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PRONOMES FUNÇÃO PRONOMINAL Possessivos, demonstrativos e

6 O FUNCIONALISMO: POSTULAÇÕES TEÓRICAS E INTERFACES

6.1 CONCEPÇÃO E ENTENDIMENTO DO TERMO “FUNÇÃO”

6.1.2 Surgimento e definição conceitual do Funcionalismo

À Escola Linguística de Praga, que se desenvolveu entre as duas guerras mundiais, deve-se o conceito original de Funcionalismo na Linguística. No entanto o Funcionalismo tem suas raízes em momento bem anterior ao da firmação da referida escola. O modelo funcionalista, em verdade, é tão antigo quanto o paradigma formal. O funcionalismo moderno tem suas inspirações na concepção de linguistas anteriores a Saussure, como Whitney, Von der Gabelentz e Hermam Paul, principais nomes da escola neogramática no final do século XIX.

Esses autores consideravam em seus trabalhos uma série de fenômenos sincrônicos e diacrônicos, além do reconhecimento da importância de a descrição linguística ser pautada em parâmetros psicológicos, cognitivos e funcionais. No palco da tradição antropológica americana, se tinha em estágio bem desenvolvido o trabalho do funcionalista (1921) e de seus seguidores. Outro ponto de vista funcionalista delineado pode ser identificado na teoria tagmêmica de Pike (1967), nos estudos de fundamento etnográfico de Hymes (1972) – teórico que responde pelo conceito de “competência comunicativa”–, na tradição britânica de Firth (1957) e Halliday (1964, 1974, 1994), entre outros.

Em verdade, de todos os trabalhos orientados na vertente funcionalista da linguagem, os mais significativos, e aqui valem ser mencionados, em virtude de serem eles os responsáveis pelo desenvolvimento da teoria funcionalista, encontram-se assentados nas concepções do grupo de estudiosos da Escola Linguística de Praga, cujos trabalhos datam de anos anteriores a 1930.

Convém aqui um rápido delineamento para uma compreensão mais plena das ideias que culminaram na firmação das raízes e na constituição da definição da corrente funcionalista. É preciso lembrar que os aspectos mais representativos da perspectiva funcional localizam-se nas concepções formuladas por essa escola.

Nessa linha, não se pode deixar de mencionar como parte importante no calendário de fundação do modelo funcionalista de estudo o ano de 1929. Ele consiste num marco para esta vertente teórica, pois corresponde ao momento em que um conjunto de nove teses foram publicadas em língua francesa. Esses trabalhos foram reunidos no chamado Travaux du Circle

Linguistique de Praga. Três delas destacavam os problemas linguísticos gerais e as outras seis

abordavam questões relacionadas às línguas eslavas.

Teórico de atuação destacada na redação das teses, Roman Jakobson defendeu a primeira, escrita em 1927, na qual afirmava ser a língua uma reunião de signos constituídos de forma e função. Foi pioneiro ao chamar a atenção para a função da comunicação. Para Jakobson, a língua se realizaria na interação verbal e tudo em relação à linguagem deveria ser discutido tendo como ponto de partida a comunicação. No entanto, por muito tempo, sua tese permaneceu esquecida, o que se justifica no fato de a escola ser de formação estruturalista e não ter aceitado, portanto, o ponto de vista novo que lhe apresentava aquele estudioso. Isso perdurou até 1946, quando, então, Martinet, numa crítica às disposições saussurianas, condena a questão da sincronia estática, propondo uma sincronia dinâmica, e assume que a língua se encontra em mutação constante. Com Martinet, o Funcionalismo toma impulso e forma, começando a se desenvolver acentuadamente.

Nesse esteio, foram decisivas as ideias do psicólogo Karl Bühler para a ampliação das reflexões funcionalistas sobre a língua. Até mesmo Jakobson desenvolveu as funções da linguagem como elementos da comunicação – emissor, receptor, código, canal, mensagem e contexto – a partir da retomada das três funções de Bühler – representação, exteriorização psíquica e apelativa – que se destinavam ao estudo do pensamento.

Por sua vez, também Halliday (1974) apresenta três funções da linguagem – o que chamou de “metafunções” – tomadas por diversos pesquisadores ainda hoje: a função

ideacional, da expressão do conteúdo; a função interpessoal, da expressão dos pensamentos e

atitudes do falante (NEVES, 2004, p. 13-14); e a função textual, da produção do texto, da organização operacional interna da frase e da relação entre as frases, “é a função que permite a estruturação de textos de modo pertinente ao contexto” (FÁVERO; KOCH, 2007, p. 39).

Há ainda a presença de Wilhem Mathesius, que deixou marcas impressas na Escola de Praga, influenciando-a sobremaneira. Esse estudioso desenvolveu a Perspectiva Funcional da Sentença, que se configura na análise e na crítica consistentes ao estruturalismo saussuriano. Mathesius foi veemente na tomada de postura contra o fato de o estruturalismo reduzir o processo de interpretação à discriminação dos signos, que são transmitidos na comunicação, nada abordando sobre aquilo que se processa no momento em que a interpretação é realizada.

Como saída para superar esse limite imposto pelo estruturalismo, Mathesius propõe uma concepção dinâmica da comunicação, considerando que os procedimentos comunicativos afetam “dinamicamente nossos conhecimentos e nossa consciência das situações” (ILARI, 2005, p. 69).

Têm assento as ideias de Mathesius na concepção estrutural da sintaxe – descrição da sentença em níveis diversos –, desenvolvida a partir dos trabalhos de Danes, Firbas e Halliday, em que cada nível pode ser mapeado de modo não-marcado – quando o sujeito gramatical, o agente e o tema coincidem num enunciado – e marcado – quando o mapeamento falha.

Além de ter ficado conhecida como portadora de um estruturalismo notadamente funcional, a Escola de Praga disseminou, ao mesmo tempo, a ideia de língua como um sistema funcional, no qual vigoram, paralelamente, estrutura e função.

Para Ivir (1987, p. 471 apud NEVES, 2004, p. 17), os termos “funcionalismo” e “abordagem funcional” transpassaram os limites da própria Escola de Praga, caindo no gosto terminológico dos diversos campos do conhecimento, variando conforme os objetos, as análises, os métodos, objetivos e as argumentações, ou mesmo com os fins a que se ligam, a que servem ou a que se prestam. Desse modo, diversas abordagens funcionalistas surgiram, tomando o funcionalismo corpo e vida própria tanto na Linguística quanto nas outras esferas da ciência e do pensamento humanos.

Em termos de conceito, a definição original e mais delineada do Funcionalismo, na percepção de teóricos como Neves (2004), Ilari (1992, 2005) e Castilho (2007), está na Escola de Praga. Nela, a língua tende a ser percebida como um sistema organizado, composto dos mecanismos necessários à prestação de uma determinada finalidade, um “sistema de sistemas”, em que cada subsistema compreende uma função.

A vertente funcionalista dispõe a linguagem a serviço da tarefa de transmissão de experiências, através de manifestações perceptíveis e passíveis de análise, contemplando as unidades linguísticas “correspondentes a um elemento da experiência a que se pretende transmitir” (BARRETO, 1999, p. 56).

A definição apresentada por Neves (2006, p. 17) parece sintetizar bem essa situação. Considera a autora que o funcionalismo deve ser visto como uma corrente teórica que se “ocupa das funções dos meios linguísticos de expressão”. A autora fundamenta sua definição, sobretudo, em Halliday (1994, p. xiii), que, no livro An Introduction to Functional Grammar, já via a linguagem enquanto funcional, em sua realização, no sentido de análise de como a língua se realiza no uso pelo falante.

A estrutura linguística, nesse direcionamento, corresponde a um conjunto de diferentes funções e estas, por sua vez, compreendem os modos de significação que se processam nos enunciados, atuando como fios condutores que levam ao estabelecimento eficiente da comunicação entre os usuários de uma língua. Numa interpretação de Neves (2006, p. 18),

funcional deve ser entendido como a “comunicação em si, a própria organização interna da linguagem”.

O funcionalismo empreende, conforme sinalizam Martelotta e Areas (2003, p. 26-27), “novo relevo” ao discurso do falante, na proporção em que começa a entendê-lo enquanto um “nível gerador do sistema linguístico”.

A partir de todo esse painel, abordar a linguagem funcionalmente significa não apenas investigar como a língua é e como tem sido utilizada pelos usuários/falantes, quais os modos, o comportamento, a maneira como dela se valem, mas, principalmente, voltar-se para as intenções, para a perscrutação de a quais mecanismos da língua se mais recorre, e qual deles são contemplados no alcance/realização dessas finalidades (GIVÓN, 1995, p. 2).