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Surgimento do SESI: características gerais e perspectiva

1 INTRODUÇÃO

2.2 Surgimento do SESI: características gerais e perspectiva

Na Carta, como primeira justificativa para a paz social, temos a concepção de ordem econômica. Aqui, essa ordem expressa uma paráfrase de capitalismo, pois esta significa a formação de distintas enunciações do mesmo dizer assentados por uma ideologia que produz “[...] diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado” (ORLANDI, 2000, p. 36); neste aspecto, a Carta procura incutir a concepção de que a diminuição dos conflitos fundamentada no capitalismo há de resultar numa obra educativa, o SESI, que fortaleça as relações entre o capital e o trabalho.

Atenta-se que o discurso dessa educação tendo por objetivo o fortalecimento das relações e inserido nas condições de produção do discurso, acima citado, denota o caráter doutrinário dessa instituição. Kuenzer (2011) diminui essa educação, ao elucidar que, no capitalismo, o trabalhador se forma pela sua desqualificação, exploração e alienação humana (KUENZER, 2011, p. 32). Assim, essa educação ofertada pelo setor industrial via SESI era fundamentada na concepção industrialista do homem, centrada na objetificação para a indústria, pela racionalização do trabalho20.

19 Entre os líderes presentes, estavam Brasílio Machado Neto, do comércio; Iris Meinberg, da

agricultura; bem como Roberto Simonsen e Euvaldo Lodi, da indústria. João Daudt d’Oliveira era o presidente da mesa diretora na época (SESC, 2015).

Não obstante, a obra educativa pós Carta pelo SESI foi promotora da criação de funcionários dóceis e acríticos à ideologia industrialista21. Desse modo, pode-se

considerar que, embora na Carta haja o hipotético consenso de uma educação como resultado da dedicação entre empregados e empregadores, ela, no entanto, só satisfez aos interesses da burguesia industrialista:

Para apressar tal resultado, e como medida preliminar, reconhecem a necessidade de assegurar dentro do país um largo período de cooperação para que se possa processar o desenvolvimento de suas forças produtivas e a elevação do padrão de vida do brasileiro; para isso é indispensável promover o aumento da renda nacional e sua melhor e mais vasta distribuição, com o melhor aproveitamento dos recursos do país, o qual poderá ser obtido pondo em execução um planejamento econômico amplo e objetivo, nos termos da Carta de Teresópolis.

Com esse propósito, e na convicção de que nada será conseguido sem o mais estreito entendimento entre empregadores e empregados, o qual permita a aqueles o exercício livre e estável de suas atividades e a estes uma existência digna e a crescente participação na riqueza produtiva, solenemente assumem o compromisso de propugnar a consecução desses objetivos, mediante o recíproco reconhecimento de direitos e deveres, dentro de um verdadeiro regime de Justiça Social, na forma abaixo delineada.

[…]

2) O capital não deve ser considerado apenas instrumento produtor de lucro, mas, principalmente, meio de expansão econômica e bem-estar coletivo. O trabalho é um direito de cada um a participar na vida social e um dever de para ela contribuir com o melhor de suas aptidões, assegurando aos trabalhadores um salário que lhes garanta uma existência digna, sã e eficiente.

3) Não só por motivo de solidariedade social, mas de conveniência econômica, deve ser o mais rapidamente possível aumentado o poder aquisitivo da população, principalmente rural, visando a incrementar a prosperidade do país e fortalecer o mercado consumidor interno (CARTA DA PAZ SOCIAL, 1946, p. 11-12).

Como podemos observar, a Carta vincula a evolução do salário do trabalhador ao crescimento da indústria, e “Para apressar tal resultado, e como medida preliminar,

21 Percepção adotada por Paulo Freire ao se referir ao legado educacional do SESI nessa fase

reconhecem a necessidade de assegurar dentro do país um largo período de cooperação para que se possa processar o desenvolvimento de suas forças produtivas e a elevação do padrão de vida do brasileiro” [...] “fruto de um largo período de cooperação”22. Advertimos que essa relação tarefa (cooperação) x gratificação

(aumento do poder aquisitivo) é uma das mais importantes bases da estrutura taylorista para o funcionamento da administração científica pela barganha, resultando em aumento do lucro. Contudo, apesar do incremento salarial (média), há a diminuição total dos ordenados por meio do avanço produtivo e diminuição do seu custo (TAYLOR, 1990, p. 76, 88) e ainda serve como fator de disputa entre os operários, fomentando a diminuição do companheirismo. Logo, o empresariado teria vantagens em longo prazo com essa proposta expressa na Carta, enquanto o trabalhador, não.

Assim, o Decreto-Lei n. 9.403, que deu origem ao SESI, foi afetado por esse discurso taylorista/industrialista burguês que atribuiu a ele o papel de defesa do salário do trabalhador:

§ 1º Na execução dessas finalidades, o Serviço Social da Indústria terá em vista, especialmente, providências no sentido da defesa dos salários - reais do trabalhador (melhoria das condições de habitação nutrição e higiene), a assistência em relação aos problemas de vida, as pesquisas sociais - econômicas e atividades educativas e culturais, visando à valorização do homem e os incentivos à atividade produtora (BRASIL, 1946, art. 1ᵒ, § 1).

Como vemos, no primeiro parágrafo do primeiro artigo, o Estado incorpora o discurso industrialista pela responsabilização do SESI em relação à defesa do salário real do trabalhador. No entanto, o presidente do Conselho Nacional do SESI, ao ser nomeado pelo Chefe do Executivo (BRASIL, 1946), expõe uma relação antagônica à medida que o SESI, como instituição subordinada à CNI, que defende os interesses da Indústria, não poderia ser responsabilizado pelo cuidado com o salário do trabalhador, pois, para o desenvolvimento da produção manufatureira, há a exploração salarial do trabalhador no conflito entre o capital e o trabalho.

Ao explanar sobre o salário dos operários, a Revista do IDORT (1942), criada nesta mesma época, já aconselhava aos empresários da indústria que, para assegurarem a estabilidade econômica e política do país, ameaçada pelas reivindicações salariais, a indústria e o Estado proporcionassem, ao menos, o mínimo necessário à população por meio de uma política de alimentação e higiene para elevar as condições de saúde e a capacidade de produção do trabalhador (MARTINS, 1942, p. 5 et seq.), nivelando por baixo o salário do operário.

De fato, no período anterior à Carta, o do Estado Novo, embora tenha sido registrado o desenvolvimento súbito do capital industrial durante a Segunda Guerra Mundial, os benefícios salariais para o trabalhador só vieram após a solicitação de Getúlio Vargas. Porém, mesmo acatada tal solicitação pela FIESP, esta não demonstra preocupação com a distribuição equitativa do capital para com o trabalhador e o Estado, em relação aos ganhos da indústria (WEINSTEIN, 2000, p. 122-123).

Diante disso, no período do presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), pós Carta, há o congelamento do salário mínimo pelo Governo Federal, e ao invés de se defender a necessidade de aumento salarial como acordado na Carta, o empresariado industrialista não apoia uma política para correção do salário em confronto com o aumento do custo de vida23. Embora o Decreto-Lei n. 9.403 incida na defesa do SESI

sobre o salário real do trabalhador, o que se observou foram medidas paliativas feitas pelo SESI-SP, expostas em seu jornal de mesmo nome (1955), como postos de abastecimento, onde os gêneros alimentícios e materiais de utilidade doméstica eram vendidos por um preço mais acessível, além de cozinhas distritais, cursos populares, eventos recreativos e esportivos, assistência médica e dentária (SANTOS apud SESI- SP, 1955, p. 6).

Paulo Freire24, na época, Superintendente do Departamento Regional Recife-

PE e presente nesse impasse25 da I Reunião Nacional de Técnicos do SESI, criticou

o assistencialismo presente na instituição, por defender a ideia de que tais medidas assistencialistas “anestesiam a consciência política de quem recebe a assistência”, chamando-as de papainoelismo (FREIRE, 2013, p.158-159).

O Diretório Nacional do SESI retoma a necessidade de padronização dos postos de abastecimento, demonstrando seu interesse e consciência de que tais ações serviriam para a vassalagem dos operários, evidenciando, assim, o caráter da educação não formal, porém ideologizante desse processo, além da seleção de possíveis líderes operários para conversão aos interesses industrialistas burguês:

Por outro lado, as Cooperativas podem representar o aumento do salário real; constituem tarefa de grande alcance educativo e são para o SESI uma excelente experiência, pois a aplicação de pequeno capital, recuperável, permite a descoberta e o desenvolvimento de líderes operários, de acordo com o princípio do Serviço Social “ajudar a ajudar-se” (SESI/DN, 1956, p. 20, grifos do autor).

Todavia, mais adiante, após protestos, ocorre o aumento de 100% do salário mínimo no governo Vargas (31 de janeiro de 1951 até 24 de agosto de 1954). Mas, a CNI, à qual o SESI é subordinado, posiciona-se contrária, logo o SESI fora submisso a tal prerrogativa. Assim:

[...] Decretado a 1ᵒ de maio e vigorando a partir de 4 de junho, o salário mínimo apresentou, nestes cinco meses de vigência, o seguinte volume de repercussões: 1) ascensão dos preços de um modo geral, que acarretou, por sua vez, duas conseqüências: a) elevação dos custos de produção; b)

24 Levantamos a hipótese de que Paulo Freire tenha encabeçado esse posicionamento contrário à

adoção dos postos de abastecimento, pois, além de estar presente nesse impasse, havia seu posicionamento explícito no estado de Pernambuco contrário a essas medidas assistencialistas impostas pelo SESI e pela estratégia argumentativa de fundamentar o dispêndio de capital institucional como prejuízo financeiro e prejudicar a autonomia do operário em outra situação em sua gestão, pela docilização e submissão (FREIRE, 2013, p. 165-173).

aumento da procura de mercadorias e serviço; 2) alta geral de salários, a longo prazo a fim de evitar a subversão hierárquica dos salários.

[...]

Para o futuro, também devem ser previstas algumas conseqüências. Entre elas enumeram-se: a possível criação de novos obstáculos à (sic) iniciativa privada, levando o Estado a intervir mais frequentemente no domínio econômico, a ilusão do salário pelo operário nos primeiros meses de vigência dos novos níveis e uma possível redução no ritmo de nossa atividade econômica (CNI, 1955a, p. 16,14).

Assim, pôde-se constatar que, a partir da máxima da Carta da Paz, que defendia o comprometimento com a renda do trabalhador só após o desenvolvimento do capital para a nação, o acúmulo de capital pela indústria se deu em processo de exclusão do próprio trabalhador. Na compreensão da ideologia presente na formação discursiva deste documento, ideologia esta temerosa com a crescente influência comunista e o aumento dos protestos trabalhistas, a relação antagônica entre capital e trabalho era verificada, sendo a “[...] parte do discurso que põe em jogo o poder e o desejo” (FOUCAULT, 2013, p. 20). Na Carta da Paz de 1946, isso se expressou:

4) Com o objetivo de atender às necessidades sociais urgentes e de propiciar aos trabalhadores do campo e da cidade maior soma de bem-estar e igualdade de oportunidades, propõem-se os empregadores a criar um Fundo Social a ser aplicado em obras e serviços que beneficiem os empregados de todas as categorias, e em assistência social em geral, repartindo com os institutos existentes as atribuições assistenciais e de melhoramento físico e cultural da população. O objetivo do Fundo Social é promover a execução de medidas que, não só melhorem continuamente o nível de vida dos empregados, mas lhe facilitem os meios para seu aperfeiçoamento cultural e profissional.

5) O Fundo Social será constituído por uma contribuição de cada empresa - agrícola, industrial e comercial, ou de outra natureza -, retirada dos lucros líquidos de seu balanço, levantado nas condições prescritas pela legislação do imposto sobre a renda. A forma de arrecadação e as percentagens anuais dessa contribuição serão fixadas de modo a atender às necessidades do plano assistencial.

6) A administração do Fundo Social será organizada da maneira mais apropriada e eficiente, de acordo com a experiência dentro das empresas, com o agrupamento destas ou por meio de comissões mistas locais, compostas de representantes de empregadores e empregados, sendo preferível, sempre que possível, destinar aos trabalhadores e empregados os benefícios correspondentes à cota dos lucros das empresas a que pertencem. A forma dessa administração será decidida após consultas aos

empregadores e empregados, de maneira a melhor atender aos anseios gerais (CARTA DA PAZ SOCIAL, 1945, s.p.).

Desse modo, a justificativa para a criação do SESI ocorre neste documento a partir da necessidade de prestação de serviços sociais ao trabalhador mediante um Fundo Social resultante da cota dos lucros que as empresas obtivessem. Para tal, a FIESP criou, em abril de 1946, a Fundação de Assistência ao Trabalhador. Temendo a falta de comprometimento das empresas, Simonsen buscou apoio junto ao governo; este, por sua vez, pelo Decreto-Lei n. 9.403, criou o SESI em 1946, sob contribuição compulsória das indústrias (SESI-SP, 1952b, p. 1):

Art. 3º Os estabelecimentos industriais enquadrados na Confederação Nacional da Indústria (artigo 577 do Decreto-lei nº 5. 452, de 1 de Maio de 1943), bem como aquêles referentes aos transportes, às comunicações e à pesca, serão obrigados ao pagamento de uma contribuição mensal ao Serviço Social da Indústria para a realização de seus fins.

§ 1º A contribuição referida neste artigo será de dois por cento (2 %) sôbre o montante da remuneração paga pelos estabelecimentos contribuintes a todos os seus empregados. O montante da remuneração que servirá de base ao pagamento da contribuição será aquêle sôbre o qual deva ser estabelecida a contribuição de previdência devida ao instituto de previdência ou caixa de aposentadoria e pensões, a que o contribuinte esteja filiado.

§ 2º A arrecadação da contribuição prevista no parágrafo anterior será feita pelo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários e também pelas instituições de previdência social a que estiverem vinculados os empregados das atividades econômicas não sujeitas ao Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários. Essa arrecadação será realizada pelas instituições de previdência social conjuntamente com as contribuições que lhes forem devidas.

Art. 4º O produto da arrecadação feita em cada região do país não inferior a (75%) setenta e cinco por cento.

Art. 5º Aos bens, rendas e serviços da instituição a que se refere êste decreto-lei, ficam extensivos aos favores e as prerrogativas do Decreto-lei número 7.690, de 29 de Junho de 1945.

Parágrafo único. Os govêrnos dos Estados e dos Municípios estenderão ao Serviço Social da Indústria as mesmas regalias e isenções (BRASIL, 1946).

A arrecadação de 2% sobre cada funcionário (o dobro da arrecadação do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários) para a institucionalização da educação não formal industrialista garante uma ampla estrutura,

possibilitando o atendimento não só no ambiente de trabalho e alcançando não apenas o operário, mas toda a sua família, moldando-os à conveniência do empresariado industrialista da época (IAMAMOTO; CARVALHO, 2006, p. 277-279). Infere-se como regionalista tal medida pelo fato de a destinação dos 75% do arrecadado permanecer na região de origem, pois o estado mais industrializado arrecada mais, colaborando com a disparidade entre as regiões em relação aos interesses da indústria.

Segundo os mesmos autores citados acima, a forma de arrecadação compulsória feita pelo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, e também pelas instituições de previdência social, facilitou o recolhimento, assim como a fiscalização pelo Estado26. Entretanto, observa-se no Relatório do Departamento

Nacional do SESI (1955) que o rastreamento dessa arrecadação ainda era comprometido, pois a lei não obrigava as instituições previdenciárias a fornecer informações sobre pagamentos e a inadimplência das indústrias, com o montante sendo repassado sem conhecimento da origem (SESI/DN, 1956, p. 10).

Voltando à Carta da Paz Social (1945), perguntamo-nos, diante dessa falta de rastreamento da arrecadação, o que ela diz em relação ao papel dos sindicatos. A este respeito, ela pontua que:

10) Completando o conjunto de medidas constantes desta Carta, empregadores e empregados farão sentir ao Estado a necessidade das seguintes providências:

[...]

f) medidas que assegurem aos sindicatos ampla autonomia, quer quanto à escolha e destituição de seus dirigentes, quer quanto à administração dos fundos sociais, sem prejuízo do Estado (CARTA DA PAZ SOCIAL, 1945, s.p.).

Contudo, neste caso, discursos dão conta de que em nenhum momento houve a busca de um consenso junto aos sindicatos, “Em vez disso, citou-se como

companheiros de arma do SESI o governo Dutra, as forças armadas e a Igreja Católica, mas não os sindicatos” (SIMONSEN apud WEINSTEIN, 2000, p. 164).

Pela análise em conjunto da Carta da Paz Social e do Decreto-Lei n. 9403, percebe-se a forte presença industrialista por meio da injunção ideológica e memória discursiva que replica o mesmo discurso favorável aos interesses industriais. Por essa injunção ideológica perceptível, e pelo estratagema assistencialista nela presente, fica difícil acreditar que sua redação tenha sido elaborada também com a participação do trabalhador, ou pelo menos com alguém comprometido com a causa trabalhista.

A formação do cenário discursivo desta Carta remete então ao enunciado27 do

discurso de apelo à paz e este, por sua vez, remete ao ethos28 de um sujeito do

discurso preocupado com as causas sociais e com a cessação dos conflitos, proporcionando ao leitor sentidos de identidade do trabalhador com o aludido na Carta, mobilizando-o a vincular todo discurso presente ao objetivo de solidariedade e confiança entre as classes para as construções idealizadas pelo empregador.

Como finalidade reconhecida do discurso, visualiza-se o estado e suas estruturas submissas à economia produtiva industrial. Para tanto, os empresários admitiam que a continuidade da industrialização dependeria da existência de ações sociais que resultassem numa patronal cuidadora, assumindo a função do Estado e de sindicatos.

Em se tratando de cenário político, este muda significativamente com o término da Segunda Guerra (1945), pois há alterações na conjuntura do Brasil. Neste momento, por influência do alinhamento político com os Estados Unidos, a elite brasileira não vê a necessidade de continuidade de um governo ditatorial influenciado pelo fascismo, como era o caso do Estado Novo. Apesar da tentativa de condução à

27 Em Análise de Discurso, enunciado é a expressão que remete a uma cena. No caso da Carta da Paz

Social, o enunciado é a busca pela paz (MAINGUENEAU, 2001, p. 95).

28 Ethos é uma suposta personalidade do enunciador do discurso idealizado pelo enunciado (Ibidem,

democracia e permanência no poder alargando seu apoio junto à classe trabalhista e condutas nacionalistas desenvolvimentistas, Getúlio Vargas é então deposto pelos militares.

Num ambiente de ampliação da liberdade, Eurico Gaspar Dutra, que já mencionamos, é eleito presidente (1946-1951) pelo Partido Social Democrático (PSD) em coligação com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) (CORSI, 1996, p. 29-30). Em 25 de junho de 1946, é criado em seu governo oficialmente o Serviço Social da Indústria (SESI), pelo Decreto-Lei n. 9.403, na gestão do então ministro da Educação e Saúde, Ernesto de Souza Campos, com o apoio dos estados de Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, pois estes já possuíam federações das indústrias, como aponta o Diretório Nacional da instituição exposta (SESI/DN, 2008, p. 41). No discurso do Decreto-Lei n. 9.403, já no preâmbulo, há a justificativa para a criação deste serviço como forma educativa de diminuição das tensões entre o operariado e o empresariado29.

Diante disso, como podemos constatar, ainda que criado no governo Dutra, a maquinaria discursiva que legitimou o surgimento do SESI foi desenvolvida no governo Vargas com o discurso dos industriais, fundamentado na racionalização científica, alinhado às falas dos países avançados, objetivando, assim, não só o controle do operariado, mas o consenso entre industriários, políticos e classe média, na medida em que reconheciam o problema da industrialização no Brasil para além do chão da fábrica. Sobre o discurso institucionalizador, Foucault (1997) afirma que suas

[...] práticas discursivas não são pura e simplesmente modos de fabricação de discursos. Ganham corpo em conjuntos técnicos, em instituições, em esquemas de comportamento, em tipos de transmissão e difusão, em formas pedagógicas, que ao mesmo tempo as impõem e as mantêm (FOUCAULT, 1997, p. 12).

29 Esse será o maior objetivo desse órgão, realizado, entre outros elementos, por essa força ideológica

Destarte, tais práticas discursivas foram disseminadas pelo corpo social como a alternativa mais sensata para a modernização do país, reivindicando para a indústria o mérito para a instrução de políticas e programas públicos de uma nova sociedade urbanizada. Com efeito, o discurso dos industriais passa a ter voz não só no sistema fabril, mas nos vários âmbitos sociais de São Paulo e do Brasil pela cooptação de intelectuais nos vários ramos - engenheiros, sanitaristas, educadores, políticos.

Fundamentado, assim, pela racionalização do trabalho, que lhe deu status científico, o discurso industrialista institucionalizado pelo IDORT, FIESP, CNI, SENAI e, por fim, consubstanciado no nascimento do SESI em 1946, ergueu-se como regente do desenvolvimento socioeconômico da nação. Nesse sentido, passou a ser regulado por uma proposta educativa que visou a organizar, selecionar, distribuir e produzir uma eficaz coerção/pressão para a fecundação de um “saber” educacional racionalizado que, somado a uma vontade de verdade, era validado como tal, justificando o controle social pela relação poder-saber. O Estado, em sua fase de redemocratização, encarnou, desse modo, via surgimento do SESI, o discurso industrialista, legitimando sua ideologia, submetendo-se às suas estruturas e

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