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CAPÍTULO II – NOVOS SABERES INSTITUINDO NOVAS PRÁTICAS: O

2.1 Superando a Monocultura: “Anda-se Melhor com duas Pernas”

De um modo geral, nos anos de 1930, a monocultura fora responsabilizada por todos os males que afligiam a agricultura brasileira, como evidenciaram Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira:

Identificavam-se, dessa forma, as crises cíclicas de produção agrícola como causadoras de nefastas conseqüências para a nação. Não que a agricultura fosse crítica, mas a agricultura monocultora, dependendo de planos de valorização responsáveis pelos desequilíbrios monetários, deveria ser superada.143

Esta releitura do contexto econômico brasileiro eclodira na crise de 1930. Segundo a compreensão do governo, a monocultura era a principal responsável pela situação do país. Tal quadro poderia ser superado com a ampliação e a diversificação da produção.

Em estados como o da Paraíba, este momento crítico era ainda mais grave, notadamente devido à crise agro-exportadora que afetava o Nordeste desde o final do século XIX, quando o açúcar, principal produto regional de exportação, enfrentou a crise dos preços internacionais, alimentada pela concorrência do açúcar de beterraba produzido na Europa.

143 Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira. História Política do Abastecimento. (1918-1974).

Este novo açúcar foi empurrando o açúcar nordestino para fora dos mercados europeus. Expulsos deste mercado, os produtores brasileiros buscaram refúgio nos EUA, como ressaltou o historiador Petter Eisenberg: “para substituir o mercado inglês os brasileiros passaram a exportar para a única área ainda não dominada pelo açúcar de beterraba, os Estados Unidos – mas, aí a posição brasileira era frágil.”144 Todavia, a política expansionista dos EUA promoveu a criação de colônias açucareiras mais próximas deste país, como Porto Rico, Havaí e Cuba.145

O algodão, segundo produto na pauta de exportação nordestina, também foi afetado com as flutuações do mercado externo. As fibras de algodão foram extremamente valorizadas, com a expansão da indústria têxtil inglesa e a desorganização provocada pela Guerra de Secessão (1860-64), nos EUA, como disse o Presidente da província, da Paraíba, Manuel Araújo:

A guerra que lavra nos EUA do Sul e os do Norte da República Norte- Americana, abrio a nossos agricultores uma época nova e importante de resultados à riqueza do paiz. O plantio do algodão que em nosso paiz ia sendo substituído pela canna do assucar, retorna o espaço que havia cedido e pelas notícias sabidas, é de esperar seja a safra no corrente anno, talvez superior a maior que tenha sido colhida.146

Assim, o algodão, no século XIX, ia se tornando o primeiro produto da economia paraibana e invadindo basicamente toda a província. Neste momento, esta lavoura também se expandiu na área em estudo. Este fato, segundo Ramilton Costa, teria promovido o aumento do número de feiras, o crescimento das populações, a implantação de fazendas e, também, fora criada a freguesia de Pedra Lavrada.147 Todavia, com o fim da Guerra de Secessão, os algodoais norte-americanos foram reorganizados, o que provocou uma baixa nos preços, acentuada, ainda mais, pela depressão que afetou a economia mundial, no final do século XIX.

Além da concorrência no mercado externo, outro fator perturbador da crise agrária nordestina fora o declínio da população escrava. Desde 1850, o número de escravos diminuíra devido às altas taxas de mortalidade. Contudo, a partir da década de 70, do século XIX, a região começou a perder sua capacidade de retenção da mão-de-obra, seja pela crise econômica ou fatores climáticos.

144 Peter Eisenberg. Modernização sem Mudanças. São Paulo: Paz e Terra/ UNICAMP, 1977. p. 48. 145 Cf. Peter Eisenberg. op. cit.

146 Apud Irene Rodrigues da Silva Fernandes. op. cit. p. 56.

Ambos os aspectos induziram muitos proprietários a se desfazerem dos seus cativos. Se, por um lado, os proprietários repeliam os trabalhadores rurais, por outro lado, as regiões da Amazonas e do Sudeste atraiam novos contingentes humanos devido à expansão, respectivamente, da borracha e do café, este último, sobretudo em São Paulo.

Na Paraíba, neste período, o número de escravos também fora reduzido em todas as áreas. Para as historiadoras Ariane Menezes Sá e Maria do Céu Medeiros, além do tráfico interprovincial, outros aspectos foram responsáveis por tal decréscimo, como as epidemias e a

incorporação do homem livre pobre aos setores da economia.148 Com base nos documentos

consultados, percebi que os grandes e médios proprietários, para evitarem a fuga da mão-de- obra regional, investiram nas relações de moradia, integrando assim, economicamente, o homem livre ao transformá-lo em morador. Sobre tais relações, o historiador Marc Hoffnagel disse:

O homem livre pobre do campo, fosse ele parceiro, meeiro, morador, pequeno sitiante, arrendatário, foreiro etc, precisava se submeter ao domínio do latifundiário que monopolizou o acesso à terra. De um lado, ele permaneceu à margem da economia porque suas atividades produtivas foram determinadas pelos grandes proprietários. Ao mesmo tempo, porém este segmento da população se constitui em um elemento altamente integrado no sistema econômico, dado seu papel como fornecedor de mão-de-obra e produtor de mercadorias destinadas ao mercado interno e externo.149

A crise de descapitalização da economia açucareira obstaculizou o trânsito para o assalariamento, inviabilizando a formação de um mercado interno, como aconteceu no pólo cafeeiro. Acerca disto, o economista Wilson Cano enfatiza:

O novo café do Oeste Paulista havia, portanto, não apenas solucionado sua questão fundamental, a da mão-de-obra, fizera muito mais do que isso. Subordinando efetivamente o trabalho, implantou, com isso, as bases da economia cafeeira capitalista. Ao criar seu mercado de trabalho, criou também ‘sobras’ que permitiram o nascimento do mercado de trabalho urbano em São Paulo. Ao Instituir o ‘colonato’, ensejou ainda a criação de um amplo mercado de bens-salário, do qual a futura indústria e agricultura mercantil ocupar-se-iam mais tarde. 150

148 Cf Ariane Norma de Menezes Sá e Maria do Céu Medeiros. O Trabalho na Paraíba - Das Origens à

Transição para o Trabalho Livre. João Pessoa: UFPB, 1990.

149 Marc Hoffnagell. O Trabalho Livre. Marginalização e Manifestações Políticas: Os brancos pobres na

sociedade paraibana. (mimeografado), Recife: 1985. p. 4.

150 Wilson Cano. Ensaios sobre a Formação Econômica Regional do Brasil. Campinas, São Paulo:

Este movimento, que antecedera a industrialização do Sul, coincidira com a expulsão dos produtos nordestinos do mercado internacional, no início do século XX. Foi neste quadro que o Nordeste iniciou a comercialização dos seus produtos agrícolas, notadamente o açúcar e o algodão, com o Centro-Sul, que se tornou seu principal mercado consumidor.

Assim, no começo do século passado, iam sendo tecidas relações de competitividade e complementaridade, e se desenvolvendo a articulação comercial entre as diversas regiões do Brasil.

Desta forma, nas primeiras décadas do século XX, o Nordeste comercializava com o Sudeste, através da exportação de seus produtos agrários, a exemplo do algodão e do açúcar, relações comerciais que se intensificaram, sobretudo após a retração dos mercados internacionais, como destacou a geógrafa Marlene Maria da Silva: “Expulso do mercado internacional no fim do século passado, o açúcar nordestino passou a ter no centro-sul, a partir de 1900, o seu principal mercado consumidor”.151

O algodão nordestino também já abastecia grande parte da indústria têxtil nacional, como disse o economista Guimarães Neto: “Mais cedo do que comumente se pensa o Nordeste passa a se constituir fornecedor de algodão para o mercado interno, sobretudo para a indústria têxtil”.152

Todavia, a crise de 1929 criou um quadro depressivo nas economias centrais do capitalismo, afetando profundamente as áreas dependentes. No caso do Nordeste, o impacto foi duplo: por um lado, sofrera os efeitos traumáticos do contexto mundial; e, por outro, aqueles provenientes da reação do Centro-Sul. Pois, sem mercados para o café, São Paulo passou a investir nas lavouras de algodão e açúcar, para atender a sua própria demanda, constituindo, assim, duas regiões, uma açucareira e outra algodoeira, no interior deste estado. Este fato secundarizou o açúcar produzido no Nordeste. Com relação ao algodão nordestino que, até então, abastecia grande parte da indústria têxtil nacional, o quadro fora semelhante ao que ocorrera com o açúcar.

Na Paraíba, a situação não fora diferente, como deixa transparecer o documento abaixo mencionado:

Nenhuma dúvida nos assiste neste particular, tendo já a delegacia de Algodão dado a conhecer o seu ponto de vista a respeito do relatório do sr. Interventor Federal que acima foi aludido. São Paulo, que sempre foi nosso principal mercado, já está produzindo e em grande

151 Marlene Maria da Silva. Sertão - Norte. Área do Sistema Gado Algodão. Recife. SUDENE, 1982. p. 50. 152 Leonardo Guimarães Neto. Introdução à Formação Econômica do Nordeste (da Articulação comercial à

quantidade algodão de fibra curta inferior ao nosso, dado o conjunto de qualidades que reúne e que as do nosso sobrepujam, tais sejam comprimento e uniformidade, principalmente.

E aquele grande Estado, não satisfeito com isso, aparelha-se para produzir fibra média em quantidade suficiente às necessidades da sua indústria e já de agora faz os primeiros ensaios no sentido de obter que o seu território venha a dar também a fibra longa que merece. Acaso vamos perder o mercado paulista?153

Compreendo que tal ameaça para a Paraíba era extremamente danosa, pois a economia do estado dependia basicamente do algodão. No início dos anos de 1930, para enfrentar este quadro marcado pela perda do mercado interno, o governo paraibano usou duas estratégias. Primeiro, tentou melhorar a produção de fibras de algodão, como disse a historiadora Eliete Gurgão:

Assim, a partir de 1934, a interventoria concentra esforços no sentido da diversificação da lavoura incentivando outras culturas e propagando processos racionais e modernos para incrementar a produção algodoeira, importando técnicas e sementes de São Paulo.154

Entretanto, o Nordeste não apresentava condições para concorrer com o Centro-Sul, por isto fora secundarizado no mercado nacional. Esta posição de dependência e complementariedade, em relação a São Paulo, era ratificada pelo então Ministro do Trabalho, Agamenon Magalhães:

Se São Paulo é o grande parque industrial do Brasil, o Nordeste é o celeiro opulento de matérias-primas – fibras e plantas oleaginosas, que estão a desafiar organização e capital. O crescimento econômico de São Paulo teria necessariamente que culminar no transbordamento da seiva para o Nordeste.155

Conforme esta fala, o Centro-Sul deveria industrializar-se, enquanto caberia ao Nordeste atender as suas necessidades com matérias-primas como fibras, desde que não fossem apenas o algodão, pelos motivos mencionados, e incluisse, ainda, na sua pauta de exportação, plantas oleaginosas e outros produtos que a indústria paulista requisitasse. Nesta perspectiva, São Paulo alavancaria o Nordeste ao lhe possibilitar um mercado promissor para seus “produtos agrícolas”.

153 “O algodão na Parayba”. In Jornal A UNIÃO, dom., 11 dez. 1932. p. 5.

154 Eliete Queiroz de Gurjão. Morte e Vida das Oligarquias na Paraíba. João Pessoa: UFPB, 1989. p. 136. 155 Agamenon Magalhães. “São Paulo e o Nordeste”. In Jornal A UNIÃO, 6ª feira, 13 nov. 1936. p. 1.

A segunda alternativa posta em prática pelo governo estadual buscava romper com a monocultura do algodão, produzindo novos produtos agrícolas, outras lavouras, sobretudo aquelas que não sofressem o infortúnio da poderosa concorrência paulista. Esta estratégia fora também adotada em todo o Nordeste.

Penso que esta diversificação da produção agrícola deve ser entendida dentro de uma conjuntura mais ampla, pautada pela industrialização do país. Este novo quadro, marcado pelo desenvolvimento urbano, induziu a uma reorientação da agricultura brasileira. Desde então, este setor deveria, também, direcionar-se para o mercado interno, abastecendo as cidades, permitindo, assim, o rebaixamento do custo de vida e dos salários pagos na indústria, notadamente, do Centro-Sul.

Assim, em todo o país, fora estimulada a diversificação de vários produtos agropecuários, como observaram Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira:

Uma das novas preocupações do regime era determinar as medidas capazes de organizar o mercado interno, evitando assim a perigosa dependência em relação à monocultura. Reconhecia-se, devidamente sob o impacto da crise internacional de 1929, que a produção agrícola extensiva e dependente dos preços no mercado internacional levava para o interior do país todos os fenômenos de congestão do capitalismo europeu e americano com uma rapidez que em nada nos ajudava.156

Neste contexto, a política do Governo Federal buscava manter e ampliar os mercados externos e abastecer o mercado interno, sobretudo com os gêneros alimentícios. Estas medidas evitariam o aprofundamento da crise, como alardeava o Presidente Vargas:

Só assim poderemos dar sólida base econômica ao nosso equilíbrio monetário, libertando-nos, não só dos perigos da monocultura, sujeita a crises esporádicas, como também das valorizações artificiais que sobrecarregam o lavrador em benefício dos intermediários.157

Assim, na perspectiva de Vargas, a superação da monocultura consolidaria a economia nacional. Esta solução destinava-se, sobretudo, à economia marcada por um novo ordenamento, que primava pelo desenvolvimento industrial. O setor agrícola não sofrera grandes transformações e continuou perturbado com a retração dos mercados internacionais e sem apresentar maiores mudanças no campo nordestino, que manteve basicamente inalterada

156 Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira. História Política de Abastecimento - 1918-1974. op. cit.

p. 79.

a estrutura fundiária e conservou as relações não assalariadas, predominando o sistema de moradia e parceria.

Em 1937, o presidente Vargas, com o apoio das Forças Armadas, decretou o Estado Novo e extinguiu os partidos políticos. Foi neste momento que o Estado adquiriu estabilidade suficiente para comandar a “modernização” do país. O medo do comunismo calou as principais lideranças paulistas, ligadas à indústria, que acataram a implantação arbitrária do Estado ditatorial, enquanto o processo de centralização avançava, diminuindo o poder das elites regionais, como afirma a historiadora Aspásia Camargo: “Assim cresce a participação do Estado na economia interna e, na órbita internacional, criou-se mecanismos corporativos de controle da sociedade e eliminou-se antigos particularismos regionais”.158 Foi preciso eliminá-los para criar um outro projeto de âmbito nacional, de interesse da burguesia industrial, com mercado abrangente.

Na Paraíba, Argemiro de Figueiredo prestou total solidariedade a Vargas. Esta solidariedade política estendia-se a todo um projeto que envolvia a chamada modernização agrícola do estado. O processo que se viu, no final dos anos de 1930, na agricultura paraibana, foi denominado pela imprensa local de “revolucionário.” A chamada “revolução” ocorreu mediante o controle da política e da economia dos municípios estaduais. Assim, a modernização acontecia por meio da intervenção na vida dos diversos segmentos sociais. No meio rural, por exemplo, estes atores sociais deveriam ouvir as vozes dos técnicos e agrônomos, que estabeleciam as lavouras a serem cultivadas e as técnicas a serem utilizadas. Afinal, as elites técnicas baseavam suas pregações na ciência, nos conhecimentos científicos, sendo estes entendidos como neutros e imparciais e não como uma relação de poder construída por um jogo de interesses que entrecruza paradigmas científicos, intenções políticas e pessoais, entre outros aspectos.

Percebo que as diretrizes modernizadoras do campo paraibano moviam-se em duas direções: atender à demanda do mercado internacional e, também, do nacional. Esta última proposta enquadrava-se em um programa mais amplo, promovido pelo Governo Federal, que buscava abastecer o mercado interno em expansão, devido ao crescente processo de industrialização e urbanização nacional, com sede em São Paulo. Assim, o conjunto de medidas acionadas para a agricultora da Paraíba visava a desenvolver a policultura:

O Governo do Estado está apto e disposto cada vez mais a ajudar e proteger os que desejam produzir. Façam campos de mamonas, arroz,

158 Aspásia de Alcântara Camargo. In Boris Fausto (coord) História Geral de Civilização Brasileira: O Brasil

algodão, fumo, abacaxi, cana-de-açúcar ou construam pomares para garantia do futuro.159

Referindo-se ao processo de modernização agrícola e à indústria no Brasil, José de Souza Martins disse:

Comprando barato a sua subsistência, torna-se possível manter ou ampliar o mercado constituído pela população urbana e garantir taxas satisfatórias de remuneração do capital. E essas taxas satisfatórias devem estar num plano compatível às necessidades crescentes de acumulação de capital e de superação da economia colonial.160

Para atender a estas novas necessidades da economia nacional, a Diretoria de Fomento buscava incrementar a produção.161 Para modernizar-se, isto é, reconquistar os mercados nacionais e internacionais, tal instituição implementou várias dependências agrícolas, como a Granja de São Rafael, o Horto Simão Lopes, a Fazenda Mangabeira, além de manter um laboratório de ensaios e sementes e uma oficina mecânica voltada para o conserto das máquinas agrícolas. E ainda incentivava a difusão de várias plantas, cujas sementes eram oferecidas aos produtores.

O Horto Simão Lopes, localizado na capital, dispunha de cerca de 30 hectares, onde se realizavam estudos sobre plantas hortícolas, frutícolas e forrageiras, e buscava desenvolver o reflorestamento nas terras devastadas:

Este pomar constitui um universo de plantas matrizes que dentro em breve fornecerá a Diretoria os bulbilhos necessários aos seus trabalhos de enxerto e multiplicação de excelentes variedades frutícolas.162

Desde o final dos anos 30, este Horto produzia frutos para exportação: “Em 1938 foram exportados 27.615 caixas em 1939, apenas iniciada a safra, saíram 4.400 caixas. Depois outros embarques foram feitos não sendo possível ainda saber o total.”163

159 “Quadro de Fruticultura Tropical de 1935”. In Jornal A UNIÃO, dom., 12 dez. 1937. p. 7.

160 José de Souza Martins. Capitalismo e Tradicionalismo: Estudos sobre As contradições da Sociedade

Agrária Brasileira. São Paulo: Pioneira, 1975. p. 13.

161 Em 1934, o Interventor Gratuliano Brito criou, mediante o decreto de Nº. 583, a Diretoria de Produção

Vegetal e de Pesquisas Agronômicas, sob a direção do agrônomo Pimentel Gomes. Em setembro de 1938, esta instituição fora reformulada pelo Decreto 1.117, passando a denominar-se Diretoria de Fomento da Produção. O objetivo deste órgão era o de reorganizar as atividades agrícolas do estado, buscando diversificar e aumentar a produção, por meio de uma intensa campanha em favor do cultivo de novas lavouras, do aumento da produção de gêneros alimentícios e da mecanização agrícola.

162 “A Diretoria de Fomento da Produção”. In União Agrícola, 5ª feira, 25 jan. 1940. p. 3. 163 “A Diretoria de Fomento da Produção”. In União Agrícola, 5ª feira, 25 jan. 1940. p. 3.

Na Granja Modelo São Rafael, em João Pessoa, existiam plantações de agave, como ressaltou o economista Elbio Trocolli:

Em 1939-1940, a ‘granja São Rafael’, dependência agrícola da Diretoria de Produção, tinha agave em 2 dos seus 7,5 hectares cultivados, dentro da ótica das fazendas experimentais da Secretaria da Agricultura.164

Com relação à Granja São Rafael, noticiou o Jornal A UNIÃO:

Cada dia cresce o número de visitantes vindos do interior do Estado com o fim antes de tudo de aprender como dá ordem e beleza aos seus ambientes rurais. Porque uma granja bem limpa, bem disposta, bem dividida é sem dúvida um elemento de grande realce na vida campesina, dando mais movimento e cor à paisagem e mais gosto ao homem em se dedicar com todas as suas forças ao trabalho e a terra. …É tão simples e cheio de um tão saudável espírito rural, que os fazendeiros são irresistivelmente atraídos de acordo com o seu temperamento e possibilidades a erguer granjas como aquelas.165

Estes núcleos agrícolas eram os exemplos clássicos desta nova agricultura paraibana, que deviam, com a sua racionalidade espacial, sua higiene, seus tratos científicos e suas técnicas de administração, instruir os “visitantes” que, inspirados nestas referências, buscavam institucionalizar novas práticas em suas unidades agrícolas. Também suponho que os observadores destes núcleos agrícolas avançados eram, comumente, os grandes e médios proprietários, que tinham recursos econômicos para se deslocar das suas fazendas para a capital e para investir na modernização dos seus estabelecimentos. Estas categorias também tinham mais acesso aos programas radiofônicos, aos textos publicados em jornais da época, como A UNIÃO e revistas especializadas, entre os quais o Boletim de Publicidade Agrícola, que publicavam constantemente, em seus editoriais, mensagens visando seduzir os proprietários. Estes artigos construíam uma imagem positiva sobre as novas lavouras e os instrumentos agrícolas mais modernos, associando-os a grandes safras, à diminuição nos custos de produção e ao combate eficiente contra as secas.166

Assim, graças ao contato mais rápido com as idéias agronômicas, os senhores de terras renovavam seus valores, aderindo com mais facilidade à modernização. Isto não quer dizer