Segundo Cervo e Bervian (1996), nas pesquisas descritivas-exploratórias são utilizadas como principais técnicas de coletas de dados a observação e a entrevista. Para execução da pesquisa, foi utilizada a combinação de um conjunto de técnicas e instrumentos desenvolvidos para a coleta de dados. Inicialmente, as informações procederam das fontes documentais (Anexos A, B, C e D).
Os dados foram coletados por meio da técnica de observação indireta, quando se utilizou um questionário estruturado (Apêndice C), a fim de investigar a percepção dos participantes sobre as características do seu processo de trabalho ao avaliar as condições psicológicas para dirigir. Esse questionário foi elaborado com base na decomposição de variáveis do fenômeno em estudo, organizadas em conjuntos de subvariáveis necessários para a elaboração das unidades de análise a serem investigadas (Apêndice A). As informações que embasaram a decomposição dessas variáveis, foram provenientes das fontes documentais (Anexos A, B, C e D), da revisão da literatura e insights da pesquisadora.
Identificaram-se seis variáveis de estudo que foram decompostas em conjuntos de subvariáveis:
1) Variáveis de Identificação: distinguem aspectos como idade e sexo;
2) Variáveis da formação e da capacitação profissional: descrevem aspectos da formação e capacitação profissional já concluídas e necessárias a sua qualificação: local onde foi cursada a graduação, ano de conclusão do curso, natureza jurídica da instituição formadora, tipo de pós-graduação, tipo de capacitação profissional em avaliação psicológica (modalidades de capacitação), carga horária e ano da realização da capacitação, bem como a necessidade de novas capacitações e conhecimento sobre trânsito;
3) Variáveis ocupacionais: englobam aspectos profissionais na atividade do psicólogo perito: natureza do vínculo e local atual de trabalho, outras atividades que realiza profissionalmente, ano de credenciamento, horas semanais dedicadas à atuação como psicólogo perito, remuneração mensal obtida e nível de satisfação com a atividade;
4) Variáveis da organização do trabalho: destacam-se aspectos relacionados a rotinas de trabalho, que são: o agendamento dos horários para avaliação psicológica, quantidade de candidatos examinados por período de trabalho, média de avaliações realizadas no mês, organização da rotina de trabalho, tempo que dispõe para realizar o exame, tempo para emissão de resultados para os candidatos, forma de comunicar os resultados da avaliação psicológica, adequação dos aspectos físicos antes e depois dos CACs, nível de satisfação do relacionamento profissional e interpessoal com a instituição de trânsito e aspectos políticos que influenciam e prejudicam o trabalho pericial;
5) Variáveis de procedimentos na avaliação psicológica: descrevem aspectos relacionados aos procedimentos como método, técnicas e instrumentos utilizados na avaliação das condições psicológicas para dirigir: tipo de contato inicial com o candidato, métodos e técnicas utilizados na avaliação psicológica para avaliar as aptidões percepto-reacionais motoras, nível mental; características da personalidade, equilíbrio psíquico e habilidades específicas, testes psicológicos utilizados na avaliação psicológica, tipo de informação que investiga na entrevista psicológica, se realiza entrevista devolutiva (situações), tempo médio em que realiza a avaliação psicológica, situações em que encaminha os candidatos a um especialista, número de atendimentos no reteste, local em que arquiva o material dos candidatos aptos, inaptos e em reteste; e
6) Variáveis dos critérios da tomada de decisão na avaliação psicológica: englobam aspectos dos critérios utilizados no momento de definir a aptidão e inaptidão para dirigir: método, técnicas, testes psicológicos utilizados e os indícios de aptidão, aptidão com
restrição, inaptidão temporária e definitiva para os tipos de categoria da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), que são para dirigir carro, moto, caminhão, ônibus e carreta, e interferências na tomada de decisão.
Para a construção desse instrumento, foi necessário, inicialmente, que a pesquisadora soubesse claramente o conjunto de variáveis que compõem o fenômeno estudado: as características do processo de trabalho dos psicólogos peritos na avaliação das condições psicológicas para dirigir. O conhecimento disponível levantado na literatura especializada permitiu verificar os aspectos científicos e sociais importantes e caracterizar aqueles que se destacam nas investigações sobre o processo de trabalho dos psicólogos peritos, como: métodos, técnicas e instrumentos utilizados na avaliação psicológica, natureza do vínculo e critérios na tomada de decisão do apto e do inapto para dirigir. Também foram acrescentados outros fatores vinculados às percepções e insights da pesquisadora ao observar o processo de trabalho.
As unidades de análise resultantes da decomposição das variáveis foram ordenadas em categorias de grupos de variáveis, distribuídas em itens (sentenças em forma de afirmação ou pergunta), diretamente relacionados com o conjunto de variáveis que resultou num questionário estruturado. Laville e Dionne (1999) assinalam a possibilidade do uso misto de questões acompanhadas de opções fechadas e abertas. Os autores citados destacam como vantagem dessa técnica o aumento das taxas de resposta dos entrevistados e a padronização, que permite aplicar a um grande número de pessoas, num curto espaço de tempo, facilitando o tratamento dos dados obtidos; como desvantagem, a impositividade das respostas previstas antecipadamente.
Após a elaboração das sentenças, foi realizado um estudo piloto com a finalidade de corrigir erros e melhorar as questões formuladas. Tal procedimento avaliou o grau de precisão do instrumento, denominado nesta pesquisa de Q-PET (Questionário das Características do
Processo de Trabalho dos Psicólogos Peritos Examinadores de Trânsito), e foi administrado por meio da entrevista individual, o que, de acordo com Laville e Dione (1999, p. 188), permite ao entrevistador “explicitar algumas questões no curso da entrevista, reformulá-la para atender as necessidades do entrevistado.”
Nesta pesquisa, também utilizou-se como técnica de observação direta a observação estruturada. De acordo com Quivy e Campenhoudt (1992), a observação é uma etapa intermediária entre a construção dos conceitos e das hipóteses. Já Laville e Dionne (1999) definem a observação como condição que oportuniza o contato com o real e apresenta uma contribuição importante na construção do conhecimento, pois proporciona uma gama variada de descobertas e aprendizagens para as pessoas, favorecendo a construção de notas descritivas sobre o fenômeno pesquisado.
O roteiro de observação (Apêndice E) foi elaborado com base na análise das variáveis presentes no fenômeno da pesquisa, que designou os comportamentos a serem observados. Priorizou-se a observação dos aspectos que constituem a variável organização do trabalho, variável de procedimentos na avaliação psicológica e a descrição do CAC para sua caracterização. Esse tipo de observação auxiliou na caracterização dos aspectos gerais do processo de trabalho dos psicólogos peritos, permitindo averiguar tanto as semelhanças ou variações no processo de trabalho, observando aqueles que estão mais ou menos integrados com os aspectos institucionais. Essas observações constituíram notas descritivas do ambiente investigado (Apêndice F). Durante as observações, a pesquisadora interagia com a situação e os participantes, procurando se integrar ao ambiente investigado e nele se inserir, nos moldes da denominada observação participante.