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3 CAPÍTULO II – TECENDO TEORICAMENTE

3.4 SUJEITO-IMIGRANTE E OS PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO

Para discutirmos o sujeito que se situa no contexto entre-línguas, torna-se necessário compreender que esse convive na relação com o(s) outro(s), com a(s) diferença(s), com a língua estranha, com o lugar que não reconhece ser seu.

Conforme Coracini (2007), esse sujeito é

fruto de múltiplas identificações - imaginárias e/ou simbólicas -com traços do outro que, como fios que se tecem e se entrecruzam para formar outros fios, vão se entrelaçando e construindo a rede complexa e híbrida do inconsciente e, portanto, da subjetividade. (p. 61).

Vemos pela supramenção, que é um sujeito que se encontra no espaço híbrido de subjetividade, pois está em relação com sujeitos que falam outra língua, se vê atravessado por traços de outra cultura, se sente entre-línguas, entre o conflito. Porém, precisa (re)conhecer-se, identificar-se, e será ―como um processo que não acaba nunca, que está o tempo todo se modificando e que constitui a complexidade do sujeito‖ (CORACINI, 2003, p. 219). Mesmo diante dessa

complexidade, o propósito é compreendermos os processos identificatórios que constituem o sujeito, por isso optamos por esta nominação, ao invés de tomarmos por identidade, já que

[...] não poderia ser vista como algo inato, existente na consciência no momento do nascimento, [...]. Apesar da ilusão que se instaura no sujeito, a identidade permanece sempre incompleta, sempre em processo, sempre em formação. Assim, em vez de falar em identidade como algo acabado, deveríamos vê-la como um processo em andamento e preferir o termo identificação, pois só é possível capturar momentos de identificação do sujeito com outros sujeitos, fatos e objetos (CORACINI, 2003, p. 243). Dito isso, entendemos que é na relação de convívio com os outros, que os sujeitos se constroem e se (res)significam, visto que ―a identificação é sempre criativa‖ (Id., 2007, p. 159). Há que se dizer, que é pela inserção do sujeito no espaço entre-línguas, no espaço híbrido e de subjetividade que será possível capturar identificações do sujeito, pois é da relação híbrida que são percebidos como se constituem os processos identificatórios. Também é ―pela dispersão, pela heterogeneidade, inteiramente vinculada ao momento histórico-social e ideológico, atravessam, de forma conflituosa e dissonante, a constituição identitária‖ (Id., 2003, p.113), visto que concebemos o enunciador como heterogêneo, descentrado, atravessado ideologicamente, aspectos esses que constituem sua discursividade.

Da mesma forma, coadunamos com Stübe (2008), a qual prefere utilizar-se do termo identificação ao invés de identidade. Em seus estudos toma conceituações pela psicanálise freudiana, justamente porque não trabalha identidade, mas sim identificações. Desta forma, concebe que, ―a identificação não ocorre entre dois indivíduos distintos, um transformando-se no outro, mas se produz no espaço psíquico de um único e mesmo indivíduo, ou seja, é um processo específico do campo do inconsciente‖ (Ibid., p. 94).

Ressalta também, que as identificações parecem invocar uma origem. E, por esse viés, destaca que ―[...] a filiação em uma pertença é condição necessária para a identidade, para que o enunciador possa se contar entre outros‖ (Ibid., p. 135), e aponta que do ‗ser imigrante‘ emergem identificações, ou seja, representa a filiação de um povo, a história, a torná-lo representante da nação. Com isso, nós também ao nominarmos os sujeitos de nossa pesquisa, os identificamos como quem ocupa determinado lugar social, que representa a história de um povo, os quais denominamos ‗sujeito-imigrante‘, como a representação das crianças haitianas.

Por conseguinte, Serrani- Infante (1998), entende que

a identificação como a condição instauradora, a um só tempo, de um elo social e de um elo com o objeto de desejo do sujeito. Isso tanto no plano da relação imaginária (à qual correspondem as diversidades e semelhanças entre uns e outros), como no plano da relação simbólica, que não é dual, mas ternária, por conta da mediação significante. (p. 252-253).

Entendemos que esse processo identificatório leva em conta a relação de sujeitos, pois é estando entre os outros que se constituem e se significam, mesmo que subjetivamente.

A discussão sobre os processos de subjetivação e de identificação conforme traz Payer (2009), considera o sujeito social, determinado sócio-historicamente, pois os modos de identificação/objetivação do sujeito são em relação ao próprio sujeito, como também em relação à língua. Apresenta-nos também (Id., 2013), que é no processo discursivo que sujeito e sentido se constituem e, possibilitam identificação ou desidentificação. Assim, ―[...] a identificação do sujeito em relação às línguas e às suas diferentes formas‖ se dá ―de modo que a imagem que os sujeitos fazem da(s) língua(s) e das variadas formas em que o objeto do discurso é dito, participa igualmente da produção dos efeitos de sentido‖ (p. 185), além disso é o que constrói a discursividade do sujeito e o define linguisticamente.

Desta forma, pensar os processos de identificação do sujeito é possível desde que consideremos que estes se constituem na/da/pela linguagem. Tanto que Orlandi (2007) ressalta que as identificações do sujeito estão em relação ao social e no movimento na história e se representam no movimento dos sujeitos e dos sentidos, mas sem qualquer garantia de estabilidade entre ambos. Ou sujeito e sentido, sentidos e sujeitos em paralelo, juntos num jogo entre si, a revelar constantes processos identificatórios.

Muitas serão as formas de se fazer dizer, de querer dizer, de falar, a muitas vozes pode ser expressado o dizer do sujeito, que na busca de um novo lugar, quer encontrar-se, significar-se, identificar-se. Como Orlandi (2008, p. 25), ―[...] somos produzidos por uma fala que não tem um lugar, mas muitos. E ‗muitos‘ aqui é igual a ‗nenhum‘.‖

Eckert-Hoff (2015) salienta que o sujeito ao dizer-se diverge, se contradiz, vive o conflito, contudo é nisto que o sujeito se constitui, na multiplicidade de vozes que o atravessam, na heterogeneidade e na relação com o(s) outro(s). Em síntese, o

sujeito se constitui no/pelo outro. Ainda a autora ressalta, que as identificações ao se constituírem será sempre no movimento, visto serem ―incessantemente (re)construídas por meio da relação com o Outro e emergem apenas por momentos, graças à porosidade da linguagem‖ (Id., 2004, p. 73).

Contudo, o que define as identificações será a história, que é heterogênea, jamais igual, é sempre transformação e, é nela que o sujeito busca filiações, identificações que lhe constituem sujeito. Por isso, compreendemos que as identificações do sujeito são sempre móveis e provocam deslocamentos. Entendemos que, as identificações do sujeito são construídas pelo(s) outro(s), com os quais convivemos, sendo esses outros, a nos significarem e nos ressignificarem, como também serão nas relações com o(s) outro(s) que surgirão novas identificações e essas serão constituídas pela linguagem. Assim, ao longo das análises, na relação entre sujeito e sentidos, ocorrem deslizamentos que possibilitam ao sujeito inscrever-se em determinadas FDs.

Percebemos que ao falarem de si, os sujeitos (re)velam algo do lugar em que se situam no entre-línguas. Por isso, o contar, recontar, relatar suas experiências, suas histórias de vida, é próprio dos sujeitos que convivem no espaço entre-línguas, tanto falarem de si como do(s) outro(s). É também o que possibilita a esses sujeitos construir verdades ou ficções sejam do presente ou do passado.

Sabemos, porém, que nosso dizer será sempre a partir de outras vozes, vozes que se cruzam e se entrelaçam, de outras culturas, outras maneiras de pensar e de ver o mundo, bem como, de outros modos de ver o outro, de nos relacionarmos com o(s) outro(s), de forma a provocar novas reconfigurações identificatórias.

Diante disso, coube-nos entender que as identificações do sujeito são construídas pelo(s) outro(s), com os quais convivemos. E esses outros, a nos significarem e nos ressignificarem, como também é na relação com o outro que surgirão novas identificações e essas serão constituídas pela linguagem. A sermos únicos, não iguais, nem mesmo a nos compararmos e/ou buscarmos semelhanças, mas podermos transitar entre a(s) diferença(s) e o(s) diferente(s).

O lugar do sujeito, que ora analisamos, se situa na relação entre-línguas, entre o outro, os outros/o Outro, o estranho, o diferente, as diferenças, consideramos que as identificações produzidas (re)velam o conflito, o silêncio, a alteridade, a heterogeneidade.

Se neste capítulo, nominamos o sujeito em ‗sujeito-imigrante‘ buscamos constituir o subcapítulo que segue, denominando de – ‗o estrangeiro‘ e, com Derrida (2003) discorremos sobre a relação do estrangeiro com a hospitalidade.