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O surgimento do MOB para romper com o modelo ditatorial de sindicalism o de Estado

Sindicalismo de Estado.

2. O surgimento do MOB para romper com o modelo ditatorial de sindicalism o de Estado

Os movimentos de oposição sindical ressurgiram com força, principalmente, a partir dos grandes conflitos de massa no final dos anos 70, em São Paulo. As principais bandeiras e lutas caminhavam na direção de implementar uma nova organização sindical para os trabalhadores. As lideraças desejavam liberdade e autonomia sindical e a construção de uma nova prática sindical com a base no reconhecimento dos comitês de fábrica pelas empresas, bem como os delegados sindicais. Isabel Ribeiro de Oliveira (1988) observou que as chamadas "lideranças combativas” tinham a disposição de "modificar a estrutura sindical vigente". Já as lideranças "radicais", visavam construir uma nova

estrutura sindical baseada em comitês de fábrica, cabendo ao sindicato apenas a função representativa delegada.

Estes movimentos vão refletir no sindicalismo bancário brasileiro, basicamente, a partir da metade dos anos 80, quando os bancários retomam à cena política. Começa a se configurar uma forte oposição aos sindicatos pelegos. A concepção cutista já era bastante forte neste setor. Os maiores sindicatos eram filiados à CUT, como o de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, etc. As lideranças govemistas olhavam com espanto e sem saber o que fazer com a pressão da categoria que desejava aderir às greves nacionais que se multiplicaram ao longo dos anos de 1985,1986 e 1987.

Em Santa Catarina a luta dos bancários não foi diferente. Nestes conflitos foram destacando-se inúmeras lideranças, que passaram a conduzir as lutas da categoria. Em Florianópolis surgiu o MOB (Movimento de Oposição Bancária). Estas lideranças pressionavam os dirigentes do Sindicato a aderirem as greves nacionais. Não obstante, os dirigentes respondiam que "não era momento de entrar em greve". Esta postura provocou indignação, por outro lado, fortaleceu ainda mais o movimento de oposição.

O MOB começa a se estruturar objetivando conquistar a direção da entidade. A oposição foi ganhando legitimidade junto à categoria participando e dirigindo ativamente as greves de 1986 e 1987. Assim, a diretoria do Sindicato foi perdendo credibilidade, pois era burocratizada e não mantinha informada a categoria das lutas e os rumos das negociações com os banqueiros.

Estas lideranças do movimento resolveram formar uma chapa para concorrer as eleições sindicais do Sindicato dos Bancários. Em

assembléia, onde foi convocada a categoria, foram definidos os critérios para a escolha da chapa. Os critérios obedeceram a representação proporcional por banco, para que não existisse assim um domínio de representantes em determinado Banco. Outro critério foi através do trabalho desempenhado pelo bancário durante a história da organização do MOB.

Não se revelou dentro do MOB e, consequentemente, dentro da chapa de oposição, uma postura explícita do perfil político-partidário ou das diferentes correntes da CUT. Porém existia uma tendência das lideranças por partidos de esquerda, principalmente do PT.

Assim, com a campanha nas eleições de 1987 houve um número expressivo de participantes. O MOB procurou manter a categoria bem informada, publicou jornais que definiam as propostas para a nova diretoria. O Jornal "MOB", de Janeiro de 1987, tratava das bandeiras de luta a serem alcançadas5 , de informações sobre as centrais sindicais e das propostas para a nova organização sindical. As propostas do MOB eram :a) liberdade e autonomia sindical sem interferência do Estado, patrões e partido político; b) organização pela base através de delegados sindicais, comissões de banco, divisão da base em micro-regiões, campanha de sindicalização; c) formação do departamento de imprensa, departamento jurídico, departamento de formação sindical e departamento de cultura; d) reforma do estatuto padrão da CLT; e) manter e melhorar os programas assistenciais.6 Estas propostas foram

5 As bandeiras de luta apresentavam reivindicações gerais e específicas da categoria bancária. Eram elas: reposição das perdas salariais; licença-prêmio aos 5 anos; aponsentadoria aos 25 anos; auxílio-creche até 6 anos e 11 meses; salário mínimo do DIEESE; direito irrestrito de greve; eleição pelos funcionários (voto direto e secreto) de um diretor representante nos bancos oficias estaduais; contra a discriminação salarial e hierárquica da mulher bancária; estabilidade no emprego; liberdade e autonomia sindical sem interferência dos patrões, do governo e dos partidos políticos; reforma agrária sob controle dos trabalhadores; não-pagamento da dívida externa; e piso salarial digno para a categoria bancária. (Jornal Informativo do MOB. Florianópolis, Jan/87).

6 Estas propostas do MOB tinham as seguintes justificativas: o departamento de formação sindical deveria ter o papel de form ar novas lideranças, pois o Sindicato teria por função

reconhecidas pela categoria com uma folgada vitória sobre a chapa da diretoria

As propostas do MOB caracterizavam uma nova postura sindical bem diferente da diretoria, que estava afastada da base e em harmonia com o Estado. O MOB, entretanto, não pretendia romper com a velha estrutura sindical, era sim uma luta com a finalidade de "derrubar uma diretoria descomprometida com os interesses dos trabalhadores bancários". Em nossas entrevistas observamos um consenso de opiniões onde o objetivo era superar uma diretoria pelega. Esta diretoria resumia suas atividades em prestar serviços assistenciais. Vejamos as declarações :

"A posição que o MOB vinha construindo desde 85 era marcada exatamente por uma concepção que era norteada pela CUT. Nós não tínhamos formulado pessoalmente e o grupo que se configurou como MOB vinha já de movimentos anteriores de oposições em outros movimentos sobretudo com lideranças que vinham sendo construidas e estavam ligados ao BESC (Banco do Estado de Santa Catarina). Alguns outros bancos estaduais vinham também numa perspectiva sempre de fazer oposição ao tipo de prática que tinha os pelegos que era bastante simplificada mesmo. Não tínhamos um aprofundamento de concepção e estratégia se não o de derrubar uma direção do sindicato que se

preparar o bancário para as lutas da classe, o funcionamento do departamento se daria através de seminários, cursos e debates. O departamento de cultura seria responsável pela integração e pela formação dos bancários, que se daria através de cine-clube, grupo de teatro, bibliotéca, curso literário, etc. Esse departamento também seria responsável pela memória sindical, onde as lutas da categoria seriam documentadas pelo sindicato para fins históricos. A organização pela base deveria ser constituída por delegados sindicais, comissão de banco, divisão da base em micro-regiões, onde seriam criados quatro micro-regiões dividindo a base territorial do sindicato em sub-sedes, que funcionariam como ponto de encontro e organização dos bancários da região. O departamento jurídico seria o instrumento de defesa dos direitos trabalhistas da categoria onde prestaria assistência a todos os trabalhadores. O departamento fiscalizaria as condições de trabalho e o horário bancário, denunciando à DRT qualquer absurdo patronal. O departamento de imprensa seria o eixo de integração da categoria em tomo das lutas e problemas dos bancários. Esse departamento "estimularia o debate, a leitura e a formação da consciência de classe da categoria". (Órgão Informativo do MOB, Florianópolis, Jan/87).

demonstrava incompetente, se demonstrava incapaz de mobilizar, e o Brasil inteiro de 1978 até 1985 vinha demonstrando um poder de mobilização".?

As lideranças do movimento de oposição eram simpáticas às lutas organizadas pela CUT. O que não significa afirmar que foi um movimento de linha cutista, mesmo porque, contava com a participação de inúmeros bancários movidos, principalmente, por um sentimento de revolta contra os diretores do Sindicato que tratavam as lutas da classe de forma obscura.

Vale também citar outro depoimento de um dirigente sindical que ilustra essa nossa afirmação de que o MOB lutava contra o peleguismo e não contra a estrutura sindical.

"Nós derrubamos uma estrutura velha e arcaica na organização sindical do Sindicato dos Bancários de Florianópolis, mas, com certeza, sem medo de errar, nós não atacamos, não conseguimos enfrentar, até porque não é um papel do sindicato. Nós não conseguimos romper com questões fundamentais que demarcam a intervenção do Estado ou postura que o Estado tem do movimento sindical. Nós alteramos com certeza uma visão que a categoria tinha com relação ao papel do sindicato, isso nós alteramos. A categoria hoje não tem mais dúvida do que queremos com o movimento sindical e com o Sindicato dos Bancários. O movimento sindical não alterou com elementos fundamentais da estrutura sindical, que é o imposto sindical, a relação com a Justiça do Trabalho. Essas duas coisas não alteraram, e ela só seria possível na Constituição de 1988 onde nós poderíamos romper a

estrutura sindical, alterar a estrutura sindical do ponto de vista de apontar uma nova organização para o movimento sindical".8

Assim, pensamos que as propostas que foram se concretizando ao longo da gestão do MOB não significaram o fim da estrutura sindical de Estado. Não é porque o sindicato tem um novo estatuto diferente da CLT, e de ter implementado os departamentos e rompido até com o tradicional assistencialismo médico-odontológico que a estrutura oficial acabou. A pesar das bandeiras levantadas pela nova direção, para romper com o velho sindicalismo, na prátjca o que se verifica ainda é um sindicalismo de Estado. A falta de organização nos locais de trabalho, bandeira essa que surgiu ainda enquanto movimento de oposição, evidencia o que estamos falando. Existe uma forte debilidade neste campo. Este não é um problema específico dos bancários de Florianópolis, é um problema enfrentado pela grande maioria dos sindicatos brasileiros. A unicidade sindical, as contribuições sindicais, o poder normativo da Justiça do Trabalho são elementos que demonstram a existência da estrutura de Estado.

Enfim, os avanços obtidos destas novas lideranças superaram, indubitavelmente, as velhas práticas de gestão sindical dos sindicatos govemistas. No entanto, esta luta não significou a derrubada da estrutura sindical. O que ocorreu foi uma reforma no interior do Sindicato, a partir de novas práticas de organização e conducão das lutas da categoria. Este movimento de oposição entrou de carona na política liberalizante da Nova Repúblilca de 1985. Como já afirmamos no capítulo anterior, o controle do Estado não se resume ao Poder Executivo, pois o Judiciário tem poderes para intervir nas reivindicações trabalhistas, eleições sindicais, contas financeiras da entidade, etc. É certo que o MOB, assim como outros movimentos de oposição, deram uma face nova ao

sindicalismo, tomando-os mais cambativos e democráticos. Atualmente, apesar de estarem integrados à estrutura sindical, conseguiram romper com o imobilismo, carrerismo e corrupção, tão comuns nas práticas dos sindicatos govemistas. Portanto, a oposição ao Sindicato dos Bancários não passou de um movimento reformista que aspirava tomar a entidade das mãos dos pelegos e transformá-la em uma instituição democrática e ativa no campo econômico.

3. As concepções das lideranças do SEEB-Fpolis sobre sindicalismo