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SUJEITOS JOVENS, SUJEITOS COLABORADORES DA

5 ITINERÁRIO ITINERANTE: A FEITURA METODOLÓGICA

5.2 SUJEITOS JOVENS, SUJEITOS COLABORADORES DA

Quem é o jovem? Pelo que ele se interessa? Será que a escola o interessa? Estas são perguntas sobre as quais muito do universo escolar precisa se debruçar. Antes de alegar dificuldades no trato com a juventude é importante que mapeemos quem são nossos estudantes, a partir de que lugares, culturas, vivências se produzem.

A identidade na juventude é construída para além do que a cultura de onde se vem oferece, tendo os jovens a capacidade de transformar suas formas de ser no mundo elaborando seu repertório cultural, escolhendo a coletividade que deseja compor e participar, identificando interesses comuns; nesta acepção a identidade passa a ser um “campo de ação social”, um “eu múltiplo” (BRASIL, 2013, p. 18) em constante processo.

O território da(s) juventude(s) é, segundo Milton Santos (2000 apud BRASIL, 2013), um espaço vivido composto por uma produção material e uma dimensão subjetiva (simbólica, cultural, ética, moral, estética etc.). Os jovens habitam seus territórios, constroem e dão sentido aos espaços e relações baseado nestes referenciais, traçam suas histórias de vida. Os saberes que os estudantes trazem destes territórios podem ser explorados pela escola, constituindo-se esta também num território que envolve, assim como outros, conflitos de valores, disputas e disposições

de poder, e sendo por excelência um espaço de aprendizagem e de exercício da participação.

Algo importante a ser pensado é a desigualdade de territórios, que geram sujeitos desiguais pela sua gênese original, uns são valorizados e outros estigmatizados, seja pela raça, cultura, condição econômico-social, local onde reside, o que forma parte da identidade dos sujeitos.

A expansão da escolarização básica no Brasil trouxe para o interior da escola um público que, historicamente, estava excluído dela, com as novas gerações sendo mais escolarizadas que seus pais [...] e elas trazem consigo [...] as experiências vividas em uma sociedade marcada por relações desiguais e diferenças em termos de raça, gênero, religião (BRASIL, 2013, p. 48),

o que confirma que o tema da pesquisa e o público jovem que irá colaborar no fornecimento dos dados cumulam afinidades.

Esses fatores também se refletem na relação destes sujeitos com a escola e a educação de modo geral, a qual não pode deixar de problematizar essa situação para gerar um ambiente com o qual todos se identifiquem, se sintam acolhidos, inclusos, parte deste território, seguros na interação com os demais e com o conhecimento, em paridade no exercício e usufruto de direitos e deveres.

Um atributo comum à juventude e à escola é a participação, no caso da primeira em exercer, no caso da segunda em ser o espaço para que ela aconteça. A participação produz experiências educativas e formativas se vista como potencializadora de aprendizagens, desenvolvimento e prática de valores, como o respeito às diferenças e a empatia, de habilidades discursivas e de negociação, o que firma contraponto ao neoliberalismo no reconhecimento de valor da dimensão coletiva. A organização moderna da escola é um motivador de choque com o ímpeto jovem pela participação, visto que as esferas que constituem a vida juvenil atravessam instituições primeiras de socialização (família, igreja, escola) e redes de sociabilidade outras buscadas por identificação ou subjetivação (cultura, política, mídia) que se situam num panorama espaço-temporal pós-moderno, desconstruído inclusive nas suas prioridades.

A escola tem a incumbência de “[...] construir um vínculo entre a identidade juvenil e a experiência de ser aluno” (BRASIL, 2013, p. 52), entre os conteúdos escolares e o sentido da existência; e o professor “tem um papel importante na mediação entre o ser jovem e ser estudante” (idem), trabalhando com o conhecimento

no cotidiano das aulas de modo a evocar as experiências subjetivas e contextualizá- lo no presente e no futuro dos educandos, significá-lo para a vida.

Outro aspecto para o qual a educação escolar obriga-se a estar atenta e interada são as mídias constantemente acessadas por eletroeletrônicos que também compõem a identidade desses jovens nas redes sociais, por exemplo. As horas diárias gastas no contato com estas fontes através dos computadores, TVs, smartvs, tablets,

smartphones são crescentes e nestes lugares/ espaços o maior interesse em fazer

com que as pessoas se sintam únicas, compreendidas e convencidas de que precisam de algo que se lhes é oferecido, é estimular o consumo mediado e orientado pelo mercado. Bauman (2013a) ressalta a importância de proteger-se do excesso de informações que não nos interessam e que estão disponíveis na rede com finalidades nem sempre percebidas pelos seus consumidores, e citando Eriksen (apud BAUMAN, 2013a, p. 35) alerta: “[...] em vez de organizar o conhecimento segundo linhas ordenadas, a sociedade da informação oferece cascatas de signos descontextualizados, conectados entre si de forma mais ou menos aleatória”. A captura dos desejos, a rarefação dos limites, o atravessamento dos binarismos modernos e a relativização dos valores e da vida fabricada pelo discurso midiático e reproduzido muitas vezes no cotidiano individual e coletivo, particular, familiar, social, neutralizam os esforços em formar por meio (também) da educação na escola sujeitos capazes de interagir consigo, entre si e com o mundo centrado em princípios éticos fundamentais. Este fenômeno torna quase inviável a resistência ao que está posto objetivamente, mas nos dá pistas de que estes discursos tem um efeito postergador mas não absoluto levando-se em conta que temos o poder de pensar o sistema e reinventá-lo, ainda que enveredados nos regimes de verdade que o sustentam.

Eis o propulsor do processo: uma educação deflagradora, investigativa, que desperte dúvidas e vontade de aventurar-se pelo (auto)conhecimento, perguntas que não tem resposta pronta na rede para se fazer um Ctrl+c e um Ctrl+v, indagações que levem os estudantes a se identificarem com sua própria humanidade e não com os padrões (emocionais, estéticos, intelectuais etc.) formados pelo marketing sequestrador de subjetividades baseados em seus bancos de dados. Aguçar a curiosidade pelas interrogações incômodas que podem desacomodar a inércia na qual possivelmente estão postos alguns/ muitos destes jovens em práticas discursivas que talvez não sejam as suas por meio da pesquisa. Envolver pedagogicamente problemáticas do nosso tempo e espaço que afetam a produção das nossas

subjetividades, abordando o tema desta proposta de trabalho, racismo e relações de poder, como algo que nos colocará a serviço de nosso crescimento na busca e construção do conhecimento enquanto sujeitos e enquanto grupo, que se (re)conhece nas suas singularidades e pluralidades como um coletivo diverso, rico, humano, atravessado por discursos e capaz de se (auto)discursar, seja pela palavra, pela imagem, na sua composição estética, na sua produção visual, na expressão de seus intentos.