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T HORSTEIN V EBLEN

No documento Sandroni (páginas 194-200)

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ento e vinte e cinco anos passaram desde que The Wealth of Nations foi editado, em 1776, e nesse espaço de tempo parecia que os grandes economistas não deixaram sequer um aspecto do mundo sem ser examinado: sua magnificência ou miséria, sua in-genuidade ou seus tons às vezes sinistros, suas conquistas gran-diosas de tecnologia ou suas deficiências em valores humanos. No entanto, este mundo de muitos lados, com suas dúzias de inter-pretações diferentes, tinha um fator em comum. Era europeu. Pois, apesar de todas as mudanças no aspecto social, ainda era o Velho Mundo, e como tal insistia em uma pequena quantia de formalismo.

Assim não foi sem significação que quando Dick Arkwright, o aprendiz de barbeiro, fez sua fortuna com teares, metamorfo-seou-se em sir Richard; a ameaça ao reino tradicional da nobreza inglesa foi resolvida induzindo estes novos-ricos entrar na frater-nidade do bom sangue e das boas maneiras. Os novos-ricos, é ver-dade, trouxeram com eles uma coleção de atitudes da classe média e até mesmo uma certa tensão de sentimentos anti-aristocráticos, mas também trouxeram o conhecimento de que havia um extrato social mais alto do que aquele que era possível conseguir apenas com dinheiro. Como incontáveis comédias de costumes testemu-nham, havia boa diferença entre o barão da cerveja, com todos seus milhões e o brasão comprado, e o empobrecido mas hereditário barão da casa ao lado. O bem-sucedido ganhador de dinheiro eu-ropeu podia ser tão rico quanto Creso, mas o sabor de sua riqueza

era um tanto diminuído pelo reconhecimento de que este era apenas um — e de forma alguma o último — degrau da escada social.

Tudo isto era totalmente diferente na América. Não apenas este país fora fundado por homens profundamente opostos aos que tinham graduações de nome e nascimento, como também as con-quistas individuais e o espírito de independência estavam gravados fundo no folclore nacional. Na América, um homem era tão bom se provasse sê-lo, e seu sucesso não precisava da validação de um genealogista. Assim, enquanto não havia muita diferença entre as sombrias e abafadas fábricas da Nova Inglaterra e as tristes, es-curas, fábricas da velha Inglaterra, quando se observavam as ma-neiras e comportamento de seus donos, a semelhança diminuía.

Enquanto o capitalista europeu ainda se encontrava sob a sombra de um passado feudal, o ganhador de dinheiro americano aquecia-se ao sol — não havia inibições na busca pelo poder, nem no exuberante aproveitar das riquezas. Na borbulhante última metade do século dezenove, o dinheiro era o diferencial para o reconhecimento social nos Estados Unidos e, uma vez tendo adquirido o passaporte de uma riqueza adequada, o milionário americano não precisava de nenhum outro visto para sua entrada nas classes mais altas.

Ali o jogo de ganhar dinheiro era mais duro e menos cava-lheiresco do que a luta da concorrência do outro lado do oceano.

As apostas eram mais altas e as chances de sucesso maiores. De acordo com isso, a espírito esportivo era um tanto menor.

Na década de 1860, por exemplo, Cornelius Vanderbilt, um fabuloso gênio da marinha mercante e do comércio, descobriu que seus próprios associados nos negócios estavam ameaçando seus in-teresses — uma ocorrência que não era muito incomum. Então, escreveu-lhes uma carta:

Senhores:

Decidiram arruinar-me. Não vou processá-los, pois a Justiça é muito demorada. Vou arruiná-los.

Sinceramente, Cornelius Van Derbilt1 E assim fez. “Por que iria me preocupar com as leis? Eu não tenho o poder?”,2 perguntava o comodoro. Mais tarde J. Pierpont Morgan expressaria quase o mesmo sentimento, embora de um forma um tanto mais polida. Quando seu associado, o juiz Gary,

numa rara ocasião arriscou-se a adverti-lo sobre possíveis proble-mas legais, Morgan explodiu: “Bem, eu não quero um advogado para me dizer o que não posso fazer. Ele é pago para me dizer de que modo fazer o que preciso fazer”.

Não foi somente na negligência aos refinados processos da lei que os americanos sobrepujaram seus contemporâneos europeus;

quando lutavam, eles substituíam o florete do cavalheiro pelos pu-nhos do desordeiro. Um bom exemplo foi a briga pelo controle da estrada de ferro Albany-Susquehanna, uma ligação vital em um sistema que foi disputada por Jim Fisk e o aristocrático Morgan.

Morgan mantinha em suas mãos um dos extremos da linha, e o outro terminal era a fortaleza de Fisk. A controvérsia foi resolvida com cada lado colocando uma locomotiva em seu extremo da linha e fazendo as duas máquinas, como se fossem brinquedos gigantes-cos, correrem uma contra a outra. E mesmo depois disso o perdedor não cedeu: retirou-se o melhor que pôde, arrancando os trilhos e destruindo os dormentes da sua parte da estrada de ferro ao fazê-lo.

Neste corpo-a-corpo pela supremacia industrial, nenhuma tré-gua foi pedida ou concedida. Até mesmo a dinamite teve sua uti-lidade na disputa: chegou a ser empregada para eliminar um opo-nente do grupo Standard Oil que se mostrou teimoso demais, en-quanto meios menos violentos, tais como o seqüestro, eram notáveis mais pela engenhosidade do que pela imoralidade. Em 1881, quando um grande temporal derrubou as linhas do telégrafo em Nova York, Jay Gould, o implacável mestre do mercado de dinheiro, foi forçado a mandar suas ordens para o agente através de um mensageiro.

Seus inimigos perceberam a chance e agiram: seqüestraram o rapaz, trocaram-no por outro com mais ou menos o mesmo aspecto e por várias semanas Gold ficou abatido por ver que seus adversários, de algum modo, sabiam de seus movimentos antecipadamente.

Não é preciso dizer que os piratas que obrigavam um ao outro a saltar pela borda do navio dificilmente poderiam tratar o público com reverência. Enganar e sugar os investidores era considerado algo normal e o mercado de ações era visto como uma espécie de cassino particular para os ricos, no qual o público fazia as apostas e os titãs financeiros ajeitavam a roleta. Quanto ao que iria acon-tecer com o rumo das apostas nestas condições —, bem, isso era problema do público, uma atitude que poderia ser menos condenável se estes mesmos titãs não tivessem feito tudo ao seu alcance para convencer o público a investir suas economias em ações.

O público, é preciso lembrar, respondeu prontamente; quando

circulavam notícias de que Gould ou Rockefeller compravam ações de ferrovias, de cervejarias ou de fundições, o público corria na esperança de ganhar alguma coisa. O fato de que isso acontecia raramente acontecia nunca afetou sua fé sem limites, e esta fé tornou possível assombrosa manipulação financeira. Um exemplo de tirar o fôlego foi a compra da Anaconda Copper Company por Henry Rogers e William Rockefeller3 sem desembolsar um único dólar. E assim procederam do seguinte modo:

1. Rogers e Rockefeller deram um cheque de US$ 39 milhões a Marcus Daly pelas propriedades da Anaconda, com a condição de que iria depositá-lo no National City Bank e que não mexeria no dinheiro por um período específico.

2. Criaram-se então uma organização que existia apenas no papel chamada Amalgamated Copper Company, com seus funcio-nários fingindo ser os proprietários, e fizeram a Amalgamated com-prar a Anaconda — não com dinheiro, mas com US$ 75 milhões em ações da Amalgamated, que foram convenientemente impressas para este propósito.

3. Rogers e Rockefeller tomaram emprestado do National City Bank US$ 39 milhões para cobrir o cheque que tinham dado a Marcus Daly, e como garantia deste empréstimo usaram os US$

75 milhões em ações da Amalgamated.

4. Então venderam as ações da Amalgamated no mercado (tendo primeiro informado seus agentes sobre elas) por US$ 75 milhões.

5. Com o ganho, pagaram o empréstimo de US$ 39 milhões do National City Bank, e embolsaram US$ 36 milhões como lucro na transação.

Claro que essa transação não foi honesta. A. B. Stickney4, presidente da ferrovia Chicago, St. Paul e Kansas, declarou que como cavalheiro iria apoiar seus irmãos presidentes de ferrovias em qualquer lugar, mas que jamais deixaria de descuidar de seu relógio na presença deles. Havia motivos para seu cinismo. Em uma reunião em que os cabeças das ferrovias decidiram por um escalonamento de preços comuns de carga, o que livraria as ferro-vias de seu constante jogo suicida de baixar os preços umas em relação às outras, um dos presidentes saiu discretamente durante um intervalo para telegrafar a tabela de preços para seu escritório de forma que sua linha fosse a primeira a usá-la e assim prejudicaria as demais. Por acaso seu telegrama foi interceptado, e quando a

reunião recomeçou eles foram confrontados com a prova positiva de que é impossível haver honra mesmo entre ladrões.

Foi uma era para a qual estamos acostumados a olhar com um rubor. Certamente foi grotesca em sua pompa (em algumas festas os cigarros eram enrolados em notas de cem dólares pela emoção de fumar a riqueza), e quase medieval em seu espírito guerreiro. Mas não vamos destruir o espírito dos tempos. Enquanto os lordes da riqueza cavalgavam de forma rude sobre o público, eles também o faziam uns sobre os outros, e seu comportamento ousado e sem prin-cípios era menos maldade calculada ou o rompimento consciente dos ideais cristãos que uma energia não controlada que não conhecia barreiras de consciência ou boa utilidade. “Não devo nada ao público,”5 disse Morgan certa vez, e este era exatamente um credo de sua filosofia e não um desafio do mundo. Negócios, nesta era dos barões, era um negócio brutal, e o preço da moralidade era a derrota.

E o que os economistas fizeram disso tudo?

Não muito. Os profissionais americanos tinham seguido os passos de seus professores europeus, e forçaram o mundo americano em um molde que não fora feito para ele. O fantástico jogo monetário de cortar gargantas foi descrito como o processo de “parcimônia e acumulação”; a fraude era “empreendimento”; as douradas extra-vagâncias da era como “consumo”. Realmente, o mundo fora tão esfregado que ficara irreconhecível. Uma pessoa podia ler os textos importantes da época, tais como Distribution of Wealth, de John Bates Clark, e nunca saber que a América era uma terra de mi-lionários; alguém poderia examinar Economics, de F. H. Taussig, e nunca achar uma fraude no mercado de ações. Se alguém lesse os artigos do professor Laughlin no Atlantic Monthly, aprenderia que “sacrifício, empenho e habilidade” eram responsáveis pelas grandes fortunas, e nunca saberia que cada homem tinha o direito

“de aproveitar os produtos de seu empenho excluindo todos os de-mais” — e presumivelmente isto incluía o direito de comprar par-lamentares assim como diamantes.

A economia oficial, em uma palavra, era apologética e sem percepção; voltava seus olhos dos excessos e exuberância que eram a essência da cena americana e pintavam no lugar um estereótipo de linhas formais e cores sem brilho. Enquanto não lhe faltasse honestidade, coragem ou competência intelectual, sofria do que Malthus uma vez chamara de “o viés insensível da situação e do interesse” Os economistas americanos estavam por demais presos

na corrente destes tempos entusiásticos para afastarem-se de seu assunto e olhá-lo fria e claramente a distância.

O que faltava era o olhar de um estranho — alguém como de Tocqueville ou Bryce, que pudesse ver a cena com a clareza e perspectiva de quem é estranho a ela. Na pessoa de Thorstein Bunde Veblen — um americano por nascimento mas cidadão de parte alguma por natureza —, tal olhar foi encontrado.

Um homem muito estranho, este Thorstein Veblen.6 Parecia um camponês, um fazendeiro norueguês. Uma fotografia mostra seu cabelo, fraco e plano, repartido no meio da cabeça dando-lhe aspecto de gnomo e caindo em um vê invertido sobre a testa curta e inclinada. Olhos de camponês, astutos e especulativos, observam por trás de um nariz largo. Um bigode maltratado esconde a boca, e uma barba curta e rala envolve o queixo. Ele está vestido com um paletó grosso e amassado, e há um grande alfinete preso em sua roupa: prendendo o relógio. A foto não mostra dois outros al-finetes presos nas calças para segurar as meias, e nos dá apenas uma sugestão de um corpo magro, e um andar de passos largos, de caçador, sem ruídos.

O estranho aspecto ocultava uma personalidade ainda mais estranha. Aqueles olhos penetrantes podiam deixar ver uma acui-dade mental igualmente penetrante, e o exterior rústico poderia preparar o observador para uma certa qualidade rude de inquirição.

Mas não havia sinal externo do ponto central da vida de Veblen:

sua alienação da sociedade.

Alienação é geralmente um fenômeno dos doentes, e por nossos padrões Veblen poderia ter sido um neurótico. Pois tinha a qualidade de isolar-se de forma praticamente hermética. Passou pela vida como se tivesse vindo de outro mundo, e as coisas que pareciam tão naturais aos olhos de seus contemporâneos pareciam a ele pungentes, exóticas e curiosas como os rituais de uma sociedade selvagem é aos olhos de um antropólogo. Outros economistas — e isto inclui tanto Adam Smith quanto Karl Marx — não apenas estavam em sua sociedade, mas vinham dela; às vezes cheios de admiração pelo mundo ao seu redor e às vezes cheios de desespero e raiva pelo que viam. Mas não Thorstein Veblen. Ele manteve-se afastado da agitada, crescente e gregária co-munidade na qual vivia: sem envolvimento, sem raízes, remoto, dis-tante, desinteressado, um estranho.

Porque era um estranho, ele podia ser um não-conformista, mas não um radical. O mundo para Veblen era desconfortável e

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