IV. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
4.3. Amostra de REQUERIMENTOS
4.3.3. Tópico: D[uvida
Esse tópico é intitulado pelo interactante que o inicia de d[uvida. É composto por dois interactantes – aluno e tutor – e duas postagens.
01 por aluno segunda, 3 out. 2011, 18:01
Não consigo visualizar as atividades 3, gostaria de receber orientações. Um abraço, Aluno. 02 Re: minhas notas por tutor terça, 4 out. 2011, 07:40 Oi, aluno 01,
Achei estranha sua ocorrência, pois até agora você não teve esse tipo de problema, certo?
Vou encaminhar seu problema ao suporte. Abs,
Tutor
No excerto 09, o aluno inicia o turno com uma dúvida, uma indagação, deixando pistas para que um professor-tutor assumisse o turno, pois se referia às questões técnicas
e educacionais, refletindo as noções de sequencialidade29 e de preferência30.
Após trezes horas, o professor-tutor se auto seleciona para responder e resolver o problema. Neste sentido, podemos construir uma interação, cujo papel do aluno é de inquiridor e do professor-tutor de respondedor, conforme o esquema proposto por Kneser, Pilkington e Treasure-Jones (2001):
Turno Interactante Papel Argumentativo Categorias ESA mais esperadas Posição de Controle no Diálogo Papel na Estrutura de Troca (ESA) Movimentos 1 3/10/11, às 18:01Aluno 01 Inquiridor I Ativo Iniciador Inquirir,
perguntar 2 Tutor 01
4/10/11, às 07:40 Explicador R Passivo Respondedor Informar
Quadro 17 – Esquema de Troca de Turnos – Excerto 9
No primeiro turno, temos, como enquadre inicial, a solicitação do aluno para esclarecimento de uma dúvida [“(...) gostaria de receber orientações.”]. O professor- tutor dá sequência à interação alterando o enquadre, pois passa a resolver o problema ao afirmar: [“Vou encaminhar seu problema ao suporte”].
Quanto à posição de controle no diálogo, Kneser, Pilkington e Treasure-Jones (2001) destacam que aquele que pergunta tem uma função ativa, pois detém a iniciativa e se inclui na interação; já o respondedor possui uma atitude passiva e opta somente por
responder, raramente tomando a iniciativa de iniciar um tópico
.
Tal assertiva pode serverificada no fórum de notícias devido ao expressivo número de tópicos abertos pelos alunos e o inexpressivo número por professores-tutores, cf. demonstrado no Gráfico 1.
Salientamos que os footings são diferentes, pois a projeção que o professor-tutor
busca para si está diretamente envolvida com o seu “eu” e com a preservação das faces
institucionais ao passo que o aluno busca desempenhar o seu papel, de forma a demonstrar autonomia, autodidatismo e autodisciplina. Nas palavras dele [“gostaria de receber orientações”] fazendo compreender que precisa de alguém que o instrua, que a partir dali, poderá fazer sozinho. Nesse sentido, os footings influenciam nas estratégias de polidez utilizadas pelos interactantes.
29
Have (1993 apud Loder et al, 2002: 40) nos diz “que ideia de ‘sequência’ refere-se à experiência comum que uma coisa leva a outra”. (...) Cada participante, ao produzir sua elocução, não a faz de forma desordenada, mas sempre leva em consideração o que outro disse previamente.
30
Sacks (1992 apud Loder et al, 2002: 51) afirma que dada uma elocução qualquer, classificada de qualquer modo, ela admite mais do que uma coisa que pode ser feita a seguir, mas estabelece que não é qualquer coisa que pode fazer a seguir.
Ressaltamos que a polidez está diretamente relacionada à preservação das faces individual e/ou institucional, ou seja, a interação verbal está mediada pelas questões sociais que a envolvem. Sua quebra, em se tratando dos AVA, sob a ótica do tutor, implica o não desempenho da sua função e a exposição da instituição. Já para o aluno sugere o mau desempenho do seu papel e o fracasso no processo de ensino- aprendizagem.
Podemos, portanto, observar a disposição do tutor em solucionar o problema do aluno, posto que, caso se prolongue o problema, a face institucional fica exposta e o aluno pode não desempenhar e cumprir seu papel com eficácia.
Aliás, na fala do aluno, podemos observar o uso das estratégias de polidez negativa, pois as perguntas são formas indiretas de levar alguém a fazer algo que é o desejo do falante. Contudo, suaviza o AAF através de uma pergunta indireta e do uso do subjuntivo: [Não consigo visualizar as atividades 3, gostaria de receber orientações].
O professor-tutor, mediante o tom de dúvida, apresentado pelo aluno quanto ao problema em questão, acaba por fazer uso da polidez negativa, pois remedeia a face negativa do interlocutor ao encerrar a interação com uma pergunta: [Achei estranha sua ocorrência, pois até agora você não teve esse tipo de problema, certo?]. Porém, em seguida, utiliza estratégias de polidez positiva, porque indica ao interlocutor que está em busca da solução para o seu problema: [Vou encaminhar seu problema ao suporte].
Todavia, o que se percebe é que este trabalho conjunto de enviar para o suporte é uma característica bastante peculiar da EaD, na qual inúmeros profissionais envolvidos, e de diversas áreas, visam garantir a ambiência e, consequentemente, a aprendizagem nos ambientes mediados pelo computador (Souza, 2009: 106).
Neste sentido, todos os interactantes precisam assumir o princípio cooperativo, de Grice, para que as interações sejam eficientes. As máximas de Grice devem estar arraigadas às interações dos AVA, pois estas devem ser breves, porém, eficientes. Os professores-tutores, nas instruções sobre os fóruns, têm determinado aos alunos não ultrapassar cinquenta palavras, para que seja realizada a leitura integral das postagens e sejam acessíveis a todos da turma em tempo hábil.
Notamos, portanto, a necessidade de recorrer às estratégias de polidez e as máximas de Grice para tornar as interações nos AVA mais simétricas e bem sucedidas. Acerca da interação Mishra e Juwah (2006) apontam para o seguinte fato:
vários estudos que concluem que a interação é o elemento chave na educação, que um nível elevado da interação resulta em atitudes mais positivas, que a interação leva a um grau elevado de realização, que a
interação desempenha um papel fundamental no aprendizado, na retenção e nas percepções gerais do aluno em relação à eficácia do curso e do professor e que ambientes interativos são propícios para a aprendizagem e satisfação do aluno. (Mishra e Juwah, 2006 apud Mattar, 2012: 49)
Observaremos, na próxima interação, o quanto pode ser prejudicial à interação quando professores-tutores se eximem do seu papel social e acabam por deixar exposta a face institucional.