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Sujeito e forma-sujeito

No documento 2014IzabelSeehaber (páginas 52-55)

Dedicamos esta seção ao estudo teórico da categoria do sujeito. Na obra Semântica e

discurso, Pêcheux (1995, p. 131) afirma que “uma teoria materialista dos processos

discursivos não pode, para se constituir, contentar-se em reproduzir, como um de seus objetos teóricos, o ‘sujeito ideológico’ como ‘sempre-já dado’” (grifo do autor). A nosso ver, a noção de sujeito é chave na teoria que se tornou fundamental para a análise de um discurso que se constitui em sua relação com o simbólico e a ideologia. A fim de compreender como o sujeito se relaciona com a forma-sujeito da formação discursiva à qual ele se vincula, determinado pela relação histórico-social-ideológica que constitui sua identidade e o permite mobilizar os sentidos, movimentando-se em determinadas posições (identificando-se, contraidentificando-

se ou desidentificando-se dessa forma-sujeito).

Embora essa categoria já tenha sido brevemente tratada nas seções anteriores, enquanto ferramenta de análise, nós entendemos ser de grande relevância retomá-la aqui, já que a interpretação se dá num movimento de vaivém entre objeto e teoria. Assim, a partir do corpus deste estudo, permitimo-nos relacionar a citação de Pêcheux à dificuldade de desvencilhar-se da noção “cega à questão do sujeito como sempre-já dado”, que, de acordo com o autor, é uma noção “puramente idealista” (p. 139), ou seja, não se pode dispensar uma teoria (não subjetivista) da subjetividade; será preciso interligar três regiões: a subjetividade, a discursividade e a descontinuidade ciências/ideologias.

Assim, ao analisar o que acontece no programa Show da fé, espaço onde R. R. Soares, enquanto líder religioso, atua para um público variado, sendo que cada fiel possui uma história de vida própria, com problemas e angústias específicas, não podemos esquecer que,

aí, estamos analisando o discurso da religião e – nesse espaço discursivo missionário e fiéis – enquanto sujeitos do discurso assumem uma dada posição, a qual pode oscilar (movimentar- se) ora se apresentando mais identificada à forma-sujeito da formação discursiva capitalista, ora se apresentando mais identificada aos saberes da formação discursiva religiosa e/ou contraidentificando-se. Mesmo que na prática se observe a busca por objetivos semelhantes, como, por exemplo, os desejos da cura e da salvação, poderá haver particularidades que parecem ser respeitadas no discurso da religião e que na fala de fiéis não significam da mesma maneira.

Isso porque a contradição é constitutiva de todo o discurso, “da relação forças produtivas/relações de produção” (PÊCHEUX, 1995, p. 132), de tal modo que nem a noção de sujeito e nem a de ideologia poderiam ser pensadas desprovidas de sentido, porque sujeito e ideologia possuem materialidade própria e com funcionamentos correspondentes. Por isso, posição-sujeito e forma-sujeito não correspondem à submissão, mas à sua relação com o simbólico.

Orlandi (2010) retoma o conceito de Althusser (1973) para retratar que todo indivíduo social só pode ser considerado agente de uma prática se estiver revestido de uma forma- sujeito, da forma de sua existência na história, ou seja, depende da época, das condições de produção, dos efeitos do processo de interpelação ideológica, já que passa pelo jogo das formações imaginárias e pela objetividade material da instância ideológica.

De acordo com Pêcheux (1995, p. 147), é “caracterizada pela estrutura de desigualdade-subordinação do ‘todo complexo com dominante’ das formações ideológicas de uma formação social dada, estrutura que não é senão a de contradição reprodução/transformação que constitui a luta ideológica de classes”. A forma-sujeito relaciona o sujeito do discurso a uma formação discursiva com a qual ele se identifique.

Resgatando Grigoletto (2007, p. 125), compreendemos que uma mesma forma-sujeito, ao materializar os saberes vindos do interdiscurso, pode agregar diferentes posições-sujeito no discurso. Diante desse conceito, observamos o que se manifesta um discurso é inerente à própria posição assumida e, com isso, a abrange do público, ocorre quando essa estiver identificada com a forma-sujeito da FD religiosa.

[...] não se trata de uma forma-sujeito dotada de unicidade, estamos diante de um conjunto de diferentes posições de sujeito, que evidenciam diferentes formas de

se relacionar com a ideologia, e é esse elenco de posições sujeito que vai dar conta da forma-sujeito. Portanto, a forma-sujeito se fragmenta entre as diferentes

posições de sujeito. Uma forma-sujeito assim dividida remete à concepção teórica de um sujeito fragmentado entre as diferentes posições que sua interpelação ideológica permite. Por outro lado, uma forma-sujeito fragmentada abre espaço não só para os saberes de natureza semelhante, equivalente, isto é, para o parafrástico e o homogêneo, mas também cede lugar para os sentidos diferentes, divergentes, contraditórios, ou seja, para o polissêmico e o heterogêneo (grifo nosso).

O elenco de posições-sujeito que vai dar conta da forma-sujeito da FDR tem a ver com diferentes formas de se relacionar com a ideologia, no caso, a capitalista. Do seu modo, com um comportamento que o significa/identifica facilmente com seu público de fiéis, o missionário se torna o agente responsável por levar palavras de fé, conforto e esperança a seus seguidores. Outras posições-sujeito, tais como as dos fiéis e obreiros, manifestam-se tendo por base a posição central do missionário, que se torna uma referência. Nesse processo, fiéis, obreiros e missionário são interpelados pela ideologia dominante e, por isso, estão inseridos na mesma forma-sujeito.

Enquanto R. R. Soares realiza suas pregações no culto-programa intensificando a importância da fé, do Evangelho, o que aparece em evidência são os saberes da formação discursiva religiosa. Contudo, no decorrer do discurso, questões como a necessidade de colaborar financeiramente para auxiliar a “casa de Deus”, a importância de assinar um canal televisivo da própria Igreja, adquirir livros, DVDs e outros materiais com a marca da IIGD trazem uma nova posição-sujeito, ou seja, a serviço da ideologia do mercado. Com isso, ocorre o que Indursky chama de “fragmentação” da forma-sujeito entre as diferentes posições de sujeito. Mesmo que o foco seja a religiosidade e não transpareça o interesse pelo lucro, há uma posição-sujeito mais próxima à formação discursiva capitalista (FDC). Diante disso, o fato de a Igreja atuar como uma empresa e, consequentemente, almejar sucesso financeiro em nome da fé, do bem-estar e da salvação, fica mascarado, silenciado o que intensifica os interesses da instituição.

A fim de tratar questões relativas à constituição dos sentidos e estes são efeitos que se produzem ideologicamente, o item que segue irá abordar a ideologia e a formação ideológica no contexto religioso.

No documento 2014IzabelSeehaber (páginas 52-55)

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