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1. CAPÍTULO I

1.6 SURGIMENTO DO TERCEIRO SETOR

Nas últimas décadas do século XX, o Brasil dedicou-se a reconstruir a democracia. Paralelamente à progressiva perda de credibilidade dos governos militares, a Sociedade Civil se organizou. Incontestável foi a liderança da Igreja nesse momento, articulada com associações de classe, como a Ordem dos Advogados do Brasil e outras similares, sindicatos, institutos independentes de pesquisa e inúmeras instituições que se uniram para selar a aliança da solidariedade com a cidadania.

Expressão maior dessa organização foi o movimento das Diretas-já que, em 1984, levou a sociedade às ruas, reivindicando eleições. Na seqüência, o processo constituinte

estruturou a legitimidade, permitindo a promulgação da nova Constituição, em 1988, base do pleno exercício democrático iniciado nos anos 90.

Como resultado desse movimento nacional, ao longo dos últimos trinta anos, estruturou-se um Terceiro Setor, não-governamental e não-lucrativo, forte e atuante.

As organizações não-governamentais, as chamadas ONGs, voltadas para o interesse público se multiplicaram. Muitos movimentos políticos, antes envolvidos na luta pela redemocratização, passaram a dedicar-se à ação social. Exemplo marcante dessa tendência foi a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, liderada por Herbert José de Souza, o Betinho, em 1993.

Surge neste período o Terceiro Setor que foi constituído de organizações criadas por iniciativa de cidadãos com o objetivo de prestar serviços ao público sem fins lucrativos (saúde, educação, cultura, habitação, direitos civis, desenvolvimento do ser humano, proteção ao meio ambiente), ainda que eventuais excedentes sejam reaplicados na manutenção das próprias atividades ou remuneração de atividade profissional necessária. Suas receitas podem ser geradas em atividades operacionais, mas resultam sobre tudo de doações do setor privado ou do setor governamental.

O Terceiro Setor cresce consideravelmente e rapidamente em várias partes do mundo movimentando um volume muito grande de recursos.

Uma pesquisa realizada pela Kanitz & Associados53 traz novos dados. O estudo demonstrou que as 400 maiores entidades assistenciais brasileiras arrecadam por ano 1,2 bilhão de reais, o que ainda significa um faturamento menor do que aquele obtido por uma das 500 maiores empresas do Brasil.54

O envolvimento de empresários e profissionais de diversas áreas de atuação com as entidades do Terceiro Setor vem contribuindo para a análise dos problemas que o segmento vivência. Esse envolvimento acaba por influenciar e determinar novos instrumentos e mecanismos que vão propiciando maior regulamentação e profissionalização no setor. Recentemente, o Congresso Nacional instituiu a Lei que qualifica as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, bem como, regulamenta sua atuação. Uma pesquisa

53 A Kanitz & Associados é uma empresa de Consultoria atuante na área de eventos, palestras e pesquisas de

projetos filantrópicos.

nacional realizada pelo idealizador do prêmio Bem Eficiente, Stephen Kanitz55, demonstrou que a maioria dos empresários brasileiros gostaria de disponibilizar verbas para entidades filantrópicas.

Porém, um clima de desconfiança, gerado pela imagem negativa de algumas instituições, aliado à falta de informações sobre a atuação do setor de forma geral, inibia as parcerias. Torna-se necessário mostrar exemplos de conduta profissional, ética solidária e de responsabilidade social adotando determinado modelo de administração e compromisso social. A LSCSP, através dos estudos de seus documentos já seria um bom exemplo, colocada sobre o prisma de Emmanuel Levinas, que empenhou toda sua pesquisa em estudos pela responsabilidade do outro. Um outro que tem em si próprio o direito da palavra, uma ética que Levinas descreve como o milagre antes da luz Isto é, o milagre antes da razão. Segundo Levinas a palavra

[...] nos conduz, nos ensina que a palavra, na sua essência original, é um compromisso junto a um terceiro com relação ao nosso próximo: é um ato por excelência, é a instituição da sociedade. A função original da palavra não consiste em nomear um objeto a fim de comunicar-se com o outro, num jogo inconseqüente, mas sim em assumir por alguém uma responsabilidade em relação a outro alguém. Falar é comprometer-se com o interesse dos homens. A responsabilidade configuraria a essência da linguagem56

Assim, a palavra “responsabilidade” poderia ser levada para as organizações de boa vontade como exercício cotidiano da democracia, Com isto, os cidadãos se perceberiam diretamente responsáveis e dispostos a participar do encaminhamento de soluções para o problema social. Novas experiências de parcerias frutificaram com governo e sociedade colaborando para somar competências.

Assim, as ONGs rapidamente ocuparam o lugar de protagonistas da ação social. As empresas perceberam o valor associado à responsabilidade social e começaram a se preocupar com o meio-ambiente, o consumidor, a qualidade de vida e a valorização da cidadania, Segundo Neto e Foes:

55 Assessor do Ministro do Planejamento 1986-1987. Ex-comentarista econômico da TV Cultura de São Paulo.

Criador e organizador do Prêmio Bem Eficiente para entidades sem fins lucrativos. Criador da Edição Melhores e Maiores da Revista Exame. Articulista da Revista Veja - Editora Abril. Árbitro da BOVESPA na Câmara de Arbitragem do Novo Mercado. Tem vários livros publicados.

A responsabilidade social é diferente. Tem a ver com a consciência social e o dever cívico. A ação de responsabilidade social não é individual. Reflete a ação de uma empresa em prol da cidadania. A empresa que a pratica demonstra uma atitude de respeito e estímulo à cidadania corporativa; conseqüentemente existe uma associação direta entre o exercício da responsabilidade social e o exercício da cidadania empresarial. 57