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4. ANÁLISE INSTITUCIONAL DO DISCURSO

5.1 SENTIDOS ATRIBUÍDOS AO PROGRAMA DE APRENDIZAGEM

5.1.1 Tô cansado de não fazer nada

Ao dizerem de suas motivações para a entrada no programa, “querer trabalhar” apresentou-se um enunciado frequente no discurso dos jovens entrevistados:

Ah... eu queria trabalhar, aí eu peguei e me informei na Cidadania [...]. (Larissa)

Eu falei: “mãe, eu quero trabalhar, tô cansado de não fazer nada, quero fazer alguma coisa”. (Ivo)

[...] porque desde os 15 anos, não, desde os 14 anos eu queria trabalhar já. (Olívia)

Aí eu queria trabalhar, queria trabalhar, queria trabalhar. (Aline)

Na fala de Ivo, “trabalhar” sugere a possibilidade de preencher o tempo ocioso, pois não fazer nada cansa e isso parece incômodo ao jovem. Ao incluir a mãe na cena enunciativa, Ivo indica a presença da família na constituição do seu discurso. Como filho da classe trabalhadora, que vive do e para o trabalho, o discurso deste jovem legitima a importância de se trabalhar desde cedo. Só estudar é como “não fazer nada”. Nos discursos, a atividade de estudar não parece tão valorizada quanto à atividade de trabalhar, e não ocupa suficientemente o tempo dos jovens. No trecho da entrevista com a jovem Leila, isso fica mais evidente:

Entrevistadora: Leila, como você entrou no CEMADE? Como você veio parar aqui?

Leila: Uma amiga fez e falou pra minha mãe e daí minha mãe queria tanto me colocar pra trabalhar que fez o mesmo, foi lá me inscreveu no CRAS.

Entrevistadora: E por que sua mãe queria tanto te colocar pra trabalhar?

Leila: Porque eu ficava em casa, dormindo, sem fazer nada. E isso pra ela não era bom, né.

Entrevistadora: E prá você?

Leila: Também não. Eu não podia fazer nada, porque eu não podia sair. Tinha que ficar dentro de casa e não tinha dinheiro, porque ela não me dava. E daí era ruim.

Nesse extrato, a inserção de Leila no programa de aprendizagem foi uma iniciativa de sua mãe, que segundo a aprendiz, não achava bom o fato de a filha ficar “sem fazer nada”. Nota-se que, mais uma vez, a instituição familiar representada pela mãe se faz presente no discurso. Diferente de Ivo, nesse caso, a demanda por trabalhar veio da mãe e a filha corroborou posteriormente. Leila reconhece que ficar dentro de casa, dormindo, não era bom para ela mesma, pois tais circunstâncias a impediam de fazer certas coisas. Ficar “sem fazer nada” parece não se referir apenas à ter tempo ocioso, mas à uma limitação, ao não ter dinheiro.

Guimarães e Romanelli (2002) em sua pesquisa com aprendizes também perceberam que o ingresso dos jovens no mercado de trabalho é incentivado pelas famílias. Segundo os autores, é comum em famílias de classes populares que os genitores comecem a cobrar dos filhos, que após o ensino fundamental, iniciem a atividade laboral a fim de arcarem com seus próprios gastos e, por vezes, auxiliarem nas despesas domésticas. A inserção no trabalho por meio do programa de aprendizagem apresentou-se, em alguns casos, ser uma iniciativa do jovem, movida principalmente pelo significado positivo atribuído ao trabalho, ou seja, aquilo que se opõe ao ócio. Diante dos dados desta pesquisa, entretanto, nota-se que não se trata apenas de uma preocupação com “ocupar o tempo”, mas com a maneira de fazer isso, que pareceu relacionada diretamente ao ter dinheiro.

Sobre a inserção no programa, o jovem Marcos diz:

Pô, não via a hora de começar a trabalhar prá já ir acertando a minha vida, começar a criar responsabilidade e começar a crescer o mais rápido possível. Porque a pessoa que fica parada ela não tem responsabilidade com nada praticamente, só vive nas costas do pai e da mãe. Eu queria demais trabalhar porque eu já queria ingressar. Pra chegar mais tarde, eu já estar um profissional bem treinado, capacitado pra área. (Marcos)

A pessoa que não tem um trabalho, “fica parada”, “só vive nas costas do pai e

da mãe”. Na montagem de tal cena enunciativa, o jovem se posiciona criticamente

em relação às pessoas dependentes dos pais, e ao mesmo tempo, legitima ideias naturalizadas de que quem não trabalha é irresponsável. Para ele, é com o trabalho que se pode crescer mais rápido, criar independência dos pais e responsabilidade. Marcos repete elementos do discurso contemporâneo, colocando o trabalho como aspecto central da vida do sujeito, além de apontar para a necessidade de se estar sempre correndo contra o tempo. Quando diz: “o mais rápido possível”, Marcos indica certa urgência em ingressar no mercado de trabalho. É como se ele se sentisse de fora e quisesse, o quanto antes, sentir-se inserido, garantindo seu lugar, já que este lhe parece difícil.

No discurso de Marcos, a possibilidade de trabalhar oferecida pelo programa de aprendizagem aparece como uma maneira de não errar usando mal o tempo e é reconhecida como forma de “ir acertando” a vida de uma pessoa. O jovem sugere

que no programa ele pode ser “treinado” para mais tarde ter condições de competir por melhores postos de trabalho.

Os termos “treinado” e “capacitado”, empregados por Marcos, legitimam objetivos de algumas políticas de educação profissional no Brasil que formam jovens no e para o trabalho. Desenhadas segundo o discurso neoliberal, tais políticas insinuam que o sucesso ou fracasso são dependentes apenas do esforço pessoal do indivíduo, por isso a necessidade de constante capacitação. Na análise de Frigotto (2004), este discurso desvia a responsabilidade do social para o individual, recaindo sobre os jovens o dever de adquirirem competências cognitivas, técnicas, de gestão e atitudes, de modo a se tornarem competitivos e empregáveis.

Ao serem perguntados sobre o porquê de se “querer trabalhar”, os jovens disseram:

Porque assim, eu acho que todo mundo diz isso, mas é que é bem verdade. Pra ter liberdade de tipo, ter o próprio dinheiro. Essas coisas assim, que eu acho que todo mundo diz isso, né? (Marcelo) Porque eu queria ter meu dinheiro, ter minhas coisas... sei lá. Pra poder sair, passear, igual a minha irmã fazia. Porque ela é mais velha. Daí ela tinha, eu queria fazer igual. (Aline)

Pra ganhar meu próprio dinheiro, não depender dos pais. (Daniel)

Os discursos acima sugerem que a motivação para o trabalho está principalmente em “ter” ou “ganhar” o próprio dinheiro. Ter dinheiro, por sua vez, é enunciado como poder, forma de obter maior liberdade, independência dos pais e meio de satisfazer desejos que não seriam possíveis de outra forma. Esta condição parece muita cara aos jovens contemporâneos, que se constituem nos e pelos discursos da sociedade de consumo. Trabalhar seria, de certo modo, um assujeitamento a esse discurso, que serve às estratégias de poder capitalista.

Em estudos como os de Oliveira e Robazzi (2001) e Guimarães e Romanelli, (2002) observou-se que os jovens tendem a buscar o trabalho como forma de consumir o que os pais não têm condições de lhes dar. Ao tratar desse tema com aprendizes, Borges e Coutinho (2010) perceberam que uma vez que alcançam certa autonomia financeira, os jovens fazem frequentes alusões ao consumo, reafirmando hábitos produzidos na sociedade. O discurso destas autoras vai ao encontro dos

dados desta pesquisa, pois segundo elas, o sentido atribuído ao trabalho parece estar associado a ter um salário em prejuízo ao ser trabalhador.