Este capítulo analisa o Programa Calha Norte (PCN), com ênfase para a
vertente civil; as Ações Cívico Sociais (ACISO) realizadas na região em tela, além da
temática Operações Interagências que aproximam as Forças Armadas de diversas
agências de fiscalização das esferas federal, estadual e municipal, a fim de analisar
o suporte ao desenvolvimento advindo desses três pontos na medida em que eles
possuem relação com os processos de colonização, povoamento e vivificação da
Amazônia.
A vertente civil do Programa Calha Norte
O Programa Calha Norte (PCN) foi criado em 1985 durante o governo do
presidente José Sarney voltado para garantir a presença do Estado, contribuir com a
defesa e propiciar assistência às populações locais. Esse programa só seria suas
diretrizes alteradas pelo Plano Plurianual 2000-2003 (NASCIMENTO, 2005, p. 116).
Mas manteve seu caráter de suporte ao desenvolvimento das áreas da calha norte
do rio Amazonas.
Figura 13 – Início do Programa Calha Norte
Fonte: MATTOS (2011b, p. 198).
Segundo Mattos (1990, p. 106, grifo nosso), “o Projeto Calha Norte
federal dedicado ao povoamento, desenvolvimento de parte de nossa imensa
fronteira norte”.
De acordo com as Diretrizes Estratégicas para o Departamento do PCN do
Ministério da Defesa, o objetivo principal do programa é aumentar a presença do
Poder Público na sua área de atuação, contribuindo para a Defesa Nacional,
proporcionando assistência às populações e fixando o homem na região. Nascimento
(2005a, p. 28) detalha que fixar o homem na região é “garantir o desenvolvimento
regional com a manutenção da soberania, entendida como espaço limitado e definida
institucionalmente e administrado pelo Estado”.
Além disso, os objetivos específicos do PCN são: promover o
desenvolvimento sustentável, ocupar vazios estratégicos, integrar a população à
cidadania e ao conjunto nacional, melhorar o padrão de vida das populações,
modernizar o sistema de gestão municipal e fortalecer as atividades econômicas
estaduais e municipais da área de atuação do PCN.
O PCN elaborado como plano de ação governamental intensificou a
presença do Estado nas áreas de saúde, segurança e educação, voltando-se para
os objetivos do desenvolvimento e da segurança nacional, conforme pode ser
observado pelas considerações do LBDN abaixo.
O CalhaNorte é de grande importância para o aumento da presença do
Estado em uma área ao mesmo tempo carente e sensível, contribuindo para
a defesa e a integração nacionais. Sua influência se faz presente em
aproximadamente 30% do território nacional, onde habitam cerca de 8
milhões de pessoas, incluindo 36% da população indígena do Brasil.
(BRASIL, 2016a, p. 128, grifo nosso).
Tal citação pode ser contextualizada pelas palavras do então presidente José
Sarney na XLIV Sessão Ordinária da Assembleia Geral da Organização das Nações
Unidas em 1989:
[...] duas grandes questões devem igualmente ser objeto da nossa
preocupação prioritária: a proteção ambiental e o combate ao tráfico e
uso de drogas. [...]. Nossa política, nesse campo, é enérgica e profilática.
Há quatro anos, com o “Programa Calha Norte do Amazonas”, ocupamos
e fiscalizamos nossas extensas fronteiras para assistir às populações
locais e impedir a entrada de traficantes perseguidos de outros países
(COSTA, apud FRANCHI, 2013, p. 103, grifo nosso).
Em 1999, o PCN foi incorporado ao MD por ocasião da criação deste
ministério e, no ano de 2008, com a aprovação da END (BRASIL, 2016b), focada na
promoção de ações de presença do Estado na Amazônia, o programa propiciou o
fortalecimento do viés de defesa e das atividades de infraestrutura econômica e
social para o desenvolvimento da fronteira.
O programa transcende em muito o aspecto de vigilância, na medida em que,
sob a coordenação do Ministério da Defesa, e com intensa participação das Forças
Armadas, o Calha Norte busca atender às carências vividas pelas comunidades
locais, por meio da realização de obras estruturantes, como a construção de
rodovias, portos, pontes, escolas, creches, hospitais, poços de água potável e redes
de energia elétrica (NASCIMENTO, 2005b, p. 137).
Entre 1985 e 1999, o PCN foi responsável pela construção de quartéis de
brigadas (2), pelotões de fronteira (8), aeródromos (20), trechos de
rodovias (BR-307 e BR-156), hospitais (2), centros de saúde em terras
indígenas (15), poços artesianos, escolas e salas de aula, e pelo apoio à
demarcaçãodeterrasindígenas (36) (FRANCHI etal., 2011, p. 30, grifo
nosso).
Nascimento (2005a, p. 306) expressa que a inserção geográfica do PCN tem
gerado alterações no espaço, as quais dizem respeito ao avanço do controle de áreas
através de ações sociais, assistenciais, educacionais e recreativas, que buscam
firmar concretamente a presença do Estado enquanto valores ideológicos e,
sobretudo, instalações físicas que definem a materialidade do Estado.
Em 2006, a área de atuação do PCN foi ampliada e passou a abranger 194
municípios em seis Estados da Federação: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia
e Roraima (ver figura 14), correspondendo a cerca de 30% do território nacional.
Desse total, 95 cidades estão situadas ao longo dos 10.938 Km da Faixa de Fronteira
amazônica, segundo a página oficial do PCN.
Figura 14 – Fase intermediária do PCN
Fonte: Ministério da Defesa (2018).
Atualmente, o PCN abrange 379 municípios em oito Estados da Federação:
Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul (Faixa de Fronteira),
Pará, Rondônia e Roraima (ver figura 15), dos quais 167 estão ao longo dos 13.938
Km da Faixa de Fronteira. O PCN tem área de atuação de 3.123.986 km² que
corresponde a 44,8% do território nacional, onde habitam cerca de 20 milhões de
pessoas, dentre as quais se incluem 50% da população indígena do Brasil, conforme
o Ministério da Defesa (MD, 2018).
Figura 15 – Alcance atual do PCN
Fonte: Ministério da Defesa (2018).
Desta forma, as figuras 13, 14 e 15 mostram a área de abrangência inicial,
intermediária e atual do PCN, destacando o alargamento do alcance do programa ao
longo dos anos, o que confirma sua importância para a região, na medida em que
contribui com o desenvolvimento, com a defesa e a com a integração nacional.
Ainda, segundo as Diretrizes Estratégicas para o Departamento do Programa
Calha Norte, o programa tem atuado em duas vertentes: a civil e a militar.
Na vertente civil, têm sido celebrado convênios entre o MD e os estados e
municípios abrangidos pelo programa, para permitir a realização de projetos de
infraestrutura básica e complementar e aquisição de equipamentos, que servem de
polos irradiadores do desenvolvimento social e sustentável.
Conforme o MD (BRASIL, 2019, p. 76), no Plano Plurianual 2016-2019 a
vertente civil foi contemplada com uma Ação Orçamentária, a Ação 1211
(Implantação da Infraestrutura básica nos municípios da região da Calha Norte), que
possui a finalidade de melhorar as condições de saúde, educação, saneamento
básico, transporte, energia e comunicações das comunidades mais carentes da
região, proporcionando melhoria na qualidade de vida. No período de 2011 a 2018,
na vertente civil, foram celebrados 1.950 convênios, que somam mais de R$
1.592.490.815,25, caracterizando a relevância do PCN para o processo de vivificação
de sua área de atuação dado o montante investido na área.
Ainda, pode-se detalhar o alcance social do PCN, ao tomar como referência
os dados do ano de 2014, que segundo o MD (2018), se referem aos 292 convênios
firmados, com investimento de mais de 96 milhões de reais nos estados do AC, AM,
AP e RO. 199 bens foram entregues e 86 municípios dos referidos estados foram
contemplados, beneficiando mais de 40% da população dos estados mencionados.
A vertente militar do PCN foi contemplada pelo Plano Plurianual 2016-2019
com 06 (seis) Ações Orçamentárias (BRASIL, 2019, pp. 76-77), as quais são
executas mediante a transferência de recursos diretamente para os Comandos das
Forças Armadas, visando à implantação e ampliação de unidades da Marinha, do
Exército e da Aeronáutica na região. Milani (2014, p. 91) expressa, “o PCN fomenta
a ampliação da presença local das forças armadas brasileiras”.
Ainda, a vertente militar enfatiza o papel das Forças Armadas, destacando
duas prioridades: desenvolvimento sustentável e adequação da infraestrutura dos
PEF. O desenvolvimento sustentável prevê a adequação de embarcações para
atuação na região e adequação dos aeródromos dos PEF, contando com a
infraestrutura e a logística operacional das unidades militares para todo o apoio ao
Calha Norte. Tais recursos permitem que a infraestrutura dos PEF seja desenvolvida
e mantida, em ações como fabricação de lanchas, aquisição de motores para barcos,
construção, reforma e ampliação de paióis de munição, quartéis, aquisição de
mobiliários e equipamentos de comunicações e atendimento odontológico aos
militares e à população ribeirinha, manutenção de aeronaves, motores e
equipamentos, aquisição e manutenção de embarcações e instalação e manutenção
de redes elétricas.
Apesar de suas dificuldades, o PCN tem sido em grande parte responsável
pela presença constante do Estado brasileiro na Amazônia
setentrional, através dos Pelotões Especiais de Fronteira, do apoio
aéreo, do atendimento às tribos indígenas e comunidades carentes, e da
manutenção de infraestrutura (energia e transportes). (BECKER, 2009, p.
67, grifo nosso).
Segundo Bento (2017, p. 106, grifo nosso), por conta do PCN foram
construídas instalações para os seguintes PEF, por exemplo: “Pari Cachoeira,
Iauretê, São Joaquim, Querari e Maturacá, no Amazonas; Surucucu, Ericó e
Auris em Roraima; e o Tiriós (não – concluído), no Pará”.
Ainda, dentre os vários municípios atendidos pelo PCN, foram consolidados
na tabela abaixo os 24 municípios da área do Comando Militar da Amazônia (CMA)
e do Comando Militar do Norte (CMN) que participam do PCN e possuem alguma
Organização Militar (OM) do Exército, visando destacar a importância do programa
para o aprimoramento da presença militar na Amazônia, bem como destacar a
população e a densidade demográfica de cidades que, direta ou indiretamente, são
beneficiadas pelos recursos aplicados pelo Calha Norte.
Tabela 26 – Municípios que participam do PCN e possuem OM
Estado Município População (2010) demográfica Densidade
2010 (hab/km²)
Roraima
Boa Vista 284.313 50,0
Bonfim 10.943 1,4
Normandia 8.940 1,3
Pacaraima 10.433 1,3
Uiramutã 8.375 1,0
Amazonas
Barcelos 25.718 0,2
Humaitá 44.227 1,3
Manaus 1.802.014 158,06
São Gabriel da Cachoeira 37.896 0,4
Tabatinga 52.272 16,21
Tefé 61.453 2,59
Acre
Assis Brasil 6.072 1,2
Cruzeiro do Sul 78.507 8,9
Epitaciolândia 15.100 9,1
Marechal Thaumaturgo 14.227 1,7
Plácido de Castro 17.209 8,9
Rio Branco 336.038 38,0
Santa Rosa do Purus 4.691 0,8
Rondônia Costa Marques Guajará Mirim 13.678 41.656 2,74 1,7
Porto Velho 428.527 12,6
Pará Óbidos 49.333 1,76
Amapá Oiapoque Macapá 398.204 20.509 62,14 0,91
Fonte: Dados populacionais disponíveis em: https://cidades.ibge.gov.br/.
Destaca-se que não foram apresentadas as localidades do Mato Grosso e
do Mato Grosso do Sul (Faixa de Fronteira), uma vez que os referidos estados não
estão nas áreas de responsabilidade do CMA ou do CMN e, por conseguinte, não
estão no espaço físico delimitado para a presente pesquisa, ainda que sejam
alcançados pela atual área de atuação do PCN.
Sendo assim, após breve exposição sobre ambas vertentes do PCN, cabe
ressaltar que os resultados de todos os investimentos beneficiam brasileiros, quer
sejam civis ou militares, e, além disso, tais recursos provenientes do governo federal
geram resultados que transbordam as respectivas vertentes. Ambas estão
intimamente ligadas, na medida em que o que é aplicado pela vertente civil impacta
a vertente militar, que por sua vez também gera resultados positivos para as
populações que estão fixadas nos entornos das unidades militares, em especial, na
Faixa de Fronteira. Ainda, cabe destacar que o efetivo militar na área é muito inferior
a população civil local, o que ressalta que a vertente militar serve como indutora de
recursos indiretos para a vertente civil.
Os recursos do PCN chegam às pessoas por intermédio de convênios entre
o MD e os governos estaduais e municipais, dos quais 70% destes têm menos de 20
mil habitantes (MD, 2018). O gráfico 1 consolida os recursos geridos pelo PCN no
período de 2010 a 2018, conforme os relatórios situacionais disponibilizados pelo
departamento gestor do programa.
Gráfico 1 – Verbas do PCN nas vertentes civil, militar e somatório total
Fonte: Relatórios Situacionais do PCN (2010 – 2018) do MD. Elaborado pelo Autor.
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 Vertente Civil 308.777.792, 121.324.011, 168.282.977, 312.080.644, 170.919.023, 234.695.754, 484.445.901, 348.423.144, 347.286.166, Vertente Militar 48.352.059,1 47.811.546,7 58.200.512,8 63.797.942,3 54.936.510,0 51.162.816,1 40.453.798,0 46.542.111,1 49.755.482,2 TOTAL 357.129.851, 169.135.558, 226.483.490, 375.878.586, 225.855.534, 285.858.570, 524.899.699, 394.965.255, 397.041.648, 0,00 50.000.000,00 100.000.000,00 150.000.000,00 200.000.000,00 250.000.000,00 300.000.000,00 350.000.000,00 400.000.000,00 450.000.000,00 500.000.000,00 550.000.000,00
M
ilh
ões
d
e
reai
s
Observa-se que a maioria dos recursos são destinados à vertente civil,
seguindo uma tendência histórica, ao se comparar esse gráfico com outros trabalhos
acadêmicos, a exemplo a abordagem feita por Monteiro (2011, pp. 120, 125 e 126),
que escreveu sobre o Programa Calha Norte: redefinição das Políticas de Segurança
e Defesa nas fronteiras internacionais da Amazônia brasileira, e produziu gráficos
com as verbas do PCN no período de 1986 a 2007, com destaque para o intervalo
de 2003 a 2007. Além disso, os recursos destinados a vertente civil possuem pontos
de decréscimo que se destacam no gráfico, indicando inconstância nos valores
repassados ao PCN na citada vertente.
Com relação à vertente militar, ressalta-se que no período de 2010 a 2018, as
verbas alocadas se mantiveram constantes, sendo que em 2018 houve pequeno
acréscimo em relação a 2017. No período considerado, 2013 destaca-se por ser o
ponto mais alto da curva (linha vermelha) e 2016 por ter sido o mais baixo (linha
vermelha), apesar de ter sido o mais alto da vertente civil (linha azul).
Sendo assim, conclui-se parcialmente que os recursos da vertente civil
aplicados na região em tela são de fundamental importância para o incremento do
crescimento socioeconômico dos diversos municípios, uma vez que a referida
vertente concentra a maior parte dos recursos do PCN e possui amplo alcance. Além
disso, observa-se que a vertente militar corrobora com a civil, na medida em que o
objeto final do programa é alcançado, oferecer melhores condições de vida para o
habitante local, comprovando sua efetividade na região amazônica. Tais
considerações são reforçadas por Nascimento (2005b, p. 137): “os recursos
aplicados no PCN responderiam às demandas econômicas e sociais da região e
prerrogativas constitucionais”.
Pode-se concluir também que o EB exerce papel relevante no
desenvolvimento da região dado sua capilaridade, que direta ou indiretamente
favorece o crescimento socioeconômico das diversas localidades, favorecendo a
colonização, o povoamento e a vivificação da Amazônia. Tal assertiva acima é
confirmada por Nascimento (2013, p. 1507), que escreveu trabalho titulado sobre o
Desenvolvimento e Defesa da Amazônia: o papel do Calha Norte, expressando que:
“o papel dos militares para o desenvolvimento da região é de extrema importância”.
A vertente Mão Amiga – Ações Cívico Sociais
O Exército Brasileiro possui o slogan “Braço Forte – Mão Amiga!” A
expressão “Braço Forte” está relacionada com a missão constitucional do Exército na
Defesa da Pátria. E por sua vez, a “Mão Amiga” ao compromisso que a Instituição
tem com a população brasileira.
Sendo assim, as Ações Cívico Sociais (ACISO) representam em grande
medida a vertente Mão Amiga, pois as Organizações Militares realizam diversas
atividades em prol da sociedade, que conforme o Estado-Maior do Exército
significam:
Conjunto de atividades de caráter episódico ou programado de assistência
e auxílio a comunidades, desenvolvendo o espírito cívico e comunitário dos
cidadãos, no país ou no exterior, para resolver problemas imediatos e
prementes. (BRASIL, 2003, p. A - 1).
Desta forma, pode-se aferir que as ACISO se caracterizam por ações de
natureza assistencial para pessoas menos favorecidas na sociedade em geral.
Envolvem também programações de caráter cívico, a fim de cultuar valores pátrios
no seio da população.
As populações que vivem no entorno das Organizações Especiais de
Fronteira são as primeiras a serem beneficiadas pelas inúmeras ACISO realizadas
pelo EB. Sendo assim, tais OM destacam-se pelo papel social que desempenham na
Amazônia, reforçando a Estratégia da Presença (MARQUES, 2007, p. 87) e
contribuindo com os processos de povoamento e vivificação da Faixa de Fronteira.
O PEF por meio dessas ações procura levar serviços de saúde, educação e
cidadania a essas localidades, nessas atividades são prestados serviços de
atendimento médico e odontológico, fornecimento de documentação
(carteira de identidade e de trabalho), serviço de barbearia, distribuição de
medicação gratuita, recreação infantil, divulgação institucional da Força
Terrestre, entre outras atividades. Algumas dessas atividades são
desenvolvidas com apoio das prefeituras locais ou do governo do Estado,
por meio de suas secretarias de município e de estado (MIRANDA, 2012, p.
125).
Além dos PEF, pode-se mencionar as ACISO realizadas pelas demais OM
do CMA e CMN que constantemente também são a “Mão Amiga” da população
amazônica na medida em realizam tais atividades em suas áreas de
responsabilidade. Destas OM, destacam-se os Hospitais Militares devido a
participação de seus profissionais, como por exemplo os Hospitais de Tabatinga e de
São Gabriel da Cachoeira, únicos nestas cidades, administrados pelo EB, mas
vocacionados ao atendimento da população local (TÁSSIO, 2013, p. 187).
Conclui-se parcialmente que as ACISO são ferramentas utilizadas pelo EB
na vertente “Mão Amiga” que propiciam inúmeros benefícios a população local,
ribeirinhos e indígenas, fomentando o processo de povoamento e vivificação da
Amazônia.
A vertente das Operações Interagências
A presente seção apresentará a vertente das Operações Interagências
(colaboração com outros órgãos na fiscalização), as quais representam em grande
mediada as ações do Exército em suporte ao desenvolvimento da região assim como
o PCN e as ACISO.
Essas operações estão inseridas no escopo das Operações de Garantia da
Lei e da Ordem (GLO) que são abordadas na Lei Complementar nº 97, de 9 de junho
de 1999 (LC 97/1999), que dispõe sobre as normas gerais para a organização, o
preparo e o emprego das Forças Armadas; e pelo Decreto nº 3.897, de 24 de agosto
de 2001, que fixa as diretrizes para o emprego das Forças Armadas na garantia da
lei e da ordem, e dá outras providências. Cabe ressaltar que a LC 97/1999 foi alterada
pela Lei Complementar nº 117, de 2 de setembro de 2004 (LC 117/2004), que
disciplina a organização, o preparo e o emprego das Forças Armadas; e pela Lei
Complementar nº 136, de 25 de agosto de 2010 (LC 136/2010), que disciplina a
criação do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas e elenca as atribuições do
Ministro de Estado da Defesa.
Conforme o parágrafo 1º do Artigo 15 da LC 97/1999 (BRASIL, 1999, p. 4),
ratificado pelo artigo 2º do Decreto nº 3.897, de 24 de agosto de 2001, o Estado, por
decisão do Chefe do Poder Executivo, pode decidir por empregar as Forças Armadas
em Operações de GLO, após cumprir rito descrito por PAIM et al. (2020, p. 148),
devido ao esgotamento dos instrumentos destinados à preservação da ordem pública
e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, relacionados no artigo 144 da
Constituição Federal de 1988. Nesse contexto, são ativados os órgãos operacionais
das Forças Armadas, que desenvolverão, de forma episódica, em área previamente
estabelecida e por tempo limitado, as ações de caráter preventivo e repressivo,
necessárias para assegurar o resultado das Operações de GLO, segundo o
parágrafo 4º do Artigo 15 da LC 97/1999, inserido na referida lei pela LC 117/2004.
Ainda, conforme o parágrafo 5º do Artigo 15 da LC 97/1999, que foi
acrescentado na referida lei pela LC 117/2004 também, observa-se que as
Operações de GLO ocorrem em grande medida em ambiente interagências:
Determinado o emprego das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem,
caberá à autoridade competente, mediante ato formal, transferir o controle
operacional dos órgãos de segurança pública necessários ao
desenvolvimento das ações para a autoridade encarregada das operações,
a qual deverá constituir um centro de coordenação de operações, composto
por representantes dos órgãos públicos sob seu controle operacional ou com
interesses afins (BRASIL, 1999, pp. 4-5).
Analisando a legislação atinente ao assunto, compreende-se que a atuação
das Forças Armadas em Operações de GLO não se limitam a casos relacionados,
tão somente, a atos resultantes de greves das instituições de segurança pública, mas
também contribui para a realização de grandes eventos de Estado, propiciando a
manutenção de um ambiente seguro e estável e garantindo que os objetivos traçados
pelos níveis político e estratégico sejam atingidos (PAIM et al., 2020, p. 147). Em
particular, na região amazônica pode-se mencionar eventos que geraram Operações
de GLO como a greve dos Órgãos de Segurança Pública (OSP) no Maranhão e em
Rondônia, em novembro e em dezembro de 2011 respectivamente. No mesmo
escopo de GLO, cita-se a Operação Tucuxi, de 28 de agosto a 30 de outubro de
2018, em Roraima, instaurada pelo Decreto nº 9.483
48, de 28 de agosto de 2018.
Além dessas, cabe destacar também a Operação Verde Brasil, de 24 de
agosto a 24 de outubro de 2019, nos Estados da Amazônia Legal (inclusive nas áreas
de fronteira, nas terras indígenas, nas unidades federais de conservação ambiental),
amparada pelo Decreto nº 9.985
49, de 23 de agosto de 2019, definindo ações
preventivas e repressivas contra delitos ambientais; e levantamento e combate a
focos de incêndio (PAIM et al., 2020, p. 150). Percebe-se que o foco da Operação
Verde Brasil associasse de forma oportuna com a Política Nacional de Defesa (PND),
que enfatiza a existência de ameaças comuns na região fronteiriça, agravadas pelo
48
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/Decreto/D9483.htm.
Acesso em: 2 de novembro de 2019.
49
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/D9985.htm.
vazio demográfico, presença do Estado deficitária, grande extensão, ocorrência de
crimes ambientais e transfronteiriços, dentre outros.
As fronteiras demandam atenção, na medida em que por elas transitam
pessoas, mercadorias e bens, integrando e aproximando o País de seus
vizinhos, ao mesmo tempo em que através delas são perpetradas
atividades criminosas transnacionais de forma que sua permeabilidade
requer constante vigilância, atuação coordenada entre os órgãos de defesa
e os de segurança pública e estreita cooperação com os países limítrofes
No documento
. AS CONTRIBUIÇÕES DO EXÉRCITO NOS PROCESSOS DE VIVIFICAÇÃO DA AMAZÔNIA BRASILEIRA
(páginas 139-200)