sentidos, que é, segundo seus pressupostos, sempre determinado pelo que “pode” ou “deve” ser dito, dependendo das posições que os sujeitos ocupam em dadas situações. Neste sentido, cada formação discursiva estará sempre atrelada a certas formações ideológicas. Para Fernandes (2005, p. 51 e 53), uma formação discursiva “nunca é homogênea, é sempre constituída por diferentes discursos”. Para o autor, este conceito refere- se “ao que se pode dizer somente em determinada época e espaço social, ao que tem lugar e realização a partir de condições de produção específicas, historicamente definidas”.
Essas concepções permitem-nos perceber a linguagem não mais dentro de uma concepção tradicional, como “instrumento” passível de neutralidade, mas, sobretudo como uma prática social e política que pressupõe a noção de sujeito constituído sócio- historicamente (e ideologicamente).
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Tomando como base as conjunturas atuais de sua época, em que começou a teorizar sobre as questões do sentido, Pêcheux (1997) nos mostra que a conjuntura histórica lhe permitiu propor as bases de uma teoria materialista do sentido. Assim, Pêcheux provocou deslocamentos, buscando elementos conceituais em outros campos teóricos e tornou-se fundador de uma forma de se pensar uma Semântica Discursiva que levasse em conta o materialismo histórico, já que levou aos questionamentos sobre subjetividade.
Suas reflexões sobre o materialismo histórico e sobre a subjetividade nos mostram que todo olhar (para qualquer objeto) é fatalmente mediado por uma perspectiva, posição ideológica que o sujeito ocupa. Esses postulados tiveram um impacto direto e definitivo na própria forma de se encarar a “verdade” e a própria Epistemologia. Nas palavras do autor,
...se a Semântica constitui para a Lingüística tal ponto nodal, é porque é nesse ponto, e mais freqüentemente sem reconhecê-lo, que a Lingüística tem a ver com a Filosofia (e, como veremos, com ciência das formações sociais ou materialismo histórico) (PÊCHEUX, 1997, p. 20)
A partir da noção de materialismo histórico, Pêcheux aponta as três tendências principais dos estudos lingüísticos e nos mostra a relação entre história, língua e aspectos sociais da língua, entendendo a história, a partir de uma visão materialista como um elemento constitutivo na produção dos efeitos de sentido. Além disso, com base nos estudos authusserianos, Pêcheux nos apresenta uma discussão para nos mostrar a relação indissociável entre sujeito, ideologia, formação discursiva e sentido. Em suas palavras,
isso equivale a afirmar que as palavras, expressões, proposições, e etc., recebem seu sentido da formação discursiva na qual são produzidas: retomando os termos que introduzimos acima e aplicando-os ao ponto específico da materialidade do discurso e do sentido, diremos que os indivíduos são ‘interpelados’ em sujeitos-falantes (em sujeitos de seu discurso) pelas formações discursivas que representam “na linguagem” as formações ideológicas que lhes são correspondentes. (PÊCHEUX, 1997, pp. 160-161)
Assim como a noção de discurso não poderia ser dissociada das noções de formação discursiva e de sujeito, também a noção de sentido, entendida aqui como “efeito de sentidos entre sujeitos”, como nos mostra Fernandes (2005, p.21 – grifo do próprio autor), está intrinsecamente ligada à de discurso. Portanto, qualquer empreendimento de análise de discurso implica, necessariamente, análise dos sentidos que podem ser produzidos a partir dos diferentes lugares e de diferentes formações discursivas nas quais se inscrevem e se posicionam os sujeitos neles envolvidos. Acreditamos, portanto, que, como o sujeito se constitui no e pelo discurso, é imprescindível entender o papel dos discursos especializados, neste caso, aqueles ligados à formação de futuros professores de língua inglesa (doravante, LI).