• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2. OBJETIVOS, CORPUS E METODOLOGIA

2.4 T ESTANDO AS HIPÓTESES

A metodologia adotada neste trabalho parte de um raciocínio científico simples. Estabeleceremos uma hipótese inicial testável, e a confrontaremos com dados dos estudos linguísticos que a corroboram ou falseiam. Dissemos no início deste capítulo que esta hipótese seria de que os conceitos de anáfora, dêixis e correferência adotados nestes estudos variam de acordo com os pressupostos teóricos assumidos neles. Com base em nossa categorização proposta na seção 2.1, vamos refinar nossa hipótese inicial de maneira que ela se torne mais forte e empiricamente testável. Elas serão, na verdade, divididas em três:

CAP 2 - OBJETIVOS, CORPUS E METODOLOGIA 42

HIPÓTESE INICIAL 1 (QUANTO À NATUREZA DOS OBJETOS REFERIDOS): Os estudos linguísticos que se enquadram na categoria de assunção teórica objetos E adotam o tipo de anáfora A→C, enquanto que os estudos linguísticos que se enquadram na categoria objetos I adotam o tipo de anáfora A ↛ C.

HIPÓTESE INICIAL 2(QUANTO AO DOMÍNIO DA ANÁFORA): Os estudos linguísticos que se enquadram na categoria de assunção teórica nível da sentença adotam o tipo de anáfora A→C, enquanto que os estudos linguísticos que se enquadram na categoria nível do texto adotam o tipo de anáfora A ↛ C.

HIPÓTESE INICIAL 3 (COMPARAÇÃO ENTRE DÊIXIS E ANÁFORA): Os estudos linguísticos que se enquadram na categoria de assunção teórica nível da sentença adotam o tipo de anáfora A⌵D, enquanto que os estudos linguísticos que se enquadram na categoria nível do texto adotam o tipo de anáfora A≠D.

Os motivos que nos levaram a escolher estas associações entre tipos de anáfora e categorias de assunções teóricas são raciocínios indutivos baseados na experiência com estudos linguísticos de diferentes áreas.

A primeira hipótese pretende capturar a distinção ontológica entre estudos formalistas e estudos textuais, como já discutido na seção 1.4.2. A segunda, mais especificamente, pretende testar como estas escolhas teóricas são feitas pelos estudos de sintaxe, que quase sempre se restringem à descrição de mecanismos intrassentenciais. A terceira hipótese também quer mostrar como os estudos sintáticos estritamente formalistas diferem dos outros, e como suas escolhas metodológicas podem fazer com que o conceito de dêixis possa perder importância.

CAP 2 - OBJETIVOS, CORPUS E METODOLOGIA 43

2.4.1 As tabelas comparativas

O quadro abaixo é um exemplo que mostra como os estudos podem ser divididos em distribuição complementar entre as categorias de assunções teóricas, como as que adotam objetos E versus aqueles que adotam objetos I. De acordo com nossa hipótese inicial, uma categoria de assunção teórica deve apresentar somente um tipo de anáfora. Basta que um tipo de anáfora ocorra em dois tipos de categorias opostas no quadro (ou seja, em duas colunas diferentes) para que a hipótese inicial seja falseada.

TABELA 1 - TESTE DA HIPÓTESE INICIAL 1 (EXEMPLO) Natureza dos objetos pressuposta pela

teoria

E I

Estudo 1 tipo AC -

Estudo 2 tipo AC -

Estudo 3 - tipo A C

Estudo 4 - tipo AC

Em outras palavras, pela tabela acima (tomada como exemplo), é de se esperar que, pela nossa hipótese inicial 1, num estudo de linguística no qual os objetos referidos são do tipo I, o conceito de anáfora adotado seja do tipo A ↛ C (anáfora que não pressupõe correferência). Mas se encontrarmos algum estudo (como o Estudo 4) que adote este tipo de ontologia, mas o conceito de anáfora usado for do tipo que não pressupõe correferência (tipo →C), temos aí um dado que falseia nossa hipótese.

dado falseador

CAP 2 - OBJETIVOS, CORPUS E METODOLOGIA 44

É importante notar que nossa metodologia se baseia em um falseacionismo que se aplica estritamente ao nível empírico, ou seja, considera que uma única observação como um tipo de anáfora adotado em algum estudo refuta a afirmação contida na hipótese inicial.3

Isto não impede, porém, que generalizações possam ser feitas quando um grande número de dados corroborarem a afirmação genérica contida na hipótese.

Por exemplo, no caso de uns poucos dados refutarem a hipótese inicial 1, mas a grande maioria a corroborar, a afirmação de que “o tipo de anáfora adotado em estudos que assumem objetos I geralmente é do tipo A ↛ C” ainda se mantém como uma generalização válida, indicando uma influência significativa deste tipo de assunção sobre a escolha do conceito de anáfora.

Esta aparente contradição lógica pode ser explicada pelo fato de que nosso falseacionismo se aplica sobre as ocorrências (tokens), e não sobre as generalizações (types). Vejamos os exemplos:

(11) Toda zebra tem listras.

(12) Zebra tem listras.

A afirmação (11) pode ser facilmente refutada por um dado empírico simples: a existência de uma zebra sem listras. Já (12) é uma generalização sobre a espécie zebra, o que não faz com que a afirmação seja necessariamente negada pela existência de uma exceção qualquer. O importante, para nós, é que as afirmações sejam de alguma forma testáveis, e (11) nos parece, pelo seu maior grau

3 Pode soar estranho afirmar que categorias de assunções teóricas e tipos de anáfora estabelecidos indutivamente possam ser chamados de observações empíricas, mas este é o espírito: estamos aplicando uma metodologia tipicamente observacional para responder questões de caráter metateórico, ou seja, nosso objeto teórico é constituído de outros objetos teóricos, e nossos dados são conceitos, e não fenômenos. Não esperamos, com isto, obter nenhuma explicação direta sobre o fenômeno anafórico, mas sim, sobre as maneiras como ele é tratado teoricamente.

CAP 2 - OBJETIVOS, CORPUS E METODOLOGIA 45

de testabilidade, um tipo de afirmação que seria uma boa candidata a hipótese inicial de uma análise científica. No entanto, mesmo que (11) não se mostre verdadeira devido a uma ou outra observação empírica, alguma generalização válida como (12) ainda pode ser extraída da análise.

Documentos relacionados