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O surgimento da participação dos trabalhados na gestão no setor cristaleiro foi inicialmente marcado pela experiência dos trabalhadores da empresa Cristais Hering S/A59.

A partir de então no processo de formação, organização e consolidação da co-gestão, nesta empresa como também nas outras cooperativas alguns atores do espaço econômico, político e social, passaram a fazer parte de todas as experiências cooperativas que vieram a surgir no setor.

Neste sentido destaca-se o poder público municipal, que a partir das eleições de 1996, passou a ser administrada por um Governo de caráter popular, que implementou o programa de governo de apoio as formas Cooperativas e Associativas, através da Secretaria Municipal de Trabalho, Renda e Desenvolvimento Econômico60. Também o Sindicato dos Trabalhadores de Empresas de Vidros e Cristais, percebendo que além as precarizações das relações

59 A empresa não é objeto de nosso estudo, por compreendermos que esta experiência não apresentou deste o inicio, uma perspectiva transformadora/modificadora da realidade dos trabalhadores, visto que o modelo adotado nesta empresa, foi o da co-gestão, que durou um curto período de tempo. No entanto, foi a partir desta experiência, e da própria realidade de crise vivida pelo setor que se formaram as cooperativas, COOPERCRISTAL e UNICRISTAL, objetos de nosso estudo.

60 Nos últimos anos a Prefeitura Municipal de Blumenau através da Lei nº 57, aprovada em 12/05/93, concedia incentivo

econômico, baseando-se principalmente na concessão de terrenos, terraplanagem, isenção de Imposto Predial e Territorial urbano (IPTU) entre outros benefícios, concedidos como meio de potencializar o desenvolvimento local, geração de empregos e aumento da receita. A Secretaria de Trabalho, Renda e Desenvolvimento Econômico, foi criada oficialmente através da reforma administrativa após ter sido aprovada pela Câmara Municipal, somente no mês de dezembro de 1996. Até o final de 1996, não havia orçamento para os programas e projetos da economia informal, projetos de cooperativas e qualificação dos trabalhadores, sendo que os recursos utilizados eram de outras secretarias municipais.Por sua vez o governo municipal que assumiu a Prefeitura Municipal de Blumenau a partir de 1996 estava priorizando ações para atender

de trabalho, os cristaleiros passaram a sofrer, a possibilidade de fechamento das empresas no setor, agravando a realidade dos trabalhadores com a perspectiva da perda do emprego formal, situação que crescera consideravelmente nos últimos anos61. Para o Sindicato, a organização dos trabalhadores em cooperativa representaria para além da permanência dos cristaleiros no setor, uma transformação da condição econômica e social dos cristaleiros de “trabalhadores” subordinados a relações capitalistas á “gestores” significando, sobretudo, a mudança de relação que até então tinha sido historicamente estabelecida com o sindicato.

O surgimento da co-gestão na Cristais Hering se deu principalmente após seguidos meses de salários atrasados, onde os trabalhadores entram em greve. Nesta conjuntura a ANTEAG – Associação Nacional de Trabalhadores em Empresas Autogestionárias e Co-gestionárias, apresenta uma proposta de co-gestão. A partir de então, os donos da Cristais Hering passa discutir com os trabalhadores as dívidas da empresa, com bancos, fornecedores e impostos. Diante desta conjuntura o Sindicato dos Trabalhadores, que já vinha discutindo a situação de crise do setor, com a Prefeitura Municipal, através da Secretaria Municipal de Trabalho, Renda e Desenvolvimento Econômico, passa a intervir, através de uma ação conjunta com a ANTEAG, na empresa e propõe aos trabalhadores a organização da empresa em regime de co-gestão, medida esta, que pretendia manter os trabalhadores no mercado de trabalho, como também inserir os trabalhadores em um movimento que estava tomando forma, em vários cantos do País, na organização dos trabalhadores em empresas cooperativas autogestionárias62.

Surge então, a primeira experiência de gestão com a participação dos trabalhadores no setor cristaleiro. O processo de co-gestão se deu através da formação da ATECH – Associação dos trabalhadores da Empresa Cristais Hering, onde os trabalhadores deteriam 51% do capital social da empresa, enquanto que 49% permaneceram com o dono da empresa.

Os trabalhadores (370 trabalhadores no momento da criação da ATECH), estariam vinculados a Associação, e teriam direito de participar da gestão da empresa, recebendo salários menores, segundo o fluxo do caixa mensal. No

um setor que não era privilegiado pelas políticas públicas locais, até então: o setor informal da economia, e as cooperativas organizadas por trabalhadores. Esta foi uma das bandeiras escolhidas como marca de governo popular.

61 A considerável queda de trabalhadores no setor cristaleiro foi apresentado no terceiro capitulo desta dissertação.

62 Baseado nas experiências co-gestionárias já organizados no Brasil, a ANTEAG, foi o grande ator responsável pela proposta de co-gestão na Cristais Hering.

entanto, em conseqüência a ATECH assumiria igualmente os 51% de dívidas, da Cristais Hering S/A.

Cabe salientar aqui a ação do poder público local no surgimento das cooperativas no setor cristaleiro.

A nível local, as políticas de apoio às cooperativas e as associações, procuram selecionar atividades viáveis de pequena produção urbana, como meio de proteger suas atividades via reserva de mercado. A criação e o fortalecimento de grupos de trabalho associativo e cooperativo visa propiciar treinamento e condições de aprendizado para os trabalhadores.

A divisão de economia solidária da Prefeitura Municipal de Blumenau, elaborou este Programa de Apoio às Formas Cooperativas e Associativas, considerando a importância de um enfrentamento coletivo da crise, que é um dos problemas comuns para a maioria dos trabalhadores da nossa cidade. (SETREDE - Programa de Apoio as Formas Cooperativas e Associativas, 1998).

O principal objetivo do Programa é oportunizar a geração de trabalho e renda para trabalhadores excluídos do mercado de trabalho, através das potencialização das iniciativas "populares" ou comunitárias, através da viabilização e acesso aos recursos de produção e comercialização.

Com isto, pretende-se motivar o desenvolvimento de uma cultura de solidariedade junto aos trabalhadores, como uma proposta de Economia Solidária, capacitando os grupos de trabalhadores para a Autogestão de empreendimentos econômicos que venham a distribuir de maneira mais justa o resultado do trabalho e facilitar o acesso à propriedade dos meios de produção.

O Programa de Apoio às Formas Cooperativas e Associativas procura, basicamente, oferecer as condições materiais e organizacionais para a criação e implementação de novas propostas que possam oferecer alternativas concretas de enfrentamento ao problema do desemprego no município, e procura atender especialmente demandas de trabalhadores que se encontram excluídos do mercado de trabalho.

A metodologia de atuação do programa é realizada através da assessoria e organização de Cooperativas e Associações de trabalhadores, e avaliação de projetos de viabilidade econômica.

O programa procura a partir desta intervenção, a busca de soluções coletivas, para os trabalhadores desempregados, para tanto a metodologia

empregada para o incentivo a organização coletiva procura considerar a vontade, a necessidade e a capacidade dos envolvidos para a atividade que pretendem desenvolver, onde a elaboração dos projetos deverá ser feita pelos próprios membros do grupo com a assessoria técnica necessária.

O público, prioritariamente definido pelo programa, será os trabalhadores empobrecidos, desempregados, sub-empregados, atingidos pela precarização das condições de trabalho, ou seja, os excluídos do mercado formal de trabalho.

Para a viabilização e execução do programa, são realizados convênios e parcerias com outras entidades públicas ou privadas do município. No caso nas cooperativas no setor cristaleiro, foram realizadas parcerias com a ANTEAG e o Sindicato dos Trabalhadores da categoria.