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2 QUESTÃO AGRÁRIA E DESENVOLVIMENTO NO BRASIL

2.3 Tópicos da História do Nordeste brasileiro

Os interesses de Portugal, no sentido de explorar os recursos naturais brasileiros, fizeram com que o território fosse dividido em 15 capitanias hereditárias. Realizava-se a distribuição de terras segundo a Lei Sesmaria.7 O povoamento teve início no século

XVI. O Nordeste brasileiro representa a primeira zona de povoamento criada pelos conquistadores portugueses, que iniciaram a colonização a partir do litoral nordestino

7 Sesmaria foi um instituto jurídico português que normatizava a distribuição de terras destinadas à produção. O Estado, recém-formado e sem capacidade para organizar a produção de alimentos, decide legar a particulares essa função.

com a cana-de-açúcar, e no interior com a pecuária, principalmente seguindo as margens dos rios, dentre eles o São Francisco.

Segundo Garcia (1986), durante três séculos o Nordeste, foi a região mais rica dos colonizadores portugueses, com a exploração do pau-brasil, da cana-de-açúcar e depois o algodão. Com a criação das capitanias hereditárias, deu-se o início da construção da primeira capital do Brasil, Salvador, em 1549. No início, foi criado o governo-geral no país, com Tomé de Sousa como governador geral. O Nordeste foi também o centro financeiro do Brasil até meados do século XVIII, uma vez que a Capitania de Pernambuco foi o principal centro produtivo da colônia e Recife a cidade de maior importância econômica.

O litoral, conhecido como zona da mata, teve forte desenvolvimento com o cultivo da cana-de-açúcar (final do século XVI e meados do século XVII), baseado no sistema Colônia-Metrópole e estruturou o comércio e o desenvolvimento das cidades na região. Sustentada à base do trabalho escravo indígena e africano, esse sistema consolidou a estrutura fundiária marcada por forte concentração de terras e influência de oligarquias locais, com poder nas decisões políticas e econômicas.

No sertão, o povoamento foi disperso, apenas naqueles locais onde existe água, seja rio perene ou poços. Os poucos vilarejos que se estabelecera servia de apoio aos viajantes e às boiadas que transitavam. A agricultura estabelecida (século XVII) era apenas para consumo da própria família (PRADO JÚNIOR, 1981).

A pecuária extensiva foi responsável, durante o século XVII, pelo início da interiorização da ocupação do Nordeste. Afastado da zona da mata para não comprometer a lavoura de cana, o rebanho bovino seguiu pelo agreste – faixa transitória entre as áreas úmidas e as porções de clima seco até alcançar o sertão. A pecuária extensiva nordestina realizada no agreste e no sertão chegou a atrair até mesmo imigrantes paulistas para a região Nordeste.

Essa região tem sido vista historicamente, como o território economicamente inferior quanto ao restante do país. Essa desigualdade tem sido um motivo de preocupação constante dos governos brasileiros e da sociedade civil, embora pouco se tenha feito para ser materializado em ações efetivas (GARCIA, 1986).

Indicadores sociais, como pesquisa do IBGE sobre a educação no Brasil, que serve de base para Molina, Montenegro e Oliveira (2009), mostra que ao longo dos anos se elevaram as desigualdades existentes entre os nordestinos e os demais brasileiros, a

exemplo da mortalidade infantil, dos baixos níveis de escolarização/alfabetização, tecnologia e concentração de terras e renda.

Há quem afirme que esse quadro de desigualdade econômica e social está entranhado na proposta de como os governantes têm visto a região, apenas pelo viés economicista – produtor de matéria-prima, mercadorias e mão de obra barata, sem se preocupar com a qualidade de vida e a dignidade dos sujeitos que nela habitam.

Para Castro (2012) com base em estudos dos dados IBGE, o ano de 2006 nos apresentam informações recentes sobre o Nordeste atual. A agricultura práticada na região é muito variada, seja quanto às culturas plantadas, seja em relação ao nível da tecnologia empregada na produção agrícola. É possível, inclusive, entender os limites e o desenvolvimento da agricultura nordestina, entre as quais as questões ambientais, a deficiência logística, o atraso tecnológico, a falta de crédito, a falta de assistência técnica, dentre outros. É a cana-de-açúcar ainda o principal produto agrícola da região, com lavouras concentradas principalmente em Alagoas, Pernambuco e Paraíba.

Especificamente Pernambuco e Paraíba têm certa cumplicidade quanto ao sistema de produção adotado no litoral, na opção pelo cultivo da monocultura da cana- de-açúcar, passando por situações parecidas – crises desses produtos no mercado internacional, bem como a exploração de trabalhadores nas diversas fases da produção, com a concentração de terras (latifúndios) e riquezas mal distribuídas. Por outro lado, em suas histórias têm marcas de resistências ao modelo do agronegócio por meio das ligas camponesas. Na história do Brasil, ambos os estados tiveram forte mobilização sob lideranças como Francisco Julião (PE) e João Pedro Teixeira (PB) na segunda metade do século XX.

No campo produtivo, os dias atuais também contam com diversas outras formas de resistência das famílias de agricultores e camponeses nesses dois estados, há um número significativo de experiências agroecológicas, expressa nos dados da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA, 2013). Na Paraíba estão registrados 158 e Pernambuco 116 experiências agroecológicas, distribuídas em diferentes territórios. Tais experiências só reforçam a existência de grupos de camponeses que, embora sufocados pela sedução do agronegócio, resistem e desenvolvem outra forma de agricultura e buscam outro modelo de desenvolvimento, com base na sustentabilidade social, ambiental, econômica e ética, quando procuram produzir alimentos sadios para a população em geral, mas que também não degradem o meio ambiente.

É com base nessas experiências exitosas produtivas que as famílias agricultoras e camponesas estão desenvolvendo a sustentabilidade de suas famílias e do ambiente, haja vista que desenvolvem atividades produtivas de modo harmonizo com os elementos da natureza, dessa forma de pensar e fazer um desenvolvimento para além do econômico. Nesse sentido vamos aprofundar no próximo item.