3.1 JUSTIÇA RESTAURATIVA: BREVE APONTAMENTO
3.1.3 Sujeitos diretamente e indiretamente ligados
A justiça restaurativa fundamente-se em valores como o respeito à participação ativa no processo do ofensor, do ofendido e das suas respectivas comunidades. Atribui funções principais a especialistas e representantes externos, o sentido construído pela ouvida da voz direta e indireta dos afetados, um processo definido pela fala e pela escuta, e tem por objetivo externar a experiência pessoal de cada envolvido no evento (KONZEN, 2007).
A presença do ofensor e do ofendido é indispensável para a justiça restaurativa, indiferente se o encontro for realizado em um espaço restrito de mediação entre o ofensor e o ofendido, ou o encontro seja na dinâmica de círculo, conferência ou câmara. O principal instrumento do procedimento da Justiça Restaurativa é o diálogo, então é por esse motivo que o encontro e a participação direta e indiretamente no encontro dialogal são imprescindíveis (KONZEN, 2007).
Correa (2016, n.p.) traz como conceito de vítima:
Entendem-se por "vítimas" as pessoas que, individual ou coletivamente, tenham sofrido um prejuízo, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um sofrimento de ordem moral, uma perda material, ou um grave atentado aos seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões violadores das leis penais em vigor num Estado membro, incluindo as que proíbem o abuso de poder.
No sistema de justiça atual, existe um conceito de vítima bem mais restrito do que acima descrido, e deve-se levar o fato que a vítima da infração não recebe o tratamento digno de quem sofreu um dano. No processo penal, seu papel é ínfimo devido à necessidade da intervenção do Estado. Entretanto, na justiça restaurativa a vítima figura como parte ativa do processo, tendo a oportunidade de ficar frente ao infrator, na ciência de que esse procedimento se preocupa com uma série de necessidades que não são atendidas pelo sistema atual vigente (CORREA, 2016).
O intuito da justiça restaurativa é reparar o erro, e essa reparação não é simplesmente fazer o condenado sofrer, pagar o sofrimento da vítima com o sofrimento do acusado, a ideia veio para tirar a vítima do papel de “coitadinha” e coloca-la na voz ativa da solução do conflito. A proposta é viabilizar que o ofendido e o ofensor possam resolver os seus problemas e firmar um acordo, que no final das contas será benéfico para ambos. Tem muitas situações que para a vítima seria muito mais valioso ouvir um pedido de perdão, atitude esta que iria recompor muito mais o seu estado emocional do que simplesmente saber que o acusado foi condenado.
Tudo isso deve ser refletido, qual é o objetivo final do Judiciário? Não é promover a paz social? Existem meios muito mais efetivos, do que a condenação de uma pessoa. Mas é evidente que essa forma não é aplicada em todo e qualquer crime, é obvio que nem todos os crimes podem ser solucionados com um simples pedido de perdão, cada caso precisa ser analisado para ver qual prática da Justiça Restaurativa poderia ser aplicada e também é necessário observar se as partes estão dispostas a isso. Pois, nem sempre é possível colocar a vítima e o acusado para dialogar, especialmente quando se fala de crimes graves, com violência, mas, muito outros crimes poderiam ser resolvidos através da justiça restaurativa.
Para Corrêa (2016, n.p.), existem quatro tipos de necessidades para a vítima, in verbis:
a) Informação: A vítima precisa de respostas aos seus questionamentos sobre o ato cometido contra ela. A vítima necessita de informações reais. Tais informações requerem o acesso direto ou indireto ao ofensor que possui a informação.
b) Falar a verdade: Um ponto muito positivo no processo de superação e recuperação da vítima do crime é a abertura para que possa narrar o que aconteceu. Existem bons motivos terapêuticos para isso. Parte do trauma advindo do crime é a forma como ele perturba a visão da pessoa sobre ela mesma e o mundo, a sua história
de vida. É importante para a vítima que ela conte a história àqueles que lhe causaram danos, fazendo com que eles entendam o impacto que isso causou em suas vidas. c) Empoderamento: As vítimas sentem que a ofensa que sofreram tiraram delas o controle sobre suas vidas, e ao se envolver em procedimento judicial é a esperança de que esse controle retornará a elas.
d) Restituição patrimonial ou vindicação: A restituição patrimonial, além do cunho especificamente de reparar o dano material, muitas vezes representa um elemento importante para as vítimas. Quando o ofensor se esforça para reparar e corrigir o dano que causou é uma forma de admitir a responsabilidade e mostrar à vítima que ela não é culpada do que ele fez. A vindicação é uma necessidade que todos têm ao serem tratados com injustiça. A reparação do dano é uma dentre várias maneiras de suprir a necessidade da vítima, um pedido de desculpas pode satisfazer a necessidade de reconhecimento do mal causado.
Os quadros pós-traumáticos que estão sujeitas as vítimas demonstram que os cuidados a ela necessários ultrapassam, em muito, a aplicação de penalidade ao ofensor. As vitimas carecem de uma contenção emocional, um espaço protegido do qual possam expressar os medos, os temores, o mal-estar, o sofrimento e a raiva, da mesma forma como todos os questionamentos relativos ao ofensor que tem se caracterizado como parte dos cuidados reparados às vítimas (ALMEIDA, [201-]).
É de extrema importância que o ofensor se responsabilize pelo dano causado, independe se for por meio de indenização, de prestação de serviço comunitário, ou até mesmo de um pedido sincero de desculpas. Essas atitudes fazem com que a vítima entenda que não é sua culpa, mas sim do ofensor, pois a maioria acredita que são responsáveis pelo que lhes aconteceu. Neste sentido, é possível notar, devido às experiencias restaurativas, que as vitimas se sentem tratadas com relevância e justiça (CORRÊA, 2016).
O infrator participa de forma ativa e direta, interagindo com a vítima e com a comunidade, se envolvendo ao processo, ficando aberto na participação dos procedimentos restaurativos e contribuindo para a decisão. No processo penal fala-se da negação: o réu nega durante o processo, após a condenação, e até mesmo na unidade prisional, e acaba resultando a não responsabilização do infrator. O que não ocorre no sistema restaurativo, pois a proposta é mostrar ao infrator que ele é o responsável pelo delito e fazer com que ele arque com as suas consequências, proporcionando a oportunidade de desculpar-se e a responsabilidade de reparar os danos causados (CORRÊA, 2016).
Também é motivo de discussão e de abordagem crítica, a presença ampliada dos indiretamente afetados, com a abertura do encontro para a comunidade. Entende-se que a sustentação para a justiça restaurativa é fundamentalmente uma forma de solucionar conflitos diretamente pelas forças da comunidade, uma justiça, em consequência, que se caracteriza pelo respeito ao propriamente comunitário. Para justificar essa participação, está o benefício ao
ofendido e ao ofensor pelo despertar do sentimento de inserção de uma comunidade de cuidados, o que a presença ampliada estimula e simboliza (KONZEN, 2007).
A justiça restaurativa prevê que a comunidade também é parte entre os envolvidos, pois de certa maneira também é atingida pela prática do ilícito, por esse motivo são colocadas para discutir o problema e acordarem diante de uma solução, criando oportunidade para que as pessoas envolvidas no conflito possam conversar e entender a real causa do conflito (CORRÊA, 2016).
As comunidades que acolhem e se envolvem com a vítima e o ofensor, singulares ou múltiplos, obtém no ponto vista restaurativo, o status de copartícipes e corresponsáveis no processo de construção tanto do ato penal, como na restauração da vítima, do ofensor e da própria comunidade (ALMEIDA, [201-]).