• Nenhum resultado encontrado

CAPITULO II: DAS PROPRIEDADES DOS TERMOS

2.1. A APELAÇÃO

2.4.6. A SUPPOSITIO PESSOAL COMUM DETERMINADA

Na suppositio pessoal comum determinada, é possível descer aos particulares por meio de uma proposição disjuntiva não excludente. Segundo as próprias palavras de Ockham: “Há suppositio determinada, quando é possível descer aos particulares por uma [proposição] disjuntiva; dessa maneira, é válida a consequência „um homem corre; portanto, este homem

corre ou aquele‟” 103

. Neste caso, para que uma proposição seja verdadeira, é necessário e, também, suficiente que ao menos uma proposição singular das disjuntivas seja verdadeira. É esta a razão de ser chamada suppositio determinada.

Temos como exemplo a seguinte proposição: “Um homem é um animal”. Para verificar sua verdade, basta „descer aos singulares‟ por meio de uma proposição disjuntiva não excludente: “Um homem é um animal, portanto, este homem ou aquele homem é um animal”. É suficiente que apenas um dos extremos da disjunção seja verdadeiro. Para tornar mais claro tal definição, vejamos as próprias palavras de Ockham em sua Summa Logicae:

E é chamada suposição determinada, porque por essa suposição é denotado que tal proposição é verdadeira por alguma [proposição] singular determinada; esta [proposição] singular determinada, sozinha, sem a verdade de outra singular, basta para verificar tal proposição. Assim, para a verdade de „um homem corre‟, requer-se que alguma singular [correspondente] seja verdadeira. E qualquer uma delas basta, ainda admitindo que qualquer outra fosse falsa; todavia, frequentemente, muitas ou todas são verdadeiras. Há, portanto, uma regra certa: quando, sob um termo comum, se pode descer aos singulares por uma proposição disjuntiva, e a partir de qualquer [proposição] singular [correspondente] se infere tal proposição, aquele termo tem suposição determinada104.

Esta suppositio tem o nome de determinada porque a verdade de uma proposição em que ela ocorre depende apenas da verdade de uma proposição determinada qualquer. Com efeito, como na proposição “Um homem corre”, é necessário que apenas um particular no conjunto dos homens corra para que a proposição seja verdadeira. Consequentemente, é

103

“Suppositio determinata est quando contingit descendere per aliquam disiunctivam ad singularia; sicut bene sequitur 'homo currit, igitur iste homo currit, vel ille.” Ibid. Cap. LXX, p. 330.

104

“Et ideo dicitur suppositio determinata quia per talem suppositionem denotatur quod talis propositio sit vera pro aliqua singulari determinata; quae singularis determinata sola, sine veritate alterius singularis, sufficit ad verificandam talem propositionem. Sicut ad veritatem istius 'homo currit' requiritur quod aliqua certa singularis sit vera. Et quaelibet sufficit, etiam posito quod quaelibet alia esset falsa; tamen frequenter multae vel omnes sunt verae. Est igitur regula certa, quod quando sub termino communi contingit descendere ad singularia per propositionem disiunctivam, et ex quaelibet singulari infertur talis propositio, tunc ille terminus habet suppositionem personalem determinatam.” Ibid. Cap. LXX, p. 330-331.

possível inferir novamente a proposição inicial “Um homem corre”. Ela é determinada da seguinte forma: “Um homem corre”. Logo, existe ao menos um x que é homem e que corre. Mesmo que somente um homem no mundo corresse, a proposição inicial ainda seria verdadeira. Da mesma forma é possível com “Um homem é um animal” e, apontando para um homem qualquer, concluir: “Este homem ou aquele é um animal”.

No Elementarium Logicae, para ratificar o que já foi dito, a necessidade e a suficiência da verdade de uma das proposições disjuntivas são explicadas como aquilo que caracteriza a determinação desta modalidade de suppositio:

E a suposição determinada é chamada assim não porque o termo suponha determinadamente por alguma coisa de algum modo e não por outro, mas porque a verdade da proposição em que supõe o termo requer que exista uma afirmação verdadeira por algo determinado, e isto é suficiente. Deste modo, qualquer que seja a [proposição] verdadeira não importando sobre o que seja, ela é simplesmente verdadeira. Com efeito, para a verdade desta [proposição] „homem corre‟, é suficiente que qualquer [proposição] singular em qualquer tempo seja verdadeira, seja outras [proposições] verdadeiras, ou não105.

A suppositio pessoal comum determinada é, por assim dizer, o oposto da suppositio meramente confusa, a qual foi analisada anteriormente. Enquanto naquela não é possível descer aos particulares sem que o termo de maior extensão lógica fosse modificado, nesta, no entanto, é possível, sendo, ademais, uma condição para sua validade.

Como vimos no início deste capítulo, a propriedade da significação constitui a coluna vertebral da lógica de Ockham. Sem ela, não há suppositio. Um termo, para supor, precisa significar. Podemos comparar a significação ao sistema nervoso central do corpo e a suppositio, às funções orgânicas. Sem a primeira, é impossível que um termo tenha uma referência, que possa indicar algo. Sem a segunda, porém, é impossível que um termo possa, no contexto proposicional, estar no lugar de uma coisa, quer um conceito, quer outro termo. Para que isto seja possível, é necessário que cada termo tenha um significado.

A suppositio permite ter as condições de verdade das proposições. Embora o significado seja deveras importante à lógica, a relação de significação de um termo com o seus designata não é por si só verdadeiro ou falso e nem envolve qualquer suppositio. O envolvimento desta propriedade apenas ocorre numa relação predicativa que acontece apenas

105

“Et dicitur suppositio determinata, non quia supponit terminus determinate pro aliquo uno ita quod non pro alio, sed quia ad veritatem propositionis in qua supponit sic terminus, requiritu r quod sit vera afirmativa pro aliquo determinate, et quod hoc sufficit. Ita quod quandocumque sit vera pro quocumque uno, ipsa est simpliciter vera. Ad veritatem enim istius „homo currit‟ sufficit quod quaecumque uma singularis quocumq ue tempore [sit] vera, sive non”. PSEUDO-OCKHAM. Elementarium Logicae... Op. cit. Cap. VII, p. 107-108.

em contexto proposicional. É ele, como veremos abaixo, que permite formar proposições verdadeiras ou falsas, dependendo do que os termos na relação predicativa estão no lugar.

Documentos relacionados