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Mapa 6 – Distribuição territorial dos camelôs no bairro Alecrim

1.2 PESQUISA EMPÍRICA

2.1.3 Surgimento do Refoles e do bairro Alecrim

Quando a cidade de Natal, no início do século XX, ganhou o seu terceiro bairro, Cidade Nova, construído de forma planejada por Antônio Polidrelli, que teve o projeto iniciado em 1901 e concluído em 1904, induziu o surgimento dos bairros Petrópolis e Tirol, na sua área planejada, sendo o Alecrim, próximo à Cidade Alta, o quarto bairro da cidade, segundo Costa (2000). Porém, como o processo de expansão urbana se dá de forma lenta, podemos considerar que o Alecrim, antes conhecido como Refoles, lentamente começou a ser povoado ainda no fim do século XIX. Nesse período, era apenas uma espécie de junção de poucas casas sem apresentar organização, em meio a fruteiras e roseiras. Entre, aproximadamente, o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX era possível notar de que forma a distribuição socioespacial da população natalense se dava. Nesse contexto, segundo os relatos históricos, o bairro do Alecrim apresentava-se em processo de formação, tendo a maioria dos seus moradores composta por camponeses, viajantes e operários; enquanto os que tinham maior renda habitavam a Ribeira e a Cidade Alta, que eram os territórios mais antigos da cidade. O Alecrim era habitado principalmente por pequenos comerciantes, trabalhadores, sitiantes, e pela população pobre, apresentando uma ocupação esparsa. A ocupação era de aspecto rural, com habitações, chácaras, sítios, pensões e outras atividades.

FIGURA 4 – Alecrim (antigo Refoles) no início de século XX Fonte: Prefeitura Municipal do Natal, 1999.

FIGURA 5 – Alecrim na segunda metade do século XX Fonte: Prefeitura Municipal do Natal, 1999.

FIGURA 6 – Limite entre o bairro Alecrim e a Cidade Alta Fonte: Prefeitura Municipal do Natal, 1999.

FIGURA 7 – Rua Presidente Quaresma, no bairro do Alecrim, em 1937 Fonte: Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, 2009a.

Segundo Cascudo (2010), no século XIX, o Refoles, atual Alecrim, era um pequeno povoado que dava assistência aos viajantes que se deslocavam para o núcleo urbano da cidade de Natal. Do Refoles, havia um caminho que o ligava à

Cidade Alta. Posteriormente, foi construído o prolongamento de duas estradas de ferro que, além de intensificar a vinda dos comerciantes do interior, levavam passageiros e produtos para os estados da Paraíba e de Pernambuco, o que foi de suma importância para o desenvolvimento do povoado.

Alecrim, com acesso para o sertão por Macaíba, ficou sendo o bairro sertanejo, tendo sítios que pareciam fazendas, vacarias, feiras, simplicidade de vida, roupa e atividades. Surgiram pequeninos hotéis para os comboios que carregavam e descarregavam. Os primeiros caminhões, o algodão, fixavam seus motoristas e patrões acanhados nos alojamentos do Alecrim. (CASCUDO, 2010, p. 442).

De acordo com Cascudo (2010), o documento mais antigo que faz menção ao Refoles como um terreno marginal ao Potengi é uma doação de terras que o Senado da Câmara faz ao capitão Pedro da Costa Falheiro, em 4 de agosto de 1677, “no ponto que chamam da Nau do Refoles”.

Refoles foi o primeiro nome dado ao bairro Alecrim, e, de acordo com Moura Júnior (2008), a origem desse nome tem ligação com o período em que piratas e mercadores franceses vinham extrair pau-brasil e outros produtos, usando o rio Potengi como ancoradouro para seus navios. O corsário Jacques Riffault atracou diversas vezes no rio Potengi, o que fez com que aquele local passasse a se chamar de ponto da Nau do Refoles, ou apenas Refoles. No século XIX, o local recebeu a denominação de Alto da Santa Cruz, pelo Coronel Reinaldo Lourival. Na primeira década do século XX, o bairro ganhou a denominação de Cais do Sertão, em virtude dos imigrantes que vinham do interior e acampavam naquela área, passando, posteriormente, em 1911, a se chamar Alecrim. (MOURA JÚNIOR, 2008). Na obra de Cascudo (2010), ele explica que, pelo fato de no terreno haver plantação de mandioca, Refoles teve sempre a presença de agricultores nas residências bem distantes e difíceis de união, e ainda acrescenta:

Era tão longe e tão deserto que os presidentes da Província aproveitavam a solidão construindo asilos, barracões de palha, abrigando, como isolamentos, os pobres que adoeciam de varíola. De janeiro a março de 1849 ficaram aí 28 bexigosos, a mandado do presidente Magalhães Taques, “no sítio denominado Nau do Refoles”. E o mesmo em 1871-72. (CASCUDO, 2010, p. 303).

A população que formava o bairro Alecrim representava, em sua maioria, pessoas humildes. Na sua área, habitavam pequenos comerciantes, trabalhadores rurais, sitiantes. A distribuição populacional no local se dava de forma espaçada, tendo um aspecto rural. Devido ao crescimento dos negócios desenvolvidos em Natal, passou a haver um aumento da quantidade de viajantes para a cidade, os quais transitavam pelo Alecrim, e, com isso, pequenos estabelecimentos foram se instalando no bairro para suprir as necessidades dos viajantes. Não se sabe ao certo a origem real do nome dado ao bairro do Alecrim, mas alguns acreditam que é devido ao fato de ter morado no bairro uma senhora que costumava enfeitar com ramos de alecrim os caixões das crianças falecidas (os “anjinhos”) e sepultadas no cemitério. Outra versão fala da abundância da planta alecrim-do-campo nessa área. (CASCUDO, 2010).

O Alecrim se mostrou, por um certo tempo, como apenas um local de passagem dos que vinham de outras localidades para Natal, na intenção de negociar nos centros do comércio da cidade, que eram a Ribeira e a Cidade Alta. No entanto, ainda no seu início, houve no Alecrim a construção de um equipamento importante para Natal, que foi o cemitério do Alecrim. Isso se deu devido à preocupação com as condições sanitárias da cidade. A inauguração do cemitério do Alecrim aconteceu em 1856. (CASCUDO, 2010). Essa obra foi construída numa área considerada distante do convívio coletivo, naquela época.

Tendo em vista a ligação da concentração populacional com as relações econômicas dadas na localidade, uma outra razão que colaborou para a expansão do espaço do Alecrim e instalação de moradores foi a inauguração de uma fábrica (a firma Moura & Cia) de sabão pioneira no local, em 1896, empregando operários que foram erguendo casinhas de taipa ao redor do trabalho. Em 1908, o Governo concedeu a licença para ceder ao Ministério da Marinha a área de 206.235.000 m² de terreno para a Escola Regional de Refoles, posteriormente denominada como Escola de Aprendizes Marinheiros. Bezerra (2005) nos diz que ainda em 1916 o bairro era considerado praticamente desabitado, estando ocupado apenas pelos limites da Escola de Aprendizes de Marinheiro, à margem direita do estuário Potengi/Jundiaí. Porém, com a construção da ponte sobre o estuário e o crescente

tráfego, sinais de povoamento vieram acompanhar a nova dinâmica apresentada pelo aumento do fluxo de comerciantes que atravessavam o Alecrim.

A edificação permitia, sobretudo, o escoamento da produção de açúcar do vale do Ceará-Mirim, e a estrada Ferro Sul, que permitia à economia estadual se interligar com Pernambuco, centro da economia regional, e complementava a produção/distribuição em larga escala. Assim, muitos são os que dizem que estes seriam os dois marcos importantes na relação de Natal como centro de uma economia local, na perspectiva interior-capital. (BEZERRA, 2005, p. 87).

O período da seca, que causou prejuízos para grande parte do interior da região Nordeste do país, trouxe uma enorme quantidade de flagelados para Natal, colocando o Alecrim como o maior recebedor dessa população fugida da fome, conforme Bezerra (2005).

O Alecrim surge, neste cenário, como o bairro que recebia a maior parte destes retirantes, tendo em vista a facilidade no seu acesso, e por dispor de uma gama de elementos característicos ao ambiente interiorano dos alojados como, por exemplo, a presença de sítios, vacarias, currais, feiras e a simplicidade da vida rural do Sertão, tornando-se o espaço preferido por esses fluxos. (CUNHA, 1987 apud BEZERRA, 2005, p. 90).

Alguns serviços também foram estendidos até o bairro Alecrim, como o caso das linhas de bonde, que a partir de 1911 começaram a passar pelo local. (CASCUDO, 2010). Anteriormente, os bondes apenas circulavam na Ribeira e na Cidade Alta, mas o fato de passarem a circular em outras áreas favoreceu a diminuição do isolamento entre os locais da cidade que eram habitados.

Um outro acontecimento importante para a expansão e consolidação do bairro Alecrim foi o surgimento da feira livre, por volta de 1920, organizada por moradores como uma forma de comércio que resgatava as suas ligações com hábitos e costumes do interior do estado. Inicialmente, ela ocorria aos domingos, concentrando-se entre a rua Amaro Barreto e a avenida Coronel Estevam. Esse local era denominado popularmente como “mangueirinha”, devido a uma grande árvore que servia de abrigo para os feirantes. Contudo, com o crescimento desenfreado da população após a Segunda Guerra Mundial, a feira foi transferida

para a avenida Presidente Quaresma, ocorrendo todos os sábados e atraindo todos os tipos de consumidores. (BEZERRA, 2005).

Um aspecto que ainda permanece no costume de boa parte da população do Alecrim e de Natal é a denominação das ruas e avenidas do bairro por números. Apesar de todas as ruas e avenidas terem recebido nomes oficiais, as pessoas ainda se referem a elas usando números. Alguns acreditam que essa forma de denominação se iniciou com os americanos, quando estiveram na cidade durante a Segunda Guerra Mundial, mas outros autores enfatizam que essa prática é pretérita à Segunda Guerra.

[...] muitas ruas do bairro do Alecrim, que originalmente, têm nomes de presidentes da Província e tribos indígenas, como por exemplo a Av. Presidente Bandeira, a Presidente Quaresma, ou a Av. dos Caicós ou dos Panatis, entre outras, que foram numeradas por eles e assim ficaram conhecidas como, a Avenida Um; a Avenida Dois, a Seis, a Sete, a Nove, a Dez, etc., numeradas até 20. Entretanto, os cidadãos mais antigos de Natal, contestam essa informação, afirmando que o uso dessa denominação às ruas do Alecrim é anterior a chegada dos americanos em Natal. (MARIZ; SUASSUNA, 2002, p. 335).

Segundo Bezerra (2005), o prefeito Omar O’Grady pediu aos representantes do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte uma lista com nomes de personagens históricos do estado para serem usados nas ruas do Alecrim. Algumas receberam nomes de tribos de índios que viveram no Rio Grande do Norte no decorrer do século XVIII. Já outras tiveram denominações de pessoas que governaram o estado durante o período colonial e do império ou que fossem algum tipo de personagem conhecida na cidade. Abaixo, encontra-se um quadro com os números das ruas e avenidas, seus nomes e a origem de cada denominação.

QUADRO 1

Nomes das ruas do Alecrim e suas denominações numéricas

Denominação

numérica Nome oficial Origem do nome

Avenida 1 Rua Presidente Quaresma João Quaresma Torrão

Avenida 2 Rua Presidente Bandeira João Capistrano Bandeira de Melo Avenida 3 Rua Presidente José Bento José Bento da Cunha Figueiredo Avenida 4 Rua Presidente Sarmento Cassimiro José de Morais

Sarmento

Avenida 5 Rua Presidente Leão Veloso Pedro Leão Veloso

Avenida 6 Rua dos Canindés Índios Canindés

Avenida 7 Rua dos Caicós Índios Caicós

Avenida 8 Rua dos Pajeús Índios Pajeús

Avenida 9 Avenida Coronel Estevam Estevam José Barbosa de Moura

Avenida 10 Rua Leonel Leite Leonel Leite

Avenida 11 Avenida Manoel Miranda Manoel Tavares da Costa Miranda

Avenida 12 Rua dos Paiatis Índios Paiatis