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2. O REGIME DOS PRECEDENTES JUDICIAIS NO BRASIL

2.4. TÉCNICAS DE APLICAÇÃO DE PRECEDENTES E DE SÚMULAS

Conforme sinalizado nos itens antecedentes, a formação e a aplicação dos precedentes e das súmulas vinculantes no direito processual pátrio deve pressupor a identificação da ratio decidendi e observar os deveres de estabilidade, coerência e integridade da jurisprudência.

Nessa esteira, a aplicação das Súmulas Vinculantes nas Decisões Judiciais deve perpassar pela identificação dos fundamentos determinantes dos casos precedentes que deram origem à sumulação, realizando a comparação com os contornos fáticos da demanda em exame com o objetivo de subsumir181 os enunciados sumulares ao

caso concreto.

No que tange à problemática da contradição entre precedentes, Michelle Taruffo182

leciona que tal contingência cria um imbróglio que deve ser solucionado pelo juiz sucessivo (que aplica o precedente), trata-se de estabelecer se deve seguir um dos precedentes e qual deles. Explana, ainda, que na hipótese de o juiz não poder fazer menos do que seguir uma das duas decisões vinculantes em conflito, deve justificar sua escolha expondo as razões pelas quais um precedente deve ser seguido e o outro descartado.

Consoante exposto, a possibilidade de decisões vinculantes contraditórias possui diversos desdobramentos problemáticos, assim, devem ser analisadas as técnicas

181 Não empregamos a expressão aqui como sinônimo da técnica de subsunção da lei aos fatos, ainda

mais que como visto, a aplicação de precedentes e súmulas vinculantes não se limita ao emprego de uma regra.

182 “L’esistenza di precedenti contraddittori crea comunque un problema che dev’essere risolto dal

guidice della decisione sucessiva: si tratta di stabilire se seguire un precedente, ed eventualmente quale. Da un lato si potrebbe dire che nella situazione di conflitto simmetrico fra precedenti non esiste in realtà alcun precedente da seguire, poiché ogni precedente è contraddetto da un precedente contrario. Dall’altro lato, può accadere che il guidice non possa fare a meno di seguire uno dei due precedenti in contrasto, perché essi rappresentano le sole soluzioni possibili della questione, o che egli intenda comunque seguire uno dei due precedenti. Si tratta in ogni caso di una scelta compiuta dal guidice sucessivo, che dovrebbe essere giustificata esponendo le ragioni per cui un precedente viene seguito e l’atro viene scartato.” In TARUFFO, Michelle. Dimensioni del precedente giudiziario. Rivista Trinestrale di Diritto e Procedura Civile, anno XLVIII, n. 2, 1994, p. 425.

processuais que funcionam como mecanismo de controle da incompatibilidade entre precedentes.

No campo da dogmática, o artigo 489, §1º, VI, do CPC/2015183, trata das hipóteses de

distinção e superação de precedentes. Essas técnicas mitigam de forma relativa a vinculação dos precedentes, na medida em que carregam a responsabilidade do intérprete em expor analiticamente as razões para o afastamento (seja por distinção, seja por superação) do precedente naquele caso particular.

O primeiro mecanismo de controle da incompatibilidade entre precedentes é o distinguishing que corresponde à distinção entre o contexto fático do caso concreto e do precedente anteriormente construído184, podendo, dessa forma, possibilitar a

limitação da incoerência verificada.

Por sua vez, o overruling consiste na revisão do precedente quando se detecta a necessidade de mudança por considerar agora a norma errada ou por entender agora a norma errada, embora ela não estivesse equivocada quando foi construída185. No

caso de precedentes contraditórios, tal técnica propicia abolição do precedente entendido como conflitante do sistema.

Thomas Bustamante186 destaca que a diretriz primordial do mecanismo da superação

é “sempre que um juiz ou tribunal for se afastar de seu próprio precedente, este deve ser levado em consideração, de modo que a questão do afastamento do precedente judicial seja expressamente tematizada”.

183 Art. 489. São elementos essenciais da sentença: (...)

§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou

acórdão, que: (...)

VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento.

184 TEIXEIRA, Yuri Guerzet. Precedentes Judiciais: Entre Normas e Decisões. Curitiba: Juruá, 2015, p.

104.

185 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Estabilidade e adaptabilidade como objetivos do direito: civil law e

common law. Revista de Processo, Ano 34, v. 172, jun. 2009, p. 135.

186 BUSTAMANTE, Thomas da Rosa de. Teoria do precedente judicial: a justificação e a aplicação de

Na hipótese de Súmulas Vinculantes Contraditórias, caberia o manejo de Reclamação Constitucional, com fulcro no art. 988, III, do CPC/2015187, ou da apresentação de

Proposta de Revisão de Súmula Vinculante, com base no 2º da Lei nº 11.417/2006188,

demonstrando a incoerência a ser sanada com o cancelamento ou revisão de alguma delas.

Por fim, sucede também a lesão ao princípio da efetividade face a contingência de contradição entre precedentes, haja vista a problemática na aplicação de decisões vinculantes inconciliáveis diante das inúmeras consequências para algumas técnicas prestigiadas no CPC/2015, como: óbice na admissão de recursos (art. 932, IV189) e o

julgamento de improcedência liminar (art. 332190), nos quais emprego errôneo de uma

súmula vinculante pode impedir a análise do mérito do recurso interposto, justamente pela decisão recorrida estar fundamentada em súmula vinculante.

187 Art. 988. Caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para:

(...)

III – garantir a observância de enunciado de súmula vinculante e de decisão do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; (Redação dada pela Lei nº 13.256, de 2016)

188Art. 2º O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, após reiteradas decisões

sobre matéria constitucional, editar enunciado de súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma prevista nesta Lei.

189 Art. 932. Incumbe ao relator:

(...)

IV - negar provimento a recurso que for contrário a:

a) súmula do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça ou do próprio tribunal; b) acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos;

c) entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência;

190 Art. 332. Nas causas que dispensem a fase instrutória, o juiz, independentemente da citação do

réu, julgará liminarmente improcedente o pedido que contrariar:

I - enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça;

II - acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos;

III - entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência;

3. O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E O ESTUDO DA CONTRADIÇÃO