Parte II O SERVIÇO SOCIAL NA SAÚDE
6. O suporte que o Serviço Social pode prestar no processo de tomada de
De acordo com vários estudos de diferentes autores sobre a gravidez, o apoio social aumenta as probabilidades de uma transição bem-sucedida para a parentalidade (cf. Pereira, 2001; Sieger e Renk, 2007; Soares et al., 2001 cit. por Canavarro et al., 2012). A percepção do apoio social é vista como uma variável mediadora de extrema importância para o ajustamento socioemocional das grávidas e, no caso do estudo supracitado, das mães adolescentes. Tendo em conta vários autores, uma rede de apoio social protege as grávidas dos riscos associados à maternidade, diminui a ansiedade das mesmas relativamente à gravidez e ao o desempenho de tarefas parentais, e promove níveis mais elevados de responsabilidade, sensibilidade e expressão de afectos relativamente ao futuro filho (cf. Soares et al., 2001; Soares e Jongenelen, 1998 cit. por Canavarro et al., 2012). Neste sentido, o papel de um técnico profissional, como um assistente social, torna-se essencial e poderá causar grandes impactos na decisão da mulher, uma vez que a fará sentir-se mais acompanhada e protegida, mais informada e por isso mais segura da sua decisão.
Para tal, deve existir um espaço onde as mulheres possam em liberdade expressar as suas necessidades, através do processo de diálogo e de escuta entre a grávida e o profissional. Na área da saúde, o acolhimento, a escuta e o vínculo são enfatizados como elementos diferenciadores na relação utente/profissional. Neste sentido, os profissionais devem acolher, escutar e tratar humanamente as grávidas e os seus desejosos e inquietações, e estabelecer uma relação de confiança e de apoio com as mesmas. Devem demonstram a capacidade e a disponibilidade para ouvi-las, estando verdadeiramente atentos à realidade vivida pelas mulheres, valorizando os seus desejosos, crenças, medos, esperanças, considerando também todos os factores que as envolvem. O vínculo é a estratégia que estabelece a relação de referência e de confiança, que neste momento da tomada de decisão prefere-se que não seja transferido para outro profissional (cf. Castro e Oliveira, 2012).
Para ter a compreensão da assistência recebida, a mulher grávida precisa de ter clareza do que vai viver, do que lhe é proposto; necessita estar disponível, informada, consciente. Só assim estará em condições de participar, de decidir, de também definir caminhos (Vasconcelos, 1997:146, cit. por Castro e Oliveira, 2012). Esta espaço permite que a mulher
55 seja ouvida e que as suas necessidades e os seus desejos sejam tidos em conta, promovendo- se um processo reflexivo, onde possam surgir novas questões e informações, sendo este um espaço de conhecimento mútuo e de ampliação da consciência (cf. Silva, 2000 cit. por Castro e Oliveira, 2012).
A empatia deve estar presente em todo o processo da intervenção. Este aspecto é fundamental e é talvez o mais importante, pois a mulher grávida tem de sentir que a consulta com o assistente social e/ou psicólogo é um espaço ausente de preconceitos e julgamentos, onde se sinta confortável e à vontade para expor as suas emoções, sentimentos, dúvidas e medos (cf. Patrão et al., 2008). A mulher deve sentir-se compreendida e ver nesta consulta um lugar de procura de sentido e recuperação da esperança, um momento de construção da resiliência e capacidade para lidar com a situação (cf. Howe, 2009). Assume-se que “confiar na relação pode ser difícil para aqueles que estão ansiosos ou zangados, desesperados ou deprimidos” (Howe, 2009:195), pelo que o profissional tem de procurar as capacidades de cada uma destas mulheres e faze-las acreditar que são mais do que a situação que apresentam, reconhecendo-lhes valor, forças, talentos, experiências, recursos e mostrando os suportes que têm para lidar com a situação. Deste modo, os assistentes sociais e/ou psicólogos têm a possibilidade de alargar o leque de escolhas da mulher, tendo por base os seus recursos internos e externos, de forma a que a mesma possa chegar a decisões mais saudáveis (cf. Howe, 2009; Saleebey, 2009).
Por vezes há uma incapacidade para se dizer o que se quer, muitas vezes porque nem se sabe ao certo o que é, pelo que os profissionais devem ter uma constante atitude de questionamento e observação da linguagem corporal e comportamental da mulher vs aquilo que é dito pela mesma, pois é através do comportamento que se manifesta as preferências da pessoa. Estes profissionais têm de considerar e respeitar a 100% os desejos e aspirações das mulheres, e não podem assumir que o diagnóstico que fazem ou o perfil e as características sociodemográficas da mulher definem as suas possibilidades de escolha. Os profissionais têm de estar completamente livres e abertos e ter em conta as esperanças, visões e valores da cada mulher. Têm de escuta-la, valorizar o que é dito e sentido, ter em conta a sua vontade e reconhecer os seus desejos para o futuro (cf. Pena, 2013).
Uma atitude de abertura e aceitação incondicional destes profissionais é crucial, pois têm de pôr de lado as suas crenças e convicções para poder acompanhar, sem tecer julgamentos, mulheres com diferentes níveis sociais, contextos e histórias de vidas e as mais variadas
56 razões para colocarem a hipótese de realizar a IVG. É, portanto, da responsabilidade dos técnicos envolvidos neste processo fazer com que as mulheres grávidas se sintam acolhidas, respeitadas e apoiadas. Por outro lado, estes profissionais devem também informar, aconselhar e encaminhar as mulheres quando preciso, fornecendo o suporte adequado, nas mais diversas alterações psicológicas e físicas que possam passar (cf. Patrão et al., 2008).
Para compreender e actuar na magnitude da problemática que gira em torno do aborto, deve-se repensar uma assistência de enfermagem integrada e humanizada (...) para a compreensão dos reais motivos que levam a uma mulher a optar pelo aborto, bem como o sofrimento pelo qual ela passa, além das sequelas deixadas, com o intuito de minimizar a discriminação através da humanização entre as relações sociais e a assistência profissional (Oliveira et al., 2005:29).
O assistente social deve ser alguém que faz chegar a informação às pessoas que precisam de conhece-la, o que faz com que assuma uma abordagem de advocacia. Neste sentido, para além de informar e esclarecer a mulher, a profissional deve também ajudá-la a tomar consciência das decisões que toma e das consequências dessa decisão em relação aos objectivos estabelecidos, tanto positivas como negativas (cf. Pena, 2013).
Tendo em conta a revisão feita por Sell et al. (2015) – análise dos vários estudos e artigos que tratam a questão da IVG – todos os estudos enfatizam a importância da comunicação entre os diversos atores sociais, sejam eles a família, os serviços de saúde, o ambiente escolar e comunitário, ou outros espaços de convívio humano onde possam ser exercidos os preceitos de justiça, dignidade e igualdade. Por outro lado, sugerem também que se dê uma maior atenção à mulher nos serviços de saúde, de forma a que se tenha em consideração os aspectos emocionais e a possibilidade de violência sofrida por estas mulheres (cf. Sell et al., 2015).
Uma das competências dos assistentes socias situa-se ao nível
da construção de relações, do saber ouvir, do desenvolvimento de relações de empatia e da compreensão do outro, mas também da capacidade de perceber as situações na relação com os contextos mais alargados a que pertencem e de estabelecer mediações ou interfaces entre os indivíduos e o meio que os rodeia (Amaro, 2015:136).
Assim, no contexto de uma decisão relativa à realização de uma IVG, o assistente social tem como função construir narrativas e sentidos comuns de acordo com o que é expresso pelas mulheres, explorar e informar sobre os recursos disponíveis e cocriar oportunidades para as mesmas tomarem a sua decisão da forma consciente, livre e responsável (cf. Amaro, 2015). Procura-se que este seja um espaço transparente, onde as grávidas possam esclarecer todas as suas dúvidas e receber informação de qualidade, que se distinga de uma simples
57 orientação sobre legislação e atos normativos (cf. Silva, 2000 cit. por Castro e Oliveira, 2012).