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O Título “Espelho” como Chave-Semântica do Poema de Sylvia Plath

No documento ISSN Semana de Letras UFPR CADERNOS 2015 (páginas 135-142)

Rebeca Lessmann O poema “Espelho” suscita um primeiro efeito no leitor que alia a impress~o visual com a percepção de um significado relevante para a interpretação de seu conteúdo. O título

— um substantivo concreto — gera uma imagem de reflexão no imaginário do leitor que é instantaneamente relacionada à estrutura formal — dezoito versos divididos em duas estrofes simétricas de nove versos cada. Assim, uma proposta inicial de análise sugere a existência de uma correlação—que pode ser tanto de similaridade quanto de dissemelhança — entre a primeira estrofe e a segunda, ou seja, há um espelhamento, o que remete ao título “Espelho”. Essa hipótese pode ser justificada pela an|lise dos elementos formais e do conteúdo do poema, que se dar| na sequência com base no manual “Versos, sons, ritmos” de Norma Goldstein.

A primeira estrofe introduz o “eu lírico” do poema — o “Espelho” — o qual, mesmo não sendo explicitado, é facilmente deduzível, a partir de adjetivos e expressões que o caracterizam, tais como “prateado”, “exato” e “com quatro cantos”. Nos seis primeiros versos, o “eu lírico” fala sobre si de forma clara e objetiva, sem qualquer invers~o sint|tica ou complexidade no vocabul|rio empregado. Por exemplo, o primeiro verso (“Sou prateado e exato”) apresenta uma estrutura recorrente no português brasileiro, um sujeito oculto (“eu”) seguido do verbo ser e complementos.

Todavia, nos três últimos versos da primeira estrofe, esse “eu lírico” menciona outro elemento — o outro lado da parede — que ser| o foco de suas digressões e meditações (“O tempo todo medito do outro lado da parede” — v. 6). Ambos, parede e espelho, são elementos artificiais e inanimados, portanto não têm outra escolha que não a de permanecer indefinidamente diante um do outro. Por isso, o espelho declara “H| tanto tempo olho para ele (o outro lado da parede) / Que acho que faz parte do meu coraç~o” (v.

7 e 8).

Na sequência, o “eu lírico” (o espelho) afirma que “(...) ele falha.” (v. 8). Esse pronome “ele” carrega uma ambiguidade, presente também no original em inglês (por meio

do pronome “it”), que pode se referir tanto ao outro lado da parede quanto a um “coração do espelho”. Nesta an|lise, preferiu-se a segunda interpretação, pois ela sugere uma tentativa frustrada por parte do espelho de sentimentalizar a sua existência artificial e inanimada. Essa hipótese pode ser embasada por meio de expressões revelam a inexistência de um sentimentalismo nesse “eu lírico”, tais como “N~o tenho preconceitos”,

“(...) sem manchas de amor ou desprezo” e “N~o sou cruel, apenas verdadeiro”, presentes nos versos um, três e quatro, respectivamente.

Diferentemente de Lopes e Mendonça, André Cardoso, tradutor de outra versão em língua portuguesa, opta por traduzir “ele falha”, presente no oitavo verso, como “ela oscila”, diferença essa que desfaz a ambiguidade e torna a interpretaç~o do tradutor (“ela” faria menção à parede) como parte constituinte do poema. Por isso, nesta análise, preferiu-se trabalhar com a tradução de Rodrigo Garcia Lopes e de Maurício Arruda Mendonça, que mantém a ambiguidade de sentido.

O último verso da primeira estrofe menciona “escurid~o e faces”, que separariam o espelho e a parede. A escuridão pode ser interpretada como o elemento oposto à luz, que é necess|ria para que haja reflex~o; assim, a escurid~o impede o “contato visual” entre espelho e parede. Já as faces podem ser interpretadas como pessoas que se interpõem e impedem, mesmo que momentaneamente, essa relação entre espelho e parede — os quais, é conveniente lembrar, são frutos da existência humana — sugerindo, assim, certa impessoalidade, a qual se relaciona diretamente à ausência de sentimentalismo.

Ao se chegar à segunda estrofe, torna-se possível esmiuçar as relações existentes entre as duas partes do poema. O primeiro verso da segunda estrofe se apresenta de forma semelhante ao primeiro verso da primeira estrofe — “Sou prateado e exato” e “Sou um lago, agora”. Um novo “eu lírico” surge — o lago, elemento animado e natural (não artificial). N~o obstante, o advérbio “agora” sugere que esse “eu lírico” transformou-se de

“espelho” em “lago” de uma estrofe para a outra, relaç~o que tanto pode ser estabelecida pela existência de características comuns a ambos, como a reflexão, ou pela existência de características distintas, tais como a exatidão e o elemento inanimado versus a ondulação (o inexato) e o elemento animado.

Por seguinte, o “eu lírico” introduz outro personagem, a mulher, que semelhantemente ao lago, é animada e natural. Além disso, o “eu lírico” focar| sua atenç~o, por toda a segunda estrofe, na mulher — outro ponto de conexão entre as estrofes, pois, contando o número de vezes em que pronomes pessoais e possessivos são empregados, tem-se que, na segunda estrofe, a terceira pessoa do singular “ela” (a mulher) aparece doze vezes e a primeira pessoa do singular “eu” (o lago) apenas nove; no entanto, na primeira estrofe, tem-se a relaç~o de cinco “ele” (o outro lado da parede) para sete “eu” (o espelho).

Segundo palavras do “eu lírico”, a mulher busca, nas margens dele, “sua imagem verdadeira” (v. 11). O adjetivo “verdadeiro” aparece também no quarto verso da primeira estrofe, referindo-se ao espelho. Essa conexão entre dois verdadeiros – a imagem e o espelho — suscita a dúvida se a mulher deseja realmente conhecer a verdade sobre sua imagem ou se ela busca apenas a ilusão que um lago turvo e não preciso pode conceder. O leitor, então, depara-se com o “eu” em busca de sua identidade, personificado na primeira estrofe pelo espelho (o “eu”), exato e preciso, e pela mulher (o “ela”), inexata e imprecisa, carregando consigo a complexidade da existência humana (como se confirmará no verso 15), na segunda estrofe, estabelecendo nova ponte entre as duas partes do poema.

Neste ponto, mais uma vez, a comparação entre traduções é pertinente, pois André Cardoso manteve uma traduç~o literal do inglês: o equivalente de “(...) sua imagem verdadeira” em Lopes e Mendonça é a sentença ”(...) o que ela realmente é”. Nesse sentido, a tradução de Cardoso apresenta uma dualidade interessante para a análise, já que a mulher não buscaria apenas sua imagem física, mas também o sentido de sua existência e sua essência, num contexto mais metafísico.

Entre os versos doze e dezesseis, alguns eventos relacionados ao lago e à mulher formam um “jogo de espelhos”, no qual v|rias interpretações de sentido s~o possíveis e nenhuma delas é conclusiva ou absoluta. Por mais que, novamente, não haja o emprego de vocabulário complexo ou de inversões sintáticas — as sentenças continuam a seguir a ordem sujeito, verbo e objeto —, o sentido é obscuro e místico, contrapondo-se com a primeira estrofe, que é muito mais clara e precisa, não suscitando dúvidas na interpretação.

Os versos doze e treze mostram uma mudança nas intenções e/ou na atitude da mulher, visto que ela desvia seu olhar da margem do lago para fitar “as velas ou a lua” (v.

12) — que são focos de luz e, portanto, essenciais para a existência do processo de reflexão.

No verso treze, o “eu lírico” declara que ele reflete “fielmente” as costas da mulher, ou seja, constrói-se assim uma forte contradição: o lago considera que sua reflexão das costas da mulher é fiel; todavia, tal reflexão não existiria sem a luz das velas ou da lua, a quem o lago chama, por sua vez, de “mentirosas” (v. 12).

Prosseguindo-se com a análise, os versos catorze e quinze sugerem a presença de um sentimentalismo na mulher que se estabelece não explicitamente, mas sim por ações que carregam uma motivaç~o sentimental, como nos versos “Me retribui com l|grimas e acenos” (v. 14) e “Sou importante para ela” (v. 15), nos quais as l|grimas podem tanto sugerir alegria ou tristeza. O verso quinze sugere um apreço sentimental da mulher para com o lago, o que justifica a inconst}ncia do “(...) vai e vem” — contraposto à constância da parede na primeira estrofe.

O verso dezesseis, além de conter uma contradição interna — a concorrência das palavras “manh~” e “escurid~o” — liga-se à primeira estrofe pela repetição das palavras

“rosto/face” e “escurid~o”, presentes no nono verso, expressões centrais para a construç~o do imaginário do poema. Esse décimo-sexto verso pode simbolizar tanto a escuridão

“projetada” na superfície do lago advinda da interposiç~o da mulher entre ele e a luz quanto uma escuridão estampada na imagem da mulher ou em sua imagem interior — certa decrepitude e mesmo uma concepção de morte.

Os dois últimos versos de “Espelho” sustentam a hipótese previamente levantada de que a “imagem verdadeira” desta mulher — imagem exterior ou interior — carrega a ideia de deterioração/envelhecimento e o advento inevitável da morte. No verso dezessete, uma menina — vista como a juventude e a vitalidade — é afogada no lago. Em seguida, uma velha — em comparaç~o a “um peixe terrível” (v. 18) — emerge na direção dessa mesma mulher diariamente. Esses dois versos podem ser interpretados como uma analogia ao ciclo da vida, pois, a cada dia que a mulher “vai e vem” (v. 15) para mirar-se no lago, está mais velha e mais próxima da morte. Nesse sentido, é possível relacionar a decrepitude da morte ao repúdio que a mulher sente por sua “imagem verdadeira” ao permanecer de costas para o lago (versos 11, 12 e 13).

Alguns elementos formais presentes nos dois versos finais do poema são relevantes para a formulação das imagens referidas acima: primeiramente, a contraposição entre os verbos “emergir”, ligado a uma aç~o do lago no verso dezoito, e “engolir”, ligado a uma aç~o do espelho no segundo verso. Outra estrutura — presente apenas na tradução — é o encontro entre “mim” e “mim” no verso dezessete: a progress~o segue o sentido de afogar

“em mim, e em mim” emerge. Neste caso, a sintaxe (conjunç~o “e”) indica o vínculo mental existente entre essas duas imagens (afogar e emergir).

Anexos

Espelho (tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça) 1. Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.

2. Tudo o que vejo engulo no mesmo momento 3. Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.

4. Não sou cruel, apenas verdadeiro —

5. O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.

6. O tempo todo medito do outro lado da parede.

7. Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele 8. Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.

9. Escuridão e faces nos separam mais e mais.

10. Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim, 11. Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.

12. Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.

13. Vejo suas costas, e a reflito fielmente.

14. Me retribui com lágrimas e acenos.

15. Sou importante para ela. Ela vai e vem.

16. A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.

17. Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha

18. Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

Mirror (Sylvia Plath)

1. I am silver and exact. I have no preconceptions.

2. Whatever I see I swallow immediately 3. Just as it is, unmisted by love or dislike.

4. I am not cruel, just truthful —

5. The eye of a little god, four cornered.

6. Most of the time I meditate on the opposite wall.

7. It is pink, with speckles. I have looked at it so long 8. I think it is a part of my heart. But it flickers.

9. Faces and darkness separate us over and over.

10. Now I am a lake. A woman bends over me, 11. Searching my reaches for what she really is.

12. Then she turns to those liars, the candles or the moon.

13. I see her back, and reflect it faithfully.

14. She rewards me with tears and an agitation of hands 15. I am important to her. She comes and goes.

16. Each morning it is her face that replaces the darkness.

17. In me she has drowned a young girl, and in me an old woman 18. Rises toward her day after day, like a terrible fish.

Espelho (tradução: André Cardoso)

1. Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.

2. Tudo o que vejo engulo imediatamente

3. Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.

4. Não sou cruel, apenas verdadeiro —

5. O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.

6. Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.

7. Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo, 8. Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.

9. Rostos e escuridão nos separam toda hora.

10. Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim, 11. Buscando na minha superfície o que ela realmente é.

12. Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.

13. Vejo suas costas, e as reflito fielmente.

14. Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.

15. Sou importante para ela. Ela vem e vai.

16. A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.

17. Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha

18. Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.

Referências

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo, Editora Ática, 2011.

PLATH, Sylvia. Poemas. São Paulo, Editora Iluminuras, 2007. p. 26 – 27

PLATH, Sylvia; tradução de André Cardoso. In: 34 LETRAS, nº 5/6. São Paulo, Editora 34

Literatura e Nova Fronteira, 1989. Disponível em:

<http://www.sylviaplath.de/plath/mirror_po.html>. Acesso em: 30 maio 2015.

A Figuração da Ideologia Comunista em Três Romances

No documento ISSN Semana de Letras UFPR CADERNOS 2015 (páginas 135-142)