VALIDAÇÃO EXTERNA
5 Conclusão e Implicações
5.1 Sumário do estudo
A investigação teórico-empírica empreendida nesta tese buscou analisar o impacto das carcaterísticas do ambiente institucional sobre o desempenho exportador em firmas dos complexos soja e carnes. Isto exigiu a descrição dos construtos ambiente institucional, especificamente aspectos econômicos e político-legais, e sua influência sobre as características da internacionalização da firma e seu desempenho exportador decorrente. Foi ainda necessário compreender a relação de mediação existente entre o ambiente institucional e o desempenho, via variáveis como localização, presença de recursos tangíveis e intangíveis e o papel dos agentes externos neste contexto. A premissa básica orientadora, portanto, foi a de que haveria uma relação causal (e portanto temporal), sendo o ambiente institucional observado como variável independentente, o desempenho como resposta e a internacionalização como mediadora da relação (assumindo o caráter endógeno e exógeno simultaneamente).
Os aspectos que envolvem a atividade internacional das firmas tem recebido significativa e crescente atenção de públicos diversos, os quais compreendem acadêmicos, empresários e gestores de políticas públicas. A pauta de participação internacional do Brasil no comércio exterior é fortemente orientada para produtos provenientes do agronegócio, sendo expressivo o destaque das indústrias do complexo soja e carnes. Aliado a esses aspetos, destaca- se o período de transição institucional vivenciado pelo país nas últimas duas décadas, de abertura comercial e redução das barreiras de comercialização, maior investimento em tecnologia de produção, estímulo da capacidade produtiva das empresas via criação de políticas de financiamento, redução de impostos específicos e estreitamento das relações internacionais. Reitera-se que tal movimento é consonante com o observado nos demais países emergentes.
O suporte teórico utilizado na tese foi constituído pela construção do pensamento da teoria contingencial à instititucional, dada a importância do fit entre o ambiente e as estratégias adotadas pela firma e do papel das instituições ao aparelhar o terreno no qual esta compete. Isto
contempla questões concernentes ao sistema político-legal e regulatório e ao ambiente econômico, à ótica de variáveis como taxas de câmbio, juros e inflação e a concessão de crédito via subsídio governamental. Ademais, destaca-se o investimento e manutenção em infra- estrutura (i.e. rodoviária, ferroviária e portuária) como propulsor do desempeho das firmas.
No tocante às características da internacionalização, destacam-se os principais modelos disponíveis na literatura especializada, a saber: Ciclo de Vida do Produto (VERNON, 1966, 1979), Teoria de Uppsala (JOHANSON; VAHLNE, 1977; 2009); Paradigma Eclético (DUNNING, 1988); Teoria da Vantagem Competitiva Nacional (modelo Diamante) (PORTER, 1989); Dilema das Escolhas Adaptativas (LAM; WHITE, 1999); e Resource-based View of the
Firm (RBV) (BARNEY, 2002; SHARMA; ERRAMILLI, 2004). A partir das contribuições de
Kovacs (2009), as quais destacaram a formação de estratégias internacionais na fruticultura e carcinicultura (indústrias do agronegócio consideradas exóticas e de produção em baixa escala) tais modelos foram analisados de maneira integrada e cruzada, para definição dos construtos básicos utilizados. Dada a natureza do campo utilizado na presente tese, houve a redefinição dos conceitos, sendo mantidos 4 (quatro), os quais: localização, recursos, agentes externos e aprendizagem, em detrimento aos 7 (sete) apresentados pela autora (somem-se escolhas gerenciais, contexto externo e processo de formação de estratégias). Quando da análise dos dados, apenas localização, recursos e agentes foram significativamente relacionados ao desempenho exportador e, portando, mantidos no modelo final explicativo. Destaca-se que o modelo Diamante (PORTER, 1989) percebeu ampla aplicabilidade, ainda que tenha sido desenvolvido em indústrias sofisticadas e em países desenvolvidos, contrariando estudos anteriores (FROTA, 2005; OLIVEIRA; 2007; KOVACS, 2009). Dado que o Brasil é intenso consumidor dos produtos considerados como carne, soja e derivados, as condições da demanda foram satisfeitas. O nível de competitividade é significativo, cujas empresas apresentam comportamento imitativo e proximidade das decisões estratégicas.
Acerca do desempenho exportador, optou-se por desenvolver 02 (duas) categorias de medidas, sendo estas de cunho econômico e geral. A primeira lida com variáveis referentes aos índices de lucratividade, rentabilidade, crescimento e volume. A segunda sugere a comparação dos resultados da firma com seus concorrentes, em termos de margem de lucro e quantidade exportada. Apoiada na fundamentação teórica, havia a nítida expectativa de correlação entre as categorias de medidas; isto não ocorreu, sendo o desempenho econômico observado como preditor do desempenho geral. Este resultado pode ter sido direcionado pelo formato da pergunta, a qual solicitou o grau de satisfação com o desempenho. Em outras palavras, é
possível inferir que a firma (por meio do respondente) percebe seu desempenho geral a partir de índices econômicos satisfatórios.
Em relação aos aspectos metodológicos, a tese é de natureza eminentemente quantitativa, caracterizada como explicativa, ex-post-facto, cross-sectional, baseada no raciocínio hipotético-dedutivo e orientada pela abordagem neopositivista. Ressalta-se que hipóteses foram elaboradas ao encontro dos objetivos específicos. Houve dificuldades em especificar o universo real da pesquisa, dadas divergências encontradas nas bases de dados consultadas, as quais: MDIC (via Vitrine do Exportador) e CNI (via portal brazil4export); todavia, foram consideradas nesta investigação 383 (trezentos e oitenta e três) exportadoras de soja e 187 (cento e oitenta e sete) de carnes. A coleta de dados de-se por meio de survey, cuja amostra foi estruturada por meio da acessibilidade e julgamento, em empresas exportadoras dos complexos carnes e soja brasileiros. Para partipação na pesquisa, essas empresas deveriam exportar percentual igual ou superior de 20% desses produtos, sobre a exportação total, a fim de que alcançar maior nível de precisão e validade das informações coletadas. Ademais,foram excluídas desse escopo as trading companies, comerciais exportadoras e organizações sem fins lucrativos. A amostra final foi composta por 194 respondentes válidos (108 exportadoras do complexo soja e 86 do complexo carnes), em abrangência geográfica nacional, e os dados foram coletados no período de outubro de 2012 a julho de 2014
A análise dos dados compreendeu técnicas estatísticas univariadas e multivariadas, com apoio do software SPSS 20.0 e pacote AMOS®. Procedeu-se com a análise das medidas de tendência central e distribuição de frequência, além de testes de confiabilidade da escala e adequação da amostra, análise fatorial confirmatória, testes de correlação e modelagem de equações estruturais (SEM). Vista como uma extensão da regressão múltipla, a mais óbvia diferença entre ela e as demais técnicas multivariadas é a forma de lidar com os conjuntos de variáveis dependentes (HAIR et al., 2007), donde é possível estimar, simultaneamente, as variáveis dependentes e independentes, bem como as correlações entre elas em um único sistema de equação denominado estrutural.
Ressalta-se, todavia, que a adequada aplicação da SEM depende do modelo de estimação e sua avaliação, sendo que a qualidade do ajuste global do modelo deriva dos parâmetros estatísticos e das propriedades dos estimadores quanto à consistência, eficácia das estimativas e ausência de viés (LEI; WU, 2012). Em seu turmo, a consistência do parâmetro é observada quando apresenta-se invariável, dado aumento da amostra. A perspectiva inicial, ainda na fase do projeto de tese, era que a amostra contemplasse pelo menos 250 (duzentos e cinquenta) casos
(HAIR, 2006) e assim satisfazer os critérios apontados em estudos correntes nas Ciências Sociais, em específico na Administração, para o número de itens pesquisados.
De modo geral, as hipóteses referentes às relações entre os construtos pesquisados foram confirmadas. O modelo demonstrou que o ambiente institucional, via dimensões político-legais, influenciam o desempenho exportador das firmas, sendo ponto de destaque questões concernentes ao sistema regulatório, haja vista sua correlação estatisticamente significativa com o desempenho econômico e com todos os construtos analisados no âmbito das características da internacionalização, os quais: (i) localização; (ii) recursos; (iii) aprendizagem; e (iv) agentes externos, em pelo menos um de seus fatores formativos. No caso de localização e recursos, todos os fatores foram influenciados pelo Sistema regulatório, o mesmo acontecendo em aprendizagem (todavia, para este construto, apenas um fator emergiu, sendo considerada a própria variável latente extraída). O macroconstruto “características da internacionalização” foi modelado e excluída a aprendizagem, por não contribuir positivamente no ajuste do modelo (dada sua baixa variância extraída).
Por sua vez, o desempenho exportador, foi observado à ótica do desempenho econômico. Quando da fase descritiva, os respondentes indicaram a importância do cenário econômico como influenciador das ações internacionais (ou seja, estratégias, de acordo com a definição de Barney (2002)) e decorrente desempenho; Os aspectos econômicos, componente do ambiente institucional, foi tido como preditor, de acordo com o modelo resultante, apenas do desempenho geral, sendo este também direcionado pelo desempenho econômico.
Em suma, foi evidenciado o papel significativo do governo como determinante do desempenho exportador nas indústrias selecionadas, de acordo com a amostra investigada. Questões concernentes ao ambiente institucional direcionam o desempenho exportador de empresas maduras do agronegócio brasileiro, sobretudo quando dominado por grandes empresas e quando disseminados meios de produção e investimento tecnológico. Neste caso, as empresas assumiriam certa homogeneidade de recursos, sobretudo tangíveis, sendo tal aspecto condição sine qua non para a competição. Reitera-se que o ambiente institucional internacional não foi considerado como variável de análise, pois o índice de respostas ausentes foi bastante elevado. Isso pode ser atribuído ao desconhecimento das características deste ambiente em função do mercado ser dominado por grandes empresas, cuja produção dá-se por meio de escala e os papéis bem definidos. Por fim, destaca-se que o fenômeno aqui tratado é do fluxo de comércio entre países em desenvolvimento (confirmado pela identificação, via respondentes, dos principais mercados atendidos); a literatura especializada (ver: capítulo 2)
enfatiza mais fortemente a perspectiva desenvolvido-em desenvolvimento ou em desenvolvimento-desenvolvido. Isto pode ser atribuído, inclusive, pela natureza do campo pesquisado, pouco explorado nas pesquisas científicas da área em geral.