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TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DA COLETA DE DADOS

4 REFERENCIAL TEÓRICO-FILOSÓFICO

5 OS MOVIMENTOS POLÍTICOS EXPRESSOS NO RECORTE TEMPORAL DO ESTUDO

6.2 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DA COLETA DE DADOS

Neste estudo utilizamos duas técnicas de pesquisa, a entrevista direcionada para coleta de dados e a técnica bola de neve direcionada para escolha de parte das participantes da pesquisa. Inicialmente, apresentamos os aspectos teóricos que justificam a escolha das técnicas e posteriormente os aspectos operacionais do seu uso na tese em questão.

6.2.1 A entrevista

A decisão do uso da entrevista semi-estruturada para coleta de dados ancorou-se em Manzini (2003) quando afirma que em uma perspectiva histórico-cultural (dialética), esta ferramenta possui perguntas designadas como explicativas ou causais, com o objetivo de determinar razões imediatas ou mediatas do fenômeno social, tendo como uma de suas características a utilização de um roteiro previamente elaborado (APÊNDICES A e B).

Neste aspecto, para Triviños (1987), a entrevista semi-estruturada tem como característica questionamentos básicos que são apoiados em teorias e hipóteses que se relacionam ao tema da pesquisa, sendo que os questionamentos dariam frutos a novas hipóteses surgidas a partir das respostas dos informantes e o seu foco principal seria colocado pelo investigador-entrevistador.

Nesta dimensão conceitual, Polit e Hungler (1985), afirmam que a entrevista possibilita ao pesquisador compreender o tempo histórico pesquisado, sob uma ótica aproximada dos sujeitos estudados, bem como, o resgate de momentos históricos por pessoas vivas que presenciaram o fenômeno pesquisado.

É válido considerar que Rosa e Arnoldi (2008) orientam o uso da entrevista semi- estruturada nos casos em que o pesquisador precisa obter respostas mais profundas para que os resultados do estudo sejam realmente atingidos de forma fidedigna. No caso em questão, entendemos que a história oral é em essência uma entrevista em profundidade, possibilitando fuga do tema e, portanto, precisando de instrumentos de direcionamento do pesquisador frente ao entrevistado.

Ao relacionarmos as potencialidades da entrevista com a História Oral (HO), Progianti e Sanna (2002), referem que a memória é a sua base. Porém, a perspectiva que o

historiador vê é diferente de outros métodos, pois a HO é aquela que o objeto de estudo está centrado no relato e não no sujeito ou na realidade por ele vivenciada.

As autoras ainda apontam outras questões centrais sobre a HO, uma vez que é possível visualizar o estado em que se encontra um grupo, ou mesmo uma sociedade, que aporta princípios que a dão a conotação de método:

 não existem verdades absolutas, portanto, a história construída a partir de fenômenos não dará conta de explicar toda realidade;

 diz respeito ao cuidado que o pesquisador deve possuir a respeito da produção, preservação e democratização da fonte oral;

 a presença de um referencial teórico que permita ao pesquisador a interpretação do depoimento.

Na história oral podemos dispor de roteiros individuais, parciais e geral, sendo os individuais elaborados a partir da biografia dos sujeitos pesquisados; os parciais elaborados no intervalo das sessões de cada entrevista e os gerais, elaborado após etapa exaustiva de estudo na temática (ALBERTI, 2005) (APÊNDICES A e B).

As pesquisas de HO produzem entrevistas diferentes em qualidade e densidade, e muitas vezes isso depende dos entrevistados. Há pessoas que por mais representativas que sejam para falar sobre determinado assunto, simplesmente não se interessam, ou não podem explorar de modo extensivo sua experiência de vida e discorrer sobre o passado, como talvez sua posição estratégica fosse crer (PINSKY, 2014).

Neste estudo, utilizamos o roteiro geral, bem como, o roteiro individual, fundamentado através do estudo minucioso, prévio das informações sobre a trajetória de vida e profissional das militantes, publicizadas, tais como, currículo lattes, informações profissionais, produção científica, matérias em jornais, prêmios e menções honrosas recebidas, objetivando melhor exploração do fenômeno pesquisado.

No que concerne ao roteiro geral de entrevista semi-estruturada, Rosa e Arnoldi (2008), afirmam que as questões do roteiro de entrevista seguem uma formulação flexível, sendo que a sequência e as minúcias ficam por conta do discurso dos sujeitos e da dinâmica que acontece naturalmente, configurando em questões do tipo aberta, devendo evocar ou suscitar uma verbalização que expresse o modo de pensar ou de agir das pessoas face aos temas focalizados.

É válido salientar que entre as questões que se referem à elaboração do roteiro, estão presentes a necessidade de planejamento de questões que atinjam os objetivos pretendidos, a

adequação da sequência de perguntas, a elaboração de roteiros, a necessidade de adequação de roteiros por meio de juízes, a realização de projeto piloto para dentre outros aspectos, adequar o roteiro e a linguagem.

O detalhamento do roteiro de entrevista abrange quatro blocos: um sobre questões sócio demográficas; outra parte que trata da militância política na Enfermagem correlacionando-a aos movimentos sociais do período pesquisado; uma terceira parte que contempla questões sobre o processo de eleição dos representantes formais da Enfermagem; e o quarto que considera as questões da história de vida do sujeito militante e último que ele contempla a técnica bola de neve.

Na elaboração do roteiro de entrevista tivemos a atenção de abordar o entorno do fenômeno pesquisado com os blocos de perguntas que associam a militância a questões do contexto histórico e político, seus entraves e possibilidades, bem como, a exploração de momentos que objetivam a militância, em destaque, o processo de eleição dos representantes da Enfermagem.

O entendimento de que o processo de eleição dos representantes da Enfermagem, na ABEn ou no Sindicato de Enfermeiros, objetiva dar concretude ao fenômeno e deveu-se ao estudo em Michel Foucault, em Arqueologia do Saber, quando aborda sínteses acabadas, os agrupamentos que na maioria das vezes, são aceitos antes de qualquer exame e que de algum modo traduz-se no jogo político de construção de chapas eleitorais.

Contudo o bloco de perguntas que detém uma centralidade na resposta do fenômeno pesquisado é o quarto, que aborda a história de vida das militantes na Enfermagem, construído para que pudéssemos responder à questão da tese: como se constitui uma militante política na Enfermagem?

Após a etapa de elaboração do instrumento de coleta e da aprovação no Comitê de Ética e Pesquisa da EEUFBA, implementamos a fase de pré-teste e realizamos, a priori, duas entrevistas, que oportunizaram a correção das perguntas para obter melhor clareza. Sendo que estes dados deram origem a dois (02) artigos científicos.

Quanto à postura do entrevistador, Bauer e Gaskell (2008) afirmam que este deverá iniciar a entrevista individual ou de profundidade com comentários introdutórios sobre a pesquisa, uma palavra de agradecimento ao entrevistado por ter concordado em falar e um pedido para gravar a sessão. Complementa que o entrevistador deve ser aberto e descontraído com respeito à gravação, justificando a importância do uso da ferramenta como ajuda na memória e registro útil da conversação.

Os autores afirmam que o entrevistador deverá estar atento ao que o entrevistado diz, dando o tempo necessário para descontração. À medida que a entrevista avança, o pesquisador necessita de ter as perguntas na memória, conferindo ocasionalmente o tópico guia, mas o foco da atenção deve estar na escuta e no entendimento do que é dito. Sendo importante dar tempo para o entrevistado pensar não devendo preencher as pausas da entrevista com perguntas.

De acordo com Alberti (2005), o caderno de campo deve ser elaborado pelos pesquisadores responsáveis pela entrevista e nele deve ser registrado todo tipo de informação sobre o entrevistado e da relação que com ele se estabeleceu, desde antes do primeiro contato, com os motivos que levaram ele ser escolhido pelo programa, como o entrevistado reagiu ao convite, descrição de onde ocorreram as sessões, da reação do entrevistado a algumas perguntas e as emoções identificadas no processo da entrevista.

Neste sentido, com o objetivo de qualificar a etapa de coleta, foi produzido um diário de campo, onde foram registrados aspectos subjetivos observados: expressão corporal e facial do entrevistado, momentos de forte emoção da entrevista, bem como, os sentimentos do entrevistador, envolvendo a etapa pré entrevista, a entrevista e o pós.

Para Alberti (2005) a entrevista deve ser um diálogo informal e sincero, que permita o entrosamento entre o sujeito do estudo e o pesquisador, objetivando a cumplicidade, na medida em que os dois objetivam contribuir com a ciência e a causa por hora analisada, sendo importante que ambos reconheçam suas diferenças e respeitem o outro, enquanto produtor de significados diferentes, enquanto portador de uma visão de mundo diferente, dada a sua experiência de vida, sua formação e cultura.

Minayo (2009) afirma que no caso da pesquisa qualitativa, ao contrario do que muitos podem pensar, é fundamental o envolvimento do entrevistador com o entrevistado. Em lugar dessa atitude se constituir uma falha ou um risco comprometedor da objetividade, ela é condição de aprofundamento da investigação e da própria objetividade.

A entrevista de História Oral se constitui em uma reflexão e recuperação do passado levada a efeito ao longo da conversa, não devendo ser permitida a presença de mais de dois entrevistadores, pois se torna prejudicial ao trabalho. Sendo que é muito importante que os dois estejam entrosados em si e com roteiro e determinem previamente como conduzirão a entrevista.

É recomendável ainda, especial atenção na condução da entrevista, principalmente quando o sujeito se desvia do objetivo do estudo, cabendo ao entrevistador esperar pela

conclusão do pensamento exposto para que seja refeita a pergunta, bem como, o uso do caso explanado e como é, pode está contido nas perguntas planejadas.

6.2.2 A técnica bola de neve

Outra técnica utilizada nesta tese foi a da bola de neve para escolha de outros sujeitos do estudo que não as presidentes da entidade, por onde objetivamos identificar e ter como participantes do estudo, também enfermeiras que não exerceram cargos de Presidentes da ABEn ou Sindicato no período pesquisado, mas que tinham o reconhecimento social do exercício militante no mesmo período.

A técnica do tipo bola de neve é uma técnica de amostragem não probabilística, utilizada em pesquisas sociais, quando os participantes iniciais de um estudo indicam novos participantes, que por sua vez, indicam novos participantes e assim sucessivamente, até que seja alcançado o objetivo proposto (o “ponto de saturação das respostas”) (BALDIN; MUNHOZ, 2011).

Do ponto de vista objetivado, a amostra snowball é do tipo intencional, em que o investigador escolhe um grupo inicial de indivíduos e pede-lhes o nome de outros indivíduos pertencentes à mesma população. Configura-se como um tipo de amostragem bastante útil quando se pretende estudar populações específicas (UNIVERSITY OF NORTH CAROLINA, 2014).

Considerando as recomendações desses autores, na técnica bola de neve os primeiros participantes contatados na aplicação da pesquisa são as “sementes”. As presidentes do Sindicato e da ABEn, a partir da década de 80, indicaram filhas (os) das “sementes”, a partir de critérios pré-estabelecidos que serão descritos mais adiante.

No plano mais operacional, a técnica bola de neve foi desenvolvida em dois momentos:

 um primeiro, para indicação das “sementes”, baseado em um único critério de inclusão, o exercício de mandato presidencial na Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) – Secção Bahia e ou no Sindicato dos Enfermeiros do Estado da Bahia (SEEB), a partir da década de 80;

 um segundo momento, para indicação das filhas (os) das “sementes”, com critérios pré- estabelecidos, dentre os quais:

 militar por questões políticas específicas da profissão, bem como, pela valorização, visibilidade, respeito e reconhecimento profissional, por um período de, no mínimo um ano, de forma sistemática, regular e reconhecida socialmente, devendo abranger o período da década de 80;

 assumir e participar de movimentos e mobilizações sociais e públicos na Enfermagem.

Por fim, é importante registrar que como critério de exclusão, estabelecemos um limite de tentativas de contato para marcação das entrevistas, de cinco vezes e se em todas essas tentativas não acontecesse a coleta de dados, a militante era excluída do rol da amostra. E nesta situação ocorreram dois (02) casos. E a coleta de dados foi suspensa a partir do momento em que houve saturação das respostas.