CAPÍTULO IV – A Investigação-Ação como Metodologia Basilar da Prática Pedagógica
4.3. Técnicas e Instrumentos de Recolha de Dados
Tendo em consideração que a I-A corresponde a uma investigação qualitativa e, por sua vez, envolve inúmeras técnicas e instrumentos de recolha de dados, que dependendo da finalidade da investigação que é pretendida pelo investigador, este opta por aqueles que acha mais adequados a uma ação investigativa pertinente.
Atendendo à variedade existente, importa salientar os mais comuns deste tipo de investigação e aqueles que foram, efetivamente, utilizados aquando da minha intervenção pedagógica, tais como: a observação participante, o diário de bordo, a análise de documentos e registos fotográficos.
Observação participante
A observação participante, segundo Almeida e Pinto (1976), implica que o observador se integre no grupo estudado, o que possibilita uma recolha global e extensiva de informação. Em relação ao tempo de investigação, este é um método que pode requerer pouca ou longa duração, ser mais ou menos profundo e, ainda, a integração na vida dos membros em análise. Assim, quando este se torna extenso, vai de encontro ao método etnográfico, que de acordo com Lopes e Pardal (2011) visa: “uma interação sólida e duradoura entre o investigador e o objeto de estudo, o que é possível através de uma permanência prolongada junto dele; uma identificação do investigador com a cultura daquele, de maneira a sentir-se parte dela e a avaliar com base nela” (p.36). Este último método é extremamente valorizado pelos autores, pois enaltecem o produto significativo da interação do investigador com o objeto de estudo e a sua identificação com a cultura. Por fim, é de salientar que a observação participante acarreta algumas dificuldades que foram sentidas nas intervenções pedagógicas, nomeadamente a definição clara dos comportamentos significativos e a exigência de tempo e o esforço necessários para o registo diário e sistemático. Além disso, ressalvo que, por vezes, era complicado fazer deliberações imparciais.
Diários de aula
De acordo com Zabalza (1994) os diários de aula revelam-se um grande recurso expressivo, na medida em que envolvem quatro dimensões: a escrita, a reflexão, a integração do expressivo e referencial e abrange um “caráter histórico e longitudinal da narração” (p.93). Para o autor, o professor enquanto escreve, reflete sobre a sua prática, onde explica e interpreta possíveis causas aquando do decorrer das atividades planeadas. Assim a reflexão faz parte da definição de didática e considera-se ser uma condição primordial na redação de um diário de aula, pois torna um docente mais consciente do processo pedagógico.
Quanto à aplicação pessoal na elaboração do diário, Zabalza (1994) acrescenta que é multidimensional, na medida que é significativo (nele surge o que o professor conhece, sente, as suas ações, tanto como os motivos que o levam a agir e respetivos procedimentos, entre outros aspetos, tornando-o um registo pessoal) e tem sentido (é uma forma de apontamentos escritos que é para o próprio autor, por isso faz sentido e tem lógica).
Outra caraterística, o caráter histórico e longitudinal é muito vantajoso visto que permite analisar a evolução dos factos, do pensamento e da atuação do professor (Zabalza, 1994).
Para Máximo-Esteves (2008) o diário, para além das caraterísticas apontadas anteriormente, permite que o professor-investigador registe e comente pressupostos mais evidentes das leituras realizadas em torno do problema de investigação e, ainda, anotar opiniões que surgem de leituras cruzadas de ideias de outros pesquisadores ou das primeiras impressões efetuadas no seu contexto prático. A autora revela que são estas etapas inicias, entre uma a duas semanas, que facilitam a clarificação do tema.
Dito isto, é de salientar que o diário, enquanto ferramenta indispensável, não pode ser superficial ou composto por lembranças eventuais (Oliveira, Pereira e Santiago, 2004, p.85).
Análise de documentos
A análise documental para Lüdke e André (1988) constitui uma técnica preciosa de tratamento de dados qualitativos, quer seja por integrar informação adicional a outras técnicas ou por desvendar aspetos recentes de uma problemática.
Sousa (2005) refere que é um tipo de investigação que se preocupa em recolher, conhecer e compreender os acontecimentos verídicos com a maior objetividade e menor deformações, atendendo a situação eleita para analisar. Trata-se de um processo indireto de pesquisa, na medida em que o investigador procura informação em livros, revistas, testes, atas, entre outros recursos, no entanto é encarado por ser um momento reflexivo e de seleção crítica de dados importantes de acordo com uma temática.
Esta pesquisa, segundo Sousa (2005), abarca aspetos positivos e negativos. Quanto aos benefícios, destaca a adquirição de um inúmero conhecimento que não seria facilmente alcançado diretamente pelo investigador. Por outro lado, acrescentam Lüdke e André (1988), que o custo deste método é relativamente baixo, visto que o adotar apenas implica tempo e dedicação do investigador para escolher e analisar os mais importantes para o seu estudo.
Já a desvantagem principal incide-se na veracidade dos documentos, visto que os dados podem conter incorreções ou incoerências, interessando que o pesquisador use imensa bibliografia variada para poder comparar (Sousa, 2005).
Dito isto, Lopes e Pardal (2011), no sentido de contribuírem para a qualidade da investigação, definem as seguintes regras de análise documental:
- Definir claramente o objeto de estudo. Tal forma de atuação facilita a análise dos documentos e poupa muito trabalho.
- Formular devidamente a hipótese ou as hipóteses. Uma hipótese bem construída viabiliza a coordenação na análise de documentos e orienta a seleção da informação que estes contêm.
- Detetar o nível de imparcialidade de fontes. Uma fonte documental pode fornecer dados não representativos e camuflar os interesses mais diversos.
- Comparar apenas o comparável. Tal pressupõe definições com idêntico conteúdo e o uso de uma metodologia similar (p. 103).
Registos fotográficos
As fotografias retiradas ao longo do processo educativo não visam qualquer finalidade artística, mas sim um meio de informação para o docente, na medida em que possibilitam uma análise visual que pode ser arquivada e acedida a qualquer momento. Tal como outros registos, estes devem estar datados e identificados espacialmente (Máximo-Esteves, 2008).
Registos dos incidentes críticos
Ao longo da minha intervenção pedagógica na vertente do 1.ºCEB, optei por registar incidentes críticos. Estes incidentes, referidos por Matias (2006), são acontecimentos que surgem na sala de aula e que se distanciam da norma, ou seja, são atitudes e comportamentos evidenciados pelos alunos que alcançam uma atenção especial. O registo destes casos permite que o docente averigue se apenas foi uma ação impensada do aluno ou se, pelo contrário, se prolongam e se repetem com frequência. Neste último caso, a análise deverá ser cuidadosa de maneira a pensarmos em medidas adequadas que corrigem esses comportamentos desviantes.