2. O POETA À MARGEM DO INSTANTE - O CARPE DIEM
2.3 Os topói do gênero
2.3.6 Tópica do conselho a resignar-se ao que os deuses nos reservam
Demasiadamente lúcido e orgulhoso para alimentar qualquer esperança com relação ao futuro e à felicidade, uma das maneiras propostas pelo heterônimo para enfrentar o que os deuses lhe impõem está em pura e simplesmente aceitar o que lhe é dado. Solução, no entanto, duvidosa, posto que lhe falta a firmeza de ânimo para sustentar a indiferença a que tanto aspira. Ainda assim, em diversas odes, assumirá a pose do estoico5, quase convincente, não fosse essa aceitação mais
―tristíssima e orgulhosa‖ (PERRONE-MOISÉS, 2001, p.91), do que verdadeira e resignada.
É certo que em vários momentos afirmará a necessidade de aceitar o que os deuses nos reservam. Sabe que deles não pode esperar nada além da própria vida.
Mas, conforme Leila Perrone-Moisés (2001), é justamente por saber, e por saber que sabe, que somos nada – uma vez que tudo caminha para o nada – que, ―em Reis, o desejo é mantido no grau zero: ‗Nada quero‘[...], que é um ‗não quero querer‘, lido pela psicanálise como apenas uma forma do desejo‖ (PERRONE-MOISÉS, 2001, p.91):
Não consentem os deuses mais que a vida.
Tudo pois refusemos, que nos alce A irrespiráveis píncaros, Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes, Nem se engelha connosco
O mesmo amor, duremos, Como vidros, às luzes transparentes E deixando escorrer a chuva triste, Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco (REIS, 2007, p20).
5 Sobre a estética da abdicação em Reis, vide capítulo IV sobre a configuração do estoicismo nas odes.
À sua sempre duvidosa indiferença, não deixará de aliar a ressentida tristeza de se saber impotente. Por isso o sol não o aquece de todo e não conseguirá deixar de pensar, ―refletindo um pouco‖ – o duplo sentido aí não é gratuito –, na chuva triste que torna os seus dias mornos, mesmo quando há sol. Mais do que em submeter-se, é numa espécie de plácida, mas não por isso menos angustiante, mágoa que Reis fundamenta sua estética de aceitação. A postura altiva nada mais é do que a maneira de o poeta suportar o que foge ao seu controle, posto que não pode – e nem mesmo quer – ignorar esse fato por momento algum:
Melhor destino que o de conhecer-se Não frui quem mente frui. Antes, sabendo Ser nada, que ignorando:
Nada dentro de nada.
Se não houver em mim poder que vença As Parcas três e as moles do futuro.
Já me dêem os deuses O poder de sabê-lo;
E a beleza, incriável por meu sestro, Eu goze externa e dada, repetida Em meus passivos olhos,
Lagos que a morte seca (REIS, 2007, p.26).
Conforme Bréchon, os temas que dão à poesia de Reis a plenitude ―altiva‖
encontram-se quase todos reunidos aí, inserindo-se em duas tradições, em princípio opostas, mas que já na Antiguidade vão ao encontro uma da outra: ―A divisa do poeta das Odes é tanto o Sustine et abstine dos estoicos como o carpe diem de Horácio e dos epicuristas6‖ (BRÉCHON, 1998, p.224). Entretanto, mesmo submetido às mais dilacerantes tensões, o lamento de Reis jamais se erguerá ao grito. Longe de ser um revoltado imprecador, o poeta das odes tomará por base desse pessimismo uma artificial ética da aceitação total. Isso se deve, de acordo com Padrão, ao fato de que Reis ―considera um plano transcendental que se situa numa esfera separada dos homens cuja única atitude certa será, além da abdicação do saber, curvar-se como o trigo quando o vento sopra e erguer-se como ele quando o vento cessa‖ (PADRÃO, 1973, p.176).
Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
6 Como veremos nos capítulos seguintes, a própria tentativa de conciliar postulados tão distintos será um dos fatores mais importantes no que diz respeito às tensões que perpassam as odes.
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo, Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante (REIS, 2007, p.186).
Se dizemos que é artificial a aceitação de Reis, é porque o heterônimo jamais aceita, totalmente e de bom grado, o que quer que seja. E mesmo quando afirma sua postura resignada, não tarde em se contradizer. Nos dizeres de Padrão, é justamente na passividade dessa ―aceitação programada‖ que se pode medir o estrangeiro que é: julgando-se como ―deidade exilada‖ (REIS, 2007, p.66), sempre abaixo dos deuses – sobre os quais igualmente pesa o Fado – ―arrasta, como condenação, o simples desejo de felicidade a que chama erro‖ (PADRÃO, 1973, p.36):
Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato (REIS, 2007, p.215).
Caso o que lhe é dado fosse suficiente, por que haveria de alimentar tantos e tão magoados desejos? Se as coroas de pâmpanos e rosas, se as breves folhas de hera, de fato, fossem suficientes, se pudesse seguir o próprio conselho de ―aguardar equânime‖ aquilo que não conhece (REIS, 2007, p.223), por que haveria de procurar tanto, e em vão, o que não lhe foi consentido?
Em vão procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros Como hão-de mais que perfumar de longe Meu desejo de tê-las? (REIS, 2007, p.119).
Não estará nesse sempre (in) sincero jogo uma das mais puras expressões do que nele há de humano, talvez? Não estará nesse mesmo grito sufocado o seu protesto contra um mundo que não é o seu e sequer lhe serve de abrigo? Submetido por vontade própria ao que não pediu, mas – com que alternativas? – escolheu querer, Reis será o altivo mendigo, que, por orgulho, erguerá nas areias da atra praia seu castelo de sonho, constantemente ameaçado pelas ondas três do mar do Tempo.
2.3.7 Tópica da exortação ao gozo do presente, convite ao vinho, à festa e ao