4. CAPÍTULO IV: O Governo Lula e os Programas de Transferência Direta de
4.2 Governo Lula
4.2.9 Super dimensionamento?
O terceiro ciclo de denúncias foi motivado por falhas na interpretação dos dados iniciais da Pesquisa de Orçamento Familiar – POF 2002 – 2003 do IBGE e referia-se a um possível super dimensionamento do Programa em um “país de obesos” e não de famintos.
Divulgada em dezembro de 2004, a POF reafirmou a trajetória de queda da desnutrição no país. O Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (2004) já demonstrara que entre os anos de 1975 e 1996 a desnutrição infantil caiu cerca de 70%. Peliano (2005) ressalta que a depender da medida utilizada, a desnutrição atingia naquele último ano, 10,5% das crianças menores de 5 anos (com déficit altura para a idade), 5,7% (com déficit de peso para a idade), ou 2,3 (com déficit de peso para a altura).
A novidade nos dados apresentados pela POF 2002-2003 está na constatação de que a freqüência de excesso de peso na população brasileira superou em muito a freqüência de déficit de peso. Entre as mulheres o percentual das com excesso de peso chega a ser oito vezes o percentual das com déficit de peso. Na população masculina a diferença chega a quinze vezes.
Segundo o IBGE (2004), em um universo de 95,5 milhões de pessoas de 20 anos ou mais de idade há 3,8 milhões de pessoas (4,0%) com déficit de peso e 38,8 milhões (40,6%) com excesso de peso. 135 “A POF 2002-2003 revela que a população adulta brasileira, quando observada no seu todo, não está exposta aos riscos de desnutrição, sendo a taxa de 4% compatível com os padrões internacionais (...) Taxas entre 3% e 5% são encontradas em todas as populações (...) Assim, apenas quando os déficits excedem os 5% considera-se que a população está exposta a risco de desnutrição”.
135
Estes dados causaram grande estardalhaço na mídia nacional. Muitos se apressaram em questionar a prioridade dada pelo governo ao problema da fome136. Eduardo Nunes, presidente do IBGE, rebateu os questionamentos argumentando em entrevista à revista Carta Capital137 que obesidade e fome não são situações necessariamente antagônicas. No caso brasileiro ambas, fome e obesidade, estariam relacionadas à péssima distribuição de renda do país. “O cidadão é obeso porque consome muito açúcar ou muita farinha. Não mata a fome e engorda. A razão desse problema é a baixa renda de que dispõe”.
É interessante que a mesma POF demonstra que 47% das famílias pesquisadas destacaram que a quantidade de alimento consumido era habitualmente ou eventualmente insuficiente (responderam normalmente ou às vezes insuficiente), sendo que, 14% afirmaram que o alimento disponível é normalmente insuficiente.
Tabela 14 - Distribuição das famílias por avaliação da quantidade de alimento consumido pela família (%) - 2003
Avaliação da quantidade de alimento consumido pela família Brasil e Região Geográfica Normalmente insuficiente Às vezes insuficiente Sempre suficiente Brasil 13,83 32,80 53,36 Norte 17,18 46,67 36,14 Nordeste 19,25 41,51 39,24 Sudeste 13,36 30,00 56,64 Sul 7,46 22,74 69,81 Centro-Oeste 8,98 29,53 61,50 Notas:
1 - O termo família está sendo utilizado para indicar a unidade de investigação da pesquisa "Unidade de Consumo".
2 - As informações foram prestadas por um único membro indicado pela família. Fonte: IBGE - Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2002 - 2003)
As desigualdades regionais são marcantes neste quesito. No Norte e Nordeste do País, acima de 60% das famílias indicaram insuficiência habitual ou eventual na
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Editorial do Jornal O GLOBO pedia a revisão dos programas sociais.
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quantidade de alimentos consumidos. No Sudeste a proporção das famílias que apontaram algum grau de quantidade insuficiente foi pouco acima de 43%. No Sul, este percentual se aproximou de 30% e no Centro Oeste de 39%. (POF 2002-2003)
Destacam-se, também as diferenças entre as áreas urbanas e rurais do País. Nas áreas rurais, 56,9% das famílias responderam algum grau de insuficiência da quantidade de alimentos consumidos e nas urbanas este percentual se aproxima de 44%.
A proporção das famílias com dificuldades para se alimentar indica que parcela considerável da população sacrifica outros gastos básicos e dependem de programas sociais (merenda escolar, transferência de renda, por exemplo) ou recorrem à caridade, para garantir alimentação suficiente. É um sinal claro de insegurança alimentar.
Neste sentido, o debate provocado pelos dados da POF no final de 2004 e início de 2005 parece encaminhar-se para o campo político. Conforme destacado por Pelliano (2005), isso se deve à prioridade atribuída pelo Governo Lula à questão da fome.
No entanto, a confusão também tem como causa certa mistura no discurso político entre os conceitos de fome, indigência e pobreza. Segundo a economista Sônia Rocha em entrevista ao site nominimo, quando o Presidente da República fala em fome, se
ele está falando de famintos desnutridos, então ele só pode estar falando de uma população essencialmente em condições de pobreza crítica, que são as crianças até 5 anos e as mães. Assim, não há como falar em 55 milhões de famintos no Brasil.
O número de 55 milhões refere-se a pessoas pobres e pobreza está relacionada com insuficiência de renda. São pessoas que não têm renda para atender todas as suas necessidades: alimentação, vestuário, habitação, lazer. A economista lembra que pobreza é sempre medida a partir de algum cálculo de valor de renda mínimo (linha de pobreza). Quem estiver abaixo daquele patamar está na faixa de pobreza. No caso brasileiro, tradicionalmente é um cálculo feito a partir da renda familiar per capita, não da renda
individual.
Já o nível de indigência está associado ao valor mínimo para atender apenas as necessidades nutricionais. O cálculo de indigência também é feito a partir de renda, procura-se calcular se a renda disponível é suficiente para a aquisição de alimentos. Rocha (2003) conclui que como pobreza, indigência e desnutrição são categorias diferentes,
representam análises diferentes, e levam a implicações de política social completamente diversas.
Os Programas Cartão Alimentação e Bolsa Família utilizaram desde sua concepção estimativas calculadas a partir da PNAD que indicavam o número de famílias com renda inferior a meio salário mínimo. Portanto, um claro indicador de pobreza. No entanto, a vinculação dos Programas à marca Fome Zero parece ter distorcido a percepção de parcela da sociedade do verdadeiro público alvo do Programa.
Segundo Rocha (2004), utilizando os rendimentos das famílias em setembro de 2002 (PNAD) e o critério de renda do Cartão Alimentação138, a população alvo deste programa seria de quase 14 milhões de famílias (13.987.359). O Bolsa Família, por sua vez, ao privilegiar as famílias pobres com crianças e excluir as famílias com renda per capita entre R$ 50,00 e R$ 100,00 sem crianças, teria como beneficiários potencias 12.143.893 famílias.