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Supremacia Constitucional e Normatividade dos Princípios

5 ESTAGFLAÇÃO, POLÍTICA ECONÔMICA E CONSTITUIÇÃO

5.2 Política Econômica e Constituição

5.2.1 Supremacia Constitucional e Normatividade dos Princípios

Ao longo da história, em vários momentos, levantou-se uma força na sociedade com ímpeto de limitar poderes políticos imperiais, o que pode ser observado, emblematicamente, no Estado Liberal. Esses movimentos de oposição a poderes arbitários foram, muitas vezes, estruturados na tendência à substituição do arbítrio por uma lei maior que representasse a

vontade geral, tendência futuramente denominada constitucionalismo. Tais movimentos propunham submissão do Estado a uma lei superior, restringindo o arbítrio de qualquer agente ou poder, e protegendo direitos dos componentes da sociedade. Em sentido amplo, independentemente do momento histórico, o constitucionalismo seria uma força oposta ao absolutismo, transferindo a autoridade de soberanos ao “governo da lei”.

O constitucionalismo moderno, no entanto, surge no contexto do liberalismo nas adjacências do século XVIII, com o aparecimento das constituições formais escritas, e do próprio direito constitucional, por meio do qual se desenvolveram os fundamentos históricos da Teoria da Constituição e da Supremacia das Normas Constitucionais. Este constitucionalismo, dos primórdios do Estado Liberal, era associado à garantia dos direitos individuais estabelecidos pela omissão dos excessos do Estado. Nessa esteira, definição interessante é a que designa o constitucionalismo como “a técnica jurídica pela qual é assegurado aos cidadãos o exercício dos seus direitos individuais e, ao mesmo tempo, coloca o Estado em condições de não os poder violar”46.

Entre o final do século XIX e início do século XX, o constitucionalismo começa adquirir outros contornos, extrapolando seu foco inicial de restringir a ação estatal contra o direito individual, e objetivando uma atuação social, dirigindo o Estado a atuar na promoção de direitos econômicos e sociais. Esse constitucionalismo contemporâneo impulsiona o Estado a realizar prestações positivas à sociedade e a intervir no campo da economia. No período, referências históricas são a Constituição de Weimar e a Constituição Mexicana.

Após a segunda Grande Guerra, na Europa, o constitucionalismo sofre nova guinada, com características que configuram o movimento denominado neoconstitucionalismo. O marco histórico deste novo direito constitucional, na Europa continental, foi o constitucionalismo do pós-guerra, especialmente na Alemanha e na Itália; no Brasil, foi a Constituição de 1988. Seu marco filosófico é o pós-positivismo, na confluência do jusnaturalismo e o positivismo. Por fim, seu plano teórico agrupa três grandes transformações relativas à aplicação do direito constitucional: a) o reconhecimento de força normativa à Constituição; b) a expansão da jurisdição constitucional; c) o desenvolvimento de uma nova dogmática da interpretação constitucional (BARROSO, 2006, p. 17-21).

46MATTEUCCI, Nicola. Verbete Constitucionalismo. In: BOBBIO, Norberto; Dicionário de política. Tradução

Esse constitucionalismo mais atual consagra a visão de que as normas constitucionais são dotadas de imperatividade, atributo de todas as normas jurídicas, com capacidades coercitivas e coativas. Além disso, há uma ampliação da força das normas constitucionais, com a supremacia concentrada na constituição, em vez de em modelos nos quais outros poderes apresentam preponderância. Há ainda a emergência de uma nova hermenêutica no sistema jurídico, no qual o conteúdo constitucional é preeminente. Um modo de se sintetizar os objetivos do neoconstitucionalismo é a busca pela efetividade dos preceitos constitucionais, incluindo as garantias individuais e sociais.

A supremacia da Constituição (Vorrang der Verfassung) manifesta-se pela Vontade desta Constituição (Willezur Verfassung) implicando que suas prescrições sejam atendidas, mantendo a funcionalidade constitucional e vinculando os poderes públicos às normas e princípios constitucionais. A supremacia constitucional fica bem explicitada nas lições de Canotilho (2011, p. 1131):

A Constituição é uma lei dotada de características especiais. Tem um brilho autônomo expresso através da forma, do procedimento de criação e da posição hierárquica das suas normas. Estes elementos permitem distingui-la de outros actos com valor legislativo presentes na ordem jurídica. Em primeiro lugar, caracteriza-se pela sua posição hierárquico-normativa superior relativamente às outras normas do ordenamento jurídico. [...] a superioridade hierárquico-normativa apresenta três expressões. 1) as normas constitucionais constituem uma lex superior que recolhe o fundamento da validade um si própria (autoprimazia normativa); (2) as normas de constituição são normas de normas (normaenormarum) afirmando-se como uma fonte de produção jurídica de outras normas (leis, regulamentos, estatutos); (3) a superioridade normativa das normas constitucionais implica o principio da conformidade de todos os actos dos poderes públicos com a Constituição.

No âmago do constitucionalismo contemporâneo ressalta-se o caráter da “força normativa da Constituição”, expressão cuja acepção infere que a Constituição é uma lei vinculativa dotada de efetividade e aplicabilidade imediatas, tanto das regras quanto dos princípios expressos na Constituição (LIBERATI, 2013, p. 58). Em tal definição, ressalta-se inovação importante que surge no contexto do neoconstitucionalismo e do pós-positivismo, que é a normatividade dos princípios constitucionais. Não apenas as normas per se, mas também os princípios são dotados de efetividade imediata.

Para Ronald Dworkin, um dos pioneiros do pós-positivismo, os princípios jurídicos deixam de ser meros axiomas, meros orientadores de políticas públicas e projetos legislativos, para se tornarem norma jurídica imperativa, tais como as regras, respeitadas obviamente suas particularidades e diferenças. Para ele, os princípios têm uma dimensão que as regras não têm – a dimensão do peso ou importância. Robert Alexy, outro vulto do pós-positivismo, propõe que ambas as espécies normativas dizem o que deve ser, podendo ser formuladas pelos modais de ônticos da norma jurídica, isto é, por intermédio das formulações básicas do dever, da permissão e da proibição. Alexy aponta a diferença na resolução de conflitos entre tais entes; no caso entre regras, uma é excluída, e no caso entre princípios, devem ser sopesados (SANTOS, 2014, p. 67-74).

Sob a égide do constitucionalismo atual, é inegável a força e a normatividade que carregam os princípios, irradiando efeitos diretos e indiretos por todo o sistema jurídico. A caracterização da evolução da carga valorativa dos princípios fica bem explicitada nos ensinamentos de Carmem Lúcia Antunes da Rocha (1994, p. 42):

A normatividade jurídica dos princípios constitucionais é uma qualidade contemporânea do Direito Constitucional. Se é certo que o constitucionalismo moderno – como todo e qualquer sistema normativo- jurídico- sempre teve princípios magnos fundamentais, é identicamente correto afirmar que a princípiologia constitucional nem sempre foi considerada dotada de vigor jurídico definitivamente impositivo, mas muito mais sugestivo ou meramente informativo para efeito de hermenêutica da Constituição. A eficácia jurídica dos princípios constitucionais foi sendo construída a partir da idéia de ser a Constituição uma lei e, como tal, carregada da coercitividade que domina todas as formas legais. Daí que os princípios fundamentais foram crescendo em importância e eficiência nos últimos séculos, até adquirir foros de ordem definitiva e definidora de todas as regulações jurídicas.

Todos os aspectos citados no âmbito dessas modernas teorias do Direito não impactam apenas o Direito Constitucional, mas na medida em que ocorre um efeito expansivo das normas constitucionais, por todo sistema jurídico, com força normativa, há influência nos outros ramos do Direito, fenômeno que pode ser denominado constitucionalização do Direito. O Direito Econômico, foco do presente trabalho, também sofre influências nesta direção, e as diretrizes constitucionais adquirem vulto em seu campo de atuação.

Em síntese, demonstramos a supremacia da Constituição e a normatividade dos princípios constitucionais, que advêm das modernas teorias do Direito Constitucional. Tais

aspectos serão fundamentais para analisarmos os atos do Estado na área econômica (políticas econômicas), tendo em vista que esses atos podem determinar efeitos deletérios, como levar à economia da estagflação (conforme demonstramos em item anterior), e tais atos políticos também estão vinculados à Constituição.