2.2 ARQUITETURA E SUSTENTABILIDADE
2.2.1 SUSTENTABILIDADE, A CONSTRUÇÃO DE UM CONCEITO
O conceito de sustentabilidade bem como esse permeia atualmente os vários campos do saber é na verdade uma construção cultural que se firma através do tempo.
A história do homem na terra é indissociável de sua busca pela sobrevivência e compreensão do meio ambiente em que vive. Até o período da Revolução Industrial, as características predominantemente extrativistas das populações não representavam grande potencial de desequilíbrio. Mesmo assim, já a partir do século XVII, duas correntes de pensamento foram construídas: a antropocêntrica e a biocêntrica. Segundo VARGAS (1998, p. 38).
a “antropocêntrica”, coloca o homem como o centro do universo, onde a natureza não tem valor em si, mas, constitui-se numa reserva de recursos naturais a serem explorados pelo homem e, a “biocêntrica”, defende que o homem se insere na natureza como qualquer outro ser vivo, e o mundo natural tem valor por si mesmo.
A corrente biocêntrica difere da ecocêntrica, pois se limita a valorizar o ambiente natural domesticado e não a preservá-lo, sendo que esta surge apenas no início do século XIX.
Em 1798, Malthus12, com a publicação de “Essay on the principle of population asit affects the future improvement of society“ estabelece uma discussão sobre a relação entre crescimento populacional e a utilização dos recursos naturais.
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Thomas Robert Malthus (1766-1834) foi um economista britânico. Seus ensaios têm como princípio fundamental a hipótese de que as populações humanas crescem em progressão geométrica. Malthus estudou possibilidades de restringir esse crescimento, pois os meios de subsistência poderiam crescer somente em progressão aritmética.
A mudança de mentalidade só aconteceu quando os processos de urbanização oriundos da revolução industrial passaram a responder pela má qualidade do ar e a insalubridade nas aglomerações urbanas, em contraste com a natureza evocada pelos escritores românticos.
A teoria da evolução das espécies, de Darwin13 (1809-1882), contribuiu para a formulação da idéia de que o homem não poderia ter direitos superiores aos animais, idéia esta depois chamada de “teoria biocêntrica”, tornando-se a base do ambientalismo e da ética ambiental.
Há exemplos como o surgimento, em 1899, na Inglaterra, da Associação das Cidades-Jardim, criada por Ebenezer Howard, que construiu sua primeira Cidade Jardim, Letchworth, em 1903. Essa iniciativa foi a de prover uma terceira hipótese de vida, não só no campo e não só na cidade, tentando agrupar as vantagens de ambas em um só lugar. Essa idéia de organização territorial urbana passou a ser difundida pelo mundo com centenas de cidades construídas com base no princípio original. Essa empreitada pode ser tomada como uma preocupação ambientalista face aos problemas notados na urbanização do período da Revolução Industrial, conforme destaca CHOAY (2002, p.14).
O início do século XX vê surgir movimentos conservacionistas que levam ao Congresso Internacional para Proteção da Natureza em 1932, e em 1946, na Suíça, é criada a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais. Conforme VARGAS (1998):
esta organização tinha como objetivo a promoção de ações de cunho científico, de modo a garantir a preservação destes recursos, dos quais todos os seres vivos dependem, não apenas por seus valores culturais e
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Charles Robert Darwin (1809-1882) foi um naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual. Em seu livro de 1859, "A Origem das Espécies", ele introduziu a idéia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio de seleção natural. Esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza.
científicos intrínsecos, mas também para o bem-estar econômico e social da humanidade (VARGAS, 1998, p.8).
A degradação ambiental se intensifica nos anos 60, e conforme VARGAS (1998, p.11), colocaram-se nesta época três diferentes escolas: a escola “preservacionista”, que influenciou sensivelmente o movimento ambientalista dos anos 60 e 70; a “conservacionista”, que defendia a eficiência no uso dos recursos naturais; e a escola a “distributiva”, que lutava por uma distribuição mais eqüitativa dos recursos naturais.
Os anos 60 marcaram também o surgimento do “ecologismo” como contraposição à antiga “proteção da natureza”, fruto de um movimento de crítica à sociedade “tecnológica-industrial, de consumo, cerceadora das liberdades individuais, (em ambos os sistemas, capitalista e socialista), homogeneizadora das culturas e, sobretudo, destruidora da natureza” (DIEGUES apud VARGAS, 1998, p.10). A este movimento somaram-se outras plataformas de reivindicações como os direitos das minorias, o antimilitarismo/pacifismo, o feminismo, etc.
A tomada de consciência quanto à finitude do planeta é fragrante graças à degradação ambiental e às interversões exploratórias da espécie humana. Surge a noção de limites a serem respeitados, limites físico-químicos e biológicos que assegurem a sobrevivência humana enquanto espécie. É desta noção de finitude que nascerá o conceito de sustentabilidade. VARGAS (1998,p.12) destaca três lógicas neste processo:
a lógica planetária regendo o clima, tributário dos ciclos biogeoquímicos, hidrológicos e oceanógrafos; a lógica do funcionamento dos ecossistemas ao qual pertencem as plantas e os animais; e, a lógica da antroposfera regida pelos diferentes projetos de sociedade elaborados pelos humanos, cada um caracterizado por uma estrutura sociocultural, um modo de produção e de impactos ambientais específicos.
Na década de 70 ocorreram vários movimentos de revalorização da natureza. A iniciar em 1968 com a realização da Conferência da Biosfera em Paris, seguida, em 1972, pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano em Estocolmo, com a criação do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP), cujo diretor, Maurice Strong, lança, em 1973, o conceito de Ecodesenvolvimento. É deste período (1972) o polêmico Relatório do Clube de Roma, também conhecido como Limites do Crescimento, que preconiza que “à manutenção das tendências atuais de crescimento populacional, bem como o seu padrão de consumo, em cem anos, os limites de crescimento do planeta seriam atingidos” (VARGAS, 1998).
Seguiram-se, dentre outros, em 1974, o Simpósio do UNEP com a declaração Cocoyok, em 1975, o Relatório da Fundação Dag-Hammerskjöld; em 1980 o encontro World Conservation Strategy; em 1982 a Sessão especial do UNEP em Nairobi (10 anos da Conferência de Estocolmo) com a proposta de constituição da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente (WCED). Em 1985 segue-se o Acordo de Proteção da Camada de Ozônio, Viena; em 1987 o Relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (WCED).
Em 1987 surge o conceito de “desenvolvimento sustentável” proposto pela Comissão Mundial do Desenvolvimento e Meio Ambiente (Comissão Brundtland), formada a partir de 1984 pela Organização das Nações Unidas. O relatório final, com o título “Nosso Futuro Comum” estabelece o conceito: “Atender às necessidades da geração presente sem comprometer a habilidade das gerações futura de atenderem suas próprias necessidades” (BRAGA et al., 2003, p.216).
Em 1990 foi criado o Global Environment Facility (GEF) do Banco Mundial; em 1992 houve a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento (UNCED-ECO 92), no Rio de Janeiro, com a constituição da Comissão de Desenvolvimento Sustentável (CSD). A partir desta sucederam-se eventos como a Conferência de Direitos Humanos (Viena, 1993), a Conferência Mundial sobre População e Desenvolvimento (Cairo, 1994), a Conferência sobre o Desenvolvimento Social (Copenhague, 1995) e a Conferencia das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (Istambul, 1996). Esta última, conhecida como a Cúpula das Cidades ou Habitat II, “deu ênfase à questão urbana ambiental ao definir a sustentabilidade como princípio universal e os assentamentos humanos sustentáveis como objetivo mundial a ser perseguido” (CASTELNOU, 2004,p. 109).
Ainda segundo esse, as sociedades sustentáveis seriam as que se caracterizam por exercer o controle local sobre o meio ambiente, desenvolvendo um conhecimento detalhado sobre ele e assimilando-o à própria cultura, além de atuar abaixo da capacidade de suporte sustentável dos ecossistemas, o que é muita vezes percebido nas comunidades tradicionais.
Conforme HELENE & BICUDO (1994,p. 38), a transição para sociedades mais sustentáveis pressupõe o tratamento de temas ambientais urbanos tangíveis, como transporte, uso do solo, qualidade do ar e conservação de energia, da mesma forma que pressupõe o tratamento de temas intangíveis, como saúde e segurança pública, igualdade entre os sexos, educação e responsabilidade ambiental global etc.
Muitas vezes a definição de sustentabilidade passa pelo conceito de “resiliência”, segundo SLESSOR (2000,p. 75), ou seja, a capacidade de um ecossistema de voltar ao seu estado natural uma vez findada a ação que altera seu estado inicial natural. Dessa maneira, uma cidade dificilmente pode ser considerada “sustentável” pois, via-de-regra, sua extensão territorial não é suficiente para
absorver e compensar os efeitos poluentes ali gerados, bem como gerar sua energia correspondente, etc., fazendo com que o conceito de sustentabilidade esteja sempre associado ao de sistemas de cidades ou regiões. Assim, a busca da sustentabilidade ambiental em si, é representada pelo seu maior desafio, a busca da sustentabilidade ambiental urbana.
A sustentabilidade ambiental, porém, não pode ser dissociada da sustentabilidade econômica e da sustentabilidade social, ou seja, os objetivos devem ser convergentes de maneira a harmonizar a rede de relações econômicas e as demandas sociais.
A “Agenda” 21 brasileira, produto da ECO 92, teve como propósito “a fixação, em documento, de compromissos que expressem o desejo de mudanças das nações do atual modelo de civilização para outro em que predomine o equilíbrio ambiental e a justiça social” (Agenda 21), de forma a estabelecer um pacto pela mudança do padrão de desenvolvimento global para o século XXI. Tendo como temas principais: a Agricultura Sustentável, as Cidades Sustentáveis, a Infra-estrutura e Integração Regional, a Gestão dos Recursos Naturais, a Redução das Desigualdades Sociais e a Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Sustentável, colocou como premissas: crescer sem destruir, ou seja “o desenvolvimento sustentável das cidades implica, ao mesmo tempo, crescimento dos fatores positivos para a sustentabilidade urbana e diminuição dos impactos ambientais, sociais e econômicos indesejáveis no espaço urbano” (Agenda 21) e a indissociabilidade da problemática ambiental e social. “A indissociabilidade da problemática social urbana e da problemática ambiental das cidades exige que se combinem dinâmicas de promoção social com as dinâmicas de redução dos impactos ambientais no espaço urbano” (Agenda 21).
É do “Marco Teórico das Cidades Sustentáveis”, da Agenda 21, o conceito de “sustentabilidade ampliada” em que enuncia a indissociabilidade entre os fatores sociais e os ambientais e a necessidade de que a degradação do meio ambiente seja enfrentada juntamente com o problema mundial da pobreza. Reforçando que a sustentabilidade é um processo e não um estado, define as seguintes dimensões da sustentabilidade:
Dimensão ética: reconhecimento de que no almejado equilíbrio ecológico está em jogo mais do que um padrão duradouro de organização da sociedade, mas a vida de todas as espécies;
Dimensão temporal: que rompe a lógica do curto prazo e estabelece o princípio da precaução, bem como a necessidade de planejamento de longo prazo;
Dimensão prática: reconhecimento da necessidade de mudança de hábitos de consumo e de comportamentos;
Dimensão econômica: mudança do padrão de produção – contabilização dos ativos ambientais, valoração econômica dos recursos naturais, aproveitamento de resíduos, ecodesign industrial, eficiência energética etc.; Sustentabilidade ecológica: base do processo de crescimento e tem como objetivo a conservação e o uso racional do estoque de recursos naturais incorporadas às atividades produtivas;
Sustentabilidade ambiental: relacionada à capacidade de suporte dos ecossistemas associados de absorver ou se recuperar das agressões derivadas da ação humana;
Sustentabilidade demográfica: revela os limites da capacidade de suporte de determinado território e de sua base de recursos e implica em cotejar os cenários ou as tendências de crescimento econômico com as taxas demográficas;
Sustentabilidade cultural: necessidade de manter a diversidade de culturas, valores e práticas existentes no planeta, no país e/ou numa região e que integram ao longo do tempo as identidades dos povos;
Sustentabilidade social: objetiva promover a melhoria da qualidade de vida e reduzir os níveis de exclusão social por meio de políticas de justiça redistributiva;
Sustentabilidade política: relacionada à construção da cidadania plena dos indivíduos por meio do fortalecimento dos mecanismos democráticos de formulação e de implementação de políticas públicas em escala global; e Sustentabilidade institucional: necessidade de criar e fortalecer engenharias institucionais que levem em conta critérios de sustentabilidade (Agenda 21).
Estabelece também os critérios de sustentabilidade que são: valores, atitudes, institucionalidades, instrumentos e ações sustentáveis tanto na esfera privada quanto na pública, de forma a obter a maior qualidade dentro dos processos.