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A revista Superinteressante, publicação mensal da Editora Abril, se autodefine como um produto dirigido ao público jovem. “Ela inova nas pautas com abordagens criativas para os temas que todos estão discutindo e antecipa tendências, contando para o leitor, em primeiríssima mão, aquilo que vem por aí”, diz o Publiabril, o portal de publicidade da Abril. Pautas inovadoras, abordagens criativas, antecipação de tendências: essas características colocam a revista Superinteressante como um espaço apropriado para a inserção da temática da nanotecnologia.

A Superinteressante tem uma circulação líquida média de quase 360 mil exemplares, sendo cerca de 245 mil por assinatura e 115 mil por venda avulsa. Considerando-se que revistas são produtos de uso coletivo, isto é, um mesmo exemplar pode ser lido ou consultado por várias pessoas, seja no ambinte familiar, nas escolas e bibliotecas ou mesmo nas salas de espera de consultórios, a projeção é que a Superinteressante chegue a um total de aproximadamente 2,3 milhões de leitores.

Destaca-se também a presença da revista na internet. Estima-se que 2,5 milhões de pessoas por mês acessem os sites do núcleo jovem da Editora Abril, que inclui, além de

Superinteressante, Guia do Estudante e Mundo Estranho. Além disso, 537 mil pessoas interagem com essas marcas nas redes sociais. Mais de 900 pessoas por dia recomendam no Twitter cada matéria da Superinteressante. Conforme palavras do próprio Publiabril, “nosso negócio é engajar pessoas”.

Assim, por um lado, a Superinteressante exibe um perfil editorial receptivo para pautas sobre nanotecnologia e, por outro, trata-se de uma revista com grande potencial de penetração entre leitores brasileiros, sobretudo das faixas etárias de 25 a 34 anos (23%) e de 20 a 24 anos (21%), das classes B (56%) e A (24%) e das regiões Sudeste (50%) e Sul (21%). Nesse contexto e para os propósitos deste trabalho, torna-se relevante analisar como a nanotecnologia tem aparecido nas páginas de Superinteressante e avaliar se tal cobertura jornalística corresponde a uma historiografia da nanotecnologia.

7.1) Metodologia

Todas as edições mensais regulares e números especiais publicados por

Superinteressante desde 1987 estão disponíveis gratuitamente para consulta no site da revista (http://super.abril.com.br). No dia 23 de março de 2011, no campo destinado à busca no

acervo, digitou-se a palavra ‘nanotecnologia’ e todos os links então resultantes foram consultados, perfazendo um total de 57 textos diferentes com referência à nanotecnologia encontrados na revista. Eles foram impressos e submetidos à análise de conteúdo, conforme orientações metodológicas de Bauer (2008). A ficha usada para a análise de cada texto é apresentada a seguir (o formulário foi elaborado a partir de aspectos da história da nanotecnologia elencados no capítulo 4, de críticas feitas pelos atores sociais no capítulo 5 e dos resultados obtidos no capítulo 6; ele é mais completo do que o formulário usado no capítulo anterior porque se destina à análise de matérias retiradas de revista e não da internet):

Ficha nº: _____ Edição: __________

Título: ____________________ Tipo de texto: ( ) nota ( ) matéria

Tema principal:

( ) nanotecnologia

( ) outro. Qual? ____________________

Se tema principal ‘nanotecnologia’:

( ) panorama

( ) resultado de pesquisa ( ) produto

( ) outro. Qual? ____________________

Se tema principal ‘outro’:

( ) cita pontualmente (caso este campo seja assinalado, não preencher os demais itens) ( ) oferece algum contexto (caso este campo seja assinalado, preencher os demais itens levando em conta apenas a parte do texto que se refere à nanotecnologia)

Ênfase no tamanho: ( ) sim ( ) não

Projeção de futuro: ( ) sim ( ) não

Menciona revolução: ( ) sim ( ) não

Menciona ‘montadores’ ou nanorrobôs:

( ) sim ( ) não

Referência à ficção científica: ( ) sim ( ) não

Alerta sobre exageros: ( ) sim ( ) não

Perspectiva histórica: ( ) sim ( ) não

Se com ‘perspectiva histórica’(*), função

(permitido assinalar duas ou mais categorias): ( ) ‘antes e depois’(superação de um problema ou avanço em relação ao passado)

( ) ‘linha do tempo’ (ocorrências passadas que foram importantes para o desenvolvimento do tema)

( ) ‘marco zero’ (ou quando tudo começou) ( ) ‘analítica’ (resgate do passado para a compreensão do tema na atualidade) ( ) outro. Qual? ____________________

Quem ‘fala’(**)

(permitido assinalar duas ou mais categorias):

( ) pesquisadores / professores ( ) representantes de empresas

( ) representantes do governo / gestores

( ) representantes de trabalhadores / consumidores ( ) fontes não transcritas (ausência de trechos entre aspas)

( ) outro. Qual? ____________________

Origem de quem ‘fala’:

( ) nacional ( ) estrangeiro ( ) nacional e estrangeiro

Área do conhecimento:

( ) medicina / saúde / beleza

( ) eletrônica / engenharias / materiais ( ) economia / negócios ( ) humanidades ( ) multidisciplinar ( ) outro. Qual? ____________________ Valor: ( ) só benefícios ( ) benefícios > riscos ( ) benefícios = riscos ( ) riscos > benefícios ( ) só riscos

( ) não é possível identificar

Coloca alguma questão ética:

( ) sim ( ) não

Se com ‘questão ética’:

( ) apenas cita ( ) oferece algum debate

Trechos de destaque:

_________________________________________ _________________________________________ _________________________________________

(*) Esta categorização foi formulada de acordo com a experiência obtida na análise dos textos coletados pelos Alertas do Google, conforme capítulo anterior. Ao longo da análise dos textos da

Superinteressante, outras duas categorias foram encontradas: ‘natural’ e ‘paralelo’.

(**) ‘Falar’ aqui se refere a fontes, orais ou documentais, que foram literalmente transcritas nos textos, com trechos entre aspas.

7.2) Resultados

Embora desde o final da década de 1980 e o início dos anos 1990 já houvesse referência à ‘nanotecnologia’, foi justamente na virada do século XX para o XXI que essa palavra se tornou mais frequente na Superinteressante. Do total de 57 textos publicados de 1987 a 2011, 39 (68%) ocorreram de 1997 a 2004.

GRÁFICO 2 – Quantitativo de matérias com referência à nanotecnologia por ano em Superinteressante

Do total 57 textos com menção à palavra ‘nanotecnologia’, 23 (40%) foram classificados como notas (de um a três parágrafos) e 34 (60%) eram matérias maiores; 22 (39%) apresentavam a nanotecnologia como tema central e 35 (61%) discutiam principalmente outros assuntos. Dos 22 textos que apresentavam a nanotecnologia como tema

1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 a n o s quantidade de matérias

central, 11 (50%) descreviam resultados de pesquisas, 9 (41%) ofereciam um panorama do assunto e 2 (9%) mostravam produtos. Dos 35 textos que discutiam principalmente outros temas, 8 (23%) somente citavam pontualmente a palavra ‘nanotecnologia’ e 27 (77%) forneciam algum contexto sobre a nano.

Para as análises a seguir, foram considerados os 22 textos que apresentavam a nanotecnologia como tema central e os 27 que, embora discutissem principalmente outros temas, forneciam algum contexto sobre a nano, totalizando um universo de 49 materiais. Desse universo, 23 textos (47%) enfatizavam a redução do tamanho como traço primordial da nanotecnologia; 42 (86%) faziam projeção de cenário futuro; 20 (41%) mencionavam explicitamente o caráter de revolução nanotecnológica; 20 (41%) mencionavam explicitamente nanorrobôs ou ‘montadores’ nanométricos; 14 (29%) faziam referência explícita à ficção científica; e 9 (18%) alertavam sobre a possibilidade de exageros nos discursos a respeito da nanotecnologia.

TABELA 2 – Exemplos das características identificadas nos textos sobre nanotecnologia em Superinteressante (1987-2011)

Características Exemplos

Ênfase no tamanho

“Será a era da nanotecnologia, a manipulação de objetos medidos em nanômetros, bilionésimos de metro.” (edição 31 | abr. 1990)

“Por enquanto, a energia solar se mostrou inviável para produção em larga escala. As células são espessas, caras e ocupam muito espaço [...]. Cientistas da Universidade do Novo México (EUA) estão usando nanotecnologia para criar uma espécie de filme que tem células captadoras de energia solar que são tão finas que podem ser aplicadas como tinta, reduzindo o espaço necessário para implantação de um sistema assim.” (edição 247 | dez. 2007)

Projeção de futuro

“Daqui a 50 anos, mesmo objetos grandes como um carro terão detalhes projetados com essa mesma precisão submolecular.” (edição 157 | out. 2000)

“E é por isso que testes com lentes líquidas, laser, nanotecnologia e holografia permitem sonhar com um futuro onde tudo que precisamos cabe no celular – um celular ainda mais funcional do que o aparelho que temos hoje.” (edição 257a | out. 2008)

Revolução

“Para provar que dominam a técnica de construir aparelhos microscópicos e que vão revolucionar a engenharia e a eletrônica na próxima década, Harold Craighead e Dustin Carr, da Universidade Cornell, deram uma de roqueiro. Eles conseguiram recortar um chip de silício, igual aos dos circuitos de computador, a ponto de esculpir uma guitarra que tem somente um centésimo de milímetro de comprimento.” (edição 121 | out. 1997) “Hoje em dia, é só surgir uma novidade que logo aparece alguém pra dizer que ela vai mudar o mundo. Uma hora é o iPhone, noutra é o Twitter e, no fim das contas, a promessa é exagerada e o mundo não muda tanto assim. Por isso, é normal que você tenha um pé atrás quando dizem que a nanotecnologia - a técnica de construir coisas a partir de átomos - vai mudar o mundo. Mas a diferença é que ela vai. Mesmo. E será a maior mudança no mundo da produção desde a Revolução Industrial.” (edição 269a | set. 2009)

Nanorrobôs “Daqui para frente, a ideia é construir nanorrobôs que poderão agir como

(edição 146 | nov. 1999)

“O engenheiro Eric Drexler, fundador do Instituto Foresight e um dos maiores defensores da nanotecnologia, acredita que a ciência será capaz de construir os nanorrobôs em 2010. Esses robôzinhos minúsculos – eles próprios frutos da nova ciência – farão o ‘trabalho duro’, ou seja, ordenar os átomos como quem empilha tijolos para levantar uma parede.” (edição 209a | mar. 2005)

Ficção cientítica

“Essa cena parece coisa de ficção científica – lembra filmes como Viagem Insólita, de 1987, em que pessoas miniaturizadas viajam, em submarinos, pelo organismo de outro sujeito. Com o aprimoramento da nanotecnologia, o braço da ciência empenhado em construir aparatos em escala atômica ou molecular, ela será quase tão corriqueira quanto extrair um dente ou fazer uma operação de apêndice.” (edição 183a | dez. 2002)

“Quando os cientistas aprenderem a manipular habilmente os átomos, produtos saídos diretamente dos livros de ficção científica se tornarão realidade.” (edição 209a | mar. 2005)

Alerta sobre exageros

“Tudo isso ainda é suposição, previsão, talvez sonho.” (edição 56 | mai. 1992)

“É um cenário bem parecido com o do clássico filme de ficção científica

Viagem Fantástica, dos anos 60. Pena que não vai funcionar nem que a vaca tussa.” (edição 265a | mai. 2009)

Daquele mesmo universo de 49 textos, 25 (51%) forneciam alguma perspectiva histórica sobre a nanotecnologia. A presença de perspectiva histórica foi classificada em seis formas, sendo possível um mesmo texto apresentar mais de uma forma. As seis formas identificadas foram: ‘analítica’ (quando uma situação do passado auxiliava na compreensão da nanotecnologia do presente); ‘antes e depois’ (quando uma dada situação era transformada pela aplicação da nanotecnologia); ‘linha do tempo’ (quando fatos do passado eram pontualmente citados para compor a trajetória da nanotecnologia); ‘natural’ (quando se estabelecia uma semelhança entre a nanotecnologia e fenômenos observados na natureza); ‘marco zero’ (quando um fato era apontado como a origem da nanotecnologia); e ‘paralelo’ (quando a trajetória da nanotecnologia era comparada com outro desenvolvimento tecnológico já conhecido). Considerando-se os 25 textos com alguma perspectiva histórica, 10 (40%) tinham a forma ‘paralelo’; 7 (28%) ‘antes e depois’; 7 (28%) ‘marco zero’; 4 (16%) ‘linha do tempo’; 3 (12%) ‘natural’; e, finalmente, 1 (4%) tinha a forma ‘analítica’.

TABELA 3 – Exemplos das formas de perspectiva histórica encontradas nos textos sobre

nanotecnologia em Superinteressante (1987-2011)

Formas de perspectiva histórica

Exemplos

Paralelo

“O cientista-chefe e diretor da Sun Microsystems, Bill Joy, escreveu, em abril, um artigo épico sobre o assunto, publicado na revista americana

Wired. Joy afirma que, se não pararmos agora, a nanotecnologia fugirá do controle, com máquinas de proporções virais passeando por aí, invisíveis, automultiplicando-se desordenadamente. Merkle, da Zyvex, interpreta o futuro de outra maneira: ‘Quando inventaram o avião, alguém disse: O quê? Uma coisa de metal que voa por aí como uma águia? Nem por isso vemos um 747 dando um rasante num pasto, com as garras para baixo,

apanhando vacas’.” (edição 158a | nov. 2000)

“As armas nucleares, no entanto, são uma realidade do século 20 com a qual nos habituamos a lidar. Neste recém-iniciado século, novos perigos tecnológicos estão surgindo e o maior deles vem dos avanços na biocibernanotecnologia. Com as novas tecnologias, uma única pessoa terá poder de destruição equivalente ao que uma nação tinha 100 anos atrás.” (edição 194 | nov. 2003)

“Aliás, ninguém está tentando construir montadores moleculares hoje, porque a nanotecnologia ainda está na infância. Vemos um caminho para esses montadores como os pioneiros que desenvolveram foguetes nos anos 30 e 40 viam um caminho para a Lua. Mas, como eles, ainda não estamos prontos para o objetivo final. Eles sabiam que antes precisariam lançar vários satélites, como nós sabemos que primeiro teremos de construir várias máquinas moleculares.” (edição 205 | out. 2004)

Antes e depois

“Nos últimos dez anos, o instituto vem se empenhando em reduzir o chip

da escala micrométrica para a nanométrica, para utilizá-lo no tratamento de doenças neurológicas humanas. Implantado no cérebro, o chamado neurotransistor poderá corrigir, por exemplo, a produção da substância das células degeneradas que causam o mal de Parkinson.” (edição 209a | mar. 2005)

“Há menos de cinco anos, a polícia precisaria de até 500 células de um criminoso para conseguir uma amostra de DNA decente. Com as técnicas modernas, apenas algumas bastam. [...] Para ficar perfeito, falta ser possível fazer os testes de DNA em tempo real, na própria cena do crime, substituindo grandes equipamentos por maletinhas portáteis. Cientistas de Hong Kong e dos EUA já estão cuidando disso. O trabalho dos americanos, publicado no Jornal Internacional de Nanotecnologia, mostra que, teoricamente, um nanotransistor pode ser ligado a um sensor de DNA para completar a tarefa. Já a equipe de Hong Kong conseguiu fazer a multiplicação do material genético necessária para o teste numa escala portátil, usando um microchip e um sensor eletroquímico. Ao que tudo indica, em breve os peritos poderão colher uma amostra biológica na cena do crime, inseri-la num dispositivo de bolso e receber em minutos o nome e uma foto do suspeito. Até o pessoal do CSI vai ficar com inveja.” (edição 257 | out. 2008)

Marco zero

“Que tal um futuro em que robôs microscópicos ajudam a fazer reparos em nossas células? Ideias como essa circulavam há mais de trinta anos em mentes como a do físico Richard Feynman (1918-1988) e serviram para o cientista do Massachusetts Institute of Technology Eric Drexler fundar a chamada Nanotecnologia.” (edição 122 | nov. 1997)

“Eric Drexler, o homem que inventou a nanotecnologia, está insatisfeito com os rumos que sua ideia tomou. Mas aposta que ela ainda transformará o mundo.” (edição 205 | out. 2004)

Linha do tempo

“Em 1959, o prêmio Nobel de Física Richard Feynman (1918-1988) já havia afirmado que manipular átomos era possível. [...] Em 1990, o mundo pode ver o logotipo da IBM desenhado com 35 átomos de xenônio. [...] O primeiro instrumento feito para manipular átomos foi o microscópio de varredura por tunelamento, o STM (Scanning Tunneling Microscope). A primeira versão desse microscópio surgiu em 1982, na IBM de Zurique, e rendeu aos físicos Heinrich Rohrer e Gerd Binning o prêmio Nobel, em 1986.” (edição 122a | nov. 1997)

“Não é de hoje que se fala em desenvolver robôs e outras estruturas nanométricas. Em 1997, cientistas da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, construíram, com o auxílio de microscópios de altíssima resolução e computadores supervelozes, uma guitarra menor que uma célula sanguínea. Sete anos antes, dois pesquisadores haviam feito a proeza de escrever a sigla IBM com 35 átomos de xenônio. Foi a primeira vez que se conseguiu manipular partículas tão pequenas. As pesquisas ganharam impulso nos últimos anos.” (edição 183a | dez. 2002)

Natural

“‘A natureza, com a criação e o desenvolvimento da vida, tem sido nossa mestra’, diz Richard Smalley, Prêmio Nobel de Química em 1996 [...].” (edição 158a | nov. 2000)

“A melhor receita [...] é copiar as células vivas, as quais, afinal, têm vasta experiência – uns 4 bilhões de anos – na arte de construir máquinas nanoscópicas. Se essa possibilidade vingar, o céu é o limite [...].” (edição 265a | mai. 2009)

Analítica

“A nanotecnologia só existe hoje como prática porque, há quase sessenta anos, os cientistas que estudavam a matéria derrubaram sólidos conceitos da Física clássica e criaram a Física quântica, em que as partículas como os fótons e os elétrons não se comportam como no mundo de gente grande.” (edição 56 | mai. 1992)

As fontes usadas pela revista foram outro aspecto analisado naquele universo de 49 textos. Foram identificadas as fontes que ‘falavam’ através dos textos, isto é, aquelas que tinham seus discursos transcritos e sinalizados entre aspas. Em 18 textos (37%) ‘falavam’ representantes da academia (pesquisadores e/ou professores); em 4 (8%), representantes de empresas; em 3 (6%) ‘falavam’ ambas – academia e empresas; em 1 (2%) aparecia um divulgador de ciência. Em 23 textos (47%) ninguém ‘falava’, isto é, não havia discursos entre aspas. Nos 26 textos em que alguém ‘falava’, 19 (73%) exibiam fontes estrangeiras; 4 (15%), fontes nacionais; e 3 (12%) juntavam fontes nacionais e estrangeiras.

Buscou-se, também, classificar aqueles 49 textos de acordo com as áreas do conhecimento. Assim, verificou-se que 14 (29%) colocavam a nanotecnologia no âmbito da “eletrônica, engenharias e materiais” e 4 (8%) encaixavam-na no campo da “medicina, saúde e beleza”. Também foram encontrados textos nos quais a nanotecnologia era associada a áreas como meio ambiente, energia, militar, criminalística e mesmo literatura de ficção. No entanto, na maioria dos textos (24 ou 49%), a nanotecnologia era inserida em uma abordagem multidisciplinar (embora, em geral, com as humanidades ausentes).

Para finalizar, os 49 textos foram analisados em relação ao valor agregado à nanotecnologia e às questões éticas. Nesse universo, 27 textos (55%) só apresentavam os benefícios da nanotecnologia, 8 (16%) destacavam mais os benefícios do que os riscos, 3 (6%) destacavam mais os riscos do que os benefícios e 2 (4%) só apresentavam os riscos. Nenhum falava de riscos e benefícios com a mesma intensidade e em 9 textos não foi encontrado esse tipo de valoração. Quanto à ética no desenvolvimento da nanotecnologia, 16 (33%) textos tocavam nesse ponto, mas destes somente 5 se detinham, ainda que brevemente, em torno da questão. Os demais citavam alguma situação ‘delicada’, mas simplesmente ‘passavam’ por ela, sem destacar a gravidade da questão.

TABELA 4 – Exemplos de questões éticas nos textos sobre nanotecnologia em Superinteressante (1987-2011)

Coloca uma questão ética Coloca e debate uma questão ética

“Para tentar apressar a chegada desse futuro, Baker fundou, no ano passado, o Centro para Nanotecnologia Biológica, um laboratório que reúne médicos e engenheiros para trabalhar no desenvolvimento de máquinas minúsculas para detectar doenças. Suponha que uma garotinha perfeitamente saudável faça o mapeamento genético e descubra que um determinado gene dela produz uma proteína de forma que a torne propensa a ter câncer no seio anos mais tarde. O médico, então, injeta nas células da região uma engenhocazinha do tamanho de uma célula de sangue, com sensores capazes de perceber alterações químicas. Décadas depois, no momento em que a primeira célula começar a se dividir anormalmente para gerar um tumor, a máquina capta as substâncias químicas que são produzidas nessa divisão e solta uma pequena quantidade de uma proteína venenosa, matando o câncer antes mesmo de ele poder ser visto.” (edição158a | nov. 2000)

“Haverá nanocoisinhas para purificar o ar, para garantir a temperatura e o grau de umidade das plantas na lavoura, câmeras e microfones muito menores que um grão de areia, tudo na mais completa e temerária invisibilidade.” (edição 168 | set. 2001)

“Outra seria avançar a nanotecnologia a ponto de construir objetos átomo por átomo – há quem acredite que, com isso, poderíamos até montar um cérebro humano artificial. Ou um homem inteiro.” (edição 191 | ago. 2003)

“Proibições de pesquisa, não. Abandonar áreas polêmicas supõe relegá-las a um mundo marginal em que seu desenvolvimento continuará da mesma forma, porém sem o debate ético. E isso facilitaria a usuários menos confiáveis e controláveis, como governos totalitários, a aquisição de um poder perigoso. Nós, cientistas, devemos continuar trabalhando em todos os campos, enquanto filósofos e cientistas sociais debatem o uso e o controle adequados das tecnologias.” (edição 183a | dez. 2002)

“Quando escrevi Engines of Creation achei importante que o público percebesse que em todas as tecnologias poderosas existem perigos tremendos, tanto quanto boas oportunidades. Minha preocupação era de que os leitores ficariam entusiasmados demais com as possíveis vantagens da nanotecnologia, sem considerar seu potencial lado negativo. Em relação aos montadores descontrolados e autorreprodutores, a existência deles é certamente viável de acordo com as leis da física. Porém, eles não apareceriam por acidente. Alguém teria que projetá-los e construí-los, o que seria uma tarefa difícil e sem utilidade. Hoje em dia, o que mais me preocupa é a ênfase exagerada com que essa possibilidade é tratada. Isso acaba tirando a atenção de questões mais importantes, como o uso deliberado de tecnologias poderosas em sistemas de armamento. É aí que os cientistas e formuladores de políticas públicas deveriam se concentrar.” (edição 205 | out. 2004)

7.3) Discussão

Entre os anos 2000 e 2001 foram formalizadas as iniciativas nacionais em nanotecnologia dos Estados Unidos e do Brasil. Foi no alvorecer do século XXI que o prefixo ‘nano’ começou a ganhar destaque na mídia brasileira, o que ajuda a explicar a concentração de textos referentes à nanotecnologia entre os anos 1997 e 2004 na Superinteressante. Observou-se uma queda do número de textos nos anos mais recentes – não foi obtido nenhum material nos anos de 2010 e 2011.

Contudo, é possível que, mais recentemente, tenham sido publicadas notas e matérias não sobre ‘nanotecnologia’, mas sobre determinadas nanopartículas, nanomateriais, nanoprodutos e ‘nanocoisas’ em geral, identificadas ou não com o prefixo ‘nano’. Assim, por exemplo, na edição 275, de fevereiro de 2010, a matéria “Você pode ser imortal” não usa a

palavra ‘nanotecnologia’, mas fala de “nanorrobôs”, previstos para o ano de 2030, que arrumariam nosso organismo, limpando artérias e destruindo vírus, bactérias e tumores. Nessa mesma edição da revista, uma nota comenta o trabalho de pesquisadores que buscam construir baterias “menores que um fio de cabelo”, as quais, possivelmente, conterão nanotecnologia, embora o prefixo ‘nano’ não tenha sido usado na redação do texto.

Dessa forma, como a busca no acervo de Superinteressante foi feita somente a partir da palavra ‘nanotecnologia’, matérias e notas como essas não fazem parte da amostra