do local ao global
I. Tópicos interpretativos
Numa altura em que urge revitalizar e exumar o que de melhor a imprensa poderá ter, quer a literária, quer a noticiosa, assim como as revistas literárias, enquanto publicam, ou publicavam textos de escritores para dar, ou que dava a conhecer a um vasto público e leitor interessado, é necessário, senão mesmo urgente, no princípio de um novo milénio, evocar a mentalidade textual que então regia, ou ainda pode reger, uma época, senão épocas. O que se pretende é a efectivação de um levantamento e de um estudo cientí-fico da imprensa famalicense, o qual se baseará entre o “local” que se identifica com o “dentro” e o “global”, este com o “fora”, para uma interpretação multidisciplinar entre a sociologia, uma filosofia da cultura e a lite-ratura para a edificação de uma ética de leitura, a qual poderá nos remeter, para além da mentalidade textual, a uma mentalidade social. Utópico? Provavelmente, mas nada impossível.
De momento, interessa-nos descodificar, num primeiro momento teórico, os neologismos “globalização”,
“localização “ e “glocalização”. Ao mesmo tempo, o que poderá ser uma ética de leitura visando a imprensa e a literatura, o cânone literário e o folhetim para então entrarmos num segundo momento, o prático.
Assim sendo, para compreendermos a perspectiva da globalização e a sua promoção que efectua com o local, socorremo-nos, para tal, de Giddens (1997: 70). Segundo Giddens, a globalização não diz apenas respeito à criação de sistemas em larga escala, mas diz também respeito à transformação de contextos locais e até pessoais, principalmente de experiência pessoal. As nossas actividades quotidianas são influen-ciadas por eventos que ocorrem no outro lado do muro. Por outro lado, os hábitos de vida local tornam-se globalmente relevantes. Em segundo lugar, e em parte como resultado directo da globalização, poderemos falar hoje de uma emergência de uma ordem social pós-tradicional. Uma ordem pós-tradicional não é uma ordem em que a tradição muda de estatuto. As tradições têm de se explicar a si mesmas, estar abertas a discursos interrogativos. Numa sociedade globalizante, e culturalmente cosmopolita, as tradições são objecto de análise cuidadosa, necessitando de razões ou de justificações. Finalmente, a globalização traz consigo a insistência na diversidade, a tentativa de recuperação das tradições locais perdidas e a ênfase colocada na identidade cultural local.
Nesta situação, se a maior parte dos sociólogos aplicam a noção de globalização apenas a uma sime-tria económica, ela vai ainda mais longe, acabando por nos revelar outras situações típicas, principalmente no campo da cultura e no nosso caso concreto a imprensa. Solicito Ernesto Rodrigues:
Por verdade global entende-se, talvez, essa objectividade, virtual, que resulta de os factos serem confirmadamente autênticos e exactamente reproduzidos. Mas o último advérbio conduz ao problemático: mais do que o visto, é o ponto de
* Técnico Profissional de Bibliotecas, Câmara de Vila Nova de Famalicão.
vista que determina. Pelas suas fissuras entre a arte de fazer História e o viperino dizer literário. Equivale essa “verdade global” à velha verosimilhança, indiferente, nos seus princípios constituintes, à imaginação?
Desaprovo, assim, que o jornalismo se desinsira da imaginação, metodológica para o profissional; que, a transvasar, isso o catapulte para a supra-literatura, conformando-se esta a viver sem a imaginação; que a não-imaginação colida com a verdade poliédrica; que o “dado de facto”, a “verdade global”, contradigam reflexos múltiplos de múltiplos espelhos.
(1998: 75)
Para completarmos tais noções, nas quais existem um complemento entre o local e o global (Giddens) e, por outro lado, estando patente nessa configuração relacional a actividade jornalística e do literário (Rodrigues), outra noção de cultura global é-nos oferecida por Smart, esta em três perspectivas funcionais:
i) a dimensão da cultura global, ii) a cultura global, uma cultura que se constrói e, finalmente, iii) o relacio-namento da cultura local, na qual se reconstrói o espaço cultural enquanto memória, com a cultura global, estando aqui patente o cosmopolitismo identitário das culturas. (1993: 171-173) Nesta multidisciplinariedade, surge-nos os conceitos de mundialização e de universalidade (BAUDRILLARD, 1998: 22), unificando-se este último à perspectiva global, cujas noções e distinções poderão ser polémicas, mas que se identificam com a realidade contemporânea: i) no mundial, todas as diferenças se esbatem apenas em função da libertação das permutas. Mundialização e universalidade não caminham a par, melhor diríamos que uma exclui a outra.
A mundialização tem a ver com as técnicas, o mercado, o turismo, a informação. A universalidade tem a ver com os valores, os direitos do homem, as liberdades, a cultura, a democracia. A mundialização parece irre-versível: dir-se-ia que o universal está em vias de extinção, pelo menos no sentido em que se constitui como sistema de valores à escala da modernidade ocidental, sem equivalente a qualquer outra cultura.
Nesta perspectiva, o nosso interesse na globalização é essencialmente a perspectiva cultura da mesma;
e um dos sentidos a dar à palavra globalização tem a ver com a capacidade que a mesma traduz naquilo que hoje se verifica em termos de importação e de exportação da própria cultura. Tal referência deve-se à dimensão alcançada pelos contactos das diversas culturas nacionais e regionais; e umas das características atribuídas à pós-modernidade tem a ver, precisamente, com o fenómeno segundo o qual a cultura e a econo-mia se entrelaçam cada vez mais, nomeadamente a econoecono-mia torna-se cada vez mais cultural, ao passo que a cultura se vê cada mais determinada pela dimensão económica (VILA-CHÃ, 2003). Ora, na medida em que as manifestações culturais estão ao mesmo tempo sujeitas tanto ao domínio da cultura como ao domínio da economia, o que pode acontecer, numa consequência mais imediata, é levar à existência de um individua-lismo exacerbado, o qual terá e tem as suas consequências num materiaindividua-lismo consumista. Se a cultura ajuda a cultura global a expandir-se, não poderá deixar de ocupar um lugar privilegiado, já que acaba por promo-ver padrões de comportamento, obtendo assim a cultura a missão de criar e de modelar o consumidor global.
O nosso caso refere-se, particularmente, ao processo cultural de uma globalização do literário, se assim o podemos designar.
Contudo, num segundo momento, o processo é mais complicado do que à primeira vista parece. Se, por um lado, a cultura pode manter o seu alcance global e a sua convivência social, por outro lado, surge-nos uma cultura enquanto crítica utópica, sendo esta, ao mesmo tempo, enfraquecida politicamente. Apesar de tudo, a crítica utópica numa vivência cultural interessa-nos, acima de tudo, pelo seu factor de criatividade.
A literatura é exemplar nessa criatividade. Independentemente do confronto político, da ligação da cultura à política, e vice-versa, a cultura que aqui nos interessa é, nada mais nada menos, esta crítica utópica cria-tiva, senão mesma recriativa. De qualquer maneira, esta efervescência do cultural nas últimas décadas, quer num plano local e global, tem evidentemente os seus perigos. Quem nos avisa de tais perigos, pela ligação do cultural ao político, é Eduardo Lourenço:
A verdadeira ameaça contida na actual apoteose do cultural é a que se esconde ou manifesta uma mais ou menos subtil subordinação do cultural ao político, não no sentido de tradição milenária, levado ao absurdo pelo totalitarismo moderno, mas no sentidosoftdemocrático, da gestão e vivência cultural como máscara, apenas disfarçada da mais trivial vontade de poderio. (1999 a: 12)
Finalmente, interessa-nos aqui realçar a efectividade de uma cultura local com uma cultura global, e vice-versa. Poderá isto levar-nos à questão medievalista do indivíduo (local) e do universal (global).
Podemos, aparentemente, inter-agir criativamente com tais conceitos. Neste sentido, a cultura simboliza uma forte ligação entre uma cultura local e uma cultura global. Convém, apesar de tudo, dizer que esta perspec-tiva pode ser enganadora:
A cultura enquanto identidade é avessa, quer à universalidade, quer à individualidade; em contrapartida, valoriza a especificidade colectiva. Na perspectiva da Cultura, as culturas aproveitam-se perversamente das peculiaridades aciden-tais da existência... transformando-as em portadoras de uma necessidade. (EAGLETON, 2003: 77)
Na relação do indivíduo com o local, o que a cultura acaba por valorizar é, precisamente, mais do que o indivíduo, a identidade do humano: eis o carácter universal da cultura. O que está em causa é uma rela-ção directa entre o ser humano na sua individualidade e identidade com o universal, o global. Na visão de Eagleton, a cultura é o espírito da humanidade individualizando-se em obras específicas, e o seu discurso estabelece uma ligação entre o individual e o universal, o cerne do eu e a verdade da humanidade, sem a mediação do que é historicamente específico. O universal não é o simples antónimo do individual, mas o seu próprio paradigma. (2003: 78)
Surge a questão inquestionável: como conciliar o local e o global num plano literário-cultural famalicense num plano de uma ética de leitura? Se já efectuamos uma aproximação teórico-sociológica, falta-nos a reincidência do literário, se não mesmo o plano de uma literariedade, do que propriamente de literatura (CULLER, 1995: 45). Se nos deparamos com uma definição meramente técnica de literatura onde está patente a noção do cânone literário – “a literatura não é senão aquilo que uma dada sociedade trata como literatura: isto é, o conjunto de textos que os árbitros da cultura – os professores, os escritores, os críticos, os académicos – reconhecem como pertencendo à literatura. Tal conclusão está longe de ser satisfatória..., em que os critérios de definição e de limitação dos objectos culturais nos remetem para as opiniões mutáveis de um grupo, grande ou pequeno” (CULLER, 1995: 46), a intenção agora será evocar Harold Bloom, o qual nos transmite um testemunho de uma meta-literatura, sem fronteiras para a interioridade humana:
A literatura não é unicamente linguagem. Ela é também a vontade de figuração, o motivo para a metáfora de que Nietzsche uma vez definiu como o desejo de ser diferente,o desejo de estar noutro lugar.Isto em parte significa ser dife-rente de si mesmo, mas primeiro que tudo significa..., ser difedife-rente das metáforas e imagens das obras contingentes que constituem o património herdado por cada um: o desejo de escrever de maneira grandiosa e o desejo de estar noutro lugar, num tempo e num lugar exclusivos de cada um, numa originalidade que se deve combinar com a herança, com a ansiedade da influência.” (BLOOM, 1997: 24) (itálico meu)
O desejo de estarmos noutro lugar...! Será neste sentido, a urgência vivificadora de uma ética de leitura, a qual se socorre da interioridade textual, esta se encontrando numa entronização tensiva e dialéctica entre a literatura e a imprensa com base numa filosofia da cultura para ressalvar a experiencialidade do humano.
Para compreendermos o que poderá significar esta ética de leitura, a nossa salvação interpretativa recairá em Barros Baptista (1993: 11-12). Ao diferenciar uma leitura truística da do lugar comum, a primeira como um texto sempre por ler, a segunda na significação ortodoxal de que a homenagem que se pode prestar a um texto, compreende-se autor, é lê-lo, uma ética de leitura poderá, então, deixar-nos “recolher o apelo do
texto, respondendo-lhe como se ele se apresentasse por si só o nosso caminho... Responder empenhada-mente ao apelo do texto significa aceitar o risco de, num lugar previsto, ler o que, desde o início, se entende como texto que está por ler, ou seja aceitar o imprevisto da leitura.” (BAPTISTA, 1993: 15)
Como poderemos aplicar este imprevisto leitoral na actividade criativa e literária no plano famalicense?
Ora, a propósito do cânone literário e da sua formação seria imperdoável se aqui não aplicássemos os recen-tes estudos de Carlos Ceia (1991: 121, 124) e os de Bloom (1997: 39), os quais numa órbita diferenciada, acabam por se complementarem, trazendo-nos novas claridades na formação do cânone. Vejamos as objec-ções de Ceia relativamente ao que foi estabelecido mais atrás via Culler: i) a primeira diz respeito ao propó-sito de que um cânone estabelecido para uma geração pode não servir para a geração seguinte; ii) na segunda, evoca-nos Ceia a possibilidade de exclusão de vários grupos sociais, étnicos e mesmo sexuais; iii) finalmente, evidencia Ceia que o Cânone para além de ser uma visão institucionalizada, relega para segundo plano o papel daqueles a quem se dirige. Qual a proposta de Ceia? Vejamo-la:
Esta última objecção aponta ainda para o preconceito do controlo institucional da interpretação dos textos e da litera-tura em geral. Só o processo de escolha dos autores e dos textos pode funcionar com umainterpretaçãoda própria litera-tura, mas neste caso devemos rever não só o conceito de interpretação mas também o de literatura: a primeira seria apenas um processo subjectivo de decisão arbitrária e numérica entre entre várias possibilidades de escolha, algo bem diferente do conceito de interpretação como hermenêutica crítica; a segunda seria apenas uma gigantesca banca de mercado, onde estão expostas todas as espécies de fruta do mundo, competindo ao cliente provar de todas para decidir qual a que tem melhor sabor, mas nunca interrogando a natureza de cada fruto, que é a tarefa maior da literatura.” (1999: 124-125)
Vejamos Bloom, que mais longe vai do que Ceia. Ao objectar que a formação do cânone já não é levado apenas pelo poder institucionalizado, caso dos grupos sociais dominantes, instituições educativas, tradições críticas, criticando, por um lado, não só a visão marxista da formação canónica, para a qual a instância da formação do cânone se deve a um capital cultural, como também efectua a objecção da ideo-logia na sua formação, criticando igualmente a formação do cânone literário numa perspectiva individual, Bloom acaba por concluir que a leitura ideológica não é propriamente leitura (1997: 39), salientando, ao mesmo tempo, duas perspectivas no horizonte da formação do cânone, a educativa e a proposta estética (1997: 28, 145-146).
Nesta altura do nosso discurso, o que se poderá questionar relativamente aos autores/escritores locais é: qual será o tipo de cânone, ou então se será possível remetê-los para outro tipo. O da paraliteratura?
Talvez sim, talvez não, até porque este se situa à margem daquele. Se na paraliteratura inclui-se obras como a ficção científica, a literatura fantástica, a banda desenhada, o romance policial, esta acaba por ser um bom negócio para editores e livreiros, não significando propriamente que tais obras sejam de menor qualidade estética. Mas o cânone pode também comportar uma actividade estática e de movimento, na medida em que uma obra literária pode perfeitamente incorporar as suas mutações internas e externas, isto é, o que hoje está estabelecido institucionalmente, amanhã poderá obter alterações significativas, devido precisamente ao pré-condicionamento do cânone literário que depende de factores externos a si próprio.
Não deixa, contudo, de ser curioso de que para além da noção de paraliteratura, a qual pretendemos incorporar na hipótese da sua existência numa literatura local/regionalista, não deixa, dizíamos, de ser curiosa a noção de literatura marginalizada de Arnaldo Saraiva. Para este autor, a designação de “literatura marginal” é que ela cobre mais ou menos todo o espaço semântico de outras designações, tais como “para-literatura”, “sub“para-literatura”, “infra“para-literatura”, “literatura popular”, “literatura oral”, “literatura de cordel”, “contrali-teratura”, “antile“contrali-teratura”, “literatura underground” e até “literatura de vanguarda”; e o que define tais expres-sões ou designações é a oposição explícita ou implícita face à literatura oficial, a consagrada, académica e mesma clássica. Mas com o uso do sintagma “literatura marginalizada” pode visar-se apenas um certo tipo
de textos em que há menos estruturação, menos elaboração estética, menos conceptualização, ou menos ambição cultural do que, por exemplo, na “literatura de vanguarda” ou na “antiliteratura; e pode visar-se prefe-rentemente não só um tipo de textos mas também o modo da sua produção, distribuição ou circulação e do seu consumo (1980: 5-7).
Assim questionamos de novo, pois, a incorporação dos autores/escritores locais: se poderão estar nos parâmetros literários ou nos paraliterários. Quanto a nós, têm simplesmente uma realidade significante numa individualidade estética muito própria, incorporando vivências não só ideológicas, como também a reconstru-ção imagética de um universo não colectivo, isto é, a palavra enquanto acto poético e ficcional não atingiu ainda a plena maturidade de realizar-se como mundo outro porque meramente se realiza num contexto indi-vidual mais ético do que estético. Porque não referir Bloom e aplicar aqui a característica que ele acentua de uma “estética subterrânea?” (1997: 27) Mas nestaestética subterrâneanão existirá um autodesvelamento do literário, uma existenciariedade vivencial do humano? Vejamos o que neste aspecto Vergílio Ferreira nos diz. Num texto dedicado a Saúl Dias, evoca Ferreira autores que os críticos denominam de menores, consi-derando que há “escritores grandes de dimensão pequena, como os há pequenos de dimensão grande”.
Pode-nos parecer paradoxal à primeira vista esta palavras que apresentamos de Ferreira. Justificamo-nos com o que aqui nos traz através de uma “hermenêutica indeferenciada” (GARDIN, 1996), a partir do momento em que se aplica uma hermenêutica não só aos autores canonizados como também aos não canonizados, cada um por si à parte, devido aos enunciados estéticos que proclamam e se inserem. Temos, assim, uma indeterminação interpretativa que não só é interrogativa, até porque a partir do momento em que se torna interrogativa a interpretação propõe novos rumos para uma nova construção epistemológico-literária – e como exemplo concreto a imprensa perante os autores e escritores que comporta.
É lógico que aqui também podemos incorporar um outro tipo de produção literária, mais precisamente aquilo que os críticos cognominam de literatura cinzenta, isto é, autores que produzem uma textualidade, seja ela poética, ficcional, ensaística à margem da legalidade. No caso famalicense, surgiu aqui há uns anos Filipe Oliveira com uma selecção poética intituladaHá 20 Anos que Respironuma edição fotocopiada. Caso único e, no fundo, exemplar, cuja temática construtiva se relaciona indiscutivelmente com a de Fernando Assis Pacheco. Neste âmbito nada melhor do que aqui evocarmos Henrique Barreto Nunes (1989), para o qual seria benéfico a instituição de um depósito legal local.
No que diz respeito à imprensa e o que podemos salientar para já no seu relacionamento com a literatura, nada mais do que aqui trazer à luz Rodrigues e da situação paradigmática de pretender implantar um quarto suporte, o jornalismo, perante os já existentes canonicamente: se vivemos os paradigmas do autor, do texto e do leitor, nada mais configurador do que a implantação do suporte jornalístico, a partir do momento que a reela-bora a combinação da leitura com a crítica (1998: 27). Paralelamente, os recentes estudos de Daniel Pires vêm-nos mostrar a importância cada vez mais inquestionável da imprensa e da sua intervenção no âmbito cultural.
Diz-nos Pires a propósito não só das revistas literárias, como também da imprensa o seguinte:
A sua importância é indelével, pois são uma fonte inesgotável de informação factual de uma determinada época:
veiculam-nos a mundividência dos colaboradores, a linha programática dos editores, a recepção e a psicologia dos leito-res, as técnicas da impressão utilizadas, os valores estéticos dos ilustradoleito-res, o imaginário poético e ficcional prevalecen-tes. (PIRES, 1997: 9)
Acima de tudo, na continuidade de Pires, permitem-nos reconstruir mentalidades, o pulsar do tecido social, as modas perfilhadas, os factos que verdadeiramente fazem mover a roda da história (1997: 10)
Desta forma, nada melhor do que a reconstrução de mentalidades se usarmos o campo da imprensa perante a literatura como “ferramenta mental”, grata expressão esta de Lucien Febvre, ou uma outra de
March Bloch como uma “atmosfera mental” (Cf. DUBY, 1999: 43). Daqui que tivéssemos pensado como subtítulo para este trabalho o dePúblicas Intimidades, a partir do momento que nos surge na imprensa várias poéticas mentais.
i) umapoética geográfica, na medida em que evidencia o regionalismo, caso exemplificativo o Minho.
ii) umapoética dos desejos, porque exalta as exaltações amorosas e as paixões de momento, tendo o elemento da saudade como pano de fundo, não numa perspectiva fenomenológica, mas temporal.
iii) umapoética litúrgica, a qual evoca as manifestações festivas religiosas, caso do Natal e da Páscoa.
iv) umapoética etnográfica, ressalvando aqui as tradições, os usos e os costumes de um determinado meio social.
v) umapoética familiar, evidencia as individualidades familiares, na morte de um ente querido, ou então os dias festivos, datas de aniversário ou de casamento.
vi) uma poética patriótica, quando se comemora alguma data histórica, nomeadamente o 1.º de Dezembro, a evocação de alguma personalidade (por exemplo Gago Coutinho, Sacadura Cabral,
vi) uma poética patriótica, quando se comemora alguma data histórica, nomeadamente o 1.º de Dezembro, a evocação de alguma personalidade (por exemplo Gago Coutinho, Sacadura Cabral,