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Sujeito e objeto no contexto da sociedade burguesa

O sujeito na perspectiva adorniana inclui não apenas a singularidade que concede ao humano aquilo que lhe é próprio, mas também a possibilidade de atuar no mundo de forma que as estruturas de dominação vigentes sejam confrontadas. A premissa para esse confronto está na capacidade de desenvolvimento da autonomia, processo que envolve características de ordem subjetiva e objetiva (ADORNO, 2009).

As relações socioculturais, produzidas no interior da escola de educação de crianças, refletem as ambiguidades da sociedade burguesa, apresentando tanto elementos que avançam quanto os que se mantém regredidos. Nesse sentido, adaptação e resistência não apenas convivem, como também se codefinem, só podendo ser compreendidas nos contrapontos que as demarcam.

Segundo Horkheimer e Adorno (1985), a construção de um projeto social que tenha como base a libertação dos indivíduos dos processos de massificação e heteronomia (princípios básicos da dominação) demandam um exercício de desvelamento das máscaras sob as quais a sociedade capitalista têm se estruturado. Os frankfurtianos admitem que um dos caminhos para a superação do domínio do capital sobre os indivíduos passa pela retomada da autocrítica que se perdeu com o processo de separação entre o pensamento crítico e a razão [esclarecida].

O pensamento perdeu o elemento da reflexão sobre si mesmo, e hoje a maquinaria mutila os homens mesmo quando os alimenta. Sob a forma de máquinas, porém, a ratio alienada move-se em direção a uma sociedade que reconcilia o pensamento solidificado, enquanto aparelhagem material e aparelhagem intelectual, com o ser vivo liberado e o relacional com a própria sociedade como seu sujeito real.

A origem particular do pensamento e sua perspectiva universal foram sempre inseparáveis. Hoje, com a metamorfose que transformou o mundo em indústria, a perspectiva do universal, a realização social do pensamento, abriu-se tão amplamente que, por causa ela, o pensamento é negado pelos próprios dominadores como mera ideologia. (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 48).

Nessa ótica, a negação da crítica em prol de uma razão instrumental (razão transformada em ideologia) acabou por levar à negação do próprio homem como indivíduo detentor de singularidades, situando-o no âmago da uniformidade.

A crítica de Horkheimer e Adorno (1985) à afirmação positiva do homem como ser universal vincula-se à instauração de uma lógica de falsa identificação que contribui para a consolidação de uma heteronomia que repercute tanto no processo de sustentação da sociedade capitalista quanto na negação da subjetividade dos indivíduos.

Segundo os filósofos, é a crítica imanente que nos fornece possibilidades de análise da ideologia da sociedade burguesa, no sentido de revelar o “oculto”, abrindo portas para a consciência do que é falso e do que é real. É no confronto dialético entre o aparente e o concreto que se encontram, também, as possibilidades de avanço em direção ao desvelamento de uma realidade que insiste em se passar por verdade.

Vilela (2006, p. 16), ao explicar o exercício da crítica imanente presente em Adorno, diz-nos que

Na dialética negativa a mediação do objeto significa que só em sua imbricação com a subjetividade se torna possível o conhecimento real. Essa crítica realizada por dentro do objeto, sob o primado da reflexão filosófica e, ao mesmo tempo, da análise social objetivada, com pretensões de intervenção cultural, seria a síntese da nova concepção de Teoria Social.

Para Marcuse (1978, p. 243), uma sociedade que prima pela universalidade só pode dela requerer indivíduos unidimensionais, contribuindo para reificação do humano:

Que resulta dessa reificação? Ela evidencia que as relações sociais efetivas entre os homens são uma totalidade de relações objetivas, nisso se incluindo a origem destas relações, seus mecanismos de perpetuação e a possibilidade de sua transformação.

O indivíduo reificado, para os frankfurtianos, acaba sendo “produto” e “produtor” da própria dominação social que o aprisiona e o destitui da condição de sujeito, instituindo, em seu lugar, uma pseudo-individuação42 (SEVERIANO, 2006).

A construção da subjetividade não pode ser pensada fora das relações estabelecidas entre indivíduo e sociedade. Não se trata da primazia de um em relação ao outro, mas sim da correlação entre ambos.

Tal acepção está alinhada à concepção materialista presente na dialética negativa defendida por Adorno e postula o indivíduo como um ser eminentemente social:

Inclusivamente, a pessoa é, como entidade biográfica, uma categoria social. Ela só se define em sua correlação vital com outras pessoas, o que constitui, precisamente o seu caráter social. A sua vida só adquire sentido nessa correlação, em condições sociais específicas; e só em relação ao contexto que a máscara social do personagem também é indivíduo (HORKHEIMER; ADORNO, 1956, p. 48).

A inserção na cotidianidade da escola de crianças, as observações e as análises delas decorrentes têm por base o nexo entre as dimensões objetivas e a construção da subjetividade infantil. As relações socioculturais estabelecidas no seio do espaço escolar, tal como a sociedade que as designa, são marcadas por contradições e ambiguidades.

No âmbito das implicações dessas relações na individuação infantil, podemos sublinhar a convivência dos discursos sobre o desenvolvimento da autonomia dos pequenos, com uma concepção que os compreende como seres abstratos e idealizados.

42 Maria de Fátima Vieira Severiano (2006), em seu artigo Pseudo-individuação e homogeneização na

cultura do consumo: reflexões críticas sobre as subjetividades contemporâneas na publicidade, a

partir das considerações de Adorno (1986a) e Horkheimer e Adorno (1944) resgata o conceito de individuação como referência ao processo de constituição da subjetividade. Ao se referir à pseudo- individuação, Severiano nos remete à pseudosubjetivação, ou seja, ao impedimento que a lógica do mercado tem impresso à constituição verdadeira da individuação do humano (subjetividade). Ao se referir ao papel da Indústria Cultural nesse processo, argumenta a autora: “A expressão ‘indústria cultural’ foi cunhada para substituir a de ‘cultura de massa’. Negando ambos os termos, ou seja, nem ‘cultura’ nem ‘massa’, Adorno; Horkheimer (1944/1991) denunciaram a impossibilidade de haver qualquer vestígio de igualdade entre ‘cultura de massa’ e democratização da cultura ao sublinhar o caráter compulsório da indústria cultural por eles concebida como ‘[...] a integração deliberada, a partir do alto, de seus consumidores [...]’ (ADORNO, 1986a, p. 92). Sua finalidade não seria a de servir às massas, mas à racionalidade tecnológica e administrativa do grande capital, produzindo assim uma falsa conciliação entre indivíduo e sociedade. A individuação assim forjada seria, portanto, ‘pseudo-individuação’, na medida em que não visaria à diferenciação entre indivíduo e sociedade, mas sim à mimese, à homogeneização das consciências.” (SEVERIANO, 2006, p. 108). A esse respeito ver também Adorno (1986b).

Tal perspectiva nos aponta para as ambiguidades que circunscrevem os percursos de construção da subjetividade das crianças, sobretudo por ações que negam, na prática, o que defendem discursivamente, suscitando a prevalência da adaptação e do enquadramento cego.

Se, de um lado, esse binômio favorece a sistemática negação das subjetividades infantis; de outro, as resistências criadas pelos pequenos lhes possibilitam, em meio a avanços e recuos, vivenciarem momentos de autonomia em meio a uma cultura predominantemente heteronômica.

Dessa forma, autonomia e heteronomia, assim como adaptação e resistências emergem em uma mesma situação, revelando o tensionamento existente entre negação e resistência no percurso de construção da subjetividade infantil. Com as cenas destacadas, procuramos trazer à luz esse tensionamento e a dinâmica nele presente.

Para favorecer o trabalho com as cenas, optamos por estabelecer dois eixos, a partir dos quais as diferentes situações e as categorias delas emergentes serão discutidas. Tais eixos têm como base a concepção de criança e a cultura afirmativa burguesa, locus social de produção desta concepção. É importante assinalar que as 12 cenas reproduzidas a seguir, as narrativas e os desenhos infantis a elas vinculadas nos ajudam a compreender os elementos que têm atuado, no campo escolar, na construção da subjetividade infantil.