4 O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL
4.1 Surgimento do Tribunal Penal Internacional
Com o objetivo de positivar as premissas para o estabelecimento do Tribunal de Nuremberg e de Tóquio e também, para evitar a associação desses Tribunais com a ideia de “justiça dos vencedores”, o sistema das Nações Unidas, no fim da década de 1940, iniciou um trabalho em busca de estabelecer mecanismos imparciais para a justiça internacional penal.
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No que concerne ao conceito de crime, foi, predominantemente, adotado o sistema anglo-saxônico. Acerca do tema, conferir: SILVA, Alexandre Luiz Pereira da. Sistema Dogmático do Direito Internacional Penal:
análise da natureza dos elementos conceituais do crime à luz da jurisdição penal internacional. Recife:
Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife, 2008.
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LEE. Roy S. The international criminal court: the making of the Rome Stattute: issues, negatiations,
94 Nesse cenário a Convenção para a Prevenção e a Repressão ao Crime de Genocídio (1948), em seu artigo 6º, faz alusão a um Tribunal Penal Internacional.230
“Os esforços das Nações Unidas para estabelecer um Tribunal Penal manifestaram- se, basicamente, em dois âmbitos: a codificação dos crimes internacionais e a elaboração de um projeto de estatuto para o estabelecimento de Tribunal Internacional.”231
Conforme solicitação da Assembléia Geral das Nações Unidas de 1947, a Comissão de Direito Internacional iniciou a formulação dos princípios reconhecidos pelo Estatuto do Tribunal de Nuremberg, a fim de elaborar um projeto de código dos crimes contra a paz e a segurança da humanidade.232
Ao lado do trabalho da Comissão de Direito Internacional, a Assembléia Geral estabeleceu também um comitê encarregado de elaborar o estatuto de um tribunal penal internacional, o qual foi submetido à aprovação de 1952. Posteriormente, um novo comitê foi criado por meio da Assembléia Geral com o fim de rever o projeto de estatuto, com base nos comentários realizados pelos Estados-Membros, relatado à Assembléia Geral de 1954.233
Foi provisoriamente aprovada, em 1991, uma versão substancialmente modificada do Projeto de Código de 1954 e enviada aos Estados-Membros para que esses o analisassem. No entanto, esse Código não previa necessariamente uma jurisdição internacional. Tal tema seria tratado somente em 1898, ano da queda do muro de Berlim.234
Durante o ano de 1993, a Comissão preparou um projeto sob a direção de James Crawford. Apresentado o esboço desse projeto à Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, em 1994, essa estabeleceu um comitê com a participação de todos os Estados- Membros e observadores internacionais para a discussão e apresentação de emendas ao referido projeto.
Tal comitê realizou reuniões entre 1996 e 1998, contando com uma grande mobilização de entidades governamentais e não-governamentais, que culminaram na
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JANKOV , Fernanda Florentino Fernandez. Direito Internacional Penal: mecanismos de implementação
do Tribunal Penal Internacional. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 26.
231 Idem, p. 26. 232 Idem, p. 26. 233 Idem, p. 26. 234 Idem, p. 27.
95 explanação de um novo projeto para discussão na Conferência Diplomática de Plenipotenciários das Nações Unidas, reunida em Roma.235
Finalmente, à meia noite do dia 17 de julho de 1998, a Conferência aprovou o Estatuto do Tribunal Penal Internacional, também chamado de Estatuto de Roma (devido ao local de sua aprovação), com cento e vinte votos a favor, sete contra e vinte e uma abstenções. De acordo com a professora Cimamonte, o Estatuto evidenciou o compromisso de hibridização, em relação à adoção dos modelos common law e civil law.236
Porém, para efetivamente existir, o Tribunal Penal Internacional ainda precisava da obtenção de ao menos sessenta ratificações. Com tal escopo, o Estatuto de Roma foi depositado em Nova Iorque, aguardando a adesão do mínimo exigido, o que ocorreu no dia 11 de abril de 2002, por meio de um depósito conjunto de dez países (Bósnia, Herzegovina, Bulgária, Camboja, República Democrática do Congo, Irlanda, Jordânia, Mongólia, Nigéria, Romênia e Eslováquia), em cerimônia especial da Organização das Nações Unidas, permitindo a sua entrada em vigor no dia primeiro de julho de 2002, ou seja, no primeiro dia do mês seguinte ao termo de um período de sessenta dias após a data do depósito do sexagésimo instrumento de ratificação, de aceitação, de aprovação ou de adesão junto ao Secretário Geral da Organização das Nações Unidas, exigência trazida por meio do artigo 126.1 do Tratado de Roma.237
Sua instalação ocorreu no dia 11 de março de 2003, após a eleição, mediante trinta e três escrutínios de votação, dos seus juízes pela Assembléia dos Estados-Partes, realizada em Nova Iorque nos dias 2 e 3 de fevereiro de 2003.238
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SOUZA, Artur de Brito Gueiros. Uma análise do Estatuto de Roma à luz dos princípios do Direito Internacional da pessoa humana. Boletim Jurídico da Escola Superior do Ministério Público da União. Brasília, III ano, n. 12, jul/set 2007, pp. 18 e 19.
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CIMAMONTI, Sylvie. La place prise par le droit international penal au sein des ordres français et international. IN: L’actualité de la justice pénale internacionale. Marselha: Presses universitaires d’aix- marseille, 2008, p. 13. Sobre o tema, são interessantes as lições de Alexrande Silva em: Sistema Dogmático do
Direito Internacional Penal: análise da natureza dos elementos conceituais do crime à luz da jurisdição penal
internacional. Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife, 2008
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SOUZA, Artur de Brito Gueiros. Uma análise do Estatuto de Roma à luz dos princípios do Direito Internacional da pessoa humana. Boletim Jurídico da Escola Superior do Ministério Público da União. Brasília, III ano, n. 12, jul/set 2007, pp. 18 e 19.
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96 Atualmente, embora mais da metade dos Estados do mundo já tenham ratificado o Tratado de Roma, potências mundiais como os Estados Unidos, China e Rússia não o aceitaram, mesmo havendo, durante as negociações, várias tentativas nesse sentido.
Acerca do assunto,Tarciso Dal Maso Jardim, em entrevista à STM em Revista disse que:
Durante as negociações, tentou-se ao máximo abrir possibilidades para a participação desses países. A ausência deles, sem dúvida nenhuma, sob qualquer perspectiva política, é um obstáculo à Justiça Internacional Penal. Não somente porque parte do globo está fora da jurisdição do Tribunal Penal Internacional, mas também porque esses países, principalmente os Estados Unidos, além de se esforçarem para preservar seus territórios fora da jurisdição do Tribunal, também fazem campanhas internacionais para inviabilizar o julgamento de seus nacionais pelo TPI.239
No que diz respeito especificamente aos Estados Unidos, interessante ressaltar que o seu então presidente Bill Clinton, assinou o tratado no último dia, mas o Senado não o ratificou e que seu sucessor, George W. Bush, retirou a assinatura, concretizando, dessa forma, o posicionamento do partido ao qual pertence (Republicano).
O Brasil é considerado um Estado fundador por compor o conjunto de países que ratificou, nas primeiras oportunidades, o Tratado de Roma.
A assinatura ocorreu no dia 7 de fevereiro de 2000. Em seguida, o Congresso Nacional aprovou o Tratado por meio do Decreto Legislativo de número 112, no dia 6 de junho de 2002, tendo sido promulgado no dia 26 de setembro de 2002, pelo decreto presidencial de número 4.388, passando a vigorar, finalmente, no dia primeiro de setembro de 2002.240
A carta de ratificação foi depositada no dia 20 de junho de 2002, momento em que o Brasil se tornou Estado – Parte.
Com a finalidade de evidenciar a importância do Tribunal Penal Internacional para o Brasil e de não deixar dúvidas quanto a sua aplicabilidade, a Ementa Constitucional 45,
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JARDIM, Tarciso Dal Maso. Implementação do Tribunal Penal Internacional no Brasil. STM em Revista. Superior Tribunal Militar: Brasília, III ano, n. 3, jan/jun 2006, p. 03.
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Nas considerações do Decreto 4.388, foi dito que o mencionado Ato Internacional entrou em vigor internacional em 1o de julho de 2002, e passou a vigorar, para o Brasil, em 1o de setembro de 2002, nos termos de seu art. 126.
97 promulgada no dia 8 de dezembro de 2004 e em vigor desde o dia 31 de dezembro do mesmo mês, inseriu o parágrafo 4º ao artigo 5º da Constituição Federal, assim dispondo: “O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão.”