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Tédio e vazio existencial

No documento (Des)encontros em um lugar qualquer (páginas 79-83)

5. O ENCONTRO COM GILLES DELEUZE

6.1 UM LUGAR QUALQUER

6.1.1 Tédio e vazio existencial

Nos primeiros quinze minutos do longa, nos é apresentada a rotina de John Marco. Nessas cenas, ele está sempre com um cigarro na boca e com uma bebida na mão. Logo no início do filme, há uma cena em que ele aparece bêbado em uma festa, descendo uma escada, rodeado de pessoas e abraçando uma mulher. Nesse momento ele faz menção de falar algo, mas tropeça e cai, fraturando o braço. Depois disso, a primeira fala da personagem no filme, se dá apenas aos 9’04”, quando ele interage com um garçom. Isso deixa clara a solidão de Johnny. A única pessoa com quem ele realmente conversa é a filha. Mas até o momento em que ela aparece, nos 16’18”, não há falas da personagem.

Após a queda na escada, ele aparece em seu quarto, deitado na cama, assistindo a duas gêmeas que lhe fazem uma apresentação de pole dance. Nesta cena, a expressão de tédio e marasmo o domina, e ele acaba por adormecer vendo a dança. Antes do primeiro encontro com a filha, a mesma cena repete-se de uma forma muito parecida. Interessante perceber que há, já nas cenas de dança, uma repetição concomitante: as duas

irmãs são idênticas e dançam de forma quase sincronizada. Além disso, os movimentos são circulares – pois elas ficam girando em torno do bastão – e estreitos por conta do espaço. Elementos como esses ajudam a criar a atmosfera que toma a vida da personagem. John também dá voltas sem sair do lugar. Um indício de que seus dias são todos iguais, é um momento em que Cléo aparece e ele lhe pergunta por que ela não está na escola. Ela lhe responde que é domingo. Para ele, então, o domingo parece passar como qualquer outro dia. O ator não possui compromissos que o prendam em uma rotina profissional, por exemplo, ele fica a par dos seus compromissos de trabalho a partir dos telefonemas que recebe de sua agente. Ela lhe informa o que é preciso fazer, em alguns casos, minutos antes do evento agendado. Contudo, ele cria para si uma rotina que o prende em um círculo de festas, bebidas e encontros com mulheres, das quais ele é um objeto de desejo.

Esse interesse que ele desperta nas mulheres é algo também explorado durante todo o filme. Ele não precisa se esforçar para ter sexo, talvez, por isso mesmo, sua vida sexual pareça banalizada, entediante. Além da cena em que adormece vendo a dança sensual das irmãs, há uma outra cena em que ele dorme repentinamente enquanto transa com uma mulher que conheceu em uma festa.

Esse tédio está presente não apenas nos momentos sexuais, mas também nas drogas e festas. O que denota que elementos que são normalmente explorados para obtenção de prazer e diversão não causam esse efeito em John Marco. Ele possui sempre um semblante fechado, de quem aparenta não suportar mais a própria existência. Parece óbvio também que suas relações são, de forma geral, muito superficiais. Aparentemente, todas as suas relações amorosas fracassaram e ele não parece ser bem quisto por suas ex- namoradas. Fica claro que há um conflito entre ele e a mãe de Cléo; e, quando ele vai para Itália, encontra uma mulher no hotel que o chama para o canto e cobra-lhe satisfações pelo fato de ele não ter mais entrado em contato com ela. Além disso, ele está sempre recebendo mensagens anônimas e agressivas no celular, aparentemente da mesma pessoa. A primeira delas diz: “Por que você é tão babaca”?

Insinua-se também que houve algum tipo de relação amorosa e ou sexual com a atriz com quem ele contracena no filme que está em cartaz e que demonstra odiá-lo. Há uma cena em que eles precisam ser fotografados para a divulgação do filme que protagonizam, e enquanto pousam sorrindo para as fotos, como grandes amigos, agridem- se verbalmente. Nas fotos eles vendem a imagem de um casal feliz e idealizado, mas, na

realidade, não se suportam. Isso parece ser uma “denúncia” da artificialidade hollywoodiana. O padrão que a indústria produz é irreal, não existe.

John Marco é uma imagem artificial, um produto que Hollywood vende. Essa ideia pode ser reforçada pela frase que tem tatuada no braço: “made in the USA”, como há indicado também em produtos comercializados. Ele é uma pessoa famosa, que todos querem possuir, que todos querem ser. Mas quem é ele de fato? Há uma cena em que o ator participa de uma coletiva à imprensa. Ele facilmente responde à pergunta feita por um dos jornalistas, “quem é Cléo? ”, cujo nome aparece escrito no gesso de seu braço fraturado. “Cléo é minha filha”, diz ele. Mas silencia quando lhe fazem a seguinte questão: “Quem é Johnny Marco? ”. A cena é cortada sem uma resposta.

Há uma sequência de cenas que mostram a feitura de uma máscara do seu rosto para um filme. Para isso, ele tem que manter olhos e boca fechados e ficar sentado imóvel, em uma postura “reta”, durante todo demorado processo. Várias mãos vão cobrindo sua face com uma massa grossa e restam apenas dois minúsculos buracos por onde se pode respirar. Uma respiração densa, difícil, ruidosa. Já não é mais um rosto. A câmera vai aproximando-se lentamente. Inspira, expira. O som da respiração tornando-se mais forte. Ao fundo, máscaras sem vida, de monstros e zumbis. Inspira, expira. O peito se estufa. Inspira, expira. O corpo imóvel sem rosto. Não respira mais. A imagem fixa. Inspira, expira. A câmera volta a se aproximar devagar e corta. O rosto agora é o de um velho. Olha para o espelho e ri, depois suspira conformado mirando a imagem.

Parece conformar-se com aquilo que prevê; com o fato de que envelhecerá, e não será mais nada, pois a fama e prestígio que possui estão diretamente ligados à sua aparência. No início do filme, há um momento em que ele se mira no espelho e parece incomodar-se com o envelhecimento, pois confere as “entradas” na cabeça, avaliando que está perdendo cabelo. O idoso que agora ele enxerga ao mirar-se no espelho já é quase completamente careca. Deleuze, ao falar da indiscernibilidade entre atual e virtual e da reversibilidade dos dois estados da imagem cinematográfica, cita o espelho: “(...) imagem especular é virtual em relação à personagem atual que o espelho capta, mas é atual no espelho, que nada mais deixa ao personagem além de uma mera virtualidade (...)”.77 No caso da cena citada, essa relação virtual-atual, que compõe a imagem-cristal, é reforçada

pela máscara que John usa: ela materializa o envelhecimento do corpo, que já havia se atualizado quando ele se mirava no espelho anteriormente.

Porém, além desta máscara que lhe fazem para um trabalho específico, ele utiliza também outra, que já não se discerne mais de sua face. A máscara de um homem feliz e realizado. Clarice Lispector, em seu texto “Persona” reflete sobre o fato de que em dado momento da vida todos nós fabricamos uma máscara para fugirmos de nós mesmos, para não ficarmos expostos à sensibilidade. Criamos um personagem. Contudo, pode ser que em algum momento, “por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida”, a autora diz, a máscara se quebre:

(...) Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe, eu acho que a máscara é um dar-se tão importante quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha. Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando

enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é. Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar. É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem como um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”.(...) (LISPECTOR, 1999, p. 79s)

John se dá conta da máscara que usa – a de um ídolo e modelo - e sabe o quanto isso é uma farsa. Por isso sua vida é vazia de significado e alegria. Apenas no final do filme, depois da convivência com Cléo, isso virá à tona de forma muito forte e ele o externalizará, ao telefonar para Layla, mãe da menina, em busca de ajuda. Chorando, ele diz: “Eu não sou nada. Eu nem sou uma pessoa. Não sei o que fazer.” Ele pede para que ela vá encontrá-lo, mas ela nega. Sequer conversa com ele. John está sozinho e a única pessoa com quem realmente consegue se conectar é Cléo. É Cléo também o “olhar passageiro e a palavra ouvida” que faz com que sua máscara se quebre de vez. Ela é o encontro que lhe toca sensivelmente, que o faz chorar na certeza implacável de que morrerá. Mas é também, quem lhe desperta a vontade de renascer e de ser novamente uma pessoa.

No documento (Des)encontros em um lugar qualquer (páginas 79-83)

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